A Casa do Lago: reparação, famílias complicadas e uma boa dose de mistério

Eu vou tentar, pela fé, escrever uma resenha sem spoilers. Não que eu me importe em colocá-los no texto (desde que devidamente sinalizados), mas sim porque estou vindo de uma longa sequência de livros onde saber 1% a mais que o necessário sobre a trama pode arruinar a sua experiência de leitura. Então vou tentar manter você no escuro, está bem? Vem comigo:

Fonte: saletadeleitura – Reprodução

Quando recebi a newsletter com os lançamentos do mês da Arqueiro, não precisei pensar muito sobre qual livro requisitar. Meu sexto sentido apitava como louco para A Casa do Lago, e eu sabia que havia elementos ali capazes de me conquistar. O que é engraçado considerando que o TBS é um blog voltado ao gênero da fantasia. Em minha vida, raramente li romances policiais (posso contá-los nos dedos). No máximo os mistérios infanto-juvenis da série Vaga-Lume e um ou outro da Agatha Christie/Conan Doyle. Então porque diabos tomei essa decisão com tanta certeza?

Bem, a primeira coisa que me chamou atenção foi Alice Edevane, personagem central da história. Na década de 30, Alice acalentava o sonho de ser uma escritora. Aos 16 anos, porém, seus devaneios infantis nem sempre correspondiam com a realidade (vale lembrar que, naquela época, ter 16 anos ainda significava ser bastante protegida e conhecer pouco do mundo). Não que a jovem Alice soubesse disso…para ela, a vida encaixava-se perfeitamente em suas histórias, em suas tramas de romance e mistério. Até aquela noite. A fatídica noite que mudaria o destino dos Edevane para sempre.

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Quando o irmão mais novo de Alice some sem deixar rastros e a polícia desiste das operações de busca, o livro dá um salto no tempo. Em 2003, Alice Edevane tem 86 anos e é uma escritora de sucesso. O que poucos sabem é que tanta classe e assertividade escondem um passado de mágoas e culpas nunca confessadas.

Esse pequeno recorte da história já foi suficiente para me prender e o motivo é: Reparação.

Reparação é um romance escrito por Ian McEwan, também ambientado na década de 30. Esse é um período que gosto bastante, porque ele é um meio termo entre as histórias vitorianas e os romances modernos. Ainda temos toda aquela aura de bailes, cartas, fitas de cetim e regras de etiqueta, mas também vislumbramos um período onde as mulheres começam a despertar para a própria independência. É possível vê-las em relacionamentos mais equilibrados em termos de poder, mulheres que contribuem ativamente nas decisões da família. A guerra também é um fator a se levar em consideração: temos aqui uma geração que vivenciou a Primeira Guerra Mundial, toda uma leva de homens marcados e transformados pelo horror contrabalanceada por uma leva de mulheres que precisaram lidar com as responsabilidades da vida enquanto pais, maridos e filhos saíam de casa para quem sabe não mais voltar. Na década de 30, essa mesma geração precisará lidar com a chegada da Segunda Guerra Mundial, com um repeteco de sua impensável rotina de horror. As guerras, embora injustificáveis, são também marcos de evolução cultural.

Várias passagens evocam essas transformações, como os cigarros consumidos em segredo pela mãe de Alice e o desejo de sua irmã por se tornar piloto das tropas britânicas. A década de 30 fervilha com estes pequenos atos de rebeldia, com revoluções que acontecem por baixo dos panos. O que, obviamente, abre margem para um monte de possibilidades e interpretações.

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E é nesse sentido que tanto A Casa do Lago quanto Reparação vão explorar suas protagonistas: as jovens escritoras Alice Edevane e Briony Tallis. Quando as intrigas e problemas de uma família são tratadas nas entrelinhas, com cuidado para que criados e crianças não saibam de nada, fica fácil entender as coisas erradas. Ainda mais quando você é uma garota muito jovem e de mente fértil. Ainda mais quando você tem certeza de que já é adulta e mais inteligente do que o resto da família. Ainda mais quando você acha que sabe o que é melhor para todos porque sabe exatamente o que se passa com cada membro da família.

A similaridade com Briony Tallis (uma das personagens que mais amo odiar) foi o que me convenceu a ler o livro. Existe algo de poético em ler sobre personagens escritores. Uma metalinguagem. Além disso, quando crianças interferem negativamente na vida dos adultos, temos um debate muito interessante sobre a culpa. O crime de um menor de idade, quando este fantasia sobre a realidade, é perdoável? Como se sente essa criança, anos depois, quando percebe a extensão do mal que causou? Os adultos ao redor também são culpados?

Ambos os livros debaterão sobre o tema, porém com abordagens um tanto distintas. Reparação, como o próprio título sugere, revolverá sobre a busca de Briony em reparar os erros do passado, por conseguinte criando uma ótima reflexão acerca das responsabilidades de um autor ao retratar a vida das pessoas de acordo com os próprios pontos de vista. Enquanto isso, A Casa do Lago tratará sobre as várias mudanças que uma pessoa sofre ao longo da vida, sobre esse processo de amadurecimento, de enxergar as coisas em sua verdadeira forma, abandonando as teorias da infância.

