A Canção dos Shenlongs e as Novelas que Deram Certo

O texto a seguir contém spoilers de: A Canção dos Shenlongs. Depois não diga que eu não te avisei…

Fonte: Tumblr – Reprodução

Boa parte da vida de blogueira literária pode ser resumida a gerenciar uma pilha exponencial de livros não lidos (não que eu esteja reclamando, claro). Admiro muito quem consegue ficar alinhadinho aos cronogramas, lendo um livro na semana de lançamento e tal, mas… esse não é o meu ritmo.

Fazia tempo que A Canção dos Shenlongs, obra de fantasia escrita pelo Diogo Andrade, habitava as profundezas do Kindle que carrego na bolsa. Aguardava por um momento oportuno, que finalmente veio: atolada com o mestrado, precisei de uma história rapidinha, que desse pra ler numa única sentada no domingo à noite. E foi assim que me deparei com Mu, protagonista e narrador desta aventura.

Em A Canção dos Shenlongs, acompanhamos o dia a dia de um grupo de monges no templo de Shanjin. O ritmo frenético que permeia toda a obra já pode ser percebido nos primeiros parágrafos: já na primeira cena temos a expulsão de Ruk, irmão de criação do protagonista. A cena de abertura é muito competente em prender o leitor, trazendo a dose certa de violência, carga emocional, world building e mistério pra te fazer querer saber mais. E como sou uma fiel adepta das bruxas do Giz, bastou conhecer a Velha Gilga para saber que o livro me agradaria.

Fonte: Acervo do autor – Reprodução

Aliás, a temática oriental foi bastante bem-vinda. Embora seja um mundo bastante explorado em outras mídias (e você com certeza vai captar referências aqui, incluindo uma inverossímil Joelma que luta usando as próprias tranças como chicote), não me recordo de outras obras de fantasia recentes que abordem o tema. Ao menos entre as que foram publicadas no Brasil.

O ambiente do templo de Shanjin e seus habitantes é fantástico. O templo consiste no único cenário apresentado na obra e ainda assim revela surpresas ou detalhes que nos fugiram a cada página. Não dá pra cansar. Diogo conseguiu construir bem a atmosfera de resiliência, disciplina e doutrinação do lugar. Algumas passagens me fizeram lembrar os filmes 47 Ronins e  outros clássicos de artes marciais. Pedacinhos de worldbuilding aqui e ali fizeram as vezes de tempero: a confecção dos bastões de luta, os rosários, a cerimônia de recebimento da yantra.

Por falar nisso, adorei as yantras. Eu já havia comentado em outra resenha o quanto tatuagens simbólicas me fascinam, ainda mais quando associadas a poder. Se tiver a ver com animais então, tô dentro. Vibrei em todos os trechos que as yantras eram mencionadas (inclusive, gostaria que o simbolismo de cada animal fosse melhor explorado. Por exemplo, quais características uniram Mu e Ruk ao totem do cavalo?).

Fonte: Art-Spire – Reprodução

Quanto à trama e aos personagens, é importante entender que A Canção dos Shenlongs precisa se adequar à própria proposta: não dá para desenvolver grandes plot twists ou dilemas pessoais em apenas 89 páginas. Então, para uma novela, considero que o livro entrega tudo o que promete. Seu enredo é bem direto, o desenrolar de uma aventura que passa de forma linear através dos olhos de Mu. As pontas soltas são amarradas e as que sobram são justificáveis o suficiente para não estragar o sentimento de completude (afinal, a obra funciona como prequel e precisa deixar alguns ganchinhos).

Os personagens são simples, mas cativantes. Abade Kame e Sarujin personificam estereótipos comuns do imaginário que temos em relação à monges. Mu e Ruk formam bons contrapontos, principalmente por terem a mesma origem. É sempre interessante acompanhar como diferentes personalidades podem se comportar numa mesma situação. Particularmente, gosto muito do Mu.

