Ambientação: por que a roupa importa?

Que ambientação é peça chave pra escrever uma boa história, todo mundo já sabe. Os elementos que circundam o enredo são importantes para dar tom à narrativa e delimitar a personalidade de personagens. É o que chamamos de contexto: tudo aquilo que caracteriza a situação da história e serve como informação indireta para o leitor.  Sem contexto, fica difícil criar imersão, fazer com que o público visualize a história como algo real e palpável.

E embora dez a cada dez escritores se preocupem com a ambientação em sua forma mais óbvia (onde a história acontece, em que período histórico, como está o clima…), são poucos os que levam em consideração o poder narrativo de uma ambientação focada nos detalhes. Linguagem corporal, a temperatura de um café, a música de fundo, um bichinho de estimação: tudo pode servir como ferramenta para transmitir informações ao leitor de maneira implícita. E um recurso valioso, porém pouquíssimo explorado, é o tal do figurino.

Quem não lembra do filme Miss Simpatia? Fonte: lipsticksandlabels.wordpress.com - Reprodução

Quem não lembra do filme Miss Simpatia? Fonte: lipsticksandlabels.wordpress.com – Reprodução

Gente, não é à toa que existe Oscar de Melhor Figurino.

Roupas conseguem passar mensagens, causar impressões. Quantas vezes não conseguimos identificar o período histórico de um filme apenas olhando para a vestimenta dos mocinhos? Fora aquelas figuras conceituais já prontas em nossa memória: quem não identifica a femme fatale, de vestido vermelho tubinho e salto agulha? Roupas são elemento chave no cinema.  E porque não seriam nos livros, já que também estamos falando sobre um veículo para contar histórias?

Esses dias li um post bem bacana no Now Novel, chamado “How to write better characters: Clothing choice”, que levanta alguns pontos a considerar sobre a criação de figurinos para livros. Para o post de hoje, vamos conversar sobre cada um desses pontos. Então separem suas agulhas, a fita métrica e liberem a Coco Chanel que habita seus corações fashionistas.

Figurino reflete situação e personalidade

Essa é a regra básica. Seu personagem precisa de roupas que ele toparia usar e que façam sentido no contexto da história.

Tipicamente, utilizamos peças com as quais nos sentimos confortáveis. E isso diz muito sobre a nossa personalidade e estado de humor. Por exemplo, personagens mais tímidos podem optar por roupas mais discretas e básicas, enquanto  a dona de um famoso editorial de moda pode abusar dos figurinos ousados (alguém aqui leu O Diabo Veste Prada?). É preciso conhecer a personalidade do personagem, estabelecer que tipo de roupas ele escolheria para si mesmo.

Fonte: Buzzfeed - Reprodução

Fonte: Buzzfeed – Reprodução

Também é importante que a roupa de um personagem tenha certa correlação com o lugar onde sua história acontece. É importante adequar as roupas ao período histórico, cultura e estações do ano, além de período do dia e situação. Por exemplo, o tipo de roupa que um personagem veste em casa pode ser drasticamente diferente daquela utilizada numa reunião de negócios.

O importante é conhecer seu personagem, o que ele faz,  o que o motiva, e conseguir traduzir essas impressões para o leitor, de modo subconsciente. Em A Bússola de Ouro, Pullman escreve que os vestidos de Lyra estão sempre amassados e sujos, o que nos dá uma boa ideia sobre a garota travessa que estamos acompanhando. Em Harry Potter, podemos acompanhar como Hermione é a única que mantém seu uniforme impecável, algo que faz sentido em sua personalidade. De fato, não poderíamos esperar outra coisa vinda de Lyra e Hermione.

Mostrar, não contar

Mais do que utilizar as roupas adequadas para trazer veracidade à história, é importante trabalhar o figurino ao seu favor. A vestimenta pode servir como um ótimo recurso narrativo, ajudando a passar informações sem que você precise explicitá-las no texto. E quem conhece o movimento “Show, Don’t Tell” (que defende a importância de que o leitor vivencie o enredo através de ações e experiências, e não através da descrição e exposição do autor), sabe o quanto isso é importante.

