Consequências dos diferentes POVs

Muito se fala sobre a questão do POV (point of view) nos livros, quando a história é contada através do ponto de vista dos próprios personagens. E muitas são também as histórias que utilizam o artifício, surgindo aos montes nas prateleiras. Parece até um estilo recorrente dos últimos anos, sobretudo dentro da literatura juvenil.

Fonte: baloocartoons.com - Reprodução

“Tentem ver as coisas sob o meu ponto de vista.” Fonte: baloocartoons.com – Reprodução

Mas antes de tentar explicar os prós e contras dessa forma de escrita, é preciso entender o que de fato são POVs.

Não são uma coisa nova: existem, digamos, desde que mundo é mundo. Toda história, seja ela qual for, é contada sob um POV. A pergunta a ser feita é: ponto de vista de quem?

Segundo o The Beginning Writer, existem três tipos de POV:

– POV de primeira pessoa: 

Acontece quando o narrador faz parte da história, sendo um personagem ativo. A narrativa é direcionada  pela perspectiva do “eu”, onde o expectador vivencia uma experiência subjetiva, sob o olhar do protagonista. Apenas vemos as cenas que o personagem vivenciou, e caso este esteja confuso sobre seus sentimentos, tampouco o leitor tem conhecimento da verdade. O estilo vem ganhando força ultimamente, sendo o caso, por exemplo, de Jogos Vorazes, onde a própria Katniss Everdeen faz as vezes de narrador:

“Quando acordo o outro lado da cama está frio. Meus dedos se esticam à procura do calor de Prim, mas só encontram a cobertura áspera do colchão.”

– POV de segunda pessoa:

Utilizado quando o leitor é também um personagem da narrativa. Suas expressões giram em torno do “você”. É a forma mais incomum de ponto de vista, raramente encontrada em romances e geralmente restrita a manuais de instrução e outras coisas do gênero. No entanto, está presente nos RPGs e outros livro-jogo, como é o caso de O Grande Segredo, de Marlene Serruya.

– POV de terceira pessoa:

É o mais comum, do tipo que estamos acostumados a encontrar desde criança nas fábulas e contos de fada. Trata-se da história contada sob o ponto de vista de um narrador, que se refere aos personagens como “ele” ou “ela”, sendo apenas um observador das cenas. Este tipo de POV é subdividido em três outras categorias:

1) Limitado: No modo mais recorrente da literatura, o narrador apenas acompanha um personagem, como uma sombra. O que significa que só temos conhecimento daquilo que o próprio personagem sabe, sente ou escuta. Podemos até explorar outros indivíduos, mas nosso protagonista necessita estar presente para vivenciar a ocasião. Com raríssimas exceções (como na primeira cena de HP e A Pedra Filosofal), praticamente toda a saga de Harry Potter é contada utilizando este estilo.

2) Múltiplo: Este tipo de POV é o que está ganhando destaque ultimamente, principalmente por causa da febre Game of Thrones. Assim como nos livros de George Martin, no POV múltiplo o narrador troca constantemente o foco de personagem, alternando entre protagonistas. Podemos inclusive assistir a uma mesma cena várias vezes, sob diferentes interpretações. Estamos dentro de cabeças diferentes em momentos diferentes, por assim dizer.

3) Onisciente: Apesar de ainda utilizar as referências a “ele” ou “ela”, este POV faz com que o narrador não dependa do que os personagens vivenciam ou sentem. O narrador sabe tudo, tem uma visão geral da história e é capaz de julgar, fazer piada e analisar as atitudes dos personagens. Se nos POVs limitado e múltiplo o narrador é uma sombra pessoal, neste se torna um deus, observando os meros mortais do alto. É o caso do Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams:

“A garota que ele arrastara até o bar meia hora antes já o detestava cordialmente a essa altura e provavelmente ficaria muito satisfeita se soubesse que, dentro de uns 90 segundos, ele iria se evaporar em um sopro de hidrogênio, ozônio e monóxido de carbono. Porém, quando chegasse a hora, ela também estaria ocupada demais se evaporando para se preocupar com isso.”

Seu enredo pode se tornar bem diferente sob outro ponto de vista. Tirinha de Charles Schulz - Reprodução

Seu enredo pode se tornar bem diferente sob outro ponto de vista. Tirinha de Charles Schulz – Reprodução

Então, agora que você já conhece todos os conceitos, quando ouvir alguém dizer que determinado livro “é escrito em POV”, imagine que estamos falando ou de POV de primeira pessoa ou de POV múltiplo de terceira pessoa. E agora, sem mais delongas, as consequências disso tudo:

Escrever um livro em POV de primeira pessoa requer muito cuidado, principalmente se considerarmos a temática envolvida. Segundo este artigo, leitores podem se sentir desestimulados por uma narrativa focada no “eu”, por causa da sensação de que o personagem “está seguro e salvo em algum lugar”. Pode até não ter tanta importância em uma história de amor, pois o simples fato do protagonista estar vivo pra contar sua história não significa que este esteja feliz ao lado de um grande amor, mas imagine num livro sobre guerra. Pra que temer sobre a vida de alguém, se ele mesmo está me contando tudo? Você está disposto a tirar essa sensação de seu leitor?

