A Rainha Vermelha: o Frankenstein de Victoria Aveyard

O texto a seguir pode conter spoilers de: A Rainha Vermelha. Depois não diga que eu não te avisei…

Sabe quando um livro tem uma legião de fãs apaixonados, vai ser adaptado para o cinema, você recebe um monte de recomendações e quando finalmente vai ler…é um balde de água fria? Sabe quando você simplesmente não entende como uma história faz tanto sucesso e começa a se perguntar se é você que está imaginando coisas e enxergando mais caroço do que angu?

É óbvio que prefiro escrever resenhas positivas (eu e toda a torcida do Flamengo), mas tem vezes que não dá. Tem vezes que é mais forte que eu, que as coisas ficam gritando na minha cabeça, implorando para serem ditas.

Fonte: Youtube e capa oficial do livro - Reprodução

Fonte: Youtube e capa oficial do livro – Reprodução

Tudo isso aconteceu comigo ontem, lendo A Rainha Vermelha, romance de estréia da trilogia da Victoria Aveyard. Antes de dissecar o livro e explicar todas as minúcias que me fizeram torcer o nariz pra história, peço desculpas adiantadas aos fãs e relembro que não sou nenhuma crítica especializada, e apenas compartilho minhas opiniões baseadas em vivência e experiência literária. Ou seja, opinião pessoal é bom e a gente respeita: as nossas e também as dos outros.

Pois bem. Uma das primeiras coisas que se escuta quando falamos de A Rainha Vermelha, é que o livro traz uma série de referências a outras histórias famosas.

Calma, calma, muita calma aqui: referências?

Gente, referências é o que Stranger Things fez com Os Goonies, referências é o que George Martin fez com A Guerra das Rosas ou o que a Julia Quinn fez com Cinderela quando escreveu Um Perfeito Cavalheiro. Isso que a Victoria Aveyard fez não é referência, é uma costura. É um Frankenstein literário.

Mare Barrow, nossa protagonista, é uma sobrevivente. Ela vive à margem da lei, cometendo pequenos delitos e negociando com o mercado negro. É responsável quase que exclusivamente pelo sustento de sua família paupérrima, que vive sob um regime autoritário de quase escravidão. Todos em sua cidade são marcados pelos anos de serviço, são magros, envelhecidos, com olhos vazios de esperança. Mare possui uma irmã, Gisa, mais nova, mais bonita e mais prendada, o orgulho da família. Mare também tem uma relação próxima com Kilorn Warren, seu amigo de infância e parceiro de ruas. Todos os anos, jovens são arrancados de suas famílias e arrastados para a guerra, para lutar por uma causa que pouco compreendem. Quando Kilorn e Mare encaram a possibilidade de serem mandados para as trincheiras, os dois começam a delinear um plano de fuga que dará o estopim inicial para o resto da trama. Enquanto isso, grupos rebeldes se escondem em terras abandonada, consideradas radioativas pelos agentes do rei.

Isso te parece familiar? Deve parecer, porque é Jogos Vorazes.

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

Continuemos: numa cartada do destino, Mare, a garota sem perspectiva de futuro pertencente a uma casta considerada inferior pela alta nobreza, vê-se em meio à Prova Real, uma competição onde herdeiras bem nascidas demonstram seus talentos a fim de conquistar o coração (e o anel de noivado) do príncipe Cal. Ao se misturar com a elite de seu país, Mare sente-se constantemente deslocada, sofre preconceitos e ressente-se com o modo mesquinho com que os nobres tratam o restante da população, seu próprio povo. Presenciar essas injustiças diariamente acende o fogo da revolução no espírito rebelde de Mare, e a garota acaba por se envolver em um triângulo amoroso de poder, liberdade e revolução. Suas escolhas poderão mudar de uma vez por todas a configuração de seu reino e as vidas de todos os cidadãos.

Onde foi que eu vi isso mesmo? Ah, é…isso é A Seleção.

Fonte: Tumblr - Reprodução

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Não obstante toda essa problemática, ainda temos o fato de que no universo de A Rainha Vermelha algumas pessoas possuem superpoderes. Os poderes são uma exclusividade dos sangue prateados, os formadores da elite. A nobreza é composta por famílias tradicionais, e cada Casa, além do sobrenome, ostenta também seu próprio poder transmitido de geração em geração. Pessoas com determinado tipo de poder são conhecidas por um nome, como telecs, murmuradores, ninfóides ou lépidos. As Casas competem entre si por controle político e influência junto ao trono, e Mare logo percebe que existem jogos muito mais sutis ocorrendo por baixo dos panos. Tudo muda quando Mare, uma sangue vermelho, descobre não só possuir poderes, mas também que sua força ultrapassa e muito as capacidades fantásticas da elite prata. Ela representará uma ameaça à ordem do reino, ao sistema que coloca os prateados sempre acima dos vermelhos. Mare também agirá como uma agente disfarçada, convivendo como uma dama da sociedade enquanto repassa informações para os rebeldes. Porém, ao se aproximar do jovem herdeiro do trono, começa a perceber que nem todos os nobres são seres desprezíveis como ela mesma imaginara.

