Apesar de ocuparem costumeiramente os papéis secundários, cavalos são uma peça fundamental na composição de épicos e romances históricos. É difícil não sentir arrepios ao ler uma boa cena de cavalgada, ou não se emocionar quando o protagonista foge à galope noite adentro, a chuva e o vento rugindo ao longo do caminho.

De fato, cavalos adicionam uma enorme carga de dramaticidade à narrativa: são animais que definem o próprio sentido do épico. Muito além disso, podem também servir como ótimos recursos para explorar a psicologia humana de forma indireta, como uma extensão emocional dos personagens. É o caso, por exemplo, de Rocinante em Dom Quixote e das muitas montarias atribuídas a Mr. Darcy ao longo das releituras de Orgulho e Preconceito (você pode ver todas elas clicando aqui). Através da interação cavalo-cavaleiro, várias nuances podem ser reveladas sem que o narrador precise explicitá-las.

Fonte: frame do filme Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei - Reprodução

Fonte: frame do filme Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei – Reprodução

Não são poucos os autores que utilizam cavalos em suas obras. Até porque, os animais estão presentes em diversas lendas e mitologias. Li certa vez que apesar do cachorro ser considerado o melhor amigo do homem, é através das patas do cavalo que o ser humano escreveu sua história. Nas caçadas, nas guerras, na agricultura. E provavelmente nenhuma espécie não-humana possui tantos personagens célebres. De Sleipnir, o cavalo de oito patas montado por Odin até o pequeno pônei Bill, do Senhor dos Anéis, você provavelmente conseguirá lembrar de pelo menos uma dúzia de equinos famosos sem fazer muito esforço.

No entanto, assim como no caso dos personagens arqueiros, escrever sobre cavalos requer uma boa dose de conhecimento e vivência, e muitos escritores acabam derrapando no assunto.

Manter a coerência na descrição dos animais é fundamental para dar credibilidade à história, evitar clichês romantizados e criar um universo mais palpável para o leitor.

Pensando nisso, separei alguns dos pontos mais importantes que devem ser levados em conta na hora de inserir cavalos em um enredo. As informações apresentadas a seguir foram retiradas e adaptadas de três maravilhosos artigos, os quais recomendo fortemente a leitura:

– The Fantasy Writer’s Guide to Horses (de um dos meus blogs favoritos, o Ink and Quills)

Horse Misconceptions in Fantasy Writing

The Care and Feeding of Fictional Horses

Então, sem mais delongas, eis aqui algumas considerações que você deve ter sempre em mente:

1) Jargões são importantes

Se seu personagem convive diariamente com cavalos, é bem provável que ele saiba descrever sua montaria utilizando os jargões específicos da área. Palavras como “cernelha”, “garupa”, “jarrete” e “chanfro” devem estar presentes em seu vocabulário (veja a imagem abaixo).

Fonte: hipologando.wordpress.com - Reprodução

Fonte: hipologando.wordpress.com – Reprodução

Lembre também que, para cada padrão de cor e marcação do animal, existe uma nomenclatura adequada (veja aqui e aqui). Por isso, dizer apenas que um cavalo é “marrom com pintinhas brancas” é algo estranho para o personagem de um cavaleiro experiente.

2) Cavalos custam caro, escolha com sabedoria

Especialmente no período medieval, manter um cavalo era uma grande despesa. Por isso, muitos aldeões possuíam um único animal genérico, de constituição forte, que servia tanto para lidar com a terra e puxar carroças quanto como montaria. Outros aldeões se organizavam para adquirir um cavalo comunitário, dividido entre as famílias para as atividades agrícolas. Somente os mais afortunados podiam bancar indivíduos específicos, como os cavalos mais delgados capazes de atingir grandes velocidades.

É importante ter em mente que, devido ao alto investimento e manutenção, cavalos eram escolhidos principalmente por seu propósito. Mesmo que você seja um grande fã de determinada raça, é melhor escolher um cavalo que atenda as necessidades de seu personagem e que seja condizente com o universo ficcional. Cavaleiros tradicionais precisarão de um animal robusto e resistente, capaz de andar bastante carregando todo o peso da armadura. Mensageiros e combatentes sem armadura podem investir em espécimes mais leves. Pôneis Shetland se destacam no trabalho das minas de carvão, e o gigantesco Shire é um cavalo bem adaptado para corridas na neve. Portanto, é preciso pensar bem. Antes da Revolução Industrial, escolher um cavalo seria como escolher um veículo, uma ferramenta de trabalho.

3) Cavalos precisam de cuidados

Muitos cavalos da ficção parecem viver a base de fé e fotossíntese. São poucos os autores que planejam a jornada de seus cavaleiros de modo que os animais possam descansar e se alimentar corretamente.

