A teoria BuUUBA na criação de narrativas

Numa daquelas providências do acaso, coloquei minhas mãos em um exemplar de “Gamification, Inc. – Como reinventar empresas a partir de jogos” (que você pode baixar gratuitamente aqui). A proposta do livro, escrito à quatro mãos por Ysmar e Maurício Vianna, Bruno Medina e Samara Tanaka, é bem didática: como aplicar conceitos de gamificação em ambientes reais de trabalho para conseguir uma maior motivação e, por consequência, um aumento de produtividade. E o que era pra ter sido puramente leitura acadêmica, logo acabou virando pano pra manga.

Capa do livro e autores. Fonte: http://www.livrogamification.com.br/ - Reprodução

Capa do livro e autores. Fonte: http://www.livrogamification.com.br/ – Reprodução

Dei de cara com uma teoria bem peculiar: a “Boom-uau-Uau-UAU-BOOM-Ahhh”. É, o nome é esse mesmo…

Pelo que pesquisei, a teoria apresentada no livro foi adaptada por Bruno Medina, que por acaso é também ex-integrante do Los Hermanos, a partir das ideias de Adam Lawrence, co-fundador da WorkplayExperience, um grupo de consultoria alemão que utiliza métodos teatrais para a criação de seus projetos.

O método, que para facilitar a minha vida chamarei de “BuUUBA” a partir de agora, consiste na tentativa de criar um roteiro que capture os arcos dramáticos do teatro. Quase uma receita de bolo capaz de tornar uma experiência memorável. E a nomenclatura BuUUBA se mostra muito mais do que uma onomatopéia esquisita, representando cada fase da dramaticidade:

“…na prática, cada uma das referidas expressões representa certa emoção, em determinada intensidade, que, quando encadeadas, supostamente capturariam o ápice do interesse e envolvimento humano.”

Se essa teoria está servindo bem para a criação de soluções gamificadas em empresas, porque não funcionaria com a escrita? Arcos dramáticos são elementos comuns entre teatro e literatura, e no final das contas, estamos apenas utilizando veículos diferentes para uma mesma finalidade: contar uma história e causar alguma forma de comoção no expectador.

E embora falar em uma espécie de fórmula mágica para o surgimento de roteiros marcantes pareça algo bem utópico (talvez até um pouquinho pedante, vai…), se pararmos para analisar cada uma das partículas que compõem a BuUUBA, encontraremos muitas similaridades com livros de sucesso, sobretudo os de aventura e romance. Quem sabe esse guia, com algumas adaptações, seja exatamente o que você estava precisando?

(Se você não está com paciência para ler o livro inteiro, a explicação do Bruno Medina sobre a teoria pode ser encontrada nessa matéria aqui)

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1 – Boom

O primeiro impacto a ser causado no leitor. Sua função é despertar a atenção e o interesse do público, vencer aquela resistência inicial em virar a página. Em resumo: é a hora de vender seu peixe. Já tínhamos até comentado por aqui porque o primeiro capítulo é sempre um dos mais difíceis de escrever.

É preciso introduzir a problemática da história, apresentar seus protagonistas e estabelecer o tom narrativo que conduzirá o livro do início ao fim. Olha só o “Boom” magnífico com que Jane Austen inicia Orgulho e Preconceito:

“É verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro em posse de boa fortuna deve estar necessitado de esposa.”

Essa frase, seguida da cena onde somos apresentados à família Bennet, forma um início promissor. Já sabemos o que esperar da história (a dinâmica dos casamentos no século XIX), sabemos a quem estaremos acompanhando (personagens-chave nos são apresentados) e sabemos que tipo de tom Austen pretende seguir (um certo sarcasmo cômico ao retratar a sociedade).

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2 – uau

Coloque o enredo para andar. Você já estabeleceu sua história, agora é hora de testar seus personagens numa pequena dose de adrenalina. Ainda estamos longe do ápice emocional do livro, mas o leitor precisa sentir o gostinho do que está por vir e dizer “poxa, isso aqui tá ficando bom!”