Vamos lá, terceira chance. Onde foi que você já viu isso? Se você falou Mistborn, acertou em cheio.

Fonte: Tumblr - Reprodução

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No fim das contas, é como se Victoria Aveyard tivesse pego um caldeirão, enchido de água e acrescentado todos os pedacinhos e ingredientes de histórias de sucesso, temperando com pitadas de elementos que sempre funcionam bem no gênero young adult: triângulo amoroso, realeza, distopia e narrativa em primeira pessoa. Misture tudo em fogo baixo e A Rainha Vermelha se levantará da mesa como um Frankenstein fadado a alcançar os holofotes.

E não gente, isso não é preconceito com os livros young adult. Podem me julgar, mas eu adoro esses triângulos amorosos água com açúcar, adoro ver as protagonistas tocando o terror e fui time Peeta desde os primeiros capítulos. Eu realmente não ligo de ver esses elementos surgindo nas histórias. Mas tudo tem limite, né?

Aí as pessoas me dizem que apesar das referências (se você quiser continuar a chamar de referências), a trama é muito boa, o enredo te prende do início ao fim e os personagens são cativantes. E ok, eu até estaria disposta a deixar de lado esses deslizes se a história de Mare realmente se provasse surpreendente. Se Victoria tivesse reunido todos esses enredos paralelos e levado sua narrativa a um novo nível.

Só que não.

O grande trunfo de A Rainha Vermelha, sua reviravolta sobre as reais motivações de Maven é incrivelmente previsível. Acho que percebi que ele era o antagonista desde sua primeira conversa com Mare.

Fonte: Tumblr - Reprodução

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Porque convenhamos, essa história do caçula que vive à sombra do irmão herdeiro e queridinho do papai que possui todas as qualidades do mundo é algo que a gente acompanha faz tempo nos filmes do Thor. Como se não bastasse, a autora ainda usa de arquétipos nada sutis para diferenciar Maven e Cal: o mais velho tem olhos escuros, é controlado, movido pela honra e filho de uma rainha muito amada, já falecida (tudo que nos lembre a figura de um paladino, de um cavaleiro medieva de caráter inabalável). O mais novo, por sua vez, tem olhos azuis (que a gente instintivamente associa ao frio), é explosivo, sabe manipular com palavras, é mais “fraco” que o irmão e é filho de uma rainha megera que consegue entrar na cabeça das pessoas e trata Mare como lixo. Acho que maior plot twist seria Maven e sua mãe serem os bonzinhos nessa história…

O que me leva a outro incômodo profundo: a esperteza de Mare. Poxa, a menina foi nascida e criada em terreno hostil, tendo que batalhar pela sobrevivência todo santo dia. Mare bate carteiras, analisa perfis e se aproveita da distração alheia para levar a melhor. É de se esperar que ela tenha um mínimo de intuição para desconfiar do excesso de perfeição de Maven, para levar as palavras de Julian em consideração e, principalmente, céus, para ficar mais na cola da rainha Elara. A mulher pode entrar na sua cabeça, criatura!

Porém, Mare não só mostra uma ingenuidade digna da Branca de Neve como também faz questão de repetir para o leitor, a todo momento, o quanto ela estava errada sobre Cal e o quanto Maven é maravilhoso. Outro indício que acaba deixando a parte final do livro bastante previsível (e repetitiva). Mare, eu esperava mais do seu raciocínio. Ainda mais sabendo do ninho de vespas em que estava se metendo.

Fonte: instablah.com.br - Reprodução

Fonte: instablah.com.br – Reprodução

A garota também tem muita dificuldade para lidar com suas decisões, sobretudo as que envolvem a perda de vidas. Novamente, conhecendo as origens de Mare, o mais correto é que ela tivesse um espírito endurecido, capaz de encontrar calma e frieza em momentos de crise. Mas nossa heroína é uma contradição ambulante, que nunca sabe qual lado ajudar e que tem uma visão bastante utópica sobre como funciona uma guerra civil de verdade. Sempre que confrontada, ela foge ou responde com algum comentário irônico digno da hora do recreio.

Kilorn, que é o nosso Gale de Jogos Vorazes só que sem a parte de ser amado, é um personagem interessante. Ele ao mesmo tempo em que serve só como uma desculpa narrativa para que Mare possa viver suas aventuras de modo convincente, é também um dos que mais evolui ao longo do livro. Sem ser de fato um protagonista, Kilorn sai de o garoto órfão que chorava na porta de Mare para um guerrilheiro destemido, disposto a sacrificar a vida pela causa da Guarda Escarlate. E isso seria bem bacana, se a gente ao menos soubesse como foi que isso aconteceu. Porque se em um capítulo Kilorn está lá derramando lágrimas, no outro comunica que vai se alistar na Guarda e no seguinte já é um combatente. Não sabemos o que motivou tal mudança. A única coisa que me vem à cabeça é ciúme de Mare, mas nem isso parece fazer sentido.