Um cavalo em condições normais costuma comer três vezes ao dia, tendo acesso livre à pastagem e recebendo feno, aveia, farelo e outros complementos (a quantidade de alimento é diretamente proporcional ao trabalho realizado no dia pelo animal). Quando estão numa floresta, também consomem musgo, folhagens, arbustos e até alguns tipos de casca de árvore.

"E que tal um balde de cenouras?" Fonte: Tumblr - Reprodução

“E que tal um balde de cenouras?” Fonte: Tumblr – Reprodução

Cavalos em campanha eram alimentados de maneira comunitária numa espécie de “carroça de ração”, que acompanhava os exércitos transportando alimento. Cavaleiros solitários costumavam separar quantias específicas para comprar a comida da montaria ao longo do caminho.

Ainda mais fundamental que o alimento é o acesso à água. Cavalos bebem de 5 a 10 galões de água por dia e só conseguem sobreviver de 3 a 6 dias sem ela. Sabe aquela jornada épica sobre como um cavaleiro marchou por semanas a fio no deserto com seu cavalo? Pois é, pode esquecer…

Cavalos também precisam dormir, embora bem menos que nós humanos. Gastam um total de apenas 2 horas por dia com essa atividade, dividindo-a em várias sonecas de minutos de duração. Por serem presa de carnívoros de grande porte, a maior parte do tempo dormem em pé. No entanto, necessitam deitar por algumas horas a cada 4 ou 5 dias, para atingir um mínimo de sono REM, fundamental para a manutenção da saúde.

4) Comportamento realista

É bem comum encontrarmos histórias onde o cavalo realiza algum ato de extrema coragem em prol de seu dono, protegendo-o de predadores ou lançando-se em batalha para alcançar seu amado humano. Embora isso não seja totalmente impossível, é pelo menos bem improvável. Cavalos são presas, e sua tendência ao encarar o perigo é bater em retirada ou estancar, não se incomodando nem um pouco em demonstrar covardia.   

Claro que tudo depende do bom relacionamento entre o cavaleiro e a montaria. Garanhões podem, por exemplo, defender humanos das investidas de outros cavalos, caso considerem o dono como parte de seu rebanho. Mas é sempre bom não exagerar.

E falando em rebanho, cavalos são animais extremamente gregários. Eles sempre se alimentarão e dormirão com maior tranquilidade na presença de outros indivíduos. Caso não existam outros equinos no pasto, cavalos facilmente criam vínculos com cabras, ovelhas, vacas e até mesmo cães.  

Quanto ao temperamento, variam bastante. Cavalos possuem personalidade própria, com suas manias e resoluções. Normalmente, machos não castrados são mais impulsivos e agressivos, embora existam exceções.

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

 

Garanhões possuem duas motivações básicas: comida e acasalamento. E, adivinhe só, levar você nas costas não proporcionará a ele nenhuma destas coisas. Assim, montar um garanhão requer um cavaleiro com experiência e firmeza, capaz de demonstrar um comportamento de dominância. Até porque, machos não castrados são bastante sensíveis às mudanças hormonais das fêmeas, sendo distraídos com facilidade de suas tarefas.

Por isso, os animais castrados costumam ser a escolha ideal para os aldeões. Sendo mais sossegados, podem ser abrigados em estábulos comunitários sem criar confusão e são mais focados em suas atividades (embora ainda se distraiam por comida…).

Existe certo preconceito literário em utilizar indivíduos castrados como montaria para personagens nobres ou heróicos. Algo como se a virilidade e agressividade do cavalo fossem responsáveis por reforçar as qualidades do próprio protagonista. Um pensamento que, além de meio retrógrado, é também um clichê sem fundamentos. Castrados são montarias mais seguras e estáveis para caçadas, longas jornadas e trabalhos de campo.

As éguas também sofrem com os estigmas literários: são consideradas temperamentais por causa dos hormônios de seu ciclo reprodutivo. Porém, embora possam mesmo distrair-se de vez em quando com o sexo oposto, éguas não são mais geniosas do que os machos castrados. E assim como eles, também sabem se virar muito bem com suas tarefas. A diferença de força e energia entre um animal e outro depende muito mais de seu condicionamento físico e alimentação do que do gênero.   

Outra coisa que costumamos encontrar bastante nos livros são cavalos que vocalizam o tempo todo. Até nos filmes estamos sempre escutando o relincho e o bufar característico das montarias. No entanto, cavalos são animais silenciosos, comunicando-se muito mais através do corpo do que por meio de sons (novamente, o instinto da presa). Então, vale a pena assistir algum documentário ou passar um tempo na presença de cavalos reais para aprender a diferenciar as nuances de sua linguagem corporal. Os sons são emitidos apenas em circunstâncias incomuns, como para corrigir um jovem potro que tenha passado dos limites.

