4 clichês dos romances eróticos

Tirem as crianças da sala. O post de hoje tem como objetivo listar os maiores clichês eróticos encontrados em livros de romance. E eu prometo tentar não ficar vermelha enquanto escrevo.

Fonte: Tumblr - Reprodução

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Num movimento que começou após o lançamento de Crepúsculo e atingiu seu auge com a chegada de 50 Tons de Cinza, é fato que as cenas sensuais ganharam bastante espaço no mercado literário. Livros “hot”, como são chamados os romances cuja temática sexual é o mote principal do enredo, dominam as fanfics e crescem nas listas dos mais vendidos. Além disso, o tema parece ter sido absorvido por quase todos os gêneros: em maior ou menor grau, é possível encontrar traços de “50-tonificação” em romances históricos, ficção científica, épicos ou thrillers. A gente fica com a sensação de que o erotismo é o assunto literário do momento.

Mas não é bem assim. Cenas de sexo são abordadas nos livros desde que mundo é mundo. Aqui no Brasil, romances de banca como a famosa série Sabrina já eram vendidos pelos jornaleiros desde os anos 70. A Julia Quinn já publica suas histórias açucaradas desde 1995 e eu nem vou entrar no mérito de livros mais clássicos como Lolita (Nabokov) ou Memórias de Minhas Putas Tristes (Gabriel Garcia Márquez). O próprio George Martin não costuma economizar em suas obras. A sexualidade é um aspecto natural, e assim como todos os outros aspectos da vida humana, pode e deve ser representado na literatura em suas mais diversas formas.

Mas então o que está diferente?

Basicamente, o tema está muito mais em foco. Com a mudança de público alvo, onde os livros eróticos abandonaram o segmento adulto para dar espaço ao público adolescente, foi possível atingir um hype muito maior. Marketing, internet, fandoms, fanfics e adaptações cinematográficas milionárias terminaram de construir uma nova reputação para as histórias eróticas. Além disso, a temática segue como uma receita de bolo tão específica que faz tudo parecer apenas mais do mesmo, criando a sensação de que o mercado sofre de uma overdose de algemas e lingerie preta. O formato criado por autoras como Stephenie Meyer e E L James tornou-se um algoritmo, sendo replicado de maneira incansável. É o que estou chamando de “50-tonificação”. Não estamos tendo mais histórias eróticas. Elas apenas estão se tornando incrivelmente parecidas, vendendo como nunca e fazendo a cabeça de milhares de jovens.

Mas até que ponto seguir uma receita de bolo vale a pena? Entendo que estes clichês são estratégias que funcionam comercialmente, mesmo que eu não concorde com eles. Não se pode negar o número de vendas de romances eróticos que incluem cada um dos tópicos a seguir. Preciso até admitir que O Protetorado da Sombrinha, uma série da qual sou fã, contém muitas características de 50-tonificação. No entanto, ficaria feliz em ver uma obra que abordasse as coisas por um viés diferente, mais próximo da realidade ou pelo menos mais inovador. Ainda mais quando estamos falando para um público alvo tão jovem: a receita de bolo está se tornando via de regra para adolescentes, mas é algo que passa longe da realidade e, muitas vezes, do saudável.   

Se você também pensa assim ou é um escritor erótico que pretende fugir de clichês (por favor, seja essa pessoa), segura na minha mão que nós vamos começar.

1) A cueca box

Eu não sei de onde isso surgiu, mas devo estar mesmo por fora do mundo da moda. Se você tem um mocinho e esse mocinho ficará sem roupa em algum momento do livro, pode ter certeza de que ele estará usando uma cueca box.

Esse ponto nem seria tão relevante se não chegasse ao extremo de atrapalhar a ambientação da história, aparecendo em cenários altamente improváveis. Já vi distopias onde os personagens mal tinham o que comer e viviam de farrapos, mas que usavam cuecas box. Já vi enredos futuristas, onde somos capazes de viajar no tempo e pulverizar planetas, mas ainda não inventamos nenhuma peça de roupa para substituir a maldita cueca. Alienígenas? Vikings? Piratas? Abomináveis Homens das Neves? Todos de cueca box.

