A sensibilidade discreta de Reescrevendo Sonhos

Quando peguei o exemplar de Reescrevendo Sonhos nas mãos, senti um friozinho na barriga.

Primeiro porque a Marcia Dantas, autora da obra, é uma amiga querida, o que me permitiu acompanhar todo o processo de lançamento do livro e torcer por seu sucesso. E é claro que isso cria uma responsabilidade extra na hora de fazer a resenha: é preciso deixar o coração de lado e vestir o manto sagrado da sinceridade. Mas não só isso.

Fonte: Detalhe da capa – Reprodução

Para uma pessoa que praticamente só lê fantasia, romance de época e aventura, uma história cotidiana como Reescrevendo Sonhos é um desafio. Como assim não tem mágica? Não tem sangue? Não tem anáguas? Não tem duendes azuis que se escondem no celeiro?

Só que, para a minha eterna surpresa, é justamente esse clima de normalidade, de cotidiano e de rotina que torna Reescrevendo Sonhos um livro tão peculiar.

Nele, acompanhamos a história de Luciana, escritora que atravessa um bloqueio criativo após uma dolorosa tragédia que a fez mergulhar na depressão. Esta mesma tragédia também serviu para alavancar a carreira de Luciana (porque o ser humano tem essa tendência de se interessar pela desgraça alheia), cujos livros estão vendendo como água. A inatividade de Luciana, que não consegue escrever uma mísera linha para aproveitar a repentina onda de seu sucesso, traz receios à Editora Palavra Mágica, preocupação que se intensifica após a autora começar a ter sonhos recorrentes com uma desconhecida de cabelos ruivos e traços marcantes.

Tudo muda quando Bárbara, funcionária da Palavra Mágica, é designada para ajudar Luciana a pegar no tranco e finalmente destravar sua escrita. Além de precisarem lidar uma com a outra e com mais uma série de desilusões pessoais que ambas tentam manter debaixo do tapete,  Luciana ainda terá de tentar compreender um grande mistério: por que Bárbara tem exatamente as mesmas feições da mulher dos seus sonhos?

Logo de cara, a primeira coisa de que gostei foi a metalinguagem do texto. Ora, é um livro escrito por uma mulher que fala sobre uma mulher que escreve um livro sobre um homem que vive a mesma situação que a autora do livro. É literatura sobre literatura! Dá até para aprender uma coisinha ou duas sobre o mercado editorial, embora tenha achado o mundo profissional de Luciana um tantinho utópico em relação à realidade brasileira…

Reescrevendo Sonhos é uma leitura leve e rápida, ainda que trate de temas tão complexos e densos (não é à toa que o livro foi indicado pelo Momentum Saga na lista de 52 livros escritos por mulheres para ler em 2017).  E acho que o grande segredo está justamente em sua abordagem discretamente sensível.

Discreta, porque Marcia é uma observadora das pequenas ações. Aqui cada girada de chave no trinco, cada microondas ligado, cada nano expressão facial conta. A gente pode ter uma cena inteira dedicada a acompanhar uma mulher preparar a janta, verificar emails e ouvir música enquanto faz hora extra pro trabalho. Aqui, a graça é observar o ser humano em seu habitat natural: a própria rotina. Nada de cenas épicas, nada de declarações de amor em ilhas desertas (quantas pessoas passam por isso, afinal?), apenas aqueles pequenos momentos que eu e você já vivemos tantas vezes ao longo da vida. Só que transformados, só que relevantes e até um tanto poéticos.

Fonte: Tumblr – Reprodução

Entra em cena a sensibilidade.

Reescrevendo Sonhos traz um diferencial importante: trata não só da pessoa que sofreu a tragédia, mas também de como esse luto, de como essa depressão interfere e transforma as pessoas ao redor da vítima. A gente tem uma visão bem global de como é difícil lidar com a família, com os amigos, com o trabalho: todo mundo é afetado. Os personagens secundários que rodeiam Bárbara e Luciana são importantíssimos para o livro, possuindo seus próprios desenvolvimentos.

