Brandon Sanderson: Quero mostrar que existe algo de inerentemente bom no ser humano – TRADUÇÃO

Existem algumas entrevistas que me deixam mais apaixonada por um autor do que o próprio livro. Em dezembro de 2016, Brandon Sanderson teve uma conversa com Josep Lapidario para a revista JotDown, da Espanha. E foi uma coisa tão incrível, tão rica em referências e debates, que logo a entrevista tornou-se uma queridinha entre os fãs do autor.

Mas ela até então só existia em inglês e espanhol. E eu sinceramente acredito que um texto desse mereça ser disponibilizado para o mundo todo, para alcançar qualquer pessoa que se interesse pela ficção fantástica. Seja você autor, leitor ou mero simpatizante da área, você merece ler isso.

Num esforço hercúleo, usei todo o meu inglês para entregar esta versão traduzida. Lembrando que os direitos autorais pertencem à JotDown e que eu não sou uma tradutora profissional. Ah, também tentei ser o mais fiel possível, mas tem coisa que simplesmente fica muito feia ao pé da letra e meu ouvido frescurento não aceita. Então saiba que 99% do que está aí foi traduzido tal qual estava, mas que aquele 1% é vagabundo.

Fonte: Jorge Quiñoa – JotDown – Reprodução

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Antes de começar a entrevista, o autor Brandon Sanderson (Nebraska, 1975) almoça com seus colaboradores do Time Sanderson Espanha e fala sobre Gaudí, chocolate com churros e sobre o fato de que a Espanha é o país em que possui maior quantidade de fãs dentro da Europa continental. Suas obras de fantasia épica incluem batalhas, morte e um ou outro apocalipse, mas no geral são histórias otimistas, cheias de personagens honrados, de Elantris à saga Mistborn ou à série Stormlight Archive, que consiste em dez enormes volumes com os dois primeiros livros já publicados.  Ele também escreveu histórias infanto-juvenis (Alcatraz), young adult (The Reckoners, The Rithmatist), HQ’s (White Sands), novelas (Legion, The Emperor’s Soul) e histórias que complementam videogames (Infinity Blade). Parece que ele sempre está fazendo alguma coisa. Nós tivemos uma longa conversa (“Essa vai ser uma entrevista longa? Eu amo entrevistas longas!”) perto do Arco do Triunfo, em Barcelona. Após tirar algumas fotos, ele foi a todo vapor para uma maratona de seis horas de autógrafos na Biblioteca Gigamesh.

Essa não é sua primeira vez em Barcelona… Em 2006 você veio aqui para receber o prêmio UPC de Ficção Científica por Defending Elysium. Eu gostei muito do seu discurso… Você abriu dizendo que se considera mais um contador de histórias e profissional do entretenimento do que um escritor clássico, por assim dizer. Você acha que, no mundo literário, o valor do entretenimento é menosprezado?

Eu acho. Na verdade, o valor das emoções é menosprezado no mundo literário, e o discurso era sobre isso: de que não só as ideias são importantes, mas também a emoção. O poder de uma grande história de fantasia é combinar boas ideias com algo emocionante. Minha esposa faz smoothies toda manhã para nossas crianças.  E no smoothie ela coloca espinafre para que ele fique verde, porque eles amam verde, mas também porque espinafre é bom para a saúde. Se você lê um livro de fantasia que é excitante, divertido, e que faz você sentir um monte de emoções, e ainda insere algumas ideias interessantes que te fazem pensar, você pode ter um efeito bem maior no mundo do que se você apenas empilha todas essas ideias laboriosas  que são difíceis de abordar dentro de uma história.

Terry Goodkind disse uma vez que ele não escrevia fantasia, mas “histórias que possuem importantes temas humanos”. J.K. Rowling também disse que realmente não lhe ocorreu que os livros de Harry Potter eram fantasia, e que ela não lia fantasia. Por que autores importantes tentam renegar a literatura fantástica?

Eu não sei, é algo que realmente me confunde e me incomoda… Talvez até demais. Eu fui extremamente crítico com alguns desses autores: Philip Pullman disse coisas similares. Eu não acho que eles estavam querendo ofender… Eu recomendaria aos seus leitores a maravilhosa réplica de Terry Pratchett a J.K. Rowling sobre escrever fantasia. Acho que há um tipo de sentimento institucionalizado em nossas mentes de que fantasia não pode ser literatura de verdade. Completamente impreciso, completamente falso, mas nós o perpetuamos no gênero quando autores dizem que não leem fantasia mesmo que eles escrevam sobre ela. É como um médico falando “Eu não leio o que outros neurocirurgiões fazem. Eu inventei aqui na minha cabeça e agora faço cirurgias neurológicas”.

Isso não inspira confiança…

É difícil criticar outros escritores, porque eles se originam de áreas diferentes, mas eu seguiria modelos de pessoas como Neal Stephenson, Terry Pratchett e Ursula K. LeGuin, que são muito orgulhosos de sua herança fantástica e que tem falado abertamente sobre como amam o gênero e o que ele pode fazer. Ler o que Ursula K. LeGuin escreveu sobre o assunto me faz ter muito orgulho como um autor de fantasia.

Existe uma situação que parece atrativa para você, falando em questão de narrativa: jogar uma boa pessoa no inferno e descrever seus esforços para tornar o lugar melhor. Kaladin em Bridge Four, Raoden em Elantris… O que você acha interessante nesse tipo de cenário?

