Se você acompanha minimamente este blog, já deve ter ouvido falar, graças aos meus ataques de fangirl, que Mistborn voltou. Digo mais, voltou em grande estilo: novos cenários, novos personagens e um box lindão lançado durante a última CCXP. E como Sanderson costuma receber prioridade alta na minha lista de leituras, acabei devorando A Liga da Lei em três dias.

Fonte: Marc Simonetti – Reprodução

Inclusive, essa foi uma das primeiras vezes que li um livro logo em seguida a seu lançamento: chega estou estranhando não ser a retardatária, poder participar de leituras coletivas e esse tipo de coisa… Enfim, como sei que muita gente ainda não teve oportunidade de ler o primeiro volume, estou dividindo este post em duas partes, uma sem spoilers e outra com spoilers, assim todo mundo fica feliz. Pode continuar lendo tranquilamente que eu sinalizo quando as coisas começarem a ficar perigosas, tá bem?

Ok. Primeiro, vamos dar aquela atualizada geral no bonde. Vai que você nunca leu Mistborn ou vai que você é um leitor do Sanderson que passou os últimos meses preso numa caverna?

Fonte: Giphy – Reprodução

Mistborn se passa em Scadrial, um dos planetas da Cosmere. A história foi planejada como uma “série de séries”, um mundo em evolução. Sanderson não gostava muito da ideia de reinos estáticos, que nunca avançavam ou se modernizavam com o tempo. Ele queria algo mais…realista. Então, cada uma das séries, chamadas de Eras, abordará um momento diferente na cronologia de Scadrial. A Primeira Era ocorre em um cenário de Idade Média/Moderna, enquanto a Segunda Era traz para o leitor um período similar ao da Revolução Industrial.

(As resenhas que fiz para a Primeira Era podem ser encontradas aqui: O Império Final, O Poço da Ascensão e O Herói das Eras, respectivamente.)

A Liga da Lei surgiu como um exercício de escrita, uma história recreacional para passar o tempo. Porque é isso que gente como o Sanderson faz pra passar o tempo, né… ele escreve livros ótimos. A coisa acabou saindo tão boa que foi direta pra gráfica e cá estamos.

Pode-se considerar que seja um livro de transição, um enredo que interliga a trilogia da Primeira Era com a Segunda. Contudo, é importante compreender que A Liga da Lei não é um prequel: sua leitura não é opcional nem desconexa dos eventos principais. Assim, terminamos com uma “quadrilogia alternativa”, formada pelo enredo fechado de A Liga da Lei e pelo enredo composto dos três livros subsequentes (o terceiro ainda em produção).

Nossos protagonistas agora são Wax e Wayne, duplonatos de poderes interessantes com uma extensa carreira no ramo da justiça. O nome da dupla logo evoca a imagem de pistoleiros camaradas em filmes faroeste, uma percepção que não está muito distante da realidade. Imagine-os como quiser, mas eles sempre carregarão um pouco desse clima “Dean e Sam Winchester” de ação e alívio cômico.

(Inclusive, o Wayne da minha cabeça se mantém teimosamente e por motivos inexplicáveis como uma versão mais velha do Logan de Gilmore Girls… vai lá, me julga.)

Fonte: Tumblr – Reprodução

Wax e Wayne estão muito distantes da persona trágica de Kelsier e Vin. Ainda que os novos protagonistas também estejam ligados a infortúnios e tenham boa profundidade emocional, A Liga da Lei é um livro leve, divertido, puxado mais para o romance policial que para o épico. As coisas não estão numa escala apocalíptica mundial. Ao menos não por enquanto.

E quer saber, elas não precisam estar. Temos essa mania de desmerecer livros voltados ao entretenimento, cujos enredos não sejam filosóficos ou complexos o suficiente para serem debatidos numa mesa redonda da ONU, o que é algo bem besta. Não há problema algum em escrever uma boa aventura (e Deus sabe quantas lágrimas Mistborn me fez derramar). É possível ser um autor sério e escrever sobre coisas sérias sem precisar abrir mão do entretenimento. A Tor, que é quem originalmente publica o Sanderson, postou uma ótima matéria sobre isso.

Até porque, debaixo de todas essas risadas e cenas de ação, o autor desenvolve algumas premissas valiosas no livro. Me interesso pela forma como Sanderson trabalha romance, religião, política e justiça.  Sempre acabo lembrando dessa entrevista, onde ele afirma que “quer contar uma história sobre personagens fortes que discordam uns dos outros, onde existem boas pessoas com bons argumentos dos dois lados, porque acredita que nos aproximamos da verdade através da discussão”. A modernidade da Segunda Era é mais embaralhada política e financeiramente em relação ao Império Final, permitindo mais do que nunca essa troca de perspectivas.

