A Criação – Terra Média vs Nárnia

O texto a seguir pode conter spoilers de: O Sobrinho do Mago, O Silmarillion. Depois não diga que eu não te avisei…

Não é novidade pra ninguém que J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis eram grandes amigos. Mais que isso, serviram de suporte um ao outro, em tempos difíceis de guerra e perdas. Suas obras refletem grande parte dessa convivência, em uma influência mútua.
Por isso, apesar de terem criado universos bem distintos e independentes, tanto Tolkien quanto Lewis sentiram a necessidade de explicar a criação de seus mundos a partir de suas próprias visões morais e religiosas. Repletos de simbolismos, os surgimentos de Terra Média e Nárnia são pontos altos na narrativa dos autores.

Antes de mais nada, é importante ter em mente que, apesar de terem visões semelhantes, Tolkien e Lewis tinham motivações diferentes. Enquanto a religiosidade de Lewis é centrada na redenção (Lewis havia negado sua fé, alguns anos antes, após perder a mãe ainda jovem para um câncer), Tolkien é absorvido pela natureza e pela espiritualidade (fruto de seu nascimento na África do Sul e de sua infância predominantemente rural). E como filho de peixe, peixinho é, os livros seguem o mesmo caminho.

Tolkien e Lewis - Fonte: http://www.thewrap.com/tolkien-lewis-why-i-chose-to-tell-this-fascinating-story-guest-blog/

Tolkien e Lewis – Fonte: http://www.thewrap.com/tolkien-lewis-why-i-chose-to-tell-this-fascinating-story-guest-blog/

A criação da Terra Média pode ser encontrada no capítulo inicial do Silmarillion, enquanto o surgimento de Nárnia está descrito ao longo dos capítulos oito, nove e dez da crônica O Sobrinho do Mago.

Fiéis ao seu posicionamento cristão, logo de cara os escritores escolhem uma figura central no papel de Criador. Lewis utiliza o leão Aslam, enquanto Tolkien apresenta Eru (também chamado Ilúvatar). Aslam é dito filho do Imperador de Além Mar, o que permite entendê-lo como uma representação não só de Deus, mas também de Jesus. Assim como na visão cristã, é um ser amoroso e compreensivo, mas também pode ser muito rígido quando necessário. Já Eru, o Único, é visualizado apenas como uma energia primária, uma consciência criativa, benevolente e transformadora.

Para Lewis, antes da Criação não havia nada. Isso fica claro na seguinte passagem:

“ – Aqui não é Charn – Era a voz da feiticeira. – Aqui é um mundo vazio. Aqui é Nada.
E, de fato, parecia mesmo Nada. Não havia uma única estrela. Era tão escuro que não se enxergavam; tanto fazia ficar de olhos abertos ou fechados. Sob seus pés havia uma coisa fria e plana, que podia ser chão, mas que não era relva nem madeira. O ar era seco e frio e não havia vento.”

Para Tolkien, havia apenas Eru e os Ainur, criados a partir de diferentes áreas do pensamento de Ilúvatar. Entendo os Ainur como um ótimo artifício que permitiu a Tolkien lidar com outra grande paixão: a mitologia nórdica, essencialmente politeísta. Enxergando beleza nas duas formas de pensar (aprendam crianças, aprendam), o autor une o politeísmo e o monoteísmo. Para ele, divindades seriam aspectos específicos de uma mesma verdade. Ao cultuar o deus dos Mares, estaríamos apenas ressaltando um dos pensamentos de Eru, o todo. E assim Tolkien pode seguir sendo um feliz católico apaixonado pela cultura pagã.

“Ele criou primeiro os Ainur, os Sagrados, gerados por seu pensamento, e eles lhe faziam companhia antes que tudo o mais fosse criado. […] pois cada um compreendia apenas aquela parte da mente de Ilúvatar da qual havia brotado e evoluía devagar na compreensão de seus irmãos.”

A ferramenta utilizada para dar início á criação é a mesma tanto em Nárnia quanto na Terra Média: a música. O que faz todo o sentido, já que a música é uma “forma invisível de energia” que está presente em todas as culturas ao redor do planeta. Inclusive, a música sempre aparece associada às manifestações de religiosidade. E estudos apontam a ação benéfica da música também para animais e plantas. Que escolha seria mais acertada do que essa?

Pois bem, nos dois casos, a música que gera a transformação é descrita como algo tão belo, especial e único que seria impossível para os humanos reproduzí-la, sendo uma melodia divina. Em Nárnia, A Voz ou O Cantor (que descobriremos ser Aslam alguns parágrafos depois) evoca as estrelas, que se juntam à canção logo após surgirem no céu, trazendo o nascimento do Sol. O ritmo da música de Aslam vai mudando e a cada nova nuance das notas, coisas diferentes começam a acontecer, como se seguindo uma coreografia. A relva se espalha pela terra, a brisa começa a soprar e árvores brotam do chão.