Quando somos colocados em circunstâncias extremas, frequentemente revelamos o máximo sobre nós mesmos. E ao contrário do que muita gente pensa, existem vários exemplos na História de que, nessas situações extremas, exibimos nossas melhores qualidades. Ao invés de sair correndo e agir de modo egoísta, a maioria das pessoas se junta quando algo realmente terrível acontece. Nós vemos o melhor da humanidade em alguns de seus piores momentos, o que é um gigantesco contraste. Eu não desejaria que ninguém tivesse que passar por uma situação dessa, mas na ficção nós podemos criar histórias que examinam como seres humanos reagiriam a situações extremas. Eu sou um otimista. Isso não quer dizer que ficção pessimista seja ruim, na verdade, um monte das minhas ficções favoritas é pessimista. Minha história curta favorita é Herrison Bergeron, de Kurt Vonnegut, e é fantástica, mas enormemente pessimista. Só que cada um escolhe um estilo, e eu quero mostrar na minha escrita que existe algo de inerentemente bom dentro do ser humano, e que nós nos esforçaremos para continuarmos sendo bons. Nós seríamos mais unificados na presença de problemas! Você vê isso surgindo aqui e ali na minha escrita.

Você acha que mensagens positivas nos seus livros acabam tendo um efeito positivo nos seus leitores?

Nós certamente gostaríamos de pensar assim, como escritores. Eu não sei… Pode ser um pouco arrogante da minha parte dizer que minha ficção está tornando o mundo um lugar melhor ou que está criando pessoas melhores, mas ao mesmo tempo, as histórias que li tornaram a minha vida melhor. O livro que fez de mim um autor de fantasia, o primeiro livro que me puxou pra fantasia, foi Dragonsbane de Barbara Hambly. Esse é um livro sobre uma mulher de meia-idade que foi informada de que poderia ser a maior praticante de magia de todos os tempos. Seus professores diziam que ela era maravilhosa, mas ela precisava se concentrar no aprendizado da magia. Ela também tinha uma família, e não podia dedicar-se inteiramente aos estudos por causa disso. Ao mesmo tempo, minha mãe graduou-se em primeiro lugar na turma de Contabilidade, num ano em que ela era a única mulher da classe, e ela sempre teve essa alternância entre carreira e família. Ela chegou até a dar um tempo na carreira para ficar com seus filhos quando eu era muito pequeno, e como um adolescente eu pensava “Ok, isso é o que as mães fazem”. Mas aí li esse livro aos catorze ou quinze anos, e eu continuava acreditando que a protagonista deveria gastar seu tempo com mágica e ignorar seus filhos para aprender magia! E quando terminei o livro, senti como se pudesse entender o que é ter uma crise de meia-idade, e ter de escolher entre carreira e família. Ler um livro de fantasia sobre um dragão e então conseguir compreender melhor a minha mãe tornou o mundo melhor, tornou o meu mundo melhor. E esse é o grande poder que a ficção tem, de nos ajudar a entender outras pessoas, a olhar através de seus olhos.

Fonte: Jorge Quiñoa – JotDown – Reprodução

Você escreveu um monte de manuscritos e até romances completos antes de vender seu primeiro livro. Poderia falar um pouco sobre essa época? O que os editores disseram, o que manteve as suas esperanças em contraponto às cartas de rejeição…

Foi complicado. Você vai amar isso: o que os editores continuavam a me dizer era: “Tem como você deixar mais parecido com George R.R. Martin?”. Ao mesmo tempo, contudo, eles estavam me dizendo que meus livros eram muito longos. Mas os livros do George Martin são enormes! O ponto mais difícil da minha carreira veio enquanto eu terminava o décimo segundo livro… Escrevi treze antes de vender o primeiro. Os livros de número onze e doze foram minha tentativa de ser mais George Martin, com anti-heróis corajosos, uma fantasia obscura e amoral… Essa não é uma escolha natural para mim. Alguns autores fazem um fantástico trabalho em cima disso, mas pra mim: pessoas jogadas no inferno, mas que carregam a luz da esperança dentro de si, boas pessoas em uma má situação, é nisso que me sobressaio… Então meus dois livros obscuros e curtos eram obras muito ruins, e eu fiquei desencorajado, achando que nunca seria capaz de viver disso. E a maior coisa que decidi na época era que eu amava o que fazia como escritor, e percebi que se chegasse aos noventa anos e morresse com cento e vinte livros não publicados no meu armário, eu pensaria em mim mesmo com um sucesso… Mais sucesso do que se tivesse desistido. Eu só precisava continuar. E nesse ponto sentei e pensei “Eu vou escrever a maior e mais incrível fantasia épica que já existiu. As pessoas dizem que meus livros são muito grandes, tudo bem então: eles serão ainda mais longos! Cheios de todo tipo de coisa e personagens estranhos!”. E eu escrevi The Way of Kings, livro número treze, e foi com ele que mandei toda a indústria literária às favas. No outro ano eu vendi Elantris. Foi realmente bom que eu tenha passado por aquele momento de decidir fazer o que quero porque amo, ao invés de perseguir o que as pessoas me diziam para fazer.

Após vender Elantris para a Tor, alguns de seus romances não publicados começaram a atrair editoras. Você reescreveu algum deles, como em Mistborn Prime? Você ainda está usando alguma parte desse material?

Sim, ainda estou mergulhando lá de vez em quando. A maioria deles foi canibalizado por suas ideias, mas Dragonsteel, por exemplo, ainda será reescrito algum dia.

Fiquei surpreso de, nos comentários de Mistborn, você dizer que enviava a primeira versão do livro por e-mail para qualquer um que pedisse…

Eu prefiro White Sands e Aether Night, que são melhores… Então quando as pessoas escrevem eu direciono para elas. Mas sim, fico perfeitamente feliz em enviar meus livros mais antigos quando sou requisitado, desde que as pessoas saibam que eles não são bons livros.

