Dama-da-Noite: mitologia do outro lado do Atlântico

O texto a seguir pode conter spoilers de: Dama-da-Noite. Depois não diga que eu não te avisei…

Já falei aqui no blog sobre como a literatura fantástica moderna tem suas origens profundamente enraizadas na mitologia, nas lendas e fábulas da cultura popular. Se a gente sempre está buscando criar identificação no leitor através de construções e arquétipos comuns, que estratégia seria melhor do que beber direto da fonte?

Fonte: QuotesGram - Reprodução

Fonte: QuotesGram – Reprodução

Conheci a Cátia Figo por acaso, quando ela topou com o blog e me enviou um email sobre seu primeiro livro, Dama-da-Noite. Cátia é uma autora portuguesa, nascida na cidade de Figueira da Foz, que decidiu aventurar-se em uma publicação com a Chiado Editora. O que nos uniu? Um profundo interesse pela história de Lilith, minha versão preferida sobre o desenrolar dos acontecimentos no Jardim do Éden.

Nesta versão da mitologia judaica, a primeira mulher criada por Deus não é Eva, mas sim Lilith, um ser concebido de igual para igual com Adão (esqueça aquela parte da costela). O problema é que Adão não gostou muito dessa história e tentou fazer com que sua esposa lhe fosse completamente submissa. Revoltada, Lilith abandona o Éden e segue com a própria vida, enquanto Deus tenta apaziguar as coisas retirando uma segunda esposa, agora sim, da costela de Adão. Enquanto Lilith representa a emancipação feminina, Eva personifica a esposa recatada e casta, o exemplo de mulher defendido nas religiões abraâmicas até hoje.

Fonte: Lilith - John Collier 1887 - Reprodução

Fonte: Lilith – John Collier 1887 – Reprodução

Por isso mesmo, Lilith foi vilanizada, associada a diversos males e considerada um demônio. Ela é conhecida em diversas culturas como um ser maligno, ladra de bebês e mãe de uma infinidade de súcubus e íncubus que se alimentavam da energia sexual e do sangue humano.

Sim, porque Lilith também é associada à sexualidade feminina (e olha só que coincidência ela ter sido demonizada pelas grandes religiões, hã?). E muito se cogita sobre a serpente do Éden ser na verdade a própria Lilith, oferecendo à Eva o fruto proibido(que é um dos símbolos para o conhecimento racional). A primeira esposa de Adão estaria, então, tentando emancipar a segunda. Outra versão afirma que a verdadeira serpente foi Samael, um anjo caído que Lilith tomou como companheiro.

Lilith tenta Eva. Fonte: Rebloggy - Reprodução

Lilith tenta Eva. Fonte: Rebloggy – Reprodução

Se formos desdobrar todas as mil facetas desta lenda, ainda mais quando começamos a misturar a aparição de Lilith entre civilizações distintas, eu ficaria aqui divagando por horas a fio. O importante é compreender o quão gigantescas são as implicações desta personagem na história do Céu e do Inferno. As influências são enormes.

E foi precisamente com esse tema que Cátia Figo resolveu trabalhar.

Em Dama-da-Noite, encontramos um Paraíso em franca decadência. Com um Deus desaparecido, cabe ao arcanjo Metatron manter a ordem celestial. Sob suas asas (mas olha que trocadilho…), ele treina Kasey Thorndike, uma garota capaz de manipular a água. Porém, este não é o único dom de Kasey: ela também é receptora de um pedaço da alma da própria Lilith, concedida à ela na ocasião de seu nascimento.

Numa série de intrigas pela soberania do Inferno, Kasey vê-se obrigada a despertar Samael. E daí você imagina o que se passa na cabeça de um demônio que dormiu por dois mil anos e de repente dá de cara com a reencarnação da amada…

Fonte: Acervo da autora - Reprodução

Fonte: Acervo da autora – Reprodução

Em primeiro lugar, queria dizer que é uma experiência única ler um livro em português lusitano. Gosto muito de observar como nossa língua, embora teoricamente seja a mesma, pode ser tão rica e variada, com expressões que caracterizam bem o lugar de origem do interlocutor. Ganhei algumas gírias ótimas, como “não vás meter-te em sarilhos”, e agora só quero chamar times de futebol de “equipas”.

Acho que esse contato com as raízes linguísticas é um exercício bem interessante para quem escreve, porque você começa a identificar esses traços únicos de cada local. Para quem gosta de inventar palavras à la Tolkien então…um aprendizado obrigatório.

Ah, e fica aqui a lição para a vida: as mocinhas protagonistas de livros portugueses falam palavrões com a mesma alegria de viver que as mocinhas protagonistas brasileiras! Kasey, a senhora anda destruidora mesmo…

Cátia faz um excelente trabalho de pesquisa, colocando uma riqueza imensa de personagens e referências em suas páginas. A gente vai da Babilônia ao Iraque e do Jardim do Éden à caixa de Pandora num instante. E se a enorme quantidade de anjos e demônios pode parecer confusa, a autora sabe como manter as rédeas: todos os personagens são apresentados com naturalidade o suficiente para não causar nenhuma confusão. Dá para acompanhar perfeitamente quem é quem, quem reencarnou de onde e quem é mãe de quem.

Arquétipo de Lilith, Babilônia. Fonte: ancient-origins.net - Reprodução

Arquétipo de Lilith, Babilônia. Fonte: ancient-origins.net – Reprodução

Por sinal, esse é um aspecto interessante da obra. Como estamos tratando bastante sobre reencarnações, é comum encontrar situações onde um personagem é amigo de infância da própria mãe, por exemplo. E aí, o humor da narrativa funciona como uma excelente ferramenta para aliviar o clima. Como os seres celestiais acham tudo isso muito normal, a gente acaba entrando na onda e rindo das implicações genealógicas da coisa.

