A maldição do primeiro capítulo

Não importa se você está escrevendo um livro, uma crônica, uma redação ou aquele cartão de Natal pros parentes. A pior cena de horror para qualquer escritor é sempre a mesma: a maldita tela em branco. O cursor piscando sem parar no cantinho da folha, desafiando sua capacidade de começar.

Você se prepara, limpa a mesa, alonga os braços, bebe um copinho d’água e digita a primeira palavra. Não, melhor apagar. Depois de pensar por uns cinco minutos, resolve finalmente escrever uma frase completa. Mas não sei, essa frase não tem o impacto que você estava procurando… Melhor apagar também. Pelo visto, apesar de a história estar toda na sua cabeça, aquilo que irá tirar seu sono será mesmo o parágrafo inicial.

E o cursor continua ali piscando, rindo da sua cara.

Maldito! - Fonte: http://www.functionx.com/word/Lesson03.htm - Reprodução

Maldito! – Fonte: http://www.functionx.com/word/Lesson03.htm – Reprodução

Mas afinal, porque é tão difícil vencer a maldição do primeiro capítulo? E porque as palavras que iniciam uma história são tão importantes?

O fato é que o primeiro capítulo de um livro é um de seus momentos mais críticos. Como no começo o leitor ainda não possui vínculo com os personagens e o enredo (não tendo aquela obrigação moral de avançar a leitura ou pelo menos curiosidade de saber como termina), as primeiras páginas possuem a responsabilidade de motivar os leitores. Elas precisam dar aquela maravilhosa sensação de “opa, essa vai ser uma boa história”. E isso é extremamente complicado.

Principalmente para quem está pensando em publicar junto à uma grande editora. Com o número gigantesco de manuscritos enviados diariamente, é impossível que os editores leiam cada um dos livros. São as primeiras páginas que separam o joio do trigo e selecionam aqueles que vão valer o tempo do editor. Quem pretende se lançar comercialmente não pode se dar ao luxo de um primeiro capítulo fraco, mesmo que seu enredo seja espetacular: ele corre o risco de nunca ser lido.

Mas calma, você não está sozinho. Em “Hooked: Writing Fiction That Grabs Readers At Page One and Never Lets Them Go”, o badalado livro de Les Edgerton, o autor cita quatro dicas que podem ajudar a criar um bom início.

1 – Introduzir a problemática da história

Segundo Edgerton, esse deve ser o maior objetivo do escritor. Se você não tem um enredo que valha uma história, então sua história não tem muita chance de fazer sucesso. A maior parte dos livros consiste de personagens tentando resolver uma problemática. E por problemática, entenda qualquer coisa que complique a vida dos seus protagonistas. Não precisa necessariamente ser um caso de vida ou morte. Uma problemática pode ser um passeio em família e funcionar muito bem (alguém já assistiu Pequena Miss Sunshine?).

A problemática pode ser de qualquer jeito, desde que seja boa. Fonte: Tumblr - Reprodução

A problemática pode ser de qualquer jeito, desde que seja boa. Fonte: Tumblr – Reprodução

Mas não entregue logo a cereja do bolo. Os primeiros parágrafos do livro devem conter cenas que mostrem apenas a superfície do problema, para que o leitor se situe e tenha curiosidade de entender as coisas mais a fundo. Enquanto isso, a problemática deve ir se tornando gradualmente mais complexa. No entanto, o leitor deve ter pelo menos uma ideia do que o protagonista terá de enfrentar.

“É verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro em posse de boa fortuna deve estar necessitado de esposa.” Orgulho e Preconceito, Jane Austen

“Ninguém põe fé que uma menina de catorze anos possa sair de casa e viajar em pleno inverno para vingar a morte do pai, mas na época não pareceu tão estranho, embora eu deva reconhecer que isso não acontece todo dia.” Bravura Indômita, Charles Portis

2 – Prender os leitores

Um bom “gancho” para os leitores é qualquer coisa que o intrigue a tal ponto de precisar virar a página. O jeito mais seguro para conseguir isso, de acordo com Edgerton, é criar uma cena onde um incidente mude radicalmente o universo do protagonista. Olha só a primeira frase, bem sutil, do clássico A Metamorfose, de Kafka:

“Certa manhã, após um sono conturbado, Gregor Samsa acordou e viu-se em sua cama transformado num inseto monstruoso.”

É difícil não querer continuar lendo depois disso. Mas existem várias outras maneiras de chamar a atenção do leitor. Muitos autores utilizam citações de obras famosas e grandes pensadores, que se encaixem com o clima do enredo.