Você atuou como editor para a revista semiprofissional The Leading Edge durante seus anos como estudante. O que você aprendeu escrevendo por lá?

Aprendi a evitar clichês através da leitura de um montão de escrita ruim, mas eu também aprendi sobre o que compõe uma boa história. Uma grande história entre um monte de ruins brilha como uma pepita de ouro no meio da poeira, então eu tentei descobrir o que fazia daquela uma grande história. Por que todos nós a amamos enquanto as outras cem histórias anteriores não nos fisgam? Foi bastante ilustrativo para mim.

Você recebeu bons conselhos de escritores profissionais durante seus anos de formação?

Katherine Kurts e David Farland me sentaram e me deram todos os tipos de ótimos conselhos. Eu não teria chegado onde estou hoje sem as dicas de autores que cederam seu tempo durante uma convenção para falar comigo, ou que ofertaram uma disciplina na minha universidade. Esse trabalho é em boa parte feito por conta própria, escrevendo e praticando, mas um pouco de mentoria pode fazer muito por você.

E agora você ensina escrita criativa…

A maior parte das coisas eu apenas coloco online, já que não posso ler e dar conselhos individuais em quantidade suficiente. Eu faço oficinas nas minhas aulas, porém. Alguém que realmente deseje que eu leia seu trabalho pode voar até Utah, ser aceito na universidade e se matricular na minha turma. É um grande obstáculo, eu sinto muito, mas…

Você se matriculou na Brigham Young University para especialização em bioquímica. Por que você escolheu essa disciplina?

Eu sempre fui fascinado por física, química e todos os ramos da ciência: se você ler meus livros, vai encontrar montes desses conceitos ali. O problema é que eu amava as ideias, mas odiava o trabalho duro. Quando eu tinha de sentar e analisar páginas de cálculos, eu quase sempre estava errado e não gostava.  Me matriculei porque minha mãe argumentou que arrumar um bom trabalho como químico me deixaria com um monte de tempo livre para escrever… Ela estava forçando seu menininho a ser realista, mas acabou que ser realista era ruim pra mim.

Alguns autores tentaram misturar ficção científica e fantasia, como Margaret Weiss e Tracy Hickman nos volumes finais de Darksword. Como você acha que fantasia e ciência, sendo tão diferentes, podem coexistir em uma história?

Você mencionou Darksword, que é a abordagem Shadowrun: magia e ciência  são duas trilhas diferentes e você precisa escolher uma ou outra. Mas na Cosmere, meu universo compartilhado de livros, magia é outro ramo da física. E eu admito totalmente ter sacrificado um pouco do senso de maravilhamento em favor de abordar a mágica racionalmente, de ter uma magia que segue um método científico. Mágica cheia de pequenas bizarrices, como a própria ciência, mas cientificamente baseada em sua essência. Esse é apenas o jeito que meu cérebro tem de abordá-la. Se você pudesse fazer algo mágico e reprodutível de repente, eu iria pensar que nós não conhecemos ciência bem o suficiente para explicar por que aquilo acontece.

Essa é a ideia por trás das Leis de Sanderson sobre magia hard e soft…

Sim! Estas leis foram traduzidas para o espanhol por uma revista, estou muito feliz de que tenham feito isso.

De 95 a 97 você serviu como missionário na Coréia do Sul para a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. O que você lembra principalmente sobre essa experiência?

Claro que existem experiências religiosas poderosas que vem junto, mas se você quer saber uma coisa que me lembro: foi a primeira vez na minha vida em que fui a minoria. Uma minoria privilegiada, mas ainda minoria. E eu acho que isso é tão bom…pra uma pessoa, particularmente para uma criança americana branca como eu, ir a um lugar onde você é o único que todo mundo olha de lado. Aprender a ser parte de uma nova cultura e ver coisas de um jeito diferente foi inestimável para mim.

Fonte: Jorge Quiñoa – JotDown – Reprodução

Terry Goodkind foi acusado algumas vezes de deixar a própria visão política penetrar demais em seus livros, particularmente nos últimos. Você considera isso um risco para os autores de fantasia, usar seus universos como metáforas políticas, como um meio de propagar uma mensagem ou uma crença?

As pessoas devem ser livres para usar suas ferramentas de escrita como quiserem. Eu agruparia Terry Goodkind com C.S. Lewis e Philip Pullman, todos os quais tinham histórias e mensagens que queriam trazer para a ficção. Na minha própria escrita eu sigo mais a filosofia de Tolkien. Ele e C.S. Lewis eram amigos, na verdade, Tolkien converteu C.S. Lewis ao cristianismo, então ambos eram cristãos muito convictos. Mas Tolkien preferiu contar uma história e deixar que ela se sustentasse sozinha, com as pessoas interpretando o que quisessem dela. Eu tendo mais para essa área. Não quero dizer com isso que gente como Terry Goodkind não deveria escrever o que quiser. Claro que deve! Mas quando escrevo, eu quero contar uma história sobre personagens fortes que discordam uns dos outros, onde existem boas pessoas com bons argumentos dos dois lados, porque acredito que nos aproximamos da verdade através da discussão. Quando você me diz suas ideias, eu te digo as minhas e nós escutamos de verdade, nós dois saímos de lá pensando “talvez eu esteja errado e possa evoluir meus pensamentos”, ou “talvez eu esteja certo, mas preciso expandir meu modo de pensar para aproximá-lo das crenças de outra pessoa”. É assim que chegamos perto da verdade, e não repetindo incansavelmente a mesma coisa de novo e de novo. Lembro de uma história da minha missão, quando eu estava na Coréia. Havia um monge budista cuja seita requeria que eles mendigassem por comida. E assim ele estava silenciosamente vagando pela rua e se curvando para qualquer um que passava. E então havia um missionário cristão de uma vertente que não vou mencionar segurando um grande cartaz que dizia “Budismo é o Inferno”. E essa imagem sempre me impressionou.  Porque toda vez que eu perguntava a um budista se eu podia conversar com ele sobre minha religião, um monte deles ouvia amigavelmente e dizia “ah, Jesus Cristo foi um grande Buda”. Isso é alguém estendendo a mão para apertar a minha, de modo que nós dois possamos trocar ensinamentos sobre pessoas que significam muito em nossas vidas. E sempre digo, em qualquer coisa que esteja fazendo, que eu não quero ser a pessoa segurando o cartaz, seja em matéria de religião ou política. O quão mais nós poderíamos ter se, ao invés de segurar o cartaz, a gente apenas sentasse perto desse padre e perguntasse a ele sobre sua vida e suas crenças. Essa imagem ficou gravada em minha mente. E Hrathen, de Elantris, veio dessa pessoa segurando o cartaz. Foi daí que veio a inspiração. Ele é na verdade meu antagonista favorito, porque eu o compreendo muito bem: existe uma parte de mim que poderia facilmente ter se tornado aquele cara com o cartaz.