Aslam - Fonte: http://www.pastemagazine.com/articles/2014/09/the-roles-of-a-lifetime-liam-neeson.html

Aslam – Fonte: http://www.pastemagazine.com/articles/2014/09/the-roles-of-a-lifetime-liam-neeson.html

Na Terra Média, são os Ainur que cantam para Ilúvatar. Quando alcançam um maior nível de compreensão um sobre os outros, Eru lhes indica um tema poderoso. A música gerada pelo canto conjunto dos Ainur é o que dá origem a todas as coisas.

“ E então as vozes dos Ainur, semelhantes a harpas e alaúdes, a flautas e trombetas, a violas e órgãos, e a inúmeros coros cantando com palavras, começaram a dar forma ao tema de Ilúvatar, criando uma sinfonia magnífica; e surgiu um som de melodias em eterna mutação, entretecidas em harmonia, as quais, superando a audição, alcançaram as profundezas e as alturas; e as moradas de Ilúvatar encheram-se até transbordar; e a música e o eco da música saíram para o Vazio, e este não estava mais vazio. […] E eles viram um novo Mundo tornar-se visível aos seus olhos; e ele formava um globo no meio do Vazio, e se mantinha ali, mas não pertencia ao Vazio, e enquanto contemplavam perplexos, esse Mundo começou a desenrolar sua história, e a eles parecia que o Mundo tinha vida e crescia. E, depois que os Ainur haviam olhado por algum tempo, calados, Ilúvatar voltou a dizer: – Contemplem sua Música! Este é seu repertório.”

Um ponto interessante sobre os dois autores (e que me faz puxar sardinha pro Tolkien) é a maneira como o mal é representado durante a Criação.

No mundo de Lewis, o mal é personificado pela feiticeira Jadis, vinda de outro mundo para “contaminar”, meio que por acidente meio que por predestinação, a obra de Aslam. Ela será responsável por trazer o pecado e a tentação para o até então paraíso, fazendo as vezes de Diabo. Essa alegoria está bem alinhada com a tradição judaico-cristã, que ensina que o mal não foi feito por Deus, mas estava presente no ato da Criação.

Como não gosto muito da polarização entre bonzinhos e malvados, prefiro a explicação de Tolkien para as origens do mal. A um dos Ainur, Melkor, havia sido dado mais poder e conhecimento do que a seus irmãos, e ele também possuía um pouco do dom de cada um dos Ainur. Surge em Melkor, então, um desejo de dar sentido e existência às coisas. Ele passa a criticar Ilúvatar por não dar a devida atenção ao Vazio. Melkor se incomodava com o Vazio, e desejava preenchê-lo. Ele então tenta dar seus próprios tons à música de Eru, dissonando de seus irmãos. Aqui Tolkien nos dá uma lição importante: o mesmo conhecimento que nos torna questionadores e nos impulsiona a criar coisas magníficas, pode se transformar em uma armadilha contra a humildade e a favor da tirania e do ego. Mais tarde, quando conhecesse os homens, Melkor desejaria ter súditos e criados e ser admirado como Senhor. Ilúvatar, em sua grande sabedoria, dá um esculacho bem dado em Melkor, sugerindo que mesmo em sua individualidade, o Ainur ainda estaria seguindo seus planos divinos.

“- Poderosos são os Ainur, e o mais poderoso dentre eles é Melkor; mas, para que ele saiba, e saibam todos os Ainur, que eu sou Ilúvatar, essas melodias que vocês entoaram, irei mostrá-las para que vejam o que fizeram E tu, Melkor, verás que nenhum tema pode ser tocado sem ter em mim sua fonte mais remota, nem ninguém pode alterar a música contra a minha vontade. E aquele que tentar, provará não ser senão meu instrumento na invenção de coisas ainda mais fantásticas, que ele próprio nunca imaginou. E então os Ainur sentiram medo e ainda não compreenderam as palavras que lhes eram dirigidas; e Melkor foi dominado pela vergonha, da qual brotou uma raiva secreta.”

Mais tarde, atormentado por essa mágoa, Melkor se tornará o grande antagonista de Ilúvatar, sendo chamado de Morgoth. Será por intermédio dele que os seres malignos surgirão na Terra Média, Sauron inclusive. Tudo de ruim, no final das contas, veio a partir de uma alma corrompida pela prepotência que surge de um grande conhecimento, alimentada por um ego ferido. E como Melkor é parte de Eru, o próprio mal seria uma face importante do Criador. O mal existe, e cabe a nós nos posicionarmos do lado certo. O que é uma explicação bem mais engenhosa do que a dada por Lewis.