Ai, Briony, como eu amo te odiar. Fonte: Tumblr – Reprodução

Transitando entre a juventude e velhice de Alice, podemos entender como aquela criança de nariz em pé se tornou uma escritora de sucesso. Kate Morton, autora da obra, é muito competente em manter a personagem coerente. Alice muda, mas podemos reconhecê-la a qualquer instante, em qualquer idade. E olha, é tão raro encontrar personagens idosos que contribuam ativamente para uma trama…

Aos mais velhos é reservado o papel de mentor, de secundário. É a avó bacana que faz biscoitos enquanto o neto salva o mundo. É o cavaleiro aposentado que vai treinar o novo herói ou a fada madrinha que providenciará um belo vestido. Nossa literatura gira em torno da juventude. E assim acabamos esquecendo que os idosos não são estes seres completos e redondinhos, que já se resolveram com a vida. Não, eles também possuem suas mágoas, seus demônios, suas incertezas. Limitar personagens mais velhos ao segundo plano é esquecer parte importante da vida, é classificar a velhice como uma fase onde as aventuras já terminaram. Por isso é tão importante ter a visibilidade de alguém como Alice. Ela é complexa, cheia de facetas, com sua cota de falhas. E é por isso que ela me encanta.

(Aliás, quando não estamos vivenciando os flashbacks de 1930, temos poucos personagens jovens no livro.)

Falando nisso, a linha do tempo de A Casa do Lago é construída com um cuidado fantástico. Indo para frente e para trás e mudando constantemente o foco para cada personagem, Kate Morton cria um quebra-cabeça de infinitas possibilidades. Uma hora acompanhamos Alice, e então tudo parece claro em nossa mente, até o momento em que revivemos uma mesma cena sob o ponto de vista de sua mãe, Eleanor Edevane, e então vemos o quanto estávamos equivocados. Cada interpretação tem seu mérito e suas bases, e você fica maluco tentando descobrir o que realmente aconteceu nunca casa onde todo mundo tem seus próprios fantasmas.

Fonte; Tumblr – Reprodução

Também gosto da forma como a autora trabalha a fatalidade, a construção de uma tragédia. Todos ali possuem direta ou indiretamente um papel na história, no sumiço de Theo Edevane. Alguns são culpados, outros inocentes, mas todos contribuem para movimentar as peças no tabuleiro. Devo ter criado umas mil teorias enquanto lia o livro, cada uma delas destruída no capítulo seguinte. Só fui entender o que realmente aconteceu quando estava perto de terminar a leitura. E gostei do que vi.

Eu realmente não quero entregar nada da história, mas digamos que, caso você já tenha lido ou pretenda ler o livro, eu gostaria que você refletisse sobre três coisas: primeiro, sobre como cada personagem lida com as consequências dos erros de acordo com a própria natureza. Depois, sobre como as circunstâncias podem mudar uma pessoa e levá-la a extremos embora no fundo, ela ainda conserve o seu cerne. E por último, sobre como as aparências enganam: os Edevane sempre foram uma família perfeita aos olhos da sociedade.

Bem, falando assim, parece que A Casa do Lago gira apenas em torno de Alice e sua família, mas as coisas na verdade são mais amplas. Trazendo o caso de volta à tona, temos a detetive Sadie Sparrow. Sadie é aquela personagem durona, independente e meio descrente da vida (embora tenha um coração de manteiga), que se vê obrigada a tirar férias forçadas devido a problemas no trabalho: Sadie se envolveu demais num dos casos que investigava. Ela própria carrega grandes segredos.

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Indo visitar o avô na Cornualha, Sadie se depara com Loeanneth, a incrível propriedade à beira de um lago que dá nome ao livro. A antiga casa dos Edevanes, abandonada desde os anos 30 e eternamente assombrada por um crime não resolvido. E é aí que a vida de Sadie e Alice se cruzam.

Se eu pudesse fazer outra comparação, diria que a investigação de Sadie me fez lembrar bastante outra obra de sucesso: a trilogia Millenium, de Stieg Larsson. Não tanto pela protagonista (Sadie está bem longe de Lisbeth Salander), mas por todo esse clima de investigação nostálgica, de mexer em velhas feridas de família.

Recapitulando, se um mistério não é suficiente, A Casa do Lago vai te apresentar logo três: o que houve com Theo Edevane, o que houve no caso que Sadie investigava antes de ser afastada e qual é o grande segredo do passado da detetive. As três respostas formam paralelos interessantes, dialogando com o leitor sobre instintos, limites de envolvimento profissional e família.

Confesso que a trama de Sadie não me atraiu tanto quanto a de Alice: não tem muito como competir com a atmosfera dos anos 30 e com uma casa mágica como Loeanneth. Sempre gostei do campo, e fui criada lendo livros onde os lugares são também personagens, evocando sensações totalmente próprias. Basta mencionar Orgulho e Preconceito, onde as palavras “Pemberley”, “Netherfield” e “Longbourn”já são suficientes para que o clima da história mude.

Fonte: Tumblr – Reprodução

A sensação de ser transportada para A Casa do Lago, sobretudo observando as cenas sob o véu amarelado do tempo, é fantástica. Eu não queria sair dali. Entretanto, entendo que o mistério de Sadie era importante para justificar o empenho de uma detetive em resolver o caso de um menino desaparecido há mais de setenta anos.

Por fim, já que Sadie sempre nos aconselha a ouvir seus instintos, posso dizer que eu estava corretíssima: A Casa do Lago cumpriu tudo o que eu esperava e ainda superou minhas expectativas. Gosto de dar chances a novos gêneros, sobretudo quando acredito que encontrarei histórias sobre pessoas de carne e osso. E os Edevane com certeza são feitos de carne, osso, sonhos e desilusões, como qualquer pessoa normal. Mas com um toque de mistério e fascinação, que é pra fazer a gente ler na pontinha da cadeira.

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