Tenho lido sobre você descrevendo a si mesmo como uma pessoa que crê, mas também como um homem da ciência e da lógica. Como você concilia esses dois aspectos da vida?

Existe muito dessa crença errônea na sociedade hoje, de que religião e ciência não tem nada a ver uma com a outra. De modo clássico, todos os grandes cientistas eram também teólogos! Na América, existe um pequeno grupo político que parece querer reclamar a religião para si; apenas eles podem dizer que são religiosos. Essa crença também é errônea. Pessoas religiosas existem em todos os lados de todos os argumentos. Pessoalmente, eu acredito que Deus é um Deus de milagres e que o mundo natural que estudamos é o jeito que as coisas acontecem a menos que Deus interfira. Algo como se a evolução fosse o caminho em que o mundo funciona, é um fato, e Deus criando as pessoas, um milagre, fosse uma violação dessa lei natural. Dizer que a evolução não existe é como fingir que o Mar Vermelho automaticamente se abre, periodicamente, por conta própria. Deus criou a ciência. Deus criou o mundo e nos deu cérebros, então nosso trabalho é fazer o melhor possível para entender esse mundo e buscar por respostas. A crença na fé vem de sentimentos no meu coração. Essa é a minha reconciliação: de que os sentimentos no meu coração são minha conexão com um Pai Celestial. Eu acredito neles. Preciso estar disposto a aceitar que talvez eles sejam apenas viés de confirmação. Meu cérebro lógico diz que talvez seja isso mesmo, você sente esse sentimento porque você imagina que deveria sentir esse sentimento. Mas até agora, a única experiência que posso chamar definitivamente de minha são vivências pessoais e o modo como vejo o mundo, e eu preciso aceitar isso. Quando leio as Escrituras tenho uma experiência religiosa, sinto algo que eu não sinto em outros momentos, e que tomei como minha prova de Deus. Estou disposto a continuar explorando o mundo, e é possível que eu esteja errado e que mude de opinião, mas por enquanto é isso que me faz acreditar.

Meu personagem favorito em Mistborn é Sazed, que se interessa por um monte de religiões diferentes. Eu vejo algo similar na sua escrita, algumas porções e peças vindas de outros sistemas de crença, como a “Surgebinding Tree” sendo visualmente similar à Árvore da Vida na Cabala. Como diferentes religiões impactam seu trabalho?

Adoro observar como nós interagimos com o divino, e sou fascinado com o que é espiritual versus o que é parte da nossa tradição. E tudo o que me fascina termina nos meus livros. Sinto que eles são minha busca por respostas, embora eu não goste de dar respostas às pessoas. Eu gosto de personagens que fazem muitas perguntas. Gosto de pessoas que abordam a religião de formas diferentes. Queria que Sazed fosse a voz de todas as religiões esquecidas, para aqueles que não podem mais ter uma voz própria. Eu espero que as minhas explorações religiosas signifiquem algo para a audiência, mas suspeito de que elas vão significar algo diferente para cada leitor. Recebo um monte de e-mails de pessoas dizendo que eu devo ser ateu porque escrevi tão bem Jasnah, a atéia de Stormlight… Sempre tomo isso como uma grande marca de orgulho para mim mesmo. Estou escrevendo porque quero explorar como pessoas diferentes enxergam o mundo. Quando alguém tem uma crença religiosa, eu quero trata-la direito nos meus livros. Odeio quando pego um livro com um personagem que acredita nas mesmas coisas que eu e ele é tratado como um idiota que precisa ser refutado. Não quero expressar a crença de alguém nos meus livros e depois fazer essa pessoa ser o idiota, se isso faz sentido. Não quer dizer que não possa haver gente errada em qualquer lado do problema, mas eu quero expressar a crença das pessoas com precisão, do jeito que elas costumam debater.

Existem alguns personagens LGBT em seus livros (Ranette em Wax and Wayne, por exemplo). O fato de fazer parte da Igreja influenciou em algum aspecto a forma como você apresenta tais personagens?

Minha filosofia é ter extremo cuidado para conter qualquer viés que eu possa ter e que não esteja percebendo. Para ter certeza de que os personagens LGBT estão sendo bem representados, eu pergunto a pessoas gays que conheço: “Isso está funcionando? Estou abordando a questão do jeito certo?”. Eu preciso confiar neles. É importante para mim, porque um monte de gente religiosa parece querer ignorar que lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros existem, o que eu acho algo inerentemente maldoso. É imoral banir um grupo inteiro de pessoas, e fingir que eles não são boas pessoas com bons argumentos, e vidas e paixões. Não representar isso na minha ficção seria profundamente imoral. Não sei se sou o cara certo para contar apropriadamente a trajetória homossexual, mas eu com certeza devo fazer o meu melhor para garantir que as pessoas homossexuais serão representadas, porque de outro modo eu estaria mentindo para o mundo.