(Um adendo: achei interessante a inserção de páginas de jornal no meio do livro. Curto essa vibe transmídia de contar histórias, desenvolvendo uma experiência de leitura. Acho que estamos caminhando para que isso vire uma tendência. Aqui, o jornal serve para familiarizar o leitor com o ambiente urbano e despertar sua curiosidade investigativa.)

Fonte: The Independent – Reprodução

A Liga da Lei é um novo começo para uma velha história, um reencontro pra lá de caloroso e saudosista que me conquistou logo nas primeiras páginas. Acredito que o livro também possa funcionar como introdução para Scadrial, mas eu recomendaria a leitores inciantes que concluíssem a Primeira Era antes de embarcar em Wax e Wayne. Sanderson economiza no worldbuilding confiando de que seu leitor já sabe do que ele está falando, então muitas referências serão perdidas ou não compreendidas por quem acabou de cair de paraquedas no mundo da alomancia.

Já para os fãs mais antigos, as referências são uma benção (olhinhos marejados quando o texto menciona as flores de Mare). Observar o modo como o autor costura a trama da Primeira Era na religião, cultura e imaginário da população, trezentos anos depois, é fascinante. Algumas coisas evoluíram, outras se mantiveram, outras mudaram radicalmente. Tudo de uma forma orgânica, que faz sentido com os acontecimentos da época. Difícil encontrar defeitos, ainda mais quando um autor se propõe a criar uma galáxia inteira.

Quando vejo alguém criticando a escrita de Mistborn, geralmente o argumento é voltado para o “infodumping”, o excesso de informação que é passado ao leitor para que este consiga entender as regras do jogo. Teoricamente, justificar porque algo está ocorrendo da maneira X e não da maneira Y é um mau hábito de escrita, sendo mais sutil dar meios para que seu leitor chegue à mesma conclusão sozinho. E realmente, o Sanderson faz muito isso, sobretudo em suas cenas de ação.

Porém, ele o faz de um jeito tão elegante que acaba tornando o infodumping invisível. Quando escreve,  Sanderson coloca a explicação sob o ponto de vista do personagem, passando a impressão de que estamos raciocinando ao mesmo tempo que nossos protagonistas. O que poderia parecer uma quebra da ação, então, se torna parte da ação. Ver a mente dos personagens funcionando, tendo ideias e ponderando acerca do mundo e seus sistema de magia é parte do que torna a narrativa tão divertida: uma coisa é um narrador impessoal falando, outra coisa é o seu protagonista favorito tendo uma ideia no meio de uma chuva de balas.

Fonte: Brandon Sanderson – Reprodução

Realmente não tive nenhum problema com infodumps durante a Primeira Era, e estava tendo uma ótima leitura da Segunda quando esse detalhezinho mínimo apareceu: o texto explica, pela segunda vez, que um objeto cai sempre na mesma velocidade independente de seu peso. Essa foi a única vez que realmente me desconectei da narrativa para pensar “ei, você já me disse isso, eu já entendi”. Não que isso tenha comprometido minha experiência com A Liga da Lei, mas finalmente compreendi: a) o que é um infodump do Sanderson e b) como ele faz para torná-los divertidos.

O que nos leva a… ops, essa é a parte em que começam os spoilers!

= SPOILERS ADIANTE =

Quando resenhei os livros da Primeira Era, fiz duas observações: a primeira foi sobre a confusão gerada em cenas de ação envolvendo nascidos da bruma. Com os termos “puxar” e “empurrar” sendo repetidos à exaustão página após página, muitas vezes foi preciso parar e reler algumas frases.

Não sei se a coisa fica mais fácil se envolvermos apenas duplonatos, mas o fato é que Sanderson pareceu ter evoluído muito esse aspecto da escrita em A Liga da Lei. Mesmo cenas envolvendo cenários complexos, como o derradeiro confronto com Miles (e milhares de balas, explosivos, capangas, alomânticos e até um vagão completo de trem) soaram fluidas, e consegui acompanhar milimetricamente todos os rumos da ação.

Minha segunda observação foi com relação às pistas descaradas demais que Sanderson deixa pelo texto. Sr. Elegante? Ora, por favor, eu já havia matado a charada desse enredo várias páginas antes. Contudo, minha experiência com a Primeira Era é de que o autor não liga muito para a previsibilidade porque está ocupado demais preparando tapas maiores para sua audiência.  Os plot twists de Sanderson, suas verdadeiras viradas imprevisíveis, me parecem muito mais filosóficos, ou religiosos, ou emocionais. Posso até estar falando bobagem (volto aqui assim que terminar de ler A Segunda Era), mas minha impressão é de que essas coisas de “quem matou quem a mando de quem” ficam em segundo plano.  Ele não as esconde do leitor com a mesma empolgação. Mas talvez isso tenha a ver com o fato de A Liga da Lei ter sido escrito apenas por diversão… A ver.

