A Mitologia Nórdica de Neil Gaiman

“É tão difícil escolher um universo favorito de lendas e mitos quanto se decidir por um prato favorito (em algumas noites queremos comida tailandesa, em outras, sushi, e às vezes só conseguimos pensar na comida caseira e simples da nossa infância). Mas, se eu tivesse que escolher um, provavelmente seria o dos mitos nórdicos.”

Fonte: northmen-themovie.com – Reprodução

Eu tento manter uma ordem de precedência entre os livros que trago para a estante. Sempre juro que lerei os mais antigos antes dos mais novos, para que não fiquem lá abandonados, muitas vezes ainda reclusos em suas embalagens plásticas. Mas como acredito piamente em receber histórias no exato momento em que estou precisando escutá-las, vira e mexe dou de ombros e acabo jogando a ordem de precedência para o alto.

As últimas semanas foram bem complicadas por causa de problemas de saúde na família (tudo ok agora, galera), então fiquei sem cabeça para leituras grandes e que demandassem comprometimento. Também sentia vontade de ter contato com algum autor querido, daqueles que confortam como um sofá quentinho e velho conhecido. Em resumo, eu precisava de um livro que fosse o supra-sumo da leitura por lazer.

Ao mesmo tempo, a mitologia nórdica teve um boom maravilhoso recentemente, com muitos holofotes apontados para a sua cara graças ao seriado Vikings e aos anúncios do novo filme do Thor, da série de Deuses Americanos e do romance Abominação, de Gary Whitta. De repente, todo mundo queria saber mais sobre o que acontecia entre os nove mundos da Yggdrasil. E eu estava amando esse fenômeno.

Dito isso, fica fácil entender porque Mitologia Nórdica me conquistou tão rápido e porque chegou da livraria já passando na frente de tudo e de todos. Era Gaiman me contando histórias curtas e descomplicadas, que continham a alma da mitologia que me fascinava.

Sempre amei o paganismo nórdico. Não tanto pelos deuses, afinal, a maior parte do panteão de Odin é composto por grandissíssimos filhos da p*** (e por isso sempre vou preferir os Vanir aos Aesir), mas sim pelo modo como os fiéis se relacionam com suas entidades divinas.

Fonte: The Conversation – Reprodução

Os deuses de Asgard são respeitados. Ponto. São reconhecidos, algumas vezes reverenciados e até mesmo temidos… mas não são adorados. Não são o ponto alto da existência de ninguém, ainda que os nórdicos devam a Odin, Pai de Todos, o dom da vida.

Na verdade, você pode até mesmo não ir com a cara dos seus deuses, pode odiá-los e apontar seus defeitos. Ainda assim estará tudo bem, porque eles são mesmo imperfeitos. No paganismo nórdico, homens e deuses estão quase em pé de igualdade, cada um no seu nicho, claro, mas ambos com virtudes, defeitos e pecados. E acho que quando você consegue enxergar o divino em parceria com o mundano, coisas interessantes acontecem.

Já havia comentado na resenha sobre O Último Reino como a criação do personagem Uhtred em meio aos dinamarqueses é absurdamente diferente da que encontra quando está entre os cristãos. É como se, ao manter seus deuses abaixo da linha inatingível da santidade, os nórdicos aceitassem que o bom mesmo é cada um cuidar da sua vida e deixar que o universo siga numa sucessão de ações e consequências que não são nem boas nem más, apenas favoráveis ou desfavoráveis a depender de que lado da espada você está segurando. Um dos maiores exemplos disso é Loki, um deus que jamais poderia ser equivalente a um demônio, já que, apesar das inúmeras maldades e brincadeiras de mal gosto, é um cara que vive salvando o pescoço de todo mundo.

“Thor sempre tomava as mesmas atitudes quando algo dava errado. A primeira era se perguntar se era culpa de Loki. Thor pensou. Achava que nem mesmo Loki ousaria roubar seu martelo. Então fez o que sempre fazia quando alguma coisa dava errado e a primeira ideia não era a solução: foi se aconselhar com Loki.”

Loki. Fonte: @ladyavali DeviantArt – Reprodução

Enxergar a intervenção divina como amoral é tentar compreendê-la como parte da natureza. A natureza é amoral. Ou você nunca se pegou triste pelos filhotinhos de zebra que as leoas caçam?