Fonte: Jorge Quiñoa – JotDown – Reprodução

A viúva de Robert Jordan pediu que você terminasse os livros de A Roda do Tempo, após ler os elogios que você escreveu para RJ e o primeiro livro de Mistborn. O que você acha que ela viu na sua escrita?

Eu posso responder isso por ela, então não é tão arrogante da minha parte dizer… Ela sentiu que as caracterizações eram tão vívidas que eu poderia fazer justiça ao grande número de personagens em A Roda do Tempo.

Agora que A Memory of Light foi publicado há três anos, você tem escutado as reações do fandom de A Roda do Tempo? Está satisfeito com elas?

Claro que existem coisas que eu mudaria: a maior é que penso ter deixado a peteca cair com um personagem chamado Padan Fain, não fui capaz de fazer as coisas do início ao fim muito bem com ele. Existem pequenas coisas assim que eu gostaria de ter feito melhor, mas no geral estou satisfeito e assino embaixo do que produzi. Uma coisa que escuto dos fãs é se eu pretendo escrever mais sobre A Roda do Tempo… E a resposta é não. Robert Jordan sentia-se muito desconfortável com pessoas escrevendo livros em seu universo, e ele era muito hesitante até em deixar que alguém terminasse sua série. Então, quando eu topei a empreitada, Harriet perguntou minha opinião sobre o assunto e eu disse que nós não deveríamos fazer mais do que terminar a série como ele havia pedido, apenas porque não acho que seria capaz de escrever mais sem que a coisa se tornasse eu e não ele. Não tenho controle sobre A Roda do Tempo, e se Harriet convidasse outra pessoa para escrever, eu a apoiaria completamente… Mas eu não vou escrever mais coisas.

Todos os autores de fantasia épica são comparados a Tolkien em algum momento… Em matéria de comparação, Robert Jordan parecia muito Tolkianesco no início. Como os autores de fantasia lidam com a sombra de Tolkien?

Tolkien fundou a fantasia épica, e ele fez um trabalho excelente; nós ainda estamos tentando compreender exatamente alguns de seus métodos e ideias. Então não considero como uma sombra, acho que nós estamos orgulhosamente de pé sobre os alicerces de Tolkien, por causa das bases que ele nos deu.

Em A Roda do Tempo, alguns aspectos das relações de gênero são afetados pelo modo como a magia é dividida entre homens e mulheres… Como você acha que a literatura fantástica pode explorar diferentes dinâmicas nas questões de gênero?

Nós podemos fazer isso melhor do que qualquer um. Garanto que existem livros maravilhosos em todos os gêneros, mas na fantasia e ficção científica essa é a nossa especialidade: a habilidade de pegar um problema real, trazer para um mundo imaginário, e, ao fazer isso, destilar o problema até descobrir o que nos motiva. Robert Jordan tem um universo com privilégios femininos que pode ser bastante esquisito e fora da zona de conforto para alguém criado numa sociedade inversa, de privilégio masculino. A reação geral que pode ser vista online é que as mulheres de A Roda do Tempo são odiadas, consideradas beligerantes e opressoras… Mas se todas elas fossem homens, as pessoas iriam considerar um elenco variado e interessante de homens! Jordan conseguiu puxar algo muito interessante de lá.

Também em seu livro Stormlight, existem diferenças nos papéis de gênero: homens não sabem ler, apenas as mulheres estudam ciência…

Para o bem ou para o mal, a sociedade reage ao longo da História quando há um desequilíbrio de poder entre os gêneros.  Às vezes o gênero vulnerável, usualmente mulheres, toma posse de algo que se torna seu domínio, é uma divisão natural. Não significa que a sociedade é igualitária, mas que há algo que você não toca, um tipo de barricada defensiva. Eu cresci também muito fascinado com a ideia da alfabetização, conforme eu discorria sobre o fato de que houveram períodos de tempo onde as pessoas importantes não sabiam ler. Eles tinham estudiosos para fazer isso por eles, e em vários momentos históricos era visto como degradante que um rei tivesse de ler. Essa ideia foi parte do que originou a dinâmica dos papéis de gênero em Stormlight.

O mesmo pode ser dito sobre a dinâmica das etnias. Como você aborda o racismo em Stormlight?

