Descrevendo personagens: bom senso e raras certezas

Nos primórdios da TV Globinho e similares, passava um desenho animado chamado Mickey e Donald em que por acaso também apareciam aventuras do Pateta (muitas coisas não faziam sentido naquela época…). Nesses episódios, Pateta tentava aprender alguma atividade nova através das instruções de um narrador, numa espécie de tutorial. E o Pateta sempre se embananava todo enquanto era soterrado por uma quantidade cada vez mais rápida de palavras técnicas e fórmulas que ele não fazia ideia de como equilibrar e que culminavam num resultado desastroso.

Sempre que vou criar um artigo técnico aqui no TBS, essa cena aparece na minha cabeça. Escrever é uma arte conceitualmente simples e também infinitamente complicada. Basta colocar uma palavra após a outra no papel, mas são mil e uma variáveis a considerar, listas de boas práticas, conselhos de ouro e, pior de tudo, um universo de regras que deverão ser quebradas em algum momento. Mas que momento? E como equilibrar construção de mundo, ritmo, premissas, profundidade dos personagens, estilo, gênero, ponto de vista e tudo mais?

Fonte: YAlicious – Reprodução

É inevitável estudar sobre escrita e não se sentir o Pateta de vez em quando.

A boa notícia é que você não vai precisar ficar pensando nessas coisas o tempo inteiro. Ao menos, não conscientemente. Você não vai escrever seu livro usando um par de esquadros e uma calculadora a cada página: o objetivo aqui não é te deixar engessado. Estudar sobre escrita tem muito mais a ver com a construção de bom senso e propriedade.

Quanto mais você souber sobre as ferramentas que possui à mão, mais bem acertadas serão suas escolhas. Até na hora de quebrar as regras: você saberá exatamente o que está arriscando e quais os prós e contras de remar contra a maré (acredite, de vez em quando o ganho é tão grande que vale a pena). Sabe quando você já fez uma receita tantas vezes que sabe só de olho se um bolo está ficando no ponto ou não? É mais ou menos isso que vai acontecer. A sua escrita evolui e se torna mais fluida, um processo contínuo e sem hora pra acabar.

Essa conversa toda foi pra introduzir um tema delicado: descrição de personagens.

Não consigo bater o martelo sobre qual o equilíbrio perfeito na hora de descrever personagens e nem posso te dar uma fórmula pronta, mas o tema continua me rondando. O que posso fazer, e farei, é conversar sobre as boas práticas e sobre os aspectos que você deverá ter em mente na hora de mostrar seu protagonista ao mundo. Sinta-se à vontade para flexibilizar as regras, desde que você conheça os riscos (vou apontar alguns casos específicos ao longo do texto). Harry Potter só escolheu passar pelo cão de três cabeças porque sabia que a pedra filosofal estava em jogo, certo?

Fonte: Pinterest – Reprodução

Bem, vamos começar pelo começo: sua primeira cena no livro. Em que momento devemos descrever um personagem para o leitor?

De modo geral, a recomendação é que isso seja feito o mais rápido possível. Se você demora muito a dar qualquer dica sobre a caracterização do personagem, o cérebro do leitor vai começar a preencher o vazio por conta própria. E não tem nada mais chato do que criar uma imagem na cabeça e depois descobrir, parágrafos e mais parágrafos lá na frente, que o personagem não era nada disso que estávamos imaginando.

A não ser, claro, quando provocar esse incômodo for o seu objetivo. Lidar com expectativas é uma estratégia possível, e a descrição tardia de um personagem pode ser o trunfo na manga que você tanto precisa. Se não me engano, o Lauro Kociuba faz isso muito bem em um dos contos de Raízes de Vento e Sangue. Outro caso especial é quando seu personagem aparece na história no meio de alguma grande cena de impacto. Suspender o ritmo de ação para colocar um parágrafo inteirinho de descrição vai parecer um balde de água fria para quem está lendo.

Ao mesmo tempo (eu falei que isso aqui era uma arte contraditória), você não precisa se preocupar em passar para o leitor a perfeita imagem do seu personagem tal e qual você o visualiza. Descrever a aparência de um personagem é buscar uma misturinha santa entre afirmações, sugestões e espaço vazio. Algumas coisas serão explícitas, outras serão inferidas do texto e outras você vai deixar a cargo de quem está lendo. Esse equilíbrio será importante para que o leitor crie conexão com o personagem, para que ele use seus próprios arquétipos. A grande graça da Literatura é justamente essa abertura imaginativa, seu maior diferencial em relação ao cinema e à televisão. Você conduz o leitor, mas ele escolhe o melhor modo de dar vida à cena.

