Darcy que me perdoe, mas por Thornton até Elizabeth levaria uma pedrada

O texto a seguir pode conter spoilers de: Norte e Sul, Orgulho e Preconceito. Depois não diga que eu não te avisei…

Fonte: Martin Claret e moviewatchersguide.wordpress.com

Fonte: Martin Claret e moviewatchersguide.wordpress.com

A frase título deste post é uma adaptação a uma frase que li de uma fã de Norte e Sul. Nunca pensei, em minha vidinha de leitora compulsiva, que algum livro fosse capaz de desbancar Orgulho e Preconceito dentro do meu ranking de melhores romances de todos os tempos. Mas isso foi antes de eu ler Norte e Sul.

Resolvi apostar nesse livro desde que a Martin Claret lançou uma versão capa dura de cair o queixo, em 2015, e também influenciada pela penca de comentários positivos que sempre escutei dentre as amantes de romances vitorianos.

Chega a ser impressionante o quanto um livro publicado em 1854 pode evocar tanta paixão por seus personagens, e também tantos debates pertinentes sobre a situação do capital e do proletariado. Parece que Gaskell, assim como Austen, descobriu uma forma atemporal de contar histórias. Não importa se vivemos no século XIX ou na era da internet, Norte e Sul ainda será um diálogo atual. E Mr. Thornton ainda será o mocinho dos seus sonhos.

Para quem gosta de Orgulho e Preconceito, é possível encontrar várias similaridades. A fórmula de Jane Austen definitivamente está lá. Com um espaço de cerca de trinta anos entre as duas publicações, é inegável que Elizabeth Gaskell tenha buscado inspiração em Austen.

Estão lá os mocinhos implicando um com o outro e nos fazendo suspirar, estão lá os preconceitos, está lá o herói livrando a cara da mocinha de algum problema familiar complicado, está lá a ceninha de baile e estão lá as matronas que desaprovam determinado casamento.

Elizabeth e Margaret compartilham muitas características, embora seus contextos sejam diferentes. As duas apreciam a vida no campo, são observadoras, tiram conclusões precipitadas e possuem aquele jeitinho zombeteiro, porém discreto, de analisar o mundo à sua volta. Também são jovens interessadas em compreender o meio em que vivem, as questões sociais e políticas. O casamento, embora não totalmente rejeitado (como no caso de Emma, também de Austen) é tratado sem a menor importância por ambas as personagens.    

Fonte: fanpop.com - Reprodução

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No entanto, é em Margaret que vemos um posicionamento mais forte sobre o papel feminino e sobre as diferenças sociais. Gaskell vivenciou um período menos conservador e de forte industrialização, e pôde passar essas características para sua heroína.

Acabo dando maior preferência a Elizabeth Bennet, por considerá-la mais ácida e com mais presença de espírito. Mas Margaret, não se preocupem, não deixa nada a desejar.

Já Thornton difere bastante de seu equivalente, Mr. Darcy.

John Thornton é um homem bruto, acostumado ao trabalho. Toda sua riqueza e prestígio provém não de sua família, mas de seu próprio esforço. Muito diferente do refinado Darcy, herdeiro de um império. Thornton utiliza apenas as leis de mercado e de honra como esteios para suas atitudes, desprezando as questões filosóficas e teológicas que tanto agradam a Margaret.

Fonte: Tumblr - Reprodução

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Interessante notar também que, ao contrário de Fitzwilliam, Thornton não tem problemas em admitir o que sente por Margaret. O que o distancia da moça é sua crença de que esta possui um outro amante e suas dúvidas quanto ao caráter da jovem. Se Darcy rejeita Elizabeth por preconceito, Thornton recusa Margaret por puro orgulho ferido.

E no entanto, porque ficamos com essa sensação de familiaridade em relação aos mocinhos?

Bem, Thornton e Darcy são imagens idealizadas, o supra-sumo capaz de derreter o coração das jovens mais incautas. E, que fique claro, escrever um mocinho de sucesso passa longe de escrever um mocinho sem defeitos. Por exemplo, quem é mais marcante: o príncipe aguado e perfeitinho de Cinderela ou o complicado e irascível Adam de A Bela e a Fera?

O que nos conquista na história de Thornton e Margaret é poder observar como a implicância infundada desenvolve-se para a paixão. É observar como, juntos, o casal se torna mais forte. Eles crescem um com o outro, completam-se em seus pontos altos e baixos. Gaskell vai ainda mais além do que Austen, fazendo com que Margaret inclusive salve financeiramente seu futuro marido. Acho importante também que nem Margaret e nem John desistem de suas convicções, não há ninguém fazendo concessões em nome do amor (50 Tons de Cinza, estou olhando para você). Eles apenas aprendem a compreender um ao outro, a respeitar opiniões diversas e a enxergar os dois lados de uma mesma situação.

Bem, alie essa ideia de cumplicidade a alguns arquétipos sedutores, como semblantes carrancudos que escondem corações de manteiga, e voilá: leitores apaixonados e shippando like crazy! (eu inclusa)

Fonte: Tumblr - Reprodução

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O sofrimento silencioso, o famoso “querer mas não poder” funcionam bem em cena, e levam a tensão da narrativa ao limite antes do aguardado felizes para sempre.