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

5) Machucados acontecem

Assim como todos os atletas de grande performance, cavalos não estão imunes a lesões. Os problemas nas canelas (“shin splints”, em inglês) são bastante corriqueiros nos animais que executam serviços mais pesados, como tracionar carroças por terrenos acidentados. Cavalos submetidos a longas viagens também apresentam um desgaste maior e os cascos sempre são uma preocupação a supervisionar. Lembrar que nem tudo são flores na vida de cavalaria é uma boa forma de acrescentar credibilidade à sua história.

Mas atenção, se alguns escritores pecam pelo excesso de otimismo, outros parecem esquecer completamente que cavalos possuem um sistema imunológico. Nem todas as lesões são definitivas ou motivo para o sacrifício do animal. Shin splints, por exemplo, são apenas “nós de estresse” que não apresentam perigo desde que não estejam localizadas nas articulações da perna.

E já que estamos falando tanto sobre instinto de presa, é importante lembrar: predadores dão preferência aos animais fracos e doentes. Por isso, a última coisa que um cavalo deseja é demonstrar que está com dor. Tirando algum ferimento extremo, o mais provável é que o animal tente disfarçar ao máximo seus sintomas, em silêncio. Cavaleiros experientes conseguem perceber as sutis alterações no modo de andar e se alimentar de sua montaria, caracterizando danos físicos.

Ah, só por curiosidade: cavalos não vomitam. Então, se o animal ingerir alguma substância tóxica, ele não conseguirá colocá-la para fora.  

6) Montando

A primeira grande falácia sobre os cavalos literários ocorre no momento de seu adestramento. É muito comum a visão romântica de que um personagem poderá levar meses de trabalho árduo para amansar um novo cavalo, e que depois disso, o animal aceitará apenas o contato de seu dono. Bonito, mas bem pouco realista.

O tempo máximo para acostumar um cavalo à sela costuma ser de duas semanas, e depois disso, o animal deverá aceitar múltiplos cavaleiros (embora possa criar um vínculo maior com algumas pessoas e detestar outras).

Os equipamentos utilizados e a maneira de montar se modificou pouco ao longo dos anos. Selas e cabrestos modernos ainda são bem similares aos seus antecessores, embora utilizem novos materiais. No entanto, é importante lembrar que nem todas as selas e cabrestos são iguais. As peças variam de acordo com a cultura (diferentes povos utilizam diferentes métodos e materiais) e finalidade. Selas voltadas para a guerra, por exemplo, são um pouco mais “profundas”, dando mais estabilidade ao cavaleiro. Vale a pena pesquisar de acordo com as necessidades da sua história.

Outro conceito errôneo é o de que durante a Idade Média, as mulheres costumavam montar de lado, quando na verdade o comum era que tanto homens quanto mulheres cavalgassem com uma perna de cada lado do animal. Selas laterais eram raras e utilizadas exclusivamente pelas famílias nobres.

Fonte: http://foxessa-foxhome.blogspot.com.br - Reprodução

Fonte: http://foxessa-foxhome.blogspot.com.br – Reprodução

A distância que um cavalo pode cobrir em um dia de viagem depende do peso e habilidade do cavaleiro, da saúde e idade do animal, clima e tipo de terreno e da quantidade de carga extra. Um cavalo pode atingir, em média, entre 20 e 40 milhas (algo entre 32 a 64 km) por dia, podendo caminhar um pouco mais em caso de necessidades extremas. No entanto, precisará de um dia ou mais para se recuperar do esforço extra. Lembre-se que cavalos não são motocicletas, eles realmente ficam cansados. Então, a menos que você esteja montando um Scadufax da vida, é bom planejar sua viagem com cuidado. 

Se seu personagem não possui o hábito de montar ou está cobrindo uma distância maior que de costume, ele ficará dolorido. A princípio, andar a cavalo parece uma atividade leve, mas mesmo num ritmo lento cavalgar demanda a utilização de diversos músculos. Você não fica simplesmente parado em cima da sela…

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

No geral, o segredo para inserir cavalos com sucesso numa narrativa é estar atento aos detalhes e às nuances do animal. Cavalos são seres magníficos, complexos e inteligentes, que precisam ser observados a fundo para um maior entendimento. É fundamental pesquisar bastante, evitar os estereótipos românticos e, se possível, passar algum tempo em contato com eles. A experiência com certeza lhe trará importantes reflexões.

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