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Desenvolvi até uma percepção (baseada unicamente nas minhas vivências literárias) de que se o livro foca na sexualidade dos protagonistas com cenas explícitas, a tal cueca será branca. Se a história foca em romance açucarado com juras de amor eterno, a cueca será preta. Convido vocês a teorizar o porque disso e a descobrir o que houve com o resto das cores…

Engraçado que a coisa também não muda muito para o lado feminino. As mocinhas sempre vão estar com calcinhas e sutiãs bonitos e combinados. Ninguém nunca estará menstruada ou usando aquela peça velhinha porém confortável, mesmo que esteja só indo até a padaria. E nunca, jamais, em hipótese alguma, estarão usando lingerie bege. Esta parece ser outra regra.

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2) Mocinho experiente e dominante, mocinha inexperiente e insegura

Este estereótipo está tão massacrado que nem preciso explicar muito. Você com certeza já sabe do que estou falando.

Enquanto o protagonista é lindo, rico, poderoso, sabe o que quer e já teve mulheres de mais cores do que o Martinho da Vila, a heroína sempre está insegura sobre sua própria imagem (embora a descrição dada pelo autor sugira que ela poderia ser uma angel da Victoria Secret). Além disso, ela deve ser sexualmente inexperiente, podendo escolher duas opções: ou ela é virgem ou teve péssimas experiências anteriores com homens abusivos que a tratavam como lixo.

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Por isso, caberá ao mocinho apresentá-la a este novo mundo de aventuras. Claro que isso acaba gerando um conflito. A mocinha sempre achará que não é digna de alguém com tantos atributos e ficará na defensiva com a extensa lista de ex-namoradas do rapaz.

No entanto, nossa heróina terá uma espécie de toque de Midas erótico, e mesmo sendo completamente inexperiente e sem auto-estima, será capaz de levar o mocinho à loucura e transformar a vida dele para sempre. Juro que não aguento mais ouvir essa conversa de “antes de você, eu não conhecia o amor de verdade”. É como se houvesse uma obrigação em colocar a mocinha em primeiro lugar, em uma categoria diferente de todas as outras mulheres. Dar a ela um diferencial que a torne inigualável para que ela não precise lidar com o fato de que mesmo o grande amor da sua vida pode ter tido outros relacionamentos. Como fazem os seres humanos normais.

Também é importante que o protagonista seja extremamente dominante e “protetor” (leia-se controlador e ciumento). Ele raramente acredita que sua parceira seja capaz de fazer algo sem se meter em confusão, e por isso a vigia de perto. Está sempre lá para salvá-la, inclusive dos ex namorados dela. Me vem logo à mente um trecho adorado pelos fãs de A Caminho da Sepultura, de Jeanine Frost, onde o mocinho diz algo como “Se você correr de mim, eu vou te perseguir. E eu vou te encontrar”. Olha, se você ouvir algo assim na sua vida, pegue suas coisas e saia correndo, tá bem?

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“Se você correr de mim, eu vou te perseguir.” Fonte: Tumblr – Reprodução

3) Calores, choques e erupções vulcânicas

Este não é bem um clichê, mas um estilo inteiro de escrita. Parece até um jogo: o autor precisa escrever tudo explicitamente a ponto do leitor imaginar a cena como num filme, mas não pode usar nenhuma palavra direta, apenas metáforas.

São tantas expressões poéticas que acabo achando tudo cômico. As pessoas sentem “estranhos calores no baixo ventre”, “ondas que se espalham como uma tormenta” e “erupções de prazer que borbulham e transbordam”. Ah, sem contar o clássico choque elétrico quando o par romântico cruza seus olhares pela primeira vez ou quando o mocinho segura a mão da mocinha. São como “mil agulhas que percorrem cada nervo, esquentando a pele”.  

