Clichê ou não clichê: eis a questão

Se você quiser ver um autor sair correndo de uma sala, é só falar a palavra “clichê” em voz alta.

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Não tem erro, o pobre coitado certamente agarrará seus pertences e partirá em fuga, sem nem olhar para trás. Junto a “plágio” e “deus ex machina“, o clichê compõe a trindade do mal que habita nossos piores pesadelos.

Estamos, definitivamente, numa época de caça ao clichê.

Mas será que a gente realmente o odeia? Será que ele é mesmo um atestado de incompetência para o autor? Ou será que estamos entendendo tudo errado?

Fonte: Tumblr – Reprodução

Andei pensando bastante sobre isso. Eu também era dessas que apontava o dedo para clichês, fazendo cara feia. Mas com o tempo, passei a perceber que não era todo clichê que me incomodava, que havia várias e várias formas de abordá-los e que nem sempre um lugar-comum é algo ruim para uma narrativa.

Em primeiro lugar, comecei a diferenciar o que é clichê e o que é trope (eu não sei se essa diferenciação existe oficialmente, mas gosto de pensar que sim). O trope é uma construção comum, muito mais no sentido de arquétipos e estruturas simbólicas do que o clichê, que é simplesmente algo previsível ou recorrente.

Você jamais conseguirá escapar de todos os tropes. Em maior ou menor escala, sempre cairá em algum, ainda que tente dar a ele uma nova roupagem. Creio ser impossível inovar em cada aspecto de uma história, e, sinceramente, nem sei se vale a pena tentar fazer isso: conexões e familiaridades, quando bem trabalhadas, geram empatia. Comentei na resenha de Labirinto que o Rei dos Duendes era um personagem bastante similar a Peter Pan. Esse fato não me passou nenhuma sensação de plágio ou clichê, mas sim um entendimento que me possibilitou enxergar a narrativa com muito mais profundidade. Aqui, os dois personagens seguem tropes cujo papel é representar algo dentro da história. Essas características comuns tem razão de ser dentro daquele mundo.

Já em A Rainha Vermelha, me irritei ao ver que a protagonista, Mare, era um mosaico de outras heroínas, como Katniss de Jogos Vorazes e América de A Seleção. Mare não possui traços comuns porque sua história pede por eles, mas sim para satisfazer uma imagem mental que domina as mocinhas de romances YA distópicos. Como se isso fosse uma regra que os autores deveriam seguir. Ela é daquele jeito simplesmente por ser, e isso torna-se chato e previsível: a gente já sabe que ela será uma menina durona que rouba para sustentar a irmã mais nova e que vai viver um triângulo amoroso. Isso é o que considero clichê, o lugar-comum sem justificativa de enredo.

Trope ou clichê? Fonte: Reddit – Reprodução

(Lembro de estar escrevendo Dons de Inari no Wattpad e tremer nas bases porque os leitores da plataforma reclamavam da quantidade de personagens ruivas, o que é verdade. Mas minha protagonista é uma raposa e a cor da pelagem seria uma das poucas coisas que eu teria para diferenciar todas as kitsunes que aparecem no livro. Pensei em mudar, mas vi que o cabelo ruivo fazia sentido dentro daquela história.)

Mas além de um enredo bem amarrado, que serve para justificar o uso dos tropes de caracterização, que outro fator pode ser decisivo na hora de transformar um trope em clichê?

Previsibilidade.

Brandon Sanderson é um cara que usa e abusa dos tropes. Se você parar pra analisar a trilogia Mistborn, vai encontrar um monte de possíveis clichês. A história do escolhido redentor, a dicotomia do bem e do mal, o amor nascido da implicância em meio a cenas de baile.

Mas Brandon sabe como trabalhar seus tropes. O que muda aqui é que os fios condutores do enredo são tão embolados que você, apesar de reconhecer aquela construção, não faz ideia do que pode acontecer a seguir. Não é porque a gente tem um mega vilão que ele vai ser o responsável por tudo de mal que acontece na história. Não é porque nosso casal protagonista está vivendo um conto de fadas que tudo precisará terminar obrigatoriamente num “felizes para sempre”.

No final das contas, o que o leitor quer mesmo é ser surpreendido. É torcer e temer pelos personagens, é virar a página porque simplesmente precisa saber o que acontece. Se você torna um trope previsível, ele é um clichê.

Fonte: Tumblr – Reprodução

Lembra quando todo mundo estava acostumado com as fantasias épicas onde o mocinho comia o pão que o diabo amassou mas finalmente triunfava e aí veio o George Martin, matou todo mundo e virou o escritor mais comentado do ano?