Um personagem de luto, em conflito, pode optar por roupas mais pesadas, etéreas ou em tons escuros (Snape sempre é descrito utilizando capas esvoaçantes e negras). Um vestido muito chamativo pode indicar que alguém deseja ser o centro das atenções, que possui muita auto-confiança ou ainda que simplesmente não liga para normas sociais. Personagens rebeldes também podem vestir-se fora do padrão.

Gosto do modo como, ao longo dos sete livros, Harry e Rony passam a utilizar o uniforme de Hogwarts de maneira desleixada, evidenciando sua puberdade sem que a autora precise balançar o leitor e gritar “ei, veja, eles viraram adolescentes”.

"Ei, veja" Fonte: Frames dos filmes da franquia - Reprofução

“Ei, veja, eles viraram adolescentes” Fonte: Frames dos filmes da franquia – Reprodução

O poder dos detalhes subconscientes é impressionante. Tecidos, cores, tudo isso passa mensagens para o público. Se um personagem aparece bem vestido apenas quando encontra determinada pessoa, pode apostar que a sementinha do envolvimento romântico já estará plantada na mente dos leitores, mesmo que eles não racionalizem isso. Quando você finalmente expor a situação, ela parecerá natural e inevitável.   

Roupas podem ajudar a confundir o leitor sobre o que esperar de um personagem

Criar personagens tem muito a ver com manipular arquétipos, aqueles modelos mentais que criamos para representar conceitos de personalidades. Tente imaginar uma bruxa muito, muito má. Ela está de preto, certo?

Quando as roupas seguem determinados arquétipos comuns, o leitor é levado subconscientemente a atribuir características para o dono daquele figurino. Vemos um homem de terno e gravata e já nos dirigimos a ele com seriedade, vemos o mesmo homem de short florido na praia e já visualizamos uma pessoa mais leve e expansiva. Podemos ser levados a crer que um personagem que se veste com muita pompa é arrogante, e que alguém que se veste com simplicidade é humilde.

Porém, é claro que nada te impede de confundir o leitor. Subverter as impressões iniciais do público através da escolha das roupas é uma estratégia ótima para quem quer criar plot twists ou vilões marcantes. Veja como J K Rowling descreve Dolores Umbridge, uma personagem até mais odiada que o próprio Voldemort. Dolores está sempre vestindo terninhos cor de rosa, macios e felpudos, com colarzinhos e sapatinhos fechados. Tudo assim no diminutivo, que é pra fazer a gente enxergá-la como um ser inofensivo e infantil. No entanto, conforme o enredo avança e nos damos conta do quão monstruosa Umbridge pode ser, o rosa passa a ser uma cor repugnante, uma cor de alerta.  Exatamente o oposto do que encontramos com os tecidos negros e escorregadios de Snape. No Senhor dos Anéis, Saruman se veste de branco o tempo inteiro.

Fonte: Mashable - Reprodução

Fonte: Mashable – Reprodução

Se roupas podem ser encaradas como pistas, você tem total direito de implantar pistas falsas, desde que com um bom motivo.

Alinhando o figurino ao desenvolvimento da história

As roupas podem ser um valioso indicativo subconsciente para a jornada de evolução dos personagens ou do próprio tom da história. Você pode mudar gradativamente o figurino de alguém para indicar que este ganhou habilidades, amadureceu ou ganhou uma compreensão nova sobre seu universo (Neil Gaiman usa esse artifício com a roupa de Tristran em Stardust).

Do mesmo modo, o figurino pode ajudar o autor a explicitar as mudanças de tom no enredo de um jeito implícito. Em Jogos Vorazes, Suzanne Collins utiliza o figurino de Katniss nas apresentações de TV como um “termômetro” para o clima da história. Cada vestido simboliza não só o nível de rebelião e afronta à Capital como também o simbolismo da própria Katniss dentro da revolução, que pouco a pouco se transforma no tordo. Note como os tecidos e paletas de cores vão mudando, se tornando mais militares e obscuros. E o melhor de tudo, Collins ainda atribui a criação do figurino de sua protagonista ao personagem Cinna, explicando ao leitor exatamente aquilo que pretende passar. Quase um inception de simbolismos…

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

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