Fonte: Giphy - Reprodução

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Nada contra o uso de metáforas, elas são bastante úteis para descrever emoções sem tornar a narrativa cansativa ou seca demais. Mas em excesso fazem o efeito oposto, criando uma confusão tão grande de estímulos sensoriais que o leitor fica se perguntando se o personagem está mesmo apaixonado ou sob efeito de drogas.

E por favor, parem de fazer as pessoas gritarem os nomes umas das outras sem parar durante o sexo. É terrível de ler e fica parecendo que os personagens sofrem de algum problema que os deixa iguais ao robozinho Wall-e. Também fico pensando o que aconteceria com personagens de nomes esquisitos. Algo como “Asdrúbal! Asdrúbal!”. Não funciona.

4) A primeira vez

O clichê número 4 é uma consequência do que falamos no número 2. A primeira vez do casal (que geralmente coincide com a primeira vez da heroína) precisa ser maravilhosa, inesquecível e derrubadora de forninhos para ambos. Isso precisa acontecer para reforçar a ideia de que a mocinha é diferente de todas as outras parceiras que a antecederam. Ela mudará para sempre o coração do protagonista naquela noite e este será o ponto alto do livro.

Provavelmente graças à bizarra lua de mel de Bella e Edward em terras brasileiras, convencionou-se que primeira vez deve ocorrer em um local incrível, preferencialmente paradisíaco. Como o mocinho é rico ou muito poderoso, não é preciso economizar na imaginação. Ah, é importante também ter um vinhozinho pra criar um clima.

O mocinho, que passou a vida toda sendo um libertino (adoro essa palavra) e o livro todo dando indiretas engraçadinhas, decidirá que com aquela mulher tudo vai ser diferente e se transformará num gentleman sem igual. Carregará o amor de sua vida até o quarto, ficará de cueca box preta (causando milhares de metáforas no corpo da mocinha) e finalmente despirá a protagonista dizendo “Fulana, você é perfeita”.

Fonte: TUmblr - Reprodução

Ah, não, lá vem “Fulana é perfeita” de novo… Fonte: TUmblr – Reprodução

Essa frase, ou pelo menos uma variação dela, precisa existir. É obrigatória, caso contrário a mocinha jamais aceitará de vez que não é a mais feia das criaturas e não vai se entregar de verdade à experiência. Só quando ela vê os olhinhos do mocinho queimando de desejo é que ocorre a misteriosa transformação: seguindo a trilha inversa à do protagonista, a mocinha sai de uma virgem pudica para ninfomaníaca assim que sua auto-estima dá sinais de vida.

Na primeira vez do casal não há dor, sangue ou anticoncepcionais e com certeza os dois chegarão ao orgasmo juntos numa experiência avassaladora (aquela parte da metáfora que transborda e borbulha).

Depois da primeira vez, qualquer lugar vira lugar e o casal acaba viciando um no outro (menstruação é lenda). A partir daqui vai da criatividade do autor, e apesar de ainda repetirem muitos clichês, as circunstâncias variam bastante.

Provavelmente esqueci de alguns pontos e detalhes cômicos, então recomendo fortemente a leitura dessa série de posts do Sunday Sun intitulada “50 tons de amiga, pare”, que além de perfeitamente crítica é pra lá de hilária. Tem também esta lista de 20 clichês em romance erótico que vale a pena dar uma olhada.

E pra concluir, já que este post foi tão carregado em críticas, vou fazer um elogio à melhor cena de sexo que já vi. Trata-se da parte introdutória do livro “Stardust – O Mistério da Estrela” de Neil Gaiman, que eu até havia comentado por aqui outro dia. É uma cena curta e simples, mas que possui uma carga emocional e poética gigantesca. Trabalho de mestre mesmo.

Ufa, acabou. Tá um calor por aqui, né?

Fonte: Buzzfeed - Reprodução

Fonte: Buzzfeed – Reprodução

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