Nos livros de aventura, teremos os primeiros perigos (provavelmente com um herói ainda inexperiente e que não conhece muito bem as forças que combate), ou o primeiro embate com um antagonista. No primeiro livro de Harry Potter, as aventuras do bruxo começam bem brandas, sem perigo mortal aparente. Temos, por exemplo, o encontro com Hagrid, a revelação sobre Hogwarts e a primeira disputa com Draco, durante a aula de vôo de Madame Hooch.

Nos romances, é possível ver as primeiras interações entre os pombinhos, que possivelmente ainda nem notaram que se sentem atraídos um pelo outro, mas já exalam alguma carga dramática para o leitor…

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3 – Uau

Essa fase representa um aumento no nível de adrenalina. O leitor já estava criando expectativas, então é bom mantê-las.

Uma das maneiras mais comuns de criar esse sentimento de “progressão-dramática” é fazer com que os personagens comecem a desvendar detalhes de uma trama muito maior, escondida entre as primeiras aventuras, ingênuas, da fase anterior. Fazer com que o leitor entenda que vimos apenas a pontinha do iceberg e que existe algo muito mais profundo nas páginas seguintes. Ainda no exemplo de Harry Potter, descobrimos a existência do cérbero Fofo e sua relação com um segredo que ameaça a segurança de todos os estudantes. Algo bem mais sério do que uma disputa em vassouras.

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4 – UAU

Aqui o livro deve realmente mostrar a que veio. Aquele momento em que o espectador pausa a leitura só para olhar o vazio e murmurar “UAU”, porque ele precisa desesperadamente saber o que acontece a seguir.

Seus personagens estão bem mais desenvolvidos e compreendem bem o universo onde estão inseridos. Além disso, conhecemos com mais detalhes as subtramas e conflitos existentes no enredo. É hora de colocar os protagonistas em seus momentos cruciais.

Nas histórias de aventura, os heróis se preparam e rumam para a “batalha final”, o desfecho da narrativa, mesmo que não seja algo definitivo (para o caso de livros com continuação). Além do perigo em si, temos todo o embate emocional em arriscar a própria vida por um bem maior. O clima de tensão chega ao nível máximo.

Nos romances, temos acontecimentos chave, responsáveis por definir o destino dos mocinhos. Pode ser que aquela briga finalmente cause o rompimento do noivado, pode ser que uma promoção no trabalho obrigue um dos dois a morar em outro país, pode ser que um ex-namorado(a) invente uma suposta traição. O importante é que o alerta dos leitores esteja funcionando a 100%.

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5 – BOOM

Segundo Bruno Medina, se estivéssemos numa montanha-russa, “estaríamos agora naquele ponto mais alto, antes da grande descida que faz o estômago vir à boca”.

Ou seja, o momento certo para o épico, aquela cena que vai marcar para sempre seu livro na mente do público. O que pode acontecer de várias formas, inclusive na mais óbvia delas: guerra.

Nos livros de aventura, muitas vezes são as batalhas de proporções gigantes e os atos heróicos que dominam essa fase. Mas esses não devem ser os únicos recursos abordados. Podemos ter revelações inesperadas (os famosos plot twists), traições ou redenções de antagonistas, até mesmo a resolução de uma disputa por meio de uma brilhante dedução lógica de algum personagem.

E se você está na linha do romance, é uma boa oportunidade para aquela cena onde o mocinho sai correndo na chuva até o aeroporto, ou a mocinha prepara um discurso emocionante na festa de formatura. Vamos lá, faça nossos corações dispararem.

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6 – Ahhh

Agora o carrinho da montanha-russa vai desacelerando, nosso coração vai ficando mais calmo e a agitação dá lugar à outras emoções. É super importante que essa transição não seja feita de forma abrupta, com o livro terminando no pico de adrenalina. Precisamos de um fechamento, algo que permita que o leitor vá se acalmando ao mesmo tempo que reflete sobre outros aspectos, para que sua experiência se torne completa.

Muitas vezes é nessa parte que temos os epílogos e as indicações de possíveis continuações. O “Ahhh” deve despertar a emoção final do leitor, que pode ir desde desfrutar a tranquilidade de um desfecho sem pontas soltas (no melhor estilo felizes para sempre) até a desconfiança de que algo passou despercebido. Sabe quando, depois dos créditos do filme, temos a cena da mão do vilão surgindo do nada? Nada mexe tanto com seus sentimentos do que terminar um livro com aquela sensação de “será?”.

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