É importante ter em mente que amoral não é o mesmo que imoral. Amoral indica apenas a falta de moral: a justiça é uma invenção dos seres humanos. E claro que não estou dizendo com isso que a justiça não deva existir (ela deve!), mas dessa forma os nórdicos puxavam para si a responsabilidade de fazê-la acontecer, e todo mundo era dono da própria justiça. Seus deuses nem sempre sabiam o que era melhor para você, frequentemente estragavam tudo e quase sempre estavam mais preocupados com as próprias vidas do que a de seus fiéis. Então você meio que estava sozinho nessa…

Nem parece algo importante, mas este modo de encarar a fé traz consigo poderosas mudanças: maior grau de liberdade sexual e de gênero, ausência de dogmas (afinal, quem vai julgar o comportamento do outro quando um de seus deuses mais poderosos engravidou de um cavalo?) e a exaltação dos prazeres mundanos, da abundância e felicidade ainda em vida, da celebração do ser humano no tempo presente.

Essa é uma tendência que noto no paganismo de modo geral (os celtas, por exemplo), mas que atinge seu ápice na mitologia nórdica. Ora, ninguém sabe ridicularizar suas próprias deidades tão bem quanto eles.

Transmitidos através de histórias contadas de forma oral, os mitos nórdicos perdem sua aura divina e transmutam em conversas de mesa de bar. Afinal, era compartilhando as aventuras de seus deuses que os nórdicos passavam o tempo, bebendo e banqueteando em torno de fogueiras, rindo das loucuras do universo. Ao invés da pregação atenta de princípios morais, tínhamos a incrível piada sobre como Odin criou a poesia ruim a partir de um peido molhado.

Sim. Um peido molhado. Do maior deus do panteão.

(Se não acredita em mim, segue a ilustração de um manuscrito islandês do século XVIII. Apesar de muitas traduções terem “suavizado” o fato, acredito não restar muitas dúvidas sobre o que são essas gotinhas marrons que caem da cauda de Odin em sua forma de águia…)

Fonte: en.wikipedia.org/wiki/Mead_of_poetry – Reprodução

Eu não consigo visualizar uma religião mais irreverente do que essa. E aí fica óbvia a fascinação de Neil Gaiman, um cara que coloca anjos bibliotecários e demônios fãs do Queen para conviver no mesmo livro. Esse é exatamente o seu estilo: enxergar a profundidade das coisas do dia a dia, do mundanamente divino. Gaiman é um cara capaz de visualizar alguém que é ao mesmo tempo poderoso, sábio e intimidador, mas que também tem dor de barriga.

(Claro que nem tudo são flores. A banalização da violência é algo que sempre me choca nessas lendas, não tanto pelos atos praticados – quantas religiões não são pautadas por episódios de violência, né mesmo? – mas principalmente pela riqueza de detalhes e desapego ao valor da vida: porque diabos Loki precisaria ser amarrado com os intestinos do próprio filho? Gente, bora ver isso aí…)

Bem, não tinha muito como esse livro sair errado. A única coisa que estranhei é que Gaiman parece ter refreado um pouco a mão na hora de apropriar-se das lendas. Embora aqui e ali ele coloque passagens claramente suas, o autor tenta ser o mais preciso possível, respeitando os (poucos) registros que existem acerca da mitologia nórdica: a Edda em prosa e a Edda em verso.

Com a influência de outras culturas, muito da mitologia se perdeu. Fonte: Youtube – Reprodução

Muito do que conhecemos hoje sobre os nórdicos é um material filtrado e interpretado por diversos cérebros diferentes. Esse é o lado ruim de se ter uma cultura transmitida no boca a boca: ninguém sabe realmente como era a história original. E pode ter certeza de que muita coisa foi distorcida ou silenciada (até essa visão que tenho sobre os nórdicos pode ser fruto da romantização criada em livros e filmes, certo?).