Quanto à Guarda Escarlate…ah, a Guarda Escarlate. Imagine uma organização guerrilheira secreta, com bases e armamentos pesados, operando em segredo através de uma intrincada rede de transporte subterrâneo. Pessoas dispostas a tudo para derrubar o sistema tirano que os governa com mãos de ferro. Soldados com treinamento militar, comandantes, estratégias e tudo o que se espera de um bom princípio de revolução.

Agora imagine você que essas pessoas, que estão arriscando tudo por seus ideais, vão confiar o futuro de sua organização nas mãos de um plano que consiste em: a gente invade uma praça que não temos a mínima condição de tomar, enviamos Mare para pagar de sedutora e convencer Cal (aquele que por acaso é completamente atado à honra) a virar a casaca e lutar contra o próprio pai, unimos o exército dele ao nosso e mudamos o mundo. E se tudo der errado, já que o destino de milhares de pessoas está dependendo de um amorzinho adolescente ser forte ou não, a gente simplesmente morre e tenta de novo daqui umas décadas.

Minha reação ao ouvir que iam mesmo colocar em prática esse brilhante planejamento estratégico:

Cês vão mesmo deixar? Fonte: Tumblr - Reprodução

Cês vão mesmo deixar? Fonte: Tumblr – Reprodução

Além disso, não sei de onde tiraram a ideia de que Cal é apaixonado por Mare a ponto de mudar de lado num confronto. Uma coisa seria, sei lá, a Arwen pedir isso ao Aragorn, esse pessoal que já tem uma boa história juntos, sabe? Mas o relacionamento de Cal e Mare limita-se a um roubo de carteira mal sucedido. O garoto pode ter se apiedado da situação dela, pode ter a ajudado e pode até mesmo ter por ela um carinho que evolua para uma grande paixão, mas não a ponto de mudar os rumos de uma guerra. Os dois mal se conhecem.

Dos antagonistas, só gostei mesmo da Rainha Elara, que cumpre bem seu papel de vilã desequilibrada. Evangeline não mete medo em ninguém e eu só consigo visualizá-la como uma versão medieval da Lana Weinberger, aquela menina mesquinha de O Diário da Princesa. O Rei Tiberias, coitado, não faz a mínima ideia de nada que acontece em lugar nenhum e por isso passa a ser mais um personagem em quem queremos dar um tapinha nas costas do que propriamente odiar.

Já Maven, que prometia ser o personagem mais interessante de toda a trama, é um pouco oprimido pelo excesso de vilanização que Victoria Aveyard imprime ao escrevê-lo. Para criar um contraste claro sobre a mudança de personalidade de Maven, a autora coloca tantos maneirismos e expressões maléficas no rapaz que ele só falta mesmo dar aquela gargalhada fatal dos vilões de desenho animado. E o que poderia soar ameaçador acaba soando apenas como um menino mimado, quando temos certeza de que Maven não passa de uma marionete nas mãos habilidosas de sua mãe, a verdadeira vilã de A Rainha Vermelha.

Fonte: Tumblr - Reprodução

Maven e Elara. Fonte: Tumblr – Reprodução

Dito isso, é importante destacar que algumas coisas de fato me agradaram no livro. Admiro, por exemplo, a coragem de Victoria de assassinar a sangue frio diversos personagens e de nos mostrar cenas realmente horrendas, uma decisão que nem sempre é aceita pelos autores de young adult, mesmo quando as mortes são necessárias ao enredo (sabem de quem estou falando, certo?).  

A morte de Tiberias, assassinado pelas mãos do próprio filho é extremamente forte. E acima de tudo temos a execução de Lucas Samos, que é um refrescante ponto alto em A Rainha Vermelha. Lucas é um personagem bom, é um cara querido pelos leitores. E ele não só morre após ter sido manipulado por poderes mágicos (o que portanto o torna inocente de suas acusações), como também morre sem perdoar Mare. Lucas morre sentindo-se traído, injustiçado. Odiando Mare. Achei bacana que a autora não tenha feito nada para mudar esse quadro. É importante que sua heroína aprenda que a guerra é feita de tragédias, de injustiças que não podemos controlar. E que qualquer revolução passará por uma moral controversa. Esperemos que a garota aprenda essa lição.

As cenas de flerte entre Cal e a sangue vermelho também funcionam bem, principalmente quando o jovem príncipe a ensina a dançar. Simpatizei muito com a família de Mare, e com o ressentimento que Gisa carrega. Achei interessante abordar essa rachadura no amor fraternal delas. Gosto de Julian e sempre serei uma fã irremediável de Will Whistle.

E é isso. Por favor não me matem.

Uma fotinho pra cês ficar feliz. Fonte: Tumblr - Reprodução

Uma fotinho pra cês ficar feliz. Fonte: Tumblr – Reprodução

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