Por outro lado, o POV de primeira pessoa é uma ferramenta poderosíssima para gerar empatia. Quando você enxerga de forma tão transparente a mente de uma pessoa, acaba se transportando um pouquinho para dentro dela. A raiva será sua própria raiva, a tristeza será sua própria tristeza, como se as emoções fictícias fossem projetadas no expectador. Além disso, quando vemos a realidade através dos sentidos de uma única pessoa, tendemos a compreender melhor suas ações e julgar menos seus erros. Perdoamos mais fácil.

"Todo vilão é um herói em sua própria mente." Tumblr - Reprodução

“Todo vilão é um herói em sua própria mente.” Tumblr – Reprodução

Vamos voltar ao exemplo de Jogos Vorazes. Suzanne Collins precisava de uma protagonista amada, com a qual os jovens pudessem se identificar, e que ao mesmo tempo fosse perdoada por ações aparentemente questionáveis (dar flechadas em crianças não é exatamente o comportamento típico para a mocinha da história). Nesse caso, o POV de primeira pessoa cairia como uma luva. Mas e o problema da temática? Como não tirar a graça de uma história que envolve guerra e perigos mortais quando a protagonista é também narradora? Simples. Contando a história com todos os verbos no presente. Assim, a sensação é de que o enredo é contado simultaneamente ao acontecimento dos fatos. Perceba que o clima de tensão é mantido:

“Escolho uma árvore bem alta e começo a escalá-la. […] Mas sou rápida, e quando eles alcançam a base da minha árvore, já estou seis metros acima. Por um momento, paramos e nos avaliamos mutuamente. Espero que eles não consigam ouvir as batidas de meu coração.”

Dá pra dizer que um dos trunfos da autora foi a escolha tanto de um POV quanto de um tempo verbal adequado para a situação.

Utilizar POVs de terceira pessoa também tem lá seus desafios. Para o onisciente, corre-se o risco de não conseguir aprofundar o lado emocional dos personagens, torná-los pouco complexos devido à distância de observação. Porém, este modo é o que mais dá liberdade na hora de criar humor, já que podemos apontar o dedo para os defeitos e as ironias da vida.

O tipo limitado é o mais seguro de todos, por isso mesmo o mais popular. Se adapta bem a todos os gêneros literários, permite que o narrador tenha maior controle na ambientação da cena para o leitor e mesmo assim não perde a conexão emocional com os personagens. É o típico BBB: bom, bonito e barato. Eu diria que, caso seu enredo não necessite explicitamente de um tempero a mais nos pontos de vista, utilizar o POV limitado de terceira pessoa é provavelmente a melhor opção.

No entanto, histórias complicadas exigem ferramentas complicadas. Game of Thrones perderia muito de seu encanto sem o formato de POV múltiplo de terceira pessoa. Cada capítulo possui o nome do personagem que vamos acompanhar, e os fatos se misturam e se repetem numa emaranhada rede de pontos de vista. Um toque de gênio.

Apenas com esse artifício, George Martin quebra a visão de mocinho/bandido e elimina a noção de protagonista. Ninguém é completamente ruim, todos seguem suas motivações ou apenas reagem ao meio onde foram criados. Lemos um fato sob a perspectiva de Fulano e achamos que Beltrano é mesmo um grande idiota. Mas aí escutamos a mesma história com as palavras de Beltrano, e de repente as coisas não estão tão preto no branco assim. Da mesma forma, descobrimos que raramente uma só pessoa é responsável pelos desdobramentos da trama. Todos estão interligados e agem subjetivamente no destino do mundo. E essa estrutura é muito, mas muito difícil de manter amarrada.

Por isso que é tão complicado escolher seu favorito em Game of Thrones. Nos identificamos um pouquinho com todos. Do mesmo modo que é difícil saber se amamos um personagem, ou odiamos, ou amamos odiar, ou odiamos amar…

"Vocês me amam, tolinhos!" Fonte: Tumblr - Reprodução

“Vocês me amam, tolinhos!” Fonte: Tumblr – Reprodução

Um dos maiores exemplos ocorre com a rainha Cersei, que começou a transitar entre os papéis de vítima e vilã a partir de O Festim dos Corvos, quarto livro da série, onde seus POVs se tornam frequentes. Começamos a entendê-la melhor, conhecer seus desesperos e, ainda que estranhamente, conseguimos sentir certa empatia. Mesmo fazendo coisas ruins, ainda posso enxergá-la como humana. O mesmo para vários outros personagens.

Mas já percebeu como Joffrey é uma unanimidade em ser odiado pelos fãs e tratado como monstro? Note que ele nunca teve seu próprio capítulo POV…

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