De volta à Nárnia, a canção de Aslam faz com que surjam as primeiras criaturas, saídas de buracos no chão. Leopardos, elefantes, cachorros, abelhas, todos saindo aos montes das entranhas da terra. O leão seleciona apenas dois indivíduos de cada espécie (no melhor estilo Adão e Eva) e toca-lhes o focinho. Os animais adquirem conhecimento e começam a falar. Lewis chega a comentar que algumas espécies não foram tocadas, reforçando o estereótipo de que alguns animais são “menos importantes” ou “associados ao mal”. O que acho uma puta-falta-de-sacanagem, por assim dizer…

"Mas eu também sou filho de Deus, gente!" - Shutterstock - Reprodução

“Mas eu também sou filho de Deus, gente!” – Shutterstock – Reprodução

Aslam então se dirige aos animais falantes:

“Criaturas, eu lhes dou a si mesmas. Dou-lhes para sempre esta terra de Nárnia. Entrego-lhes as matas, os frutos e os rios. Entrego-lhes as estrelas e entrego-lhes a mim mesmo. Seus também são os animais mudos. Cuidem deles com bondade, mas não lhes sigam os caminhos, sob pena de perder a fala. Pois deles foram gerados e a eles poderão retornar. Não o façam.”

Essa única fala tem tantos conceitos religiosos escondidos que não sei nem por onde começar. Primeiro, o fato do Criador doar uma terra magnífica aos animais escolhidos se assemelha a Deus escolhendo o povo hebreu, conforme descrito na Bíblia. Em segundo lugar, Aslam diz que entrega a si mesmo para o povo, reforçando seu papel de Jesus Cristo. Também coloca a natureza e os animais mudos a serviço da espécie escolhida, dando a eles certa superioridade. E por fim, Lewis nos mostra um Criador que impõe regras rígidas, ordenando que o povo não siga o caminho dos animais mudos. Mais ou menos o que acontece quando Deus ordena que Adão e Eva se abstenham do fruto proibido.

Já Tolkien diz que nem mesmo os Ainur sabiam dos planos de Ilúvatar. Entendendo o desejo dos espíritos de que as imagens criadas pela música se tornassem realidade, Eru deu vida àquela visão. Assim, os Ainur encaram com admiração a chegada dos Filhos de Ilúvatar, os elfos e homens. Cada um a seu modo, os Ainur amaram os Filhos e a terra onde estes estavam destinados a viver. Então, alguns dos Ainur decidem morar no mundo dos Filhos, tomando seu lugar em meio àquele aspecto que mais amam, e finalmente aprendemos seus nomes.

“…foi para a água que aquele Ainu que os elfos chamam de Ulmo voltou seu pensamento, e de todos foi ele quem recebeu de Ilúvatar noções mais profundas de música. Já sobre os ares e os ventos, mais havia refletido Manwë, o mais nobre dos Ainur. Sobre a textura da Terra havia pensado Aulë, a quem Ilúvatar concedera talentos e conhecimentos pouco inferiores aos de Melkor;”

Essa divisão de responsabilidades entre os Ainur reforça o fascínio de Tolkien pelo politeísmo, já que cada um representará o papel de uma divindade, com poderes específicos. Além de cuidar de seu próprio campo de atuação, é possível ver os Ainur colaborando entre si. Mais tarde, os Ainur seriam responsáveis por várias das criações da Terra Média, incluindo a própria raça dos anões, filhos de Aulë. Os grandes espíritos foram então chamados Valar pelos elfos e os Senhores e Senhoras dos Valar, considerados como deuses pelos homens são: Os Senhores Manwë, Ulmo, Aulë, Oromë, Mandos, Lórien, Tulkas; e as Rainhas Varda, Yavanna, Nienna, Estë, Vairë, Vána e Nessa.

Alguns dos Ainur - Fonte: http://imgur.com/gallery/zRqPMxJ

Alguns dos Ainur – Fonte: http://imgur.com/gallery/zRqPMxJ

Ainda existem vários desdobramentos na narrativa para que a Terra Média atinja o estado que conhecemos nas aventuras de Bilbo, mas pode-se dizer que a Criação em si se completa quando os Ainur tomam seus lugares como guardiões da natureza e dos Filhos.

O mesmo acontece com Nárnia. Aslam escolhe o cocheiro e sua mulher como os primeiros Reis de Nárnia, ensinando-lhes o que fazer para manter o reino em harmonia. O resto são apenas consequências da Criação, que preparam terreno para os acontecimentos de O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa. Uma menção honrosa aqui à presença de espírito de Lewis ao escrever sobre o surgimento da primeira piada, mostrando que Deus, claro, também aprecia o senso de humor.

“ – Riam sem temor, criaturas. Agora, que perderam a mudez e ganharam o espírito, não são obrigados a manter sempre a gravidade. Pois também o humor, e não só a justiça, mora na palavra.”

Assim, dois dos universos mais famosos da literatura estão formados. Lewis, em busca da redenção, nos apresenta a visão de um Criador bondoso, porém firme, que espera retidão moral e caráter de seu povo, para que estes possam merecer o paraíso. Já Tolkien nos dá um mundo inundado pelo amor à vida e pelo livre arbítrio, onde o mal faz parte de cada um de nós e deve ser combatido dia após dia em nossas consciências.

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