As Crônicas de Gelo e Fogo ainda são repletas de tropes (até por serem baseadas em fatos históricos), mas Martin soube inovar e pegar todo mundo de surpresa, evitando clichês. Será que hoje, agora que estamos vivendo a era dos autores sanguinários, um novo George Martin receberia a mesma atenção? Não falo em relação à qualidade de sua obra, claro, mas será que ele seria canonizado como alguém tão inventivo? Porque evitar o clichê a todo custo…não está virando por si só outro clichê? E qual o mérito de contornar um clichê se o seu sucesso narrativo depende, bem, da existência prévia deste lugar comum?

Pense no susto que nós, leitores, tomaríamos caso descobríssemos que em Os Ventos de Inverno, a família Stark consegue tudo o que quer e vive feliz para sempre…

Fonte: Entertainment Weekly – Reprodução

Meu ponto aqui é que clichês também são coisas de momento. Um trope nunca é uma má escolha, ele pode apenas não ser adequado para aquele momento, ao menos não para surpreender o leitor. Em outras épocas, é possível que ele seja a cartada mais incrível da sua história. O trope não é danoso, o problema é o que você, como autor, vai decidir fazer com ele.

Gosto sempre de lembrar do caso de uma das autoras que me pediu feedback durante a organização da Antologia Valquírias. Quando apontei um lugar comum em sua história, ela acabou me convencendo de que, por ser um texto LGBT, aquele clichê era necessário. Era uma forma de inclusão. Era um lugar comum em que algumas pessoas gostariam de ser incluídas pela primeira vez, como se fincassem uma bandeira. Era algo merecido e necessário.

Lembro de ter lido uma reportagem muito interessante no LitHub, sobre como a forma de contar histórias muda do Ocidente para o Oriente. Como se as estruturas narrativas fossem bem delimitadas de acordo com a cultura. O que torna nossa literatura um grande clichê, não? “Droga, outra Jornada do Herói”.

A narrativa oriental do Studio Ghibli. Fonte: readersdigest – Reprodução

Na reportagem, a autora comenta como os japoneses enxergam o enredo de forma diferente. Eles não estão muito preocupados com a moral ou com o desfecho. Para os japoneses, o importante é a estética da história, a forma como uma jornada é transmitida. Seria algo como olhar um quadro: o todo deve ser agradável aos olhos, não uma linha temporal de acontecimentos sucessivos. Os japoneses se preocupam mais em aprofundar-se nas camadas de um evento do que no desenrolar do mesmo.

Isso talvez explique porque os animes e mangás nos parecem tão inventivos: eles não seguem os mesmos tropes que nós. Um filme do Studio Ghibli ainda é algo bastante surreal comparado aos épicos de Hollywood. E essa talvez seja uma pista sobre porque tantas editoras estão apostando na publicação de obras orientais: elas trazem frescor, elas trazem novidade.

“It’s been a while since I read The Writer’s Journey, but I doubt very much it contains ‘observing a beautiful image but being left with nothing’ as ‘the Reward’ for the hero’s quest. And yet, perhaps it is indeed precisely the kind of knowledge a true seeker needs to learn, and accept as she ages. Perhaps it is the bravest lesson of all.

Já faz um tempo desde que li A Jornada do Herói, mas eu duvido muito que ele contenha ‘observar uma bela imagem mas ser deixado com nada’ como ‘a Recompensa’ para a busca do herói. E ainda assim, talvez esse seja precisamente o tipo de conhecimento que um verdadeiro buscador deve aprender, e aceitar à medida em que envelhece. Talvez seja a lição mais valente de todas.”

Acabou a era do felizes para sempre, mas também estamos enjoando do felizes quase nunca. Como é que vamos ser surpreendidos?

Fonte: Tumblr – Reprodução

Hoje em dia tenho cuidado na hora de apontar o dedo para um clichê. Não acho mais que seja algo a evitar, mas sim algo que pede por um manejo responsável. As fronteiras do que é e do que não é um clichê ainda são muito nebulosas: acho que ninguém sabe ao certo explicá-las. As regras criadas possuem mais exceções do que é possível contabilizar.

E, com o passar do tempo, sabe quais são as únicas coisas que vão perdurar?

As boas histórias. Sempre as boas histórias, as que cativam, as que marcam, as que funcionam. Seja lá com que elementos elas forem escritas.

“Bons artistas copiam. Grandes artistas roubam.” Fonte: goinswriter.com – Reprodução

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