Bem e Mal – uma linha tênue

O texto a seguir pode conter spoilers de: Senhor dos Anéis, Harry Potter, Game of Thrones. Depois não diga que eu não te avisei…

Ao contrário das fábulas que estamos acostumados a ler durante a infância, os arquétipos de mocinho e bandido nem sempre estão claros na vida real. Dentro do nosso mundo, não é tão fácil julgar quem é fada madrinha e quem faz o papel da madrasta má.

E mesmo nas histórias infantis, as divisas entre bem e mal podem ser tênues. Taí o Shrek, um ogro inicialmente temido mas com coração de ouro, que não me deixa mentir.

Por isso, apesar de que muitas coisas podem ser representadas e compreendidas como dualidades (bem-mal, dia-noite, frio-calor, amor-ódio…), é melhor enxergar a vida sob o ponto de vista do Yin Yang.

Yin Yang Fonte: @moni158 DeviantArt - Reprodução

Yin Yang Fonte: @moni158 DeviantArt – Reprodução

Nele, entendemos que forças opostas são na verdade complementares, interconectadas e interdependentes. Uma não existe sem a outra, e as interações entre elas mantém o equilíbrio do mundo. O todo torna-se mais forte que as partes. De mesmo modo, um ser não poderia pertencer inteiramente a um dos elementos da dualidade. Ele possui forças dominantes, mas sempre carregará alguma parte de seu oposto. Ninguém poderá ser completamente bom ou completamente mau, porque isso estará além de seu comportamento natural. No fim das contas, pessoas boas apenas suprimem lados negativos através de sua moral, enquanto as más os alimentarão por sentimentos como ódio, vingança ou inveja.

Até porque, dependemos de nossa construção cultural para definir o que são atitudes boas e ruins. A ética varia. Por exemplo, um viking pode ser considerado bondoso e honrado ainda que cometa inúmeros assassinatos em batalha. Já se uma pessoa do século XXI arranca a cabeça de alguém por causa de disputas de terra, o personagem se torna desprezível.

Adicionar personagens capazes de representar as forças do Yin Yang traz riqueza emocional para sua história. Se fôssemos visualizar o plot psicológico do enredo em gráficos, seria como sair de um diagrama de conjuntos disjuntos, onde um personagem pertence ou aos heróis ou aos vilões – nunca aos dois -, para entrar em um diagrama próximo ao espectro de cores, onde entre cada pólo existe uma infinidade de tonalidades com bordas não muito bem definidas. Isso torna a história muito mais complexa, realista e interessante.

Torne a representação de seus personagens mais complexa Fonte: autoria própria

Torne a representação de seus personagens mais complexa Fonte: autoria própria

Como prometido no post anterior, hoje falaremos sobre a concepção de personagens capazes de distorcer os limites entre herói e vilão.

A primeira vez que ouvi o termo “blurring the lines” (porcamente traduzido por mim como “mesclar as fronteiras”), estava lendo esse ótimo artigo do Better Novel Project. Nele, a autora Christine Frazier nos mostra como criar situações que forcem personagens a mesclar as fronteiras entre certo e errado, criando oportunidades para seu desenvolvimento. Ela também aponta como muitos romances young adult de sucesso seguem essas fórmulas quase que à risca.

Com base nos ensinamentos do Better Novel Project e em outras pesquisas por aí, separei 4 ideias que podem ser trabalhadas na criação de heróis e vilões mais complexos.

1) Conflitos

É importante esclarecer que por mais bonzinho que alguém seja, todo mundo tem sua personalidade. E se dois ou mais personagens se unem para atingir um objetivo, isso também significa que conflitos estão vindo por aí. Isso acontece porque nem sempre as pessoas concordam com os planos do outro, entendem as motivações do outro ou acordaram de bom humor naquele dia.

Segundo Christine Frazier, o conflito pode ser abordado quando há problemas de confiança (um herói não tem certeza se pode confiar no outro), questionamento de autoridade (quando o herói precisa quebrar regras impostas por alguém bom e que exerça controle) ou quando os personagens entram em conflito entre si (mal entendidos e discordâncias acontecem).

Como exemplo de questionamento de autoridade, temos o fato de que Harry Potter sempre precisa passar por cima das normas da escola e esconder seus planos dos professores. Mesmo sabendo que são indivíduos a quem deve respeito, Harry sente que sua transgressão é necessária para alcançar um objetivo maior.

Metade dos cabelos brancos de Minerva são por culpa dos alunos. Fonte: Tumblr - Reprodução

Os cabelos brancos de Minerva são culpa dos alunos. Fonte: Tumblr – Reprodução

2) Vilões não devem controlar todos os antagonistas

Não centre todas as ações ruins de sua história em um único personagem. Assim como heróis discordam com frequência, vilões também entram em conflito e possuem motivações diferentes. Não é necessário nem mesmo que exista uma ordem clara de subordinação.

