A questão Susana Pevensie

O texto a seguir pode conter spoilers de: As Crônicas de Nárnia. Depois não diga que eu não te avisei…

É bem verdade que ultimamente temos falado muito sobre C S Lewis no TBS (você pode ver aqui e aqui). Parece até marcação com o coitado, e tenho certeza de que os fãs devem estar querendo minha cabeça numa travessa de prata. Mas juro, de pé junto, que gosto do trabalho dele.

“Cartas de um Diabo a seu Aprendiz” é um livro que permite reflexões ótimas. E simpatizo bastante com “As Crônicas de Nárnia” de maneira geral. É com os irmãos Pevensie que tenho alguns problemas.

E hoje falaremos especificamente do desfecho dado a Susana no último livro das crônicas. Um assunto pra lá de polêmico.

Divando na balada e na guerra. Fonte: http://sonicmovie.wikia.com/wiki/Susan_Pevensie e IMDB - Reprodução

Divando na balada ou na guerra. Fonte: http://sonicmovie.wikia.com/wiki/Susan_Pevensie e IMDB – Reprodução

Não é que ele seja um final ruim. Não é que ele seja um final com o objetivo de nos causar mal estar. Acredito que o autor não teve muita intenção. Mas é que existe certa ambiguidade nas palavras de Lewis que permite uma série de conclusões desconfortáveis, que incomodam muitos leitores e escritores de renome.

Vamos analisar o texto:

No capítulo 12 de “A Última Batalha”, sete reis e rainhas se materializam na frente de Tirian, um dos heróis da crônica. Lá estão Pedro, Edmundo e Lúcia (os outros são Jill, Eustáquio, Polly e Digory), mas nenhum sinal de Susana. Sentindo sua falta, Tirian pergunta:

“…a não ser que eu tenha entendido mal as crônicas, deve haver mais alguém. Vossa Majestade não tem duas irmãs? Onde está a rainha Susana?”

Ao que Pedro responde:

“Minha irmã Susana – respondeu Pedro, breve e gravemente – já não é mais amiga de Nárnia.”

Somente a escolha da palavra “amiga” já me parece meio descuidada. Se fosse trocada por “rainha” ou “visitante”, apenas saberíamos que Susana não frequentava mais as mesmas terras mágicas que seus irmãos. No entanto, “já não é mais amiga” deixa no ar um certo ressentimento que nos permite imaginar se Susana não se tornou, quem sabe, uma inimiga de Nárnia. Note que Pedro também fala de maneira “breve e gravemente”, como se não quisesse tocar num assunto dolorido. Pode nem ser nada, mas a gente já liga um sinalzinho mental de alerta.

“É verdade – completou Eustáquio – e cada vez que se tenta conversar com ela sobre Nárnia ou fazer qualquer coisa que se refira a Nárnia, ela diz: Mas que memória extraordinária vocês têm! Continuam no mundo da fantasia, pensando nessas brincadeiras tolas que a gente fazia quando era criança.”

Certo, notamos que Susana cresceu e parou de acreditar no que considera apenas fantasias da infância. É provável que Lewis estivesse apenas querendo dizer que quando um adulto perde seu poder de imaginação, sua capacidade de acreditar no inexplicável, mundos divinos como o de Aslam deixam de existir para eles, apagados de sua memória. Numa metáfora para que continuemos abertos à magia ao longo da vida. Magia, no caso, vista como o divino, já que Lewis era fervorosamente religioso. Crê e serás salvo. Susana é banida de Nárnia porque não é mais capaz de acreditar. Mas a coisa não acaba aqui.

“Essa Susana! – disse Jill. – Agora só pensa em lingeries, maquilagens e compromissos sociais. Aliás, ela sempre foi louquinha para ser gente grande.”

Opa. Aquele nosso alerta mental apita novamente. Então quer dizer que Susana não só perdeu sua capacidade imaginativa, mas também está se abrindo para a descoberta de sua sexualidade. Está descobrindo o que significa ser uma mulher dentro de uma sociedade. E isso é associado a um comportamento ruim. Fazendo um paralelo, é a mesma história de Wendy em Peter Pan: a única garota que quer crescer e sair da Terra do Nunca por causa de suas “coisas de menina”. J K Rowling se pronunciou certa vez sobre o assunto:

“There comes a point where Susan, who was the older girl, is lost to Narnia because she becomes interested in lipstick. She’s become irreligious basically because she found sex. I have a big problem with that. (Chega um ponto onde Susana, que é a garota mais velha, está perdida para Nárnia porque começou a se interessar por batom. Ela se torna irreligiosa basicamente porque descobriu o sexo. Eu tenho um enorme problema com isso.)”

