Como definiria Wayne de um modo muito satisfatório, esse Sanderson é mesmo um ferrado de um bom escritor!

Inclusive, deixa eu avisar logo que o post vai estar cheio de spoilers. Meu respeito e minha admiração pra quem conseguiu fazer resenha desse livro sem spoilers, porque eu não vou conseguir.

Fonte: Marc Simonetti – Reprodução

As Sombras de Si Mesmo tem uma responsabilidade um tanto complicada: é, ao mesmo tempo, volume de estreia e de transição. Pegando os ganchos deixados por A Liga da Lei, precisa aprofundar os personagens e manter o leitor engajado num mundo que, ao menos superficialmente, ele já conhece. Enquanto isso, também precisa assentar as bases e dar o tom da nova trilogia Mistborn.

Dá pra notar uma mudança narrativa entre As Sombras de Si Mesmo e A Liga da Lei. As aventuras (ou desventuras) de Wax e Wayne se tornam mais sombrias, com um ritmo levemente mais lento. Nada mais de roubos ou sequestros: agora, estamos falando da destruição em potencial de uma cidade inteira.

Achei que Sanderson alcançou uma misturinha boa aqui. Conseguiu não evocar o épico dos nascidos da bruma, mas manteve o ar de grandiosidade. O fato de Wax, Wayne e Marasi não serem considerados heróis, e sim funcionários da justiça sujeitos às leis e ao jogo político, traz um novo tempero à trama, que pode apropriadamente misturar poderes ancestrais e papelada burocrática.

Falando em poderes ancestrais, Sanderson inseriu seus característicos debates éticos e morais, sobretudo no campo da fé. Trouxe de volta a comunicação com os deuses e os elementos precursores de sua mitologia: kandras, estacas hemalúrgicas e as minas de atium, por exemplo.

Fonte: Pinterest – Reprodução

Gosto da forma como o autor também se preocupou em evoluir não só a sociedade de Elendel, mas também suas “raças alomânticas”. Sanderson explica, com argumentos bem críveis, como Harmonia refez os kandras e os koloss e como sua dinâmica social mudou com o tempo. Neste volume em especial, descobrimos como os kandras foram perdendo sua natureza eremita. Ainda são fiéis a seu deus, claro, mas possuem vontade própria e foram capazes de flexibilizar uma série de regras e formalidades. MeLaan, por exemplo, pode ser considerada uma kandra millenial: teria horrorizado seus parentes da Primeira Geração. As diferenças entre os comportamentos de MeLaan e TenSoon são largas (e olha que na época da primeira trilogia, TenSoon já era considerado ele mesmo um rebelde).

Aliás, que reencontro divertido com o kandra, um pedacinho caminhante da história de Scadrial. TenSoon continua maravilhoso: contido, digno, ciente de seus deveres. Gosto de compará-lo com Marsh sob certos aspectos, uma alma com um senso de lealdade e dever acima da média. No entanto, também fiquei com a impressão de que TenSoon está cansado, de que o kandra não deseja mais transformar-se junto a este novo mundo, ainda que permaneça sendo o braço direito de Harmonia.

O deus, inclusive, é o responsável pelo questionamento máximo do livro, o cerne de toda a narrativa: onde inicia a influência de uma deidade e termina o livre arbítrio? Porque um ser onisciente ainda permite que infortúnios ocorram com aqueles que o seguem?

Esta é uma das problemáticas que encantam Sanderson. A religião é parte importante da vida do autor, que já foi missionário e teve a oportunidade de conviver com diferentes abordagens ao sagrado. Isso é refletido em sua escrita, o carinho e a sensibilidade com que constrói o enredo, tudo para culminar na grande revelação que coloca Wax e Sazed numa situação tão delicada.

 

Fonte: @soyabeansoldier at DeviantArt – Reprodução

Inclusive, deixa eu fazer uma observação aqui:

Pouco antes da metade do livro, achei que as coisas estavam meio mornas. Quero dizer, não é que a trama não tivesse apelo ou que eu não estivesse rindo das piadas, mas eu sentia falta da dinâmica super rápida de Wax e Wayne. E eu sentia falta de um propósito. A Liga da Lei não é um livro tão ambicioso, é mais uma aventura sem compromisso, divertida. Mas em As Sombras de Si Mesmo, dá pra sentir que Sanderson está construindo algo. Mas eu não sabia o que era e já estava ficando impaciente.

Ao mesmo tempo, assim que surgiu a ideia de que uma kandra estava infiltrada no gabinete do governador, minha primeira conclusão foi: ok, a kandra É o governador. Tudo se encaixa, tudo faz sentido. Problema resolvido, fim da história (a gente acaba ficando viciado em procurar plot twist, né?).

Então eu pensei “vá lá, talvez eu deva dar apenas 4 estrelas pra esse livro, porque ele é bacana mas eu já resolvi o mistério e ainda não senti aqueeela emoção genuína de Mistborn, aquela em que eu realmente sofro pelos personagens”.

HA HA.

Fonte: Giphy – Reprodução

Às vezes acho que o Sanderson fica relapso de propósito com alguns mistérios. Que esses mistérios fáceis estão lá como biscoitos pro público. São coisinhas menores e que acabam jogando fumaça sobre o que ele realmente está preparando pro leitor. Lá estava eu, coitadinha de mim, achando que o livro não tinha muito mais pra oferecer e….BAM.

Paalm era Lessie. Wax não tinha realmente a matado. Harmonia sabia de tudo isso. Gente, onde esse mundo vai parar?