O fato deve ter pesado na decisão de Gaiman. Talvez ele quisesse repassar uma versão “pura”, para que os leitores conhecessem o que realmente se sabe sobre a mitologia, para que só depois pudessem se apropriar das lendas. Isso faz sentido com o seguinte trecho do prefácio:

“Essa é a graça dos mitos. A diversão vem de contá-los você mesmo, algo que o encorajo veementemente a fazer, leitor. Leia as histórias deste livro, depois se aproprie delas e, em uma noite gelada de inverno – ou em uma noite de verão em que parece que o sol não vai se pôr nunca -, conte a seus amigos o que aconteceu quando o martelo de Thor foi roubado, ou como Odin obteve o hidromel da poesia para os deuses…”

Neil Gaiman. Fonte: Los Angeles Times – Reprodução

Fato é que a decisão de Gaiman fez de Mitologia Nórdica um livro bem simples de ler. Os contos são rápidos, com diálogos diretos e quase nenhum rebuscamento, apenas fatos. Gaiman também fez um ótimo trabalho ao selecionar as histórias e colocá-las em ordem, pois, apesar da aparente falta de conexão, os contos conseguem passar a ideia de sucessão, de um encadeamento de ações que levará ao Ragnarök: o fim de todas as coisas.

Talvez por isso eu não tenha gostado muito da review que a Ursula Le Guin publicou sobre o livro no The Guardian, embora ela seja alguém cuja opinião sempre respeito.

Para Le Guin, Gaiman pecou ao “tentar domesticar uma fera”. Em sua opinião, o panteão nórdico é trágico demais, indomável demais para o tom amigável e irreverente que permeia todo o livro.

“Os mitos nórdicos são expressões narrativas de uma religião profundamente estranha para nós. Judaísmo, Cristianismo e Islamismo são comédias divinas: pode até haver punição para os perversos, mas a promessa de salvação é mantida. O que nós temos dos nórdicos é o fragmento de uma tragédia divina. Promessas vagas de um mundo melhor após o Fimbulwinter e o apocalipse final não são convincentes; não é por esse caminho que a história vai. Ela vai inexoravelmente do nada para a noite. Você não pode simplesmente virar amiguinho desses gigantes brutais e deuses autodestrutivos. Eles são trágicos até os ossos.”

Fonte: @americanvendetta DeviantArt – Reprodução

Mas aí que está a questão. O apocalipse nórdico é trágico dentro da nossa cultura, onde o fim é temido, onde a batalha é considerada algo ruim. Eu não consigo enxergar como um povo que flerta tanto com a violência pode encarar a morte e o fim da mesma forma que nossa civilização. Para os povos nórdicos, principalmente os vikings que pilhavam aldeias, aquela deveria ser a piada final do universo, a prova incontestável de que é preciso aproveitar o presente e não levar seus deuses tão a sério. Pessoas que criam lendas como essas não me parecem o tipo de gente que pensa muito no que há depois da morte: a promessa de um salão aquecido e boa cerveja já é suficiente.

Tanto que a questão da inevitabilidade é bastante trabalhada em vários dos contos. Por exemplo, ao saber que Fenrir viria a ser seu inimigo no futuro, Odin, em sua ânsia de remediar a situação, acaba por criar os acontecimentos que de fato levarão o lobo gigante a odiá-lo. Se ficasse quieto, tudo seria evitado? Se não tivesse ouvido a profecia, Odin teria evitado o Ragnarök? Ou o universo é todo uma grande ironia cujo sentido não somos capazes de captar? Na dúvida, melhor aproveitar o que se tem pra hoje.

Fonte: Arthur Rackham – Reprodução

Realmente não acredito que a mitologia nórdica mereça receber essa conotação tão trágica. Ela é viva, ela é engraçada, irreverente, e é uma pena que tenhamos perdido tantas nuances ao longo do tempo. E sei que esse não é um argumento válido, mas gosto da abordagem do Bernard Cornwell em seus livros: os nórdicos são mundanos. Tudo terminará em sangue e morte e bosta de cavalo e suor e cerveja e vingança. E em risadas, e no desafio satírico de fiéis cujo maior herói era um cara grandão que nunca foi dos mais inteligentes. Não é que os nórdicos não temessem a dor e a perda. Mas rir é também um modo de lidar com o medo.

Vamos erguer nossas canecas e fazer um brinde à mitologia nórdica, ao Gaiman e a todas as pessoas que sabem como contar uma boa história ao redor da fogueira. Que nosso mundo fique mais rico e que nossos medos diante dos mistérios insondáveis da vida possam ficar um pouquinho mais leves, graças à lendas como essas.

Para comprar Mitologia Nórdica: http://amzn.to/2oIhJjp
(Utilizando esse link, você ajuda o TBS a crescer.)

Sobre Lobo de Rua e meu encantamento com o tal do lobisomem
Porque Abominação não é nada do que você imagina (+SORTEIO)

Comentários:

Loading Facebook Comments ...