Se por um lado é fácil identificar as motivações por trás dos personagens (foi só o espadachim sugerir que o exército imperial atravessaria a Barreira para eu pensar em Ruk), por outro lado puxo novamente o argumento do tamanho da história: para uma novela, tudo foi muito bem amarrado e desenvolvido com complexidade suficiente.

Quanto à magia, adorei a opção pela sutileza. Todas as doutrinas orientais prezam por transformações que acontecem por dentro, por percepções aguçadas e energias. Então, uma magia que acontece quase por trás dos panos é um casamento perfeito. Embora o barco voador tenha me pego de surpresa ao final do livro, considero que a obra faz jus ao perfil de seus shenlongs. A magia de Shanjin é elegante. As cenas de batalha também são bem conduzidas, repletas de momentos rápidos e claros permeados por momentos mais lentos, de reflexão, como a cena do telhado.

Fonte: Pinterest – Reprodução

Apenas dois pontos me impediram de dar nota máxima à obra (isso sem contar a maldita trança chicote de Hei Shie ), ambos com relação à prosa do autor:

De vez em quando, noto que a narrativa afasta-se da persona de Mu e vira outra coisa. Algumas frases utilizadas não me parecem o modo como um shenlong criado a vida inteira no templo iria se expressar. Não sei, me pareceram frases informais demais e modernas demais para o contexto. Por exemplo, quando Mu afirma: “Todos estavam felizes e, para falar a verdade, eu não tinha nada contra ninguém ali, principalmente meu irmão, óbvio”. Seria o tipo de construção irônica que eu esperaria de um personagem adolescente, não de Mu. Mu é o cara que vai falar coisas mais profundas como: “Provavelmente ninguém as notaria, mesmo que olhassem diretamente para elas, mas nós sabíamos. E deixá-las ali seria perdurar a lembrança do ocorrido. Por isso, esfregávamos.”

O outro ponto, e aí é uma preferência pessoal minha mesmo, é que narrativas em primeira pessoa que fazem muito uso da palavra “eu” soam um tanto cacofônicas aos meus ouvidos. “Eu sabia que…”, “eu me virei…”, “eu senti…”. Não é que esteja errado, é bacana usar em algumas frases, mas acho elegante suprimir o uso do “eu” em demasia, para manter a fluidez do texto.

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Por fim, afastando-me um pouco da história em si, gostaria de comentar sobre seu formato. A Canção dos Shenlongs foi lançada como novela independente, originalmente apenas em formato digital, sendo vendida como ebook na Amazon.  E deu super certo. Inclusive, é interessante notar como novelas e noveletas, até então termos pouco utilizados no mercado brasileiro, estão conquistando espaço entre os autores independentes.

Vamos à definição: ao pé da letra, novelas e noveletas compreendem a faixa entre 15.000 e 40.000 palavras escritas. Mas tamanho não é a única coisa que importa. Novelas costumam apresentar tramas mais simples e  narrativas mais ágeis em relação aos romances. Além disso, é comum que apresentem poucos personagens. A ideia é entreter, entregando começo, meio e fim numa única sentada.

A partir de minhas próprias observações e de conversas com alguns autores (incluindo o Diogo Andrade),  é possível elencar alguns motivos que levaram o formato a ser tão bem recebido por aqui.

Pra começar, ela: a Amazon.

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Imagino que, ainda que inconscientemente, a Amazon tenha sido o estopim para o surgimento das novelas nacionais (não, não estou falando das novelas da Globo). Sua plataforma de auto-publicação tornou-se queridinha e aliada dos autores independentes, sendo de fácil uso, fácil gerenciamento e muito popular. Com uma divisão de lucros mais significativa, também possibilitou preços mais competitivos: é fácil encontrar bons ebooks independentes abaixo da faixa dos 10 reais. Editoras tradicionais dificilmente tem meios de barrar esse valor.

