Caçador em Fuga: um livrão do tamanho do seu bolso

Nem só de Game of Thrones vive o homem, ainda mais se o homem em questão for o George Martin.

Fonte: Casa da Palavra – Reprodução

Embora as Crônicas de Gelo e Fogo sejam o carro-chefe de sua carreira (afinal, são poucas as obras capazes de causar tanto rebuliço na cultura pop), George Martin é, ao contrário do que se imagina, um autor muito produtivo em outros ramos da literatura.

Confesso que torci o nariz quando ouvi falar na publicação de Caçador em Fuga aqui no Brasil: não sou muito versada no mundo da ficção científica e meu único contato com um Martin futurista foi a série de contos Wild Cards, que nunca conseguiu me capturar por inteiro.

Mas… Martin é Martin, e eu estava ansiosa para ler algo dele que não estivesse atrelado aos Sete Reinos (mesmo em O Príncipe de Westeros e Outras Histórias e Mulheres Perigosas, os contos do autor giram em torno de episódios da Dança dos Dragões). Às vezes a gente precisa colocar os preconceitos no bolso e tentar coisas novas, certo?

Olha, ainda bem que eu fiz isso. Que livro. Que livrão, que livraço!

Eu após ler Caçador em Fuga. Fonte: MemeSuper – Reprodução

Entenda, não estou dizendo que Caçador em Fuga é um fenômeno literário, ou mesmo que contém a mesma complexidade de uma obra como Game of Thrones. Mas ele é, sem sombra de dúvida, um trabalho muito competente. É um livro que faz o seu dever de casa em termos de técnica, trama, personagens e ambientação. E se você gosta do George Martin numa pegada Idade Média, vai surtar com o George Martin futurista.

Mas antes de comentar o livro em si, vamos dar a César o que é de César: o crédito pela obra não é exclusividade de um único autor. Isso porque Caçador em Fuga é um livro escrito a seis mãos. Além do próprio George Martin, assinam a autoria Daniel Abraham e Gardner Dozois (este último sendo o “verdadeiro dono” da história).

Eu já conhecia Gardner Dozois das antologias que ele organizava junto ao Martin. O engraçado é que, apesar de estar em todos os projetos, ele nunca participava efetivamente com um texto. Tudo bem que Dozois é muito mais um editor profissional do que um autor profissional, mesmo que já tenha sido premiado com o Nebula duas vezes por histórias curtas. Mas ainda assim…será que nunca deu um gostinho de participar com suas próprias palavras? A impressão que tive, e que foi reforçada por Caçador em Fuga, é de que Dozois é um idealizador. É o cara certo para iniciar uma ideia, para trabalhar conceitos, para dar pitacos. Vai pegar uma história e enxergar todo seu potencial lá na frente. Em resumo, o editor dos sonhos de qualquer pessoa.

Porém, em sua idealização, Dozois me parece (e eu posso estar totalmente equivocada ao afirmar isso) alguém que se envolve em inúmeros projetos e tem várias ideias, mas que sente dificuldade em concretizá-las por si só. Isso não é necessariamente uma crítica, eu mesma tenho um pouco desse viés, mas Dozois me parece mais confortável ao trabalhar em cima do texto de outra pessoa. Em resumo: ele precisava de um fazedor, alguém que sentasse a bunda na cadeira e tivesse fôlego para sobreviver às partes chatas. Nem tudo são flores na hora de escrever um livro.

E quem melhor para cumprir esse papel do que um amigo íntimo que usa uma máquina de escrever até hoje? Se alguém pode ser utilizado como exemplo de persistência, esse alguém é o Martin (e os leitores dele, que estão esperando Os Ventos do Inverno até hoje).

George foi o responsável por boa parte da “cara” que Caçador em Fuga tem hoje. Ele não só desenvolveu o ecossistema do planeta e sua descrição geográfica (o que, vamos combinar, é a cara dele), como também inseriu personagens e novas dinâmicas entre eles. Os diálogos ácidos que vamos encontrar nessa obra de ficção científica vão soar bastante familiares para os amantes de Game of Thrones.

Dozois, Martin e Abraham. Fonte: Autoria própria.

Mas, com a história expandida e quase completa, eis que surge um novo problema. Imagina só juntar um idealizador com um fazedor perfeccionista: após anos retocando e pincelando o texto, Martin e Dozois estavam longe de considerá-lo pronto. George sugeriu que ele e o amigo se revezassem na escrita, mas tanto ele quanto Gardner estavam soterrados de outros projetos e responsabilidades. Dozois não fazia ideia de como fechar aquela história, e Caçador em Fuga acabou indo parar na gaveta por um bom período.

E é aí que entra a nossa terceira peça: Daniel Abraham, o finalizador, a pessoa que coloca o ponto final e envia o livro pra gráfica porque todo mundo sabe que o perfeito é inimigo do feito. Abraham trabalha com quadrinhos e televisão, o que nos leva a crer que o cara entende muito sobre prazos. Em apenas dois anos, Abraham fechou todas as pontas que seus colegas não conseguiram resolver satisfatoriamente em vinte. A história foi publicada sob o nome de “Shadow Twin”, com uma tiragem bem modesta.

Acha que acabou? Claro que não. Como eu disse lá em cima, Gardner Dozois é um editor por natureza. Com o livro finalmente pronto, ele estava em seu habitat natural: editou e reestruturou o livro para uma versão de 380 páginas sob um novo título, esta sim sendo comercializada hoje em dia.

