A Longa, Maravilhosa, Estupenda e Inebriante Viagem a um Pequeno Planeta Hostil (+SORTEIO)

Veio pelo sorteio? Ele está logo ao fim deste post. Mas dá uma lidinha na resenha, vai… ;)

Farei o possível – Lázaro deseje-me forças – para manter esta resenha livre de grandes spoilers. Não que eu me importe com eles (o TBS nasceu como um blog para debater a fundo o enredo dos livros) mas porque preciso ter a certeza de atingir o máximo possível de pessoas: eu quero te convencer a ler A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil. 

Este livro é necessário. Nós precisamos dessa leitura, ainda que você não saiba disso. Bem, eu precisei. 

Fonte: DarkSide – Reprodução

O livro de estreia de Becky Chambers, originalmente publicado em 2014 através de financiamento coletivo, está até hoje fazendo barulho. Virou série (ainda que cada volume funcione bem como uma história única), ganhou prêmios e, finalmente, veio parar no Brasil pelas mãos da DarkSide. 

Tudo o que eu sabia sobre ele quando virei a primeira folha, era de que se tratava de uma ficção científica, de que teríamos naves, alienígenas e uma garota humana viajando pelo espaço. Era uma boa perspectiva, mas nada de outro mundo. Imaginei que encontraria uma boa aventura, uns paralelos inteligentes, quem sabe umas piadas. 

Nada poderia me preparar para o que encontrei.  

A começar pelo título, que não poderia ser mais acertado: a tal viagem para o pequeno planeta hostil trata-se apenas de um pretexto. Seguindo aquele ditado famoso, Chambers ensina que mais importante que o destino é aproveitar a jornada. É aproveitar o momento e apreciar as singularidades do universo. Aliás, se formos pensar bem, nossa protagonista é apenas um pretexto. 

A chegada de Rosemary Harper à Andarilha, nave de perfuração espacial à serviço da Comunidade Galáctica, serve apenas como um marco para que possamos acompanhar o cotidiano da tripulação. Não há protagonismo exclusivo aqui, todos são protagonistas à sua maneira. Ou, melhor dizendo, a tripulação forma o personagem central, esse ser plural e multifacetado. O coração da Andarilha. 

E nossa, que personagens incríveis. Não tenho muito a reclamar em relação a nenhum aspecto da escrita da Becky: cenários, universo, diálogos, condução de cena…tudo é bom. Mas é na construção dos personagens que a autora realmente deixa sua marca.  

Rainha absoluta. Fonte: Momentum Saga – Reprodução

É impossível não amá-los. É impossível não reconhecer seus defeitos, seus medos e virtudes. É impossível não se sentir um pouquinho como eles ao menos em algum momento do livro. Porque uma das coisas mais legais dessa história é que ela não resume ninguém aos seus estereótipos. A tripulação da Andarilha é complexa: não existe o mau, o engraçado, o forte. Todo mundo é um pouquinho de cada coisa quando precisa ser, quando a situação pede. São humanos. São os alienígenas mais humanos que já conheci. Essa multiplicidade de características torna a gente ao mesmo tempo muito próximo e muito distante de cada um deles: um exercício constante de empatia. 

Dizem que para ter empatia, a gente precisa se reconhecer no lugar do outro.

Cada personagem traz coisas familiares. Como garota de TI, compreendo Jenkins, compreendo Kizzy e sei como é esse sentimento maluco de triunfo que se espalha pelo peito quando conseguimos colocar uma máquina pra funcionar. Me identifiquei com as experiências de jardinagem de Dr. Chef. E, obviamente, me apaixonei pelas manias e excentricidades de Corbin. Tenho um fraco por personagens socialmente inaptos e ranzinzas (vide Mr. Norell). 

Mas, ao mesmo tempo, cada personagem traz um espectro novo para ser analisado. Temas considerados tabu são tratados com leveza, sensibilidade e muita verdade por Becky Chambers, que consegue condensar tudo isso de forma orgânica: A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil é um livro representativo porque é verdadeiro, porque é um retrato inclusivo de nossa própria espécie naturalmente diversa. Ainda que estejamos travestidos de alienígena de seis patas. 

“- Ah, esses humanos…”, disse Sissix para Dr. Chef.  – Eu separei uns minutos para surtar. E você?
– Óbvio que sim -, disse Dr. Chef, entregando um lenço limpo para Rosemary. – Depois de medicar Ashby e ativar os robôs, me tranquei na minha sala e passei uns dez minutos gritando.”