Fonte: Brandon Sanderson – Reprodução

Quanto aos personagens, são fantásticos. Gosto da opção por um protagonista mais velho. Não que a gente não tenha heróis de mais idade em histórias de fantasia, mas eles geralmente performam esterótipos mais secos, mais calejados. É raro encontrarmos protagonistas de 42 anos com conflitos ligados ao campo emocional, que se apaixonam, que ficam sem jeito. Romance costuma ser um tema literário delegado aos muito jovens.

Inclusive, quero deixar aqui os meus imensos agradecimentos ao senhor Brandon Sanderson por escrever romances maravilhosos num nicho literário até pouco tempo predominantemente masculino e que torcia a cara para qualquer coisa que não fosse luta, tiro, porrada e bomba.

Porque você sabe, né? Você sabe que está lendo um romance, certo? Nós temos um plot muito importante onde Wax e Wayne salvam a cidade de bandidos e descobrem um tio morto, tudo bem, mas temos outro plot igualmente importante sobre um homem quebrado que tenta não se apaixonar por uma heroína notável enquanto a sociedade o obriga a casar com a prima dela e seu melhor amigo o atormenta como um cupido em sua orelha.

Fonte: To Write These Words Down – Reprodução

Bem, caso você não saiba, isso aí é bem parecido com os enredos açucarados dos romances de época, aqueles mesmos que são ridicularizados entre os leitores de capa e espada. Sei que são abordagens diferentes, mas admiro que o Sanderson consiga colocar tanto marmanjo para acompanhar cenas de baile, olhares trocados e bochechas coradas. Eu juro de pé junto que a cena em que Marasi vê Wax sem camisa e fica constrangida enquanto ele fica orgulhoso poderia figurar em qualquer livro da Julia Quinn.

Porque a vida, gente, a vida é isso mesmo. São facetas. Não dá pra ser o herói fortão o tempo todo. A gente também tem humor, tem sentimento, tem diversão. Sanderson sempre explorou essas vulnerabilidades em seus personagens, principalmente em Kelsier, Elend e Sazed. Mas a trama descontraída de A Liga da Lei acaba por tornar tudo mais evidente. É possível que a Segunda Era agrade a um público ainda mais vasto do que a Primeira.

Por sinal, embora eu adore Vin e a considere uma heroína badass modelo, me senti feliz com as personagens femininas deste livro. Se o protagonismo aqui é masculino, Sanderson nos entrega um time de mulheres que acabam roubando a cena. Elas são diversas e se desviam de algumas suposições que a gente faz por puro costume.

Marasi é corajosa, inteligente, tem uma ótima mira. Porém, afasta-se da persona de Vin ao preferir ser salva, usar vestidos e não matar pessoas. Na medida do possível, claro. Com todo o decoro. Assim, acaba equilibrando os dois mundos, mostrando que tá ótimo usar maquiagem, tá ótimo fazer justiça e que não é preciso escolher uma coisa só para ser uma boa personagem.

Fonte: Tumblr – Reprodução

Lessie e Ranette também possuem uma independência inspiradora e temperamentos marcantes. E, por fim, temos Steris, que pode até enganar com sua praticidade e ar blasé, mas que demonstra ter uma grande carga emocional nas partes finais do livro. Todas elas, a seu próprio modo, são divertidas e promissoras para o enredo (acho até que Ranette daria uma ótima amiga para Maz Kanata em Star Wars – alguém por favor faça esse crossover).

E eu já falei ali em cima sobre as cenas de ação estarem mais claras, mas gostaria de puxar outro ponto: como é interessante e desafiador explorar as ações de um duplonato ao invés de um nascido da bruma. Wax, principalmente, não deixa muito a dever na porradaria, sendo capaz de se erguer no ar, criar nuvens de proteção, derrubar prédios e ficar leve como uma pluma. Ele me lembra bastante Fantasma nesse ponto, e a noção bem inserida em Mistborn de que, às vezes, vale mais a pena ser muito bom num único aspecto do que mediano em vários. Do ponto de vista do roteiro, as coisas definitivamente ficam mais interessantes quando os personagens tem tantas limitações. Eles precisam estar mais afinados entre si para cooperar ou improvisar. As soluções se tornam mais surpreendentes.

Por último, A Liga da Lei parece ter aberto uma janela para que Scadrial se integre verdadeiramente à Cosmere.  Tínhamos pistas aqui e ali, claro, mas agora as coisas foram realmente postas no papel. Reencontramos Marsh. Sazed/Harmonia conversa diretamente com Wax através de seu brinco, assim como Ruína havia feito com Vin. No mapa que antecede o início do texto, vemos marcações realizadas por Nazh, personagem de outras histórias cosméricas. Definitivamente, Sanderson começa a amarrar os leitores de Mistborn a uma narrativa mais ampla, muito mais próxima de sua visão pessoal sobre, ciência, religião e humanidade.

Esfrego as mãos: as coisas estão começando a ficar ainda MAIS interessantes. Como se isso fosse possível…

 

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