Inclusive, e eu precisava destacar isso em letras maiúsculas, OBRIGADA MARCIA por não tornar Beto, o ex-noivo de Bárbara, um grande babaca. Por fazer dele um cara legal e mostrar que sim, relacionamentos terminam mesmo quando não há um vilão, mesmo quando não existe culpado. E que dá para continuar tendo carinho pela pessoa e ainda assim tocar a própria vida. Achei que o Beto tem um papel mais significativo do que se imagina.

A sexualidade das protagonistas também é abordada com muita naturalidade, exercendo exatamente o papel que deveria: é parte de quem as personagens são, mas elas jamais se resumem a apenas isso. Eu costumo olhar com um pouco de receio a ideia de que as histórias precisam de mais diversidade em seus personagens. Não porque eu ache que não precisam, mas porque tenho medo de que essa inclusão seja feita apenas pelo sentimento de obrigatoriedade. Que essa característica extrapole o ser humano que está por trás daquela bandeira. Não quero ler sobre Fulaninho, o personagem gay. Quero ler sobre Fulaninho, uma pessoa que por acaso também é gay. E que ele encaixe no enredo, e que ele movimente a narrativa, e que ele tenha suas mil camadas de personalidade. Quero ler sobre pessoas.

Reescrevendo Sonhos é muito sobre pessoas.

Fonte: Tumblr – Reprodução

Além do Beto, que já falei lá em cima, a gente também é apresentado pra um monte de gente. Acho que não é só a Luciana que gosta de ficar observando pessoas no café da esquina: a Marcia deve fazer a mesma coisa… Só assim para sair um psicólogo tão bacana, uma irmã tão real, uma mãe temerosa e até aquele colega de trabalho com quem você fala somente no happy hour da empresa.

O livro vai falar de amor, de perda, de amizade, de preconceito, de síndrome do impostor, de pressão e de como é difícil ser honesto consigo mesmo. E quando você perceber, já vai estar envolvido com as personagens e nem vai lembrar que essa não é uma história de fantasia (mentira, ainda acho que tudo ficaria mais interessante caso a Luciana descobrisse que o Jonas é um alienígena capaz de ler mentes).

Pra finalizar, gostei da maneira como o mistério acerca da tragédia de Luciana é revelado. Não é que Reescrevendo Sonhos queira se prestar ao papel de história de detetive, longe disso. As pistas estão lá, a gente inclusive já imagina mais ou menos o que aconteceu. Dá pra pescar nas entrelinhas. Então porque a gente continua chamando de mistério? Porque demora tanto pra o tema vir à tona?

Fonte: Tumblr – Reprodução

É justamente porque somos como Luciana, porque precisamos entender como ela se sente. O mistério da tragédia é a nossa incapacidade de olhar para baixo e encarar a fera do passado dentro dos olhos. Nós precisamos acompanhar Luciana e seu amadurecimento, até que estejamos prontos e fortalecidos o suficiente para processar tudo que lhe aconteceu. Eu já sabia o que era, mas percebi que não queria verbalizar aquela ideia, como se eu sempre tivesse uma esperancinha de que meu palpite estivesse errado. Foi uma forma muito bacana de transportar para o leitor os anseios de uma personagem.

Ah, outra experiência interessante foi ter acompanhado a postagem de Todos os Sonhos do Mundo, prequel que a Marcia disponibilizou para os assinantes da sua newsletter. Eu, toda errada, li primeiro o prequel. E embora não tenha prejudicado muito minha leitura, acho que deve ser bem bacana lê-lo após Reescrevendo Sonhos, para poder voltar e buscar indícios de como era Luciana antes de sua vida virar de cabeça para baixo.

Fonte: Segredos Literários – Reprodução

Bem, só me resta agradecer pela oportunidade de sair da minha zona de conforto, pelo aprendizado e pelas palavras tão quentinhas e humanas.

(Para quem quiser adquirir o livro, a lojinha da Marcia está sempre aberta, além dela ser bastante acessível em seu blog pessoal)

Sobre onomatopeias, Tolkien e os estereótipos da linguagem
Vale a pena ler Julia Quinn?

Comentários:

Loading Facebook Comments ...