Uma das minhas metas em Stormlight era fazer tomadas variadas sobre o racismo. A discriminação baseada na cor dos olhos, por exemplo, está lá em parte porque faz sentido no worldbuilding, mas também porque se você for olhar populações em que todo mundo tem a mesma cor de pele, eles ainda assim discriminarão os caras do outro lado da rua por terem um sotaque diferente. Humanos acham maneiras de colocar pessoas em caixas. A cor dos olhos em Stormlight tornou-se muito interessante para que eu pudesse explorar como você pode ter uma sociedade onde o racismo é desenfreado ainda que todo mundo tenha tons de pele similares. E então há essa discriminação profundamente problemática com uma raça inteira escravizada, o que a maioria dos leitores ignora no primeiro livro porque Kaladin ser escravizado é que representa o ponto focal. Um dos objetivos de Stormlight é que, à medida em que Kaladin se torna mais e mais consciente das injustiças no mundo ao seu redor, o leitor também vai se conscientizando. Para não dizer que esse é um livro sobre combater injustiças, ele é um livro sobre um mundo que não é justo, cheio de pessoas que perpetuam a injustiça sem se dar conta disso. Uma grande virada é quando os leitores percebem que boa parte dos personagens principais provavelmente não se parece com eles. A maioria dos leitores não faz essa conexão durante um bom tempo… Eu gosto da ideia de que, ao ler, você assume que o periférico Szeth é “o outro” enquanto Kaladin  é como você, quando na verdade Kaladin é uma mistura proveniente da Ásia e Oriente Médio, enquanto Szeth é caucasiano. Claro, se você for ler o livro em Taiwan, aí os personagens realmente vão parecer com você e Szeth é o esquisito… [Risos] Eu queria que a capa do livro não mostrasse o rosto de ninguém por causa disso. Mas é difícil conseguir alinhar todas as capas: no Reino Unido, a capa basicamente tem um cara branco nela. E não é que os artistas da capa não tenham tido boa vontade, é só que eles provavelmente não fizeram essa conexão ou ela não foi capaz de avançar. No caso de Michael Whelan, eu estava tão feliz por tê-lo comigo que não quis chegar e dizer “Falando nisso, tem como fazer a pele dele mais escura?”. Nós vamos melhorar nisso com o tempo.

Em Mistborn você subverteu alguns dos tropos estabelecidos no gênero da fantasia, como o que aconteceria caso o mal saísse vitorioso. Mas em Stormlight Archive você parece seguir uma rota diferente, algo mais tradicionalmente épico, por assim dizer…

Mistborn era sobre inversão de tropos: o que significava ser o herói ou ter uma profecia, todas essas construções distorcidas em suas cabeças. Então, quando eu estava trabalhando na segunda versão de The Way of Kings, parte do meu cérebro estava procurando por tropos para inverter.  E isso era muito perigoso para mim, porque minha carreira inteira se resumiria apenas a subverter o que outras pessoas fizeram, não acrescentando em nada à discussão. Com Stormlight, uma das coisas que quis fazer foi provar que a fantasia épica poderia ter um worldbuilding como a ficção científica, com ecologias inovadoras e um planeta bem diferente, algo como o que você veria numa história do Frank Herbert. Isso era o que eu queria trazer para a fantasia épica, e se eu focasse demais em inverter tropos, toda a minha carreira seria apenas uma nota de rodapé. Certamente vou fazer mais: The Reckoners é uma inversão de tropos, mas não posso deixar minha carreira se resumir a isso. Estou bastante feliz por ter chegado a essa conclusão, porque The Way of Kings é muito melhor como livro sendo um novo bloco na tradição épica, dando esperançosamente um passo adiante sobre os ombros de gigantes, fazendo do gênero como um todo algo melhor. Não que eu não goste de Mistborn, eu adoro como ele consegue minar algumas das expectativas, mas eu não penso que ele deveria ser o resumo da minha trajetória. Talvez funcionasse para outra pessoa, Terry Pratchett seria um bom exemplo. Mas mesmo seus livros se tornam fantásticos quando ele está escrevendo sobre grandes personagens e a inversão de tropos vira apenas subtexto de uma sátira sobre a experiência humana. Eu não sei se você leu Pratchett…

Ah, sim! Pratchett é muito amado nesta revista.

Logo nos primeiros livros de Discworld ele estava tentando fazer piadas sobre a fantasia, mas nos últimos ele satirizava toda a humanidade com algumas piadinhas sobre fantasia polvilhadas por cima… E alguns desses livros são lindas, atemporais e incríveis obras de arte que configuram algumas das melhores fantasias já escritas, e isso é porque ele foi além de só fazer graça dos tropos e explorou o que significa ser humano.

Fonte: Jorge Quiñoa – JotDown – Reprodução

Alguns de seus livros foram indicados ou ganharam o prêmio Romantic Times por Melhor Fantasia Épica… Quais tropos românticos você tentou colocar (ou subverter) em suas histórias?

Essa é uma ótima pergunta. Quando ganhei pela primeira vez um prêmio da Romantic Times, pensei se tratar de uma escolha esquisita, mas meu agente disse que eles eram uma revista muito boa, acostumada a ler coisas fora de seu nicho específico. Isso é na verdade bastante louvável. Romance faz parte de nossas vidas, praticamente todo mundo tem inclinações românticas de tempos em tempos. A maioria de nós quer alguém com quem estar junto, e parte do que nos torna felizes e realizados é achar uma pessoa com quem nos encaixamos, então muitos dos meus livros vai conter certa medida disso… É parte da experiência humana, assim como a religião. Uma coisa que tento fazer em meus livros é mostrar relações familiares e relações estáveis. Não vemos muito disso nas histórias! Em Stormlight eu decidi que meu arco romântico seria vivido entre as pessoas de meia-idade, não os jovens. Kaladin não tem um romance, Shallan tem, mas há uma reviravolta envolvida, Dalinar e Navani é que estão tendo um romance. Pessoas em seus quarenta e cinquenta anos se apaixonam o tempo todo, mas os jovens fingem que tudo gira em torno deles! Mas não posso falar muito mais, porque estou lidando com alguns tropos que dariam spoilers.

Você escreveu livros infanto-juvenis como a série Alcatraz, e livros young adult como a trilogia The Reckoners ou The Rithmatist. De que maneiras você tenta adaptar sua escrita para cada caso?