E antes que surja o primeiro ‘mas-o-Martin-devia-estar-escrevendo-Os-Ventos-do-Inverno’, vale a pena dar uma olhada na cronologia de Caçador em Fuga:

Dozois surgiu com a ideia em 1976, repassando-a para as mãos de Martin em 1981. Em 1982, eles travaram e o projeto ficou parado até 2002, com a chegada de Daniel. A primeira versão foi publicada em 2004. Com a posterior revisão de Dozois, a versão final foi finalmente publicada em 2007, anos antes de você sequer sonhar com o seriado da HBO.

Fonte: Autoria própria

Então sim, estamos falando aqui de um livro que levou mais de 30 anos para ficar pronto. Se isso não te deixa com curiosidade o suficiente para ler, eu não sei mais o que dizer.

Mentira, eu sei o que dizer:

Veja, estamos falando aqui de um livro de 30 anos de produção que ainda por cima foi escrito por três caras muito bons e de perfis muito distintos. O livro não é uma saga, ou seja, tudo o que os autores quiseram passar está lá, condensado em apenas 380 páginas (304 na edição da Leya). É um livrão do tamaninho do seu bolso, que você lê em duas tardes, tipo aquelas pílulas dos astronautas que valem por uma refeição.

Prendi a sua atenção? Ótimo, então já podemos conversar sobre o enredo.

Vou comentar o mínimo possível sobre o plot, pela simples razão de que Caçador em Fuga, em seu cerne, é movido pela surpresa. É o tipo de livro que você precisa ler sem nenhum conhecimento prévio, ou sua experiência de leitura foi pelo ralo. Se você souber 1% a mais do que deveria, os artifícios usados pelos autores tornam-se inúteis. A capa escolhida pela Leya, onde foi mantida a arte original, faz um bom trabalho em esconder possíveis revelações: não dá pra saber quase nada sobre a história. A contrapartida é que a capa também não chama muita atenção comercialmente, o que é uma pena.

Fonte: Michael Komarck Illustration – Reprodução

Bem, basta dizer que Caçador em Fuga acompanha a história de Ramón Espejo, um minerador latino que vive na colônia de São Paulo, um planeta recém descoberto. No cenário futurista apresentado no livro, a humanidade lança-se ao espaço com objetivos de grandeza: dominar a galáxia e reinar o inexplorado. Contudo, saímos levemente atrasados: o espaço já tem dono. Raças alienígenas muito mais avançadas controlam as rotas comerciais, as riquezas e as colônias.

A ideia de um protagonista latino veio de Gardner Dozois. Ele sentia que o grupo era muito mal representado dentro da ficção científica e queria virar o jogo. Toda a cultura, biodiversidade e vocabulário é derivada de influências da América do Sul e Central. Mais que isso, o livro faz um paralelo interessante com a situação dos hispânicos nos EUA, parcela da população conhecida pelos empregos informais e situação irregular junto à imigração. Em Caçador em Fuga, a humanidade é uma imigrante em busca de um green card espacial, precisando se sujeitar a trabalhos insalubres e migalhas  alienígenas.

Aliás, o livro tem uma sacada genial nesse ponto: a raça humana encontrou seu nicho no espaço fazendo uso de seu pior defeito: seu talento para desbravar, se apropriar e destruir coisas. Nenhuma espécie sabe ser tão parasítica e se adapta tão bem à adversidade. Conscientes desse traço genético, alienígenas empregam humanos na exploração e colonização de novos planetas: selvas desconhecidas e sem nenhuma estrutura.

Capa da primeira versão, sob o título de Shadow Twin. Fonte: Amazon – Reprodução

Isso mesmo. Para Caçador em Fuga, o futuro é sujo. O futuro é precário. Embora nos apresente tecnologia de ponta, dá para notar o clima de pobreza que permeia a obra. Não é fácil ser colônia, não é fácil ser dominado. Sempre que Ramón Espejo compra peças usadas e coloca seu furgão voador de pé na base do cuspe e palavrões, sinto uma melancolia profunda: conquistamos o espaço, mas tão pouco mudou…

Ramón Espejo é um protagonista incrível, o retrato personificado de nossa condição enquanto colônia: ele é desbocado, agressivo, malandro, egoísta, perdido. O típico caso do cara que perderia todo o dinheiro da família num cassino e ainda assim acordaria sonhando em ficar rico ao achar um poço de petróleo.

Conversei com poucas pessoas que também leram o livro até então, e acho engraçado como a maior parte delas acha Ramón um cara difícil de gostar. Gente, eu amei esse rapaz desde a primeira página! Não que Ramón seja um modelo a ser seguido ou alguém com quem eu faria amizade: ele é cheio de defeitos. Mas Ramón é de uma verdade, de um realismo tocante. Ele é aquela parte feia da humanidade que tentamos negar e varrer pra debaixo do tapete.

Quem é Ramón Espejo? Fonte: Autoria própria.

O Leandro, do Drunkwookie, escreveu uma resenha bem legal para o livro, onde aponta que Ramón é o Han Solo do George Martin. Eu iria ainda um pouco além, dizendo que ele é um Sandor Clegane latino e futurista.  Ramón reage, luta, sobrevive com o que dá e faz muita merda sim. Mas acho que lá no fundo, ele tem uma humanidade que me encanta. Eu gosto de acompanhar a forma como a mente dele trabalha, percebe? Ramón não é um cara pra você andar no recreio, mas é um tapa na cara muito necessário sobre a nossa espécie.

Essa é uma das coisas que mais amo no Martin, a capacidade de suspender julgamentos. Muito além dos defeitos, ele consegue nos fazer sentar e ouvir as verdades da vida de outra pessoa, entender que tipo de certeza a move. A gente vê bastante disso em Game of Thrones, e com certeza você vai encontrar bastante disso em Ramón Espejo.

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O livro enquanto experiência de leitura
Precisamos conversar sobre Vaelin Al Sorna

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