Fonte: Jennifer Hawkyard – Reprodução

Sabe, a bem da verdade, a obra nem precisaria ser apresentada como um romance independente. O projeto respira esse ar alternativo: ele tem a cara subversiva da internet. Becky conversa com seu público com a irreverência e o palavreado de uma história surgida no submundo, nos recantos mais escondidos da cultura geek online. É como se a autora, que é filha de cientistas espaciais e muito fã de Star Trek, tivesse atualizado o imaginário sci-fi para uma linguagem mais moderna, adaptando-o a uma geração que conversa através de memes, de contas no Tumblr. Becky Chambers é uma coisa completamente nova. 

E uma das partes mais bacanas é o otimismo e a positividade que seu texto nos passa. Becky não se engana: o mundo é mesmo cheio de merdas. Mas, ainda assim, ela consegue criar na Andarilha o espaço seguro e acolhedor que todos nós gostaríamos de experimentar. Viver em sociedade sempre é um desafio (até mesmo nossa tripulação modelo briga de vez em quando), mas quando se tem boa-vontade para ouvir e respeito pelas necessidades alheias, as coisas fluem.  

Novamente, não quero soltar nenhum spoiler, mas acho que boa parte das minhas reflexões favoritas pertencem à Sissix, a piloto aandriskana cuja cultura é uma das mais diferentes em relação à nossa. É tocante a forma como, capítulo a capítulo, vamos nos desapegando de nossas crenças e entendendo como ela funciona. E é bonito. É diferente do que temos aqui na Terra, mas é bonito pra caramba. Tudo porque, ao criar o link da empatia, nos permitimos observar a realidade através de seus olhos alienígenas, de seus sentimentos. E sei que estamos falando sobre raças desenvolvidas em galáxias distintas, mas façamos o paralelo: o quanto somos abertos a enxergar, verdadeiramente, realidades diferentes das nossas? 

“Rosemary se lembrou de quando tinha quatro anos e viu um harmagiano pela primeira vez e não havia conseguido parar de olhar para os tentáculos onde seu queixo deveria estar. Era estranho estar do outro lado.”

Outra coisa que volta e meia martelava na mente durante a leitura era minha completa admiração pelo comprometimento da tripulação com o bom funcionamento da nave e da missão. Era algo que ia além de ser o emprego deles, de ter dinheiro na jogada ou de, caso alguém pisasse na bola, sempre ter o risco de a nave explodir. Não. Era um comprometimento maior, um tipo de orgulho compartilhado. A tripulação funcionava com um organismo, eles prezavam pelo bem-estar dos companheiros e todo mundo ali estava realmente dando seu melhor. 

A adaptação de Rosemary a esta nova realidade é fascinante de acompanhar. Seus colegas de trabalho passam a ser seus amigos. De amigos, formam uma família. Meio desengonçada, meio esquisita, com umas brigas aqui e ali, mas rica e divertida e amorosa como toda boa família deve ser. Eu duvido que alguém possa ler A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil e não sentir vontade de fazer parte de tudo aquilo.   

Fonte: LitStack – Reprodução

O que me levou à conclusão de que Ashby é um dos melhores líderes que já vi. Não do ponto de vista heróico, estilo William-Wallace-correndo-colina-abaixo, mas do ponto de vista temos-um-trabalho-que-precisa-ser-feito. Ashby é o melhor gerente de projeto que eu já vi.  

E não é que ele tenha uma boa formação enquanto chefe (seus relatórios são um horror), mas sim porque ele tem um bom faro para pessoas. Ele sabe compreendê-las, identificar os perfis capazes de cooperar com tolerância. E sobretudo, sabe como engajar seus funcionários, de modo que a Andarilha seja um projeto comunitário, abraçado com igual fervor por todos. Ninguém está ali pelo pagamento ao final do mês. 

Parte dessa magia é conquistada pelo fato de Ashby ser capaz de delegar tarefas e confiar na opinião e no trabalho de seus comandados. Meio que as pessoas prosperam quando se sentem levadas a sério.  

Lembro de ter lido, durante o mestrado, um estudo sobre liderança que fazia analogia com a Missão Apollo e que infelizmente não sei como achar. Mas basicamente, o autor do estudo defendia a ideia de que uma equipe de especialistas não é necessariamente uma equipe mais forte. O ego e a inflexibilidade pesarão na balança. Para esse estudo, valia mais a pena apostar em perfis diversos, com diferentes expertises e áreas de atuação, o que criaria um ambiente propício à colaboração: os integrantes de times heterogêneos sabem que precisam da opinião uns dos outros, além de valorizar suas próprias ideias. 