(Olha, e como eu tenho pena do Sr. e Sra. Thorndike, que parecem destinados a abrigar o Inferno inteiro no sofá de sua casa para passar a noite…)

Mas acho que o que mais me agradou em Dama-da-Noite, além deste toque de leveza, foi a humanização dos arcanjos. Cátia apresenta uma visão semelhante à de Philip Pullman quanto ao reino divino, onde os anjos são apenas seres humanos a quem o livre-arbítrio foi vetado. O próprio Deus é uma entidade finita, que é substituído de tempos em tempos.

E aí, quando acompanhamos os dilemas de Metatron e companhia, ficamos com aquela pulga atrás da orelha: os impulsos do anjo são fruto de desobediência ou seus impulsos também fazem parte de um plano divino predeterminado? Deus, em sua onisciência, já antecipava tudo aquilo? O quanto um anjo decaído realmente é um traidor? Porque se a gente parar pra analisar, Samael é um cara pra lá de gente boa, mesmo sendo um demônio…

Fonte: carlos-quevedo.deviantart.com - Reprodução

Fonte: carlos-quevedo.deviantart.com – Reprodução

Claro que, em seu primeiro romance, Cátia Figo deixa passar alguns deslizes.

A obra inteira, de modo geral, é bastante casta, e o envolvimento dos personagens é tratado de uma forma romantizada, quase medieval.

O que não teria problema algum, se não estivéssemos falando sobre um demônio milenar que já teve uma penca de filhos com a própria personificação da luxúria. Não é que eu estivesse esperando cenas tórridas entre Samael e Kasey, mas eu não esperava de modo algum ver o antigo senhor do Inferno virar de costas enquanto a mocinha troca de roupa. E com as bochechas coradas!

As falas de Samael e suas brincadeiras não condizem com a história pela qual o personagem passou. Ele possui uma leveza e paz de espírito quase infantis. Será que alguém que perdeu tudo, foi arrancado de sua família e posto pra dormir por dois mil anos poderia se comportar assim? Será que Samael, um homem feito e um guerreiro exemplar, poderia se relacionar de igual para igual com Kasey, que mal alcançou à idade adulta?

Este pequeno detalhe, essa falta de pesar a mão, atrapalhou um pouco minha imersão com o livro. Os personagens de Dama-da-Noite são adolescentes demais para os cargos que ocupam.

Também não vi muita necessidade de explicar como alguns humanos com habilidades especiais (encarnações de anjos/demônios importantes ou seus descendentes) vão estudar em academias próprias para seus talentos.

É como se houvesse a necessidade de manter Kasey dentro do dia a dia de uma adolescente normal, onde ela possui provas, férias e jogos de futebol para assistir. Mas acho que, quando a gente tá lidando com temas tão pesados, isso é algo impossível. Kasey possui a alma de outra mulher, um irmão perdido e um demônio de chifres a disputa-la como interesse amoroso contra um arcanjo. Ela jamais será uma adolescente normal.

Fonte: Pinterest - Reprodução

Fonte: Pinterest – Reprodução

Kasey poderia muito bem apenas servir à Metatron. Não vejo sentido de que ela continue com uma rotina de estudos tão tradicional.

As cenas também se desenrolam muito depressa, os cenários mudando com tanta rapidez que precisei voltar em diversos pontos para compreender o que estava acontecendo. Fiquei com a sensação de estar assistindo um daqueles animes em que os personagens precisam criar e resolver um novo confronto a cada episódio.

Kasey enfrentou mais perigos em três capítulos do que o Indiana Jones na vida dele inteira. Em uma página nos é anunciado um festival na cidade, na metade da página seguinte já estamos acompanhando a festa e no restante da folha já apareceu arcanjo, tiro de laser, gente morrendo e um dirigível. É preciso pisar um pouco no freio e deixar que o leitor acostume-se com a cena, com a dinâmica dos personagens. Afinal, a quantidade de ação, embora seja bem-vinda, atrapalha no aprofundamento psicológico dos personagens. Em duas linhas eles precisam ficar amigos, pois na página seguinte já existe uma nova ameaça a combater.

Por último, sabe quando você assistia Power Rangers e já sabia que todo mundo ia apanhar bastante antes de ter a brilhante ideia de montar o Megazord? Aquele troço sempre funcionava, mas eles nunca pensavam nele como primeira opção…

Tive um pouco dessa sensação em Dama-da-Noite. Muitas das batalhas são resolvidas com ferramentas que já estavam à disposição dos personagens, ou então às custas de alguém virar a casaca por um motivo que já era do conhecimento geral. Novamente, fico com a opinião de que o livro se beneficiaria em trocar algumas cenas de ação por diálogos mais profundos, como a tão aguardada lavagem de roupa suja entre Samael e Lilith que acabou não acontecendo.

Dama-da-Noite tem suas falhas? Tem sim, mas aborda com muito conhecimento de causa uma mitologia que por si só é fantástica. É bacana poder acompanhar tantas figuras bíblicas entrelaçadas umas às outras e tentar se colocar no lugar de todos estes personagens. Cátia sai-se muito bem em sua estréia, criando um final satisfatório e plantando ganchos para possíveis continuações.

Porque ela não pode nos deixar na mão depois de um final daqueles, certo? Certo??

Fonte: hellopoetry.com - Reprodução

Fonte: hellopoetry.com – Reprodução

(Para conhecer melhor o mito de Lilith e de todas as outras figuras lendárias que aparecem em Dama-da-Noite, vale a pena dar uma olhada no site da autora)

Vamos escrever terror?
Experiência NaNoWriMo: junte-se aos bons!

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