Alcatraz é um caso bastante único. Estava escrevendo os livros de Mistborn, e senti que eu meio que precisava de um descanso. Eu andava escrevendo demais naquele mundo, em parte porque era o primeiro mundo em que eu havia escrito uma sequência. Então após o segundo livro de Mistborn eu precisava de alguma outra coisa. E aí, estando completamente liberado dos limites rigorosos que eu necessitava em meus outros livros, comecei uma sessão de escrita livre e foi isso que saiu. Eu li uma quantidade decente de infanto-juvenis: a série Artemis Fowl, Eva Ibbotson, Lemony Snicket… Então não fiquei surpreso quando um romance infanto-juvenil apareceu, mas não é como se eu estivesse intencionalmente tentando escrevê-lo. Alcatraz é uma série bem estranha, porque o humor envolve um monte de sarcasmo e trocadilhos, coisas que estão acima de vários leitores infanto-juvenis. Tem uma audiência muito restrita: leitores infanto-juvenis que são espertos demais para seu próprio bem ou leitores young adult muito novos.  Doze ou treze anos é o ponto forte de Alcatraz, e talvez nove ou dez anos que gostem e saibam compreender sarcasmo. Já no caso de The Reckoners: a série é comumente publicada na linha adulta, como na Espanha ou Reino Unido, embora nos EUA seja publicada como young adult. É apenas uma decisão editorial, já que os livros são tão próximos. Mas eu realmente a escrevi como uma série young adult: nesse caso, a maior diferença foi o foco no ponto de vista de um único personagem. Mas ela não tem um monte de selos “young adult” estampados, por não se passar numa escola, por exemplo, então acaba funcionando dos dois jeitos.

Tenho um pressentimento de que alguns livros de fantasia deveriam ser lidos durante a infância para que sejam marcantes, enquanto outros são agradáveis em qualquer idade. Que qualidades fazem uma história de fantasia ser atrativa tanto para leitores jovens quanto para os adultos?

Os livros que possuem maior apelo para faixa etárias diversas tendem a ser aqueles que contam uma história em múltiplos níveis ao mesmo tempo. É o princípio da Pixar: eles fazem filmes que são sensatamente infantis, mas que trabalham em todos os níveis…. Divertidamente foi capaz de conversar com qualquer um que já tenha lidado com depressão, enquanto continuava a ser um engraçado filme infantil. É difícil de fazer, mas é a maneira com a qual você pode criar algo como Ender’s Game, um desses livros que pode ser significativo para qualquer faixa etária. Eu apenas tento garantir que possuo uma boa variedade de personagens em cada livro, com diferentes perspectivas sobre a vida. Robert Jordan era bastante bom nisso. Quando li seus livros ainda adolescente, simpatizei com os jovens, e relendo como adulto, simpatizei com os adultos e pensei que aqueles adolescentes estúpidos estavam sendo muito estúpidos.

Nos comentários de Mistborn, você fala que um escritor precisa ter um certo grau de arrogância: “você precisa ser arrogante para ser um autor”. Mas ao mesmo tempo, você e a maioria dos seus personagens são humildes sobre seus feitos. Como você concilia arrogância e humildade?

[Risos] Eu não sei, essa é muito difícil pra mim… A coisa que mais me preocupo com relação a mim mesmo é ganhar um ego grande, virar um fanfarrão. Se eu tiver um defeito fatal, será esse. Ao mesmo tempo, acredito que um artista deva ter um pouco de confiança inata de que o que produz é digno do tempo e dinheiro que as pessoas vão gastar nele. É tão estranho… Existe um contraste natural nisso, eu concordo. Tentar escrever personagens como Sazed, que consegue ser humilde, é talvez um modo de me inspirar a abandonar uma porção do meu próprio ego, mas sei que sou ruim nisso em alguns momentos, então não se prenda a mim como um modelo a seguir nessa área.

Quando conversei com Marta Rossich, sua editora na Espanha, ela falou bastante do seu time de colaboradores próximos, o “Time Sanderson”… O que eles fazem pra você exatamente?

Todo o trabalho deles é me deixar livre para escrever livros. Qualquer coisa que seja concebível delegar a eles para acelerar o que não é escrever livros, eu delego. Por exemplo, quando escrevo um post pro blog, entrego-o a Peter para editar ao invés de revisar eu mesmo três vezes para achar erros de digitação. Então ele o passa para Adam, que posta no meu site. Não que me salve um monte de tempo, mas até mesmo meia hora são mais trinta minutos em que eu poderia estar escrevendo. Isaac lida com arte, então ele desenha um monte de imagens para a parte interior ou para os comissionados, e trabalha com os ilustradores para garantir que tenhamos boas capas, de modo que não preciso fazer nada disso. Ele conferiu a arte para White Sands: quando as páginas chegaram, foi ele que deu o feedback ao artista, e então eu precisei apenas dar uma olhadinha perto do fim. Esse tipo de coisa é muito útil para me manter escrevendo.

Você é co-anfitrião de um podcast de conselhos literários chamado Writing Excuses, um trabalho que rendeu um prêmio Hugo em 2013. Como surgiu esse podcast?

O podcast surgiu por causa do meu irmão, que estava tendo algumas aulas de transmídia na faculdade. Ele queria fazer um podcast roteirizado onde eu escrevia uma história e ele teria atores a interpretando, mas eu não tinha tempo suficiente para isso. De qualquer forma, me deixou bastante interessado em podcasts, comecei a escutá-los. Com o tempo, pensei, não havia ninguém fazendo realmente um podcast de escrita do jeito que eu queria. Muitos podcast divagavam bastante, o que é divertido, mas eu queria algo mais informativo, como Grammar Girl só que para escrita, especificamente para escrita de romances. Então juntei alguns amigos que achei capazes de render boas personalidades ao vivo e comecei a coisa! Então é tipo o meu bebê que agora virou algo muito maior.

Fonte: Jorge Quiñoa – JotDown – Reprodução

Li que você não é especialmente interessado em jogos de cartas colecionáveis, exceto por Magic: The Gathering. O que você nesse jogo em particular?