Andarilha é um exemplo claro disso. 

Fonte: Tumblr – Reprodução

Bem, e quando eu achava que o livro já ia muito bem, eis que chegamos à parte final do livro: BUM.  

Que final. Que escrita capaz de revirar as suas entranhas e te deixar roendo as unhas de tensão, e te fazer rir e te fazer chorar, tudo isso ao mesmo tempo. 

Não me envergonho de dizer que chorei como uma criancinha ao virar a última página, e que chorei mais ainda ao ler, nos apêndices do livro, a mensagem de Becky Chambers a seus leitores. De certa forma, este livro foi quase terapêutico. 

“- Dormi muito mal, tive um pesadelo atrás do outro, e quando finalmente consegui pegar no sono, meu alarme tocou, então o dia já tinha começado idiota, mas aí eu pensei: ‘Ah, ainda tenho uns bolinhos de geléia’, o que me animou um pouco, mas quando cheguei na cozinha, alguém tinha comido o último ontem à noite. E nem me pediram, sabe? E eu ainda nem sei quem foi. Aí fui tomar um banho e bati o joelho na pia, porque sou um gênio, e agora ele está todo roxo, e na hora eu estava com um monte de dentibôs na boca e acabei engolindo alguns. Dr. Chef disse que não tinha problema, mas fiquei com dor na barriga, que nem ele disse que ia acontecer, aí finalmente fui tomar o meu banho idiota e reparei que a pressão da água estava meio esquisita, então fui dar uma olhada no sistema de tratamento, e deu para ver que tem um cano inteiro com problema, mas ainda não consegui encontrar qual é, e agora o chão está uma bagunça e ainda nem comecei as coisas que tinha pra fazer hoje, daí me lembrei que é aniversário do meu primo Kip, que sempre dá as melhores festas, e dessa vez eu vou ficar de fora. – Kizzy fungou de novo. – Eu sei que parece idiota, mas não estou bem hoje. Nem um pouco.
Ashby pôs as mãos sobre as dela.
– Todo mundo tem dias assim.”

Então, se eu ainda não te convenci com palavras bonitas a ler essa obra prima do século XXI que é quase um ode à tolerância, vou tentar apelar para o seu instinto consumista: cê já parou pra reparar o quão bonita é essa edição? Acho que foi um dos projetos gráficos mais bonitos da DarkSide, que acertou ao manter a capa gringa e ainda conseguiu melhorá-la. Não canso de ficar girando o livro de um lado para outro, vendo as estrelinhas brilharem, lembrando da história. 

Que história. Que história. 

Fonte: Tumblr – Reprodução

 

Ok, não consigo, preciso comentar uma única coisinha. Se você está lutando contra spoilers, pule este parágrafo e vá direto ao sorteio. Última chance, ok? Estou falando sério. Seríssimo. Tudo bem por sua conta e risco: eu não gostei da Pei. Não sei dizer exatamente o que não funcionou com ela, talvez tenham sido minhas expectativas iniciais de que Ashby e Rosemary iriam formar um casal (e putz, ainda bem que não viraram, porque a alternativa com Sissix foi INCRÍVEL e muito melhor), mas eu não consigo gostar da Pei como personagem. A cada página, ficava esperando ela se revelar como uma grande vilã… 

*****

Tá, muito legal, mas e o sorteio?

Para concorrer a um exemplar novinho, lindo e cheiroso, basta completar as ações do formulário Rafflecopter abaixo.

Para quem não conhece o sistema do Rafflecopter, a coisa funciona mais ou menos como um sorteio de rifas. Cada ação vai te dar um número diferente de rifas para participar, e não é necessário fazer tudo o que está no formulário. Você decide. Porém, embora uma única rifa já garanta sua participação no sorteio, quanto mais delas você tiver, maiores as chances de ganhar.  ;)

O vencedor será anunciado na fanpage no dia 31 de outubro, em pleno Dia das Bruxas. Caso não consiga entrar em contato com o ganhador em 48h, outro participante será sorteado.

a Rafflecopter giveaway

Não quer depender da sorte? Bem, sempre dá pra comprar o livro através deste link (http://amzn.to/2yXRtUh) e ajudar o TBS a crescer. ;)

TBS entrevista: Gail Carriger
E esse tal de New Weird? Relato de uma leitora de fantasia

Comentários:

Loading Facebook Comments ...