Por exemplo, em Fronteiras do Universo, temos a raça dos avantesmas-dos-penhascos, seres alados comedores de carniça. Embora sejam antagonistas, representando perigo no caminho dos protagonistas Will e Lyra, os avantesmas só seguem seu próprio líder, estando completamente alheios à guerra entre o bem e o mal que se desenrola nos livros.

Ainda sobre Harry Potter, embora Voldemort seja a figura central que articula as forças das trevas, nem mesmo o poderoso vilão é capaz de controlar todos os bruxos de má índole. A lealdade dos Malfoy, por exemplo, sempre nos parece por um fio, à mercê dos acontecimentos.

3) A sociedade se vira contra o herói

Sabe aquele ditado que diz que é impossível agradar a todos? É exatamente sobre isso.

As ações do herói podem ser mal interpretadas pelas pessoas ao seu redor. Lembra quando, apesar de Harry já ter salvo a escola diversas vezes, todos os estudantes de Hogwarts começaram a usar um bottom com os dizeres “Potter Fede” para reprovar a participação do garoto no Torneio Tribruxo?

Bottons de "Apoie Cedrico" e "Potter Fede". Fonte: - Reprodução

Bottons de “Apoie Cedrico” e “Potter Fede”. Fonte: mikarts.etsy.com – Reprodução

Fazer com que seu personagem seja rejeitado por seus atos pelo grande público é uma forma interessante de trabalhar moral x ego. Seu herói fará o certo porque é o certo, mesmo que não receba apoio? Isso mostra convicção em seus ideais e muita coragem. Além disso, podemos explorar a maturidade do personagem, se ele será capaz de compreender porque todos agem daquela forma, se será capaz de perdoar ou se isso servirá para que permita o afloramento de um lado negativo. Lembre-se: se seu herói não é um monge treinado ou alguém muito sábio, dificilmente passará por uma situação como essa sem uma pontinha de rancor. A chave para o heroismo será a maneira de lidar com esse sentimento.

4) Ação e reação opostas

Essa serve tanto pra heróis quanto pra vilões. Ao contrário do autor, personagens não possuem bolas de cristal para visualizar o futuro da história. Não sabem que consequências serão criadas a partir de suas ações, e portanto, podem estar redondamente equivocados. No mundo real, atitudes feitas com a maior boa vontade podem gerar efeitos catastróficos, assim como atitudes erradas podem gerar algum bem como efeito colateral. Quer exemplos?

Boa ação/consequência má: Nas Crônicas de Gelo e Fogo, o personagem Ned Stark, munido de um inabalável senso de justiça, resolve alertar Cersei sobre sua decisão de denunciá-la ao rei. Seu intuito é criar uma chance da Rainha fugir com os filhos para um local seguro, onde não serão executados por traição. Essa atitude, embora benevolente, trará consequências desastrosas tanto para Ned e quanto para aqueles que lhe são importantes. Seu heroísmo é também sua ruína.

Má ação/consequência boa: Durante a criação da Terra Média, Melkor, um dos Ainur, tenta corromper as obras concebidas pela música divina. Porém, Melkor nem desconfia que suas ações, combinadas ao poder dos outros Ainur, não só resultam em coisas belas como também em elementos necessários para a manutenção da vida. Num trecho do Silmarillion, Ilúvatar aponta para Ulmo (responsável pelas águas) as consequências da intervenção de Melkor:

“Não vês como aqui neste pequeno reino, nas Profundezas do Tempo, Melkor atacou tua província? Ele ocupou o pensamento com um frio severo e implacável, mas não destruiu a beleza de tuas fontes, nem de teus lagos cristalinos. Contempla a neve, e o belo trabalho da geada! Melkor criou calores e fogo sem limites, e não conseguiu secar teu desejo nem sufocar de todo a música dos mares. Admira então a altura e a glória das nuvens, e das névoas em permanente mutação; e ouve a chuva a cair sobre a Terra!”

Temos outro exemplo no Senhor dos Anéis, onde Smeágol está sempre dividido entre sua gratidão e admiração por Frodo e a cobiça pelo anel do poder. É um personagem que definitivamente torna as linhas entre bem e mal ainda mais tênues. Mas, pelo menos na cena da Montanha da Perdição, vamos considerá-lo um antagonista.

Fonte: Reddit - Reprodução

Fonte: Reddit – Reprodução

O desejo extremo de Sméagol pelo anel finalmente se revela dominante, e sua atitude maléfica ao roubá-lo de Frodo é fundamental para a destruição do artefato. Lembrando que isso acontece ao mesmo tempo em que o hobbit fraqueja em cumprir sua missão, assumindo uma postura que destoa do papel de herói.

Assim, é interessante não permitir que tudo de bom seja mérito de um personagem do bem, da mesma forma que seu vilão não deve ser a única fonte de maldade da história.

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