A problemática criada por Sanderson é genial: um impasse em que você realmente acredita no lado de todo mundo. Não dá nem pra imaginar o tamanho da dor que Wax e Paalm devem ter sentido. Quem não estaria se sentindo traído? Ao mesmo tempo, como não compreender as decisões de Sazed (ainda mais para nós, leitores, que o conhecemos desde a primeira trilogia)?

Acho inclusive muito bonito que seja MeLaan, uma personagem sempre visualizada como “jovem” e inexperiente que consiga captar tão bem a dualidade e o peso de assumir o papel de Harmonia:

“- E o que você acha que Harmonia deveria fazer, mulher? Dar todas as respostas? Guiar-nos para onde deseja, como Paalm jurava que Ele fazia? Transformar-nos em peças num tabuleiro para Seu divertimento? Pode imaginar como deve ser? Saber que qualquer ação vai ajudar alguns, mas machucar outros?Salvar a vida de um homem agora e deixá-lo espalhar uma doença que vai matar uma criança mais tarde. Harmonia faz o melhor que pode…O melhor possível, pela própria definição. Sim, Ele machucou Wax. Machucou feio. Mas colocou a dor onde Ele sabia que seria suportada.”

Wax e Paalm. Fonte: Iggy’s Art – Reprodução

Colocar dois seres bons e com motivações justas um contra o outro é a epítome da motivação do Sanderson: mostrar argumentos opostos como igualmente dignos de atenção. A bem da verdade, isso já havia ocorrido na Primeira Era: descobrir o real poder do Poço da Ascensão e a jornada do Senhor Soberano já era um bom tapão na orelha. Porém, nunca deixou de existir esse limiar entre os personagens queridos e os malvados, ainda que não tão malvados assim. Não existia aproximação com o Senhor Soberano.

(Inclusive, sendo Paalm a kandra mais próxima de Rashek, eu gostaria de ter sabido mais sobre o convívio dela com o Senhor Soberano.)

Wax e Harmonia são uma problemática diferente. De um lado, o homem da lei que faz sempre o correto, ainda que não seja o melhor caminho. Do outro, um deus cuja responsabilidade recai sobre toda a humanidade e que, justamente por isso, é forçado a escolher os caminhos menos danosos, ainda que não pareçam corretos. Será que existe uma conciliação para este caso? A ideia de que mortais e deuses influenciam-se mutuamente sempre me fascinou (vide livros do Neil Gaiman), e sempre é interessante acompanhar uma dualidade que fuja do mocinho versus vilão.

Bem, mas nem só de conflitos divinos vive Mistborn. As Sombras de Si Mesmo também segue a fórmula da Primeira Era, dando espaço gradual para que outros personagens sejam promovidos de coadjuvantes para o centro da ação.

Fonte: Pinterest – Reprodução

Wayne continua irreverente, mas agora conhecemos melhor seu passado, seus temores e suas habilidades. É uma coisa engraçada, mas dificilmente o poder mais importante de Wayne é a cura rápida ou a bolha de velocidade: seu raciocínio, que sempre funciona por vias não usuais, faz toda a diferença. Ainda dá pra notar que Wax está um nível acima na escala de protagonismo, mas espero grandes coisas de Wayne.

“- Seu conhecimento de gramática é incrível – disse Wax -, considerando a frequência com a qual você a brutaliza.
– Ninguém conhece a vaca melhor que o açougueiro, Wax.”

Também fiquei feliz ao constatar que minhas impressões sobre Steris e Marasi estavam corretas. As duas ganharam espaço, embora de modos diferentes. Marasi cresce em seu ofício, tornando-se mais confiante e dona de si, capaz de resolver seus próprios problemas. Já Steris cresce aos olhos do leitor. Sempre acreditei que ela tinha um…algo a mais, uma fibra que a manteria de pé quando tudo desabasse. Ainda fico em cima do muro sobre quem é meu par ideal para Wax, mas de vez em quando me pego pensando se ele não seria mais feliz com a estabilidade de Steris (além de poder provocar Wayne em tempo integral, claro). A cena final dos dois na lareira é emocionante. Não tem como não admirar a maneira como a personagem dá espaço e espera pacientemente que seu noivo por fim desmorone.

Uma coisa que ainda não compreendi bem foi a vila terrisana instalada em Elendel. Digo, é engraçado que a avó de Wax tenha me pego de surpresa: é bem óbvio que tanto ele quanto Wayne tenham ascendência em Terris. De que outro modo seriam duplonatos? No entanto, achei que a pequena comunidade destoou um pouco do cenário urbano e ficou um tanto perdida no enredo. Terrisanos costumam ser personagens fascinantes, mas não senti muita empatia pelo pessoal de lá não… Imagino que a avó de Wax será melhor aprofundada nos volumes seguintes.

Fonte: Pinterest – Reprodução

Dito tudo isso, tasquei 5 estrelas pro livro sem nenhum arrependimento. Sanderson conseguiu me dar mais uma rasteira imprevisível e conseguiu fazer com que eu me sentisse parte deste bando, com suas piadas, suas brigas e suas dores. Uma sociedade complexa, um cenário urbano, mistérios e questões sociais que podem facilmente ser transportadas para os dias de hoje. Tudo isso em pouco mais de 300 páginas.

Bem, agora é me preparar psicologicamente para os próximos volumes da trilogia. Sabe como é, né… sempre tem outro segredo.

“- Já o conheço há um ano, Lorde Waxillium. Posso aceitar você pelo que é, mas não tenho ilusões. Alguma coisa vai acontecer no nosso casamento. Um bandido vai invadir a cerimônia, armas vão ser disparadas. Ou vamos descobrir explosivos no altar. Ou o padre Bin, inexplicavelmente, vai se revelar um velho inimigo e tentar matá-lo em vez de realizar a cerimônia. Vai acontecer. Estou apenas tentando me preparar para isso.”

 

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