Outros, simplesmente testam a curiosidade do leitor, falando sobre algo que eles não fazem a mínima ideia do que seja, mas que soe como algo fantástico.

“Numa toca no chão vivia um hobbit.” O Hobbit, J.R.R. Tolkien

Também é possível fazer uso do humor ou simplesmente criar o que chamo de “clima preparatório para contar histórias”. Que é quando o autor nos faz sentir como criancinhas, avidamente esperando pelo próximo conto de fadas. Mas, diferente do clichê era-uma-vez, o clima preparatório para contar histórias cheira mais como um alongamento, um pedido para achar uma posição confortável, porque a magia vai começar. Sabe onde você pode encontrar uma frase inicial assim?

“O Sr. e Sra. Dursley, da rua dos Alfeneiros nº4, se orgulhavam de dizer que eram perfeitamente normais, muito bem, obrigado.” Harry Potter e a Pedra Filosofal, J.K. Rowling

3 – Estabelecer as regras do enredo

É aqui que você explica para o leitor que tipo de livro ele tem em mãos. E a palavra-chave é consistência. Os capítulos iniciais já devem ser capazes de identificar o tom da história (sombrio, humorístico, intimista…) e qual gênero você pretende seguir (romance, ficção científica, terror…). Por isso é importante escolher bem as palavras e a construção das cenas.

Você escolhendo palavras. Fonte: Tumblr - Reprodução

Você escolhendo palavras. Fonte: Tumblr – Reprodução

De acordo com este artigo do The Beginning Writer, é crucial que, após a leitura dos primeiros parágrafos, o leitor seja capaz de responder as famosas perguntas:

Quem? – Introdução de personagens, com descrições o suficiente para criar empatia com o leitor. Julia Quinn faz isso muito bem através de prólogos, onde explora a infância dos protagonistas. Quando o livro realmente começa, já os consideramos como amigos de longa data.

O que? – Descrição da situação. Refere-se ao primeiro ponto discutido por Edgerton, sobre a necessidade de introduzir uma problemática.

Onde? – O leitor deve ser capaz de imaginar o ambiente onde o enredo se desenrola. É preciso ter cuidado para não tornar as descrições cansativas ou excessivas. Muitas vezes não precisamos de tantos detalhes, e podemos intercalar descrições com diálogos e cenas de ação. Por fim, é sempre bom variar as percepções sensoriais (não descreva apenas como um lugar se parece visualmente, utilize também olfato, tato ou audição).

Quando? – É importante que o leitor saiba onde a história se passa no tempo. Estamos falando sobre o passado de um personagem? O livro fala sobre um futuro distante ou um ano específico da Idade Média? A época do ano e as estações são relevantes para o seu tema?

4 – Prever o final da história

Não, não se trata de contar como será o fim do livro já nas primeiras linhas. Apenas que, muitas histórias de sucesso dão pequenas pistas do que podemos encontrar no fim da narrativa, de que nível de adrenalina devemos esperar para nossos protagonistas. Fico me perguntando se o sugestivo título “O menino que sobreviveu”, do primeiro capítulo de Harry Potter, não seja justamente o que Edgerton estava querendo dizer. Só com esse título, já visualizamos uma criança precisando lidar com algum tipo de perigo mortal.

Ele também destaca a importância de manter a história cíclica, contida. O enredo deve começar no lugar certo, e não deve ser uma cena aleatória. Ela deve ter um propósito muito bem definido, que comece o direcionamento do livro até o ponto culminante do desfecho. Se uma cena não possui nenhuma relevância para o seu final, ela provavelmente não será um bom início.

A escritora americana Joyce Carol Oates, indicada mais de uma vez ao Pulitzer, já dizia: a primeira sentença não pode ser escrita antes que a última sentença esteja escrita.

Fonte: Buzzfeed - Reprodução

Fonte: Buzzfeed – Reprodução

Por isso é importante não enxergar o início de um livro como algo estático, um pilar da história. Pense que ele pode ser alterado quando necessário, sempre que você sentir que o enredo se distanciou do clima criado pelos primeiros capítulos.

E pra quem se interessar, aqui tem uma lista (em inglês) com 100 das melhores frases iniciais da literatura.

Viu como tudo parece mais fácil agora? #sqn

Amanhã eu escrevo essa porcaria de capítulo. Fonte: Tumblr - Reprodução

Amanhã eu escrevo essa porcaria de capítulo. Fonte: Tumblr – Reprodução

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