Porém, escrever livros profissionalmente custa caro, tanto em tempo quanto em dinheiro. Se você não é ilustrador, designer ou revisor, provavelmente precisará pagar por estes serviços. Uma boa capa, uma boa diagramação e uma boa revisão podem fazer toda a diferença na hora de conquistar seu lugarzinho ao sol (e nem estamos falando sobre a divulgação pós publicação…). Assim, nem todo autor pode dar-se ao luxo de investir num calhamaço ou publicar uma trilogia logo de cara. Porque, sejamos sinceros: publicar é sempre um risco. É um investimento que pode ou não se pagar ao longo do tempo. Novelas podem ser uma opção porque estão ali no meio do caminho.

Além disso, o que um autor independente necessita, ainda mais quando em início de carreira, é formar uma base leitora. É preciso ser lido e reconhecido. Ainda que não se fique rico no processo, uma obra que cause buzz na comunidade é um marco a ser comemorado. Daí temos outro problema: romances também demandarão investimento da parte do leitor.

Pense comigo: você, leitor padrão, só possui algumas horinhas do dia para ler, seja por causa do trabalho, escola, faculdade, academia ou qualquer outra coisa. Seu tempo, que é o bem mais valorizado deste século, é limitado. Aí você pode escolher entre passar as próximas semanas lendo o novo romance da sua autora favorita ou lendo o livro desconhecido de um autor com o qual você nunca teve experiência. Em qual você investiria?

Fonte: Tumblr – Reprodução

Sejamos sinceros: sabemos qual a resposta, certo? Ainda que eu faça o possível para prestigiar a literatura independente, o número de nacionais lidos por mim esse ano é bem menor do que o número de estrangeiros. Até porque, tem várias outras questões envolvidas no processo: marketing das editoras, muito mais gente indicando, envolvimento afetivo, hype na internet…

Então… o que fazer para conquistar o leitor? Como fazê-lo investir um pouquinho do seu tempo em nossa obra? Enviar uma amostra grátis? Ainda que seja uma opção válida e bem popular, a amostra grátis é uma estratégia de reforço negativo: você investe seu tempo em algo incompleto. Já uma novela entrega começo, meio e fim: uma experiência completa, rápida e sem complicações. Sem a expectativa de comprometimento posterior que vem junto da amostra grátis. Entende a psicologia da coisa?

Outro fator que pode fazer a balança pender para o lado da novela é quando a comparamos com o conto. Primeiro, os ritmos narrativos de um conto e de um romance são coisas bem diferentes. É possível ser um excelente contista e não conseguir conduzir um enredo longo. O contrário também. Então, possivelmente, para quem almeja escrever uma trilogia, uma novela seja um “aquecimento” mais efetivo.

Existe também um status associado à publicação de um livro que (não sei explicar porque) inexiste em relação ao conto. Raramente vemos alguém famoso sendo referenciado como “olha lá, Fulano, autor de <<insira o nome de um conto>>. As pessoas costumam ser reconhecidas por seus romances OU pela publicação constante de contos e coletâneas. E sabemos que status é um indicativo poderoso na hora de chamar a atenção de uma editora.

Falando em chamar atenção, olha a ilustração linda que vem no ebook! Fonte: Acervo do autor – Reprodução

Em resumo, diria que a popularização das novelas tem a ver com o ecossistema da Amazon, com a formação de público e com a consolidação da carreira de escritor. Um bom exemplo deste fenômeno é o catálogo da Dame Blanche, uma editora super querida do público e que aposta nas novelas digitais. Tem se mostrado uma ótima estratégia.

Quanto ao Diogo Andrade, A Canção dos Shenlongs foi separada da narrativa original planejada pelo autor e publicada como um prequel, justamente pensando em angariar fãs e formar um portfólio. Diogo preparou terreno para seus romances, cuidando da qualidade do projeto e sua posterior divulgação.

E sabe o que ele fez? Conseguiu converter mais uma leitora.

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