Magic libera uma expansão que revoluciona o jogo a cada três meses, então acompanhá-las toma basicamente todo o meu tempo de lazer. Costumo brincar: “Ou você joga Magic ou você joga todos os outros jogos”, porque o Magic demanda bastante, não para jogar, mas para acompanhar. E assim eu usualmente só consigo jogar um novo baralho uma ou duas vezes, porque só tenho uma única chance por mês para fazer isso… Então quero usar esse tempo para jogar o novo baralho de Magic. Não me sobra tempo para tentar os outros.

Você também gosta de RPG’s, como a série Final Fantasy?

Eu joguei todos eles, e Final Fantasy X é meu favorito. VII é aquele que todo mundo se apega porque o worldbuilding é legal. Mas a história, lamento por todos os fãs do VII, é uma bagunça. Havia personagens divertidos, e quando Aeris morreu eu estava pronto para esmurrar minha TV, mas a história de Final Fantasy X me fisgou, porque era bem próxima às histórias que eu gostava de escrever.

Eu ouvi que nos voos de longa distância você aproveita para trabalhar em novelas… O que  andou escrevendo nessa última viagem?

Dessa vez, Stormlight tem sido tão exigente e eu estou tão atrasado que na verdade acabei trabalhando em Oathbringer. Nada de novela para mim dessa vez, eu não tinha permissão para tanto.

Você parece fazer um monte de atividades colaterais à sua escrita, como responder ao Reddit, escrever comentários para os livros, manter uma barra de progresso no seu site sobre futuros trabalhos… Por que você tenta ser tão ativo junto ao fandom?

Eu sou um fã de A Roda do Tempo. E foi tão difícil naqueles anos não saber quando um novo livro estava saindo e como Robert Jordan o estava fazendo… Eu compreendo que nem todo autor pode ser transparente: por exemplo, se Patrick Rothfuss fala muito sobre seu livro, psicologicamente isso afeta sua capacidade de trabalhar nele… Mas meu psicológico se beneficia da interação e da prestação de contas, e se eu reporto aos fãs o que estou fazendo, tenho mais chances de deixar as coisas prontas. Também faço parte de uma geração de pessoas que cresceram com a internet, por isso estou acostumado a poder achar qualquer coisa a qualquer hora, e entendo o sentimento. Então quero poder certificar que meus fãs, que estão me apoiando e me pagando por existir, terão acesso a toda informação que eu possa razoavelmente oferecer-lhes.

Vi dois vídeos de você escrevendo em tempo real: a maratona de escrita para a Fundação Waygate na JordanCon 2014, e a escrita do interlúdio de Rysn em Words of Radiance. De onde você tirou a ideia de mostrar tão abertamente seu processo de escrita?

Isso veio das pessoas que jogam videogame no Twitch ou que fazem demonstrações de pintura online de vez em quando, e eu pensei “tenho como fazer algo assim com escrita?”. Acabou que escrever é algo bem mais tedioso do que jogar videogame. [Risos] Nos tutoriais de pintura o artista ainda pode falar enquanto desenha, mas quando você está escrevendo é muito complicado parar e explicar o que está fazendo. Eu posso fazer mais disso no futuro, mas é super difícil.

Qual sua opinião sobre fan fictions baseadas em seus personagens e universos? Autores como Martin ou Anne Rice são firmemente contra por causa das questões de direitos autorais e por quererem evitar colisões na trama. Outros autores, ao contrário, não tem nenhum problema com trabalhos derivados…

Não tenho problemas com isso. Acho que fãs devem ser livres para fazer o que quiserem. Quando eu lia enquanto garoto, uma coisa que sempre fazia era inserir meus próprios personagens nos livros conforme eu os lia. Acredito fortemente que uma vez que você está lendo um livro, ele pertence a você, ao menos a versão dele que está na sua cabeça. Você tem o direito de alterá-la para que fique como você deseja. E eu também acredito no poder da ficção e da arte para inspirar mais ficção e arte. Estaremos postando algo no site após conversar com nossos advogados, para dar permissão às pessoas de criar legalmente fan art e coisas como essas. Mesmo pessoas que fazem um trabalho transformativo, então se eles fazem música ou uma obra de arte visual baseada em meus livros, eles serão capazes de vender aquilo, porque é uma nova obra de arte. Quanto a escrever, eu não os quero escrevendo livros para competir comigo, mas fico honrado de que eles queiram fazer isso para sua própria diversão ou para compartilhar online de forma gratuita.

Você está preocupado com a pirataria? Leitores baixando seus livros sem comprá-los, por exemplo…

Não é uma das minhas maiores preocupações. Me preocupo mais em países que não possuem uma audiência fortalecida de ficção científica e fantasia, porque temo que isso acabe minando as livrarias. Mas no geral, acho que a preocupação com o assunto é exagerada. Minha experiência tem sido de que leitores querem apoiar as coisas que gostam, e se eles puderem apoiar seus artistas favoritos, eles irão. Mas se chegar um ponto em suas vidas onde eles não possam mais fazer isso, então é melhor deixa-los ler as histórias que eles quiserem, desenvolver suas vidas e suas ideias, e deixa-los apoiar artistas quando eles forem capazes disso. Sou um grande fã de distribuir livros de graça.

Warbreaker está integralmente disponível em seu site…

E eu encorajo a Tor a distribuir The Way of Kings e Mistborn nos EUA. Não acho que as pessoas deveriam piratear na maioria dos casos, mas não vou tomar nenhuma ação para detê-los. Deixo que suas próprias moralidades guiem como eles abordam a questão, e eu vou apenas escrever meus livros e ser grato pelas pessoas que me apoiam.

Fonte: Jorge Quiñoa – JotDown – Reprodução

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