Pois é. Essa é uma conclusão do leitor, já que não se pode acusar Lewis de realmente ter escrito que mulheres adultas são banidas de Nárnia porque só pensam em “frivolidades”. Mas o fato de que conclusões como essa sejam plausíveis já é motivo para refletir. E convenhamos, a gente sente mesmo uma estranheza quando lê esse trecho do livro.

Por um lado, Lewis nos apresenta protagonistas femininas revolucionárias para a época. Elas participam de aventuras e criam seus próprios destinos em pé de igualdade com os garotos. Basta ver como é difícil achar mulheres com papéis realmente decisivos em o “O Senhor dos Anéis”, obra do mesmo período. C S Lewis não parece ser do tipo que duvida da capacidade feminina para abrir um pote de azeitonas…

Hermione abre seus próprios potes de azeitona. Fonte: Tumblr - Reprodução

Hermione abre seus próprios potes de azeitona. Fonte: Tumblr – Reprodução

Por outro lado, ele parece ter uma aversão ao mundo adulto, a ponto de generalizar comportamentos. Ficamos com a ideia de que é por causa dos batons, das lingeries e dos compromissos sociais que a garota parou de acreditar no mundo dentro do armário, afinal o livro dá a entender que um adulto só pensa nisso. Pullman também fez suas críticas a essa passagem:

“…Susan is shut out from salvation because she is… beginning to sense the developing changes in her body and its effect on the opposite sex. (Susana é excluída da salvação porque está…começando a sentir as mudanças do desenvolvimento de seu corpo e seu efeito no sexo oposto.)”

Claro que Pullman não ia perder a oportunidade de criticar abertamente uma obra cristã. Mas poxa, crescer também é importante. Ao mesmo tempo em que é admirável manter a criança interior, é de igual relevância buscar a maturidade. O segredo está justamente em balancear as duas coisas. Não devemos visualizar o mundo adulto como algo ruim, ou chato. Ou mesmo que só as crianças podem carregar inocência. A inocência não é perdida por causa de maquiagens ou empoderamento sexual. Acho que Lewis foi bem infeliz em transmitir ao leitor a ideia de que alguns adultos se tornam céticos. Até porque, Susana é apenas a garota mais velha. Pedro tem mais idade. Deveria estar passando pelos mesmos dilemas que a irmã. Estaríamos diante de um problema só de gênero?

Mas calma que depois da gente ficar se sentindo meio encabulado com esse “despejo” da Susana, Lewis ainda continua a história.

No último capítulo, Aslam decide que é chegada a hora de destruir Nárnia. Como no Juízo Final, todas as criaturas amigas de Nárnia irão para o País de Aslam (Paraíso), viver a aventura que ninguém nunca leu. Não me pergunte o que acontece com os não amigos…

No fim de tudo, o leão explica para as crianças que todas as suas fantásticas aventuras, apesar de verdadeiras, estavam mesmo em suas mentes. E arremata:

“Aconteceu mesmo um acidente com o trem – explicou Aslam. – Seu pai, sua mãe e todos vocês estão mortos, como se costuma dizer nas Terras Sombrias. Acabaram-se as aulas: chegaram as férias! Acabou-se o sonho: rompeu a manhã!”

Espere um instante. Entendemos que a família morreu num trágico acidente, as crianças viveram fantásticas aventuras (talvez como um teste) na terra de Nárnia e agora estão sendo salvas pelo ser divino, numa existência de eterna alegria e paz. Um final bem agridoce, ainda mais para a literatura infantil.

Mas e Susana? Ela sobreviveu ao acidente e agora precisa viver sem a mãe, o pai e os irmãos? Ela jamais poderá entrar no Paraíso? Ela falhou o teste para ser amiga de Nárnia?

Ninguém sabe dizer com certeza. Muitos condenam Lewis. Muitos o defendem, apresentando outras interpretações. Diz-se que Susana poderia ter achado outros caminhos para voltar à Nárnia, por mérito próprio. Ela não estaria presente na última aventura simplesmente porque não está morta. E em “O Cavalo e seu Menino”, Susana é retratada adulta e com maturidade sexual, o que pode indicar que Lewis realmente não pretendia associar o banimento ao fato da garota se interessar por maquiagem.

A verdade é que a questão Susana Pevensie continua a gerar debate. O próprio Neil Gaiman, desconfortável com o desfecho, escreveu uma fanfiction onde relata os acontecimentos na vida da garota após o acidente, chamada “The Problem with Susan”. Infelicidade na escolha das palavras, coisa da nossa cabeça ou preconceito de gênero? Embora acredite na primeira opção, acho que a última crônica de Lewis sempre irá me incomodar.

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