Engraçado que Gaskell é perita em um estilo narrativo altamente condenável em algumas “cartilhas da boa escrita”: ficar pulando da mente de um personagem para o outro.

Dentro de uma mesma cena, em alternância rápida, o leitor tem acesso tanto aos pensamentos de Margaret como aos de Thornton. Esse tipo de abordagem costuma ser confuso, e por isso a maioria dos escritores são aconselhados a seguir apenas um personagem por vez, separando diferentes pontos de vista por capítulos. Porém, nas mãos de Gaskell essas transições tornam-se bem vindas, servindo para criar a sensação de que realmente estamos assistindo uma discussão acalorada entre um casal teimoso.

Assistindo casais discutirem. Fonte: Tumblr - Reprodução

Assistindo casais discutirem. Fonte: Tumblr – Reprodução

O ping-pong entre Margaret e Thornton serve tanto para dar esse tom mais corrido à cena quanto para permitir que não tomemos partido na briga. Afinal, estando dentro da cabeça de cada um deles, é possível compreender seus motivos.

O estilo de Gaskell é também mais soturno do que o encontrado em Orgulho e Preconceito. O próprio cenário e período histórico demandam isso. O livro aborda a morte, a pobreza, a inconstância da especulação financeira e a falência. Por isso, sinto que o romance de Margaret e Thornton se desenvolve de uma forma muito mais “visceral” do que o poético relacionamento de Darcy e Elizabeth, que embora nos arranque suspiros, é mais comedido e comportado. A cena da famosa pedrada, por exemplo, é inconcebível em Pemberley…

E por falar em visceral, Norte e Sul não fica delimitado por sua história de amor. Personagens como Nicholas Higgins, Bessy e Boucher nos dão verdadeiras lições históricas sobre a revolução industrial e as condições de vida do proletariado, além do funcionamento de fábricas e sindicatos (as conversas entre Higgins e Thornton são de encher os olhos). Também gosto das intervenções do pai de Margaret, Mr. Hale, que traz insights interessantes sobre o modo de pensar sulista, porém com o benefício de serem livres de preconceitos. Gaskell não aprofunda e evolui apenas seus protagonistas, mas seus personagens como um todo. Como eu disse anteriormente, a máxima de Norte e Sul é: todo mundo tem bons argumentos, então vamos dialogar.

Fonte: fanpop.com - Reprodução

Nicholas e Bessy. Fonte: fanpop.com – Reprodução

Até mesmo participações aparentemente dispensáveis, como o cansativo Henry Lennox e minha muito amada Dixon, ressurgem algumas páginas depois para mostrar sua importância na trama. Mr. Bell então, nem se fala…

E o que dizer das mães de Norte e Sul, tão diferentes e ao mesmo tempo tão verdadeiras que consideramos pakas?

Hannah Thornton, Maria Hale e a esposa de Boucher possuem relacionamentos muito distintos com suas crias. O Coruja em Teto de Zinco Quente classificou a matrona Thornton como uma das melhores mães da literatura, e preciso concordar.

Penso que Gaskell conseguiu inclusive superar Austen nesse quesito. Hannah faz as vezes de Lady Catherine, a pessoa que desaprovará nossa mocinha. Porém, enquanto Lady Catherine apenas enxerga a falta de berço e posses, Hannah somente desaprova a visão oblíqua de Margaret em relação ao Norte e, principalmente, o quanto a jovem fez seu amado filho sofrer.

Que direito ela tem de entortar o nariz pra você? Fonte: fanpop.com - Reprodução

Que direito ela tem de entortar o nariz pra você? Fonte: fanpop.com – Reprodução

Hannah Thornton é tão coerente e gente fina que, apesar de amarmos Margaret, é fácil entender seu posicionamento. Isso sem mencionar a conversa maravilhosa que tivemos entre Hanna e Maria Hale em seu leito de morte. Diva.

A única linha narrativa que realmente me desagradou foi a do irmão de Margaret,  Frederick, que me pareceu um personagem meio insípido. Fiquei com a impressão de que ele estava lá apenas como justificativa para o ciúme de Thornton aparecer em cena.

O cenário urbano de Norte e Sul (bem como esses trinta anos que separam as publicações), fazem do livro uma leitura mais simples do que Orgulho e Preconceito. Apesar do número de páginas, senti que a escrita de Gaskell é bem menos rebuscada. Como lida com um proletariado marginalizado a maior parte do tempo, as falas dos personagens também possuem menos formalismos e são bem mais diretas. Temos aquele charminho dos romances vitorianos, mas numa linguagem mais acessível.

Norte e Sul foi um livro que me agradou bastante, o tipo de romance que nos ensina ao mesmo tempo em que diverte. Recomendo a leitura. Ah, e se você puder, não perca a oportunidade de assistir à adaptação da BBC em quatro capítulos. Alguns detalhes da história foram alterados, mas acho que não poderiam ter arrumado melhores atores para cada um dos personagens. Vale a pena.

Awn <3 Fonte: Tumblr - Reprodução

Awn <3 Fonte: fanpop.com – Reprodução

Vale a pena ler O Chamado do Cuco
#LendoSandman: Prelúdios e Noturnos

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