Lembra dessa polêmica? Fonte: Pinterest – Reprodução

Li uma declaração do Neil Gaiman essa semana, sobre a adaptação de Belas Maldições, que casa bem com o tema do post. Ele diz:

“Seu cânone pessoal é o seu cânone pessoal. Os personagens em sua mente são o que são, e ninguém está tentando tirá-los de você. Pense na série de televisão Belas Maldições como uma peça de palco: durante seis horas completas, os atores irão interpretar os papéis de Crowley e Aziraphale, Shadwell e Madame Tracy, Newt e Anathema, Adam, Pepper (Pimentinha), Wensleydale e Brian e o resto. Será que eles se parecem com as pessoas na sua cabeça? Os que você vem desenhando, escrevendo sobre e imaginando (em alguns casos) por quase 30 anos?
Provavelmente não. O que está tudo bem.
As pessoas na sua cabeça e seus desenhos ainda estão lá, e ainda são reais e verdadeiros. Eu vi desenhos de centenas de Aziraphales diferentes ao longo dos anos, todos com diferentes rostos e formatos de corpo, diferentes cabelos e pele, e nunca teria pensado em contar a quem os desenhou ou os amava que aquilo não era como Aziraphale parecia. (E alguns anos depois de escrevê-lo, achei engraçado perceber que o Aziraphale na minha cabeça não parecia nada com o Aziraphale na cabeça de Terry.) Eu amei todos os cosplays de Belas Maldições que vi, e em nenhum caso eu pensei que alguém estava fazendo isso errado: todos eram Aziraphales e Crowleys, e sempre foi um prazer.”

Percebe a diferença? Nos livros, existe espaço para que todo mundo crie nuances de um mesmo personagem.

Ora, você diz, então por que diabos eu vou me dar ao trabalho de descrever qualquer coisa? Vamos usar só diálogos e frases de ação e deixar o leitor fazer todo o resto!

Fonte: Tumblr – Reprodução

Bem, aqui está a dica de ouro: não confunda imagem com caracterização visual. Você não escreve para que eu enxergue o seu personagem, mas sim para que eu saiba quem ele é. A descrição visual faz parte do processo de caracterização.

Ou seja, você vai evitar transformar a sua descrição numa lista de supermercado e vai focar no que realmente importa. Em vez de inundar o leitor com um parágrafo insípido do tipo “ela tinha cabelos escuros, olhos castanhos, 1,53 de altura e 64kg”, você vai escolher apenas características que ajudem a compor o personagem. No caso de Harry Potter, os elementos mais marcantes são a cicatriz, o óculos, os cabelos desgrenhados e os olhos verdes. A cicatriz está lá porque tem relação direta com o enredo, assim como os cabelos e os olhos possuem uma conotação relevante: são heranças de seus falecidos pais. O óculos retrata a fuga do estereótipo clássico do herói: Harry não é forte, ou alto ou vigoroso. É um garoto franzino e maltratado pelos tios. A descrição do personagem está lá para que a gente capte camadas mais profundas de modo indireto. Seu personagem deve ser marcante, deve ser facilmente reconhecível. Se eu disser “detetive com um cachimbo”, você já sabe de quem eu estou falando, certo?

Não lembro onde foi que li isso, mas me recordo de um autor que dizia sentir-se frustrado com aquela técnica de criar fichas de personagem antes de começar a história: ele perdia tanto tempo pensando em cada detalhezinho da aparência e background dos protagonistas que nunca sentia-se confiante para começar a escrever (isso também pode acontecer com o worldbuilding, mas essa é outra conversa).

De modo geral, características que podem ser captadas nas entrelinhas devem ser deixadas pra lá. Não que você não possa usá-las: é legal dar uma relembrada nas características físicas dos seus personagens de vez em quando. Mas, por exemplo, se você apresenta seu protagonista como um famoso jogador de basquete…não é tão necessário mencionar que ele é alto logo em seguida. Utilize essas coisas mais à frente, como tempero.

Fonte: BuzzFeed – Reprodução

Nesse aspecto, um erro muito comum que encontro por aí é quando o autor perde uma cena inteira descrevendo as roupas do personagem, do boné às meias, da cueca ao paletó. Pior ainda quando a cena é o personagem acordando e se vestindo para ir à escola. Gente, isso é totalmente desnecessário em 99% dos casos. Se a sua mocinha está escalando o Everest, eu já faço ideia da roupa que ela está usando, você não precisa me explicar tudo de imediato. Se o seu mocinho está numa reunião de trabalho, basta mencionar o modo como ele ajeitou a gravata para que eu capte todo o resto da vestimenta.

(Além disso, a roupa também pode servir para caracterizações mais sutis, como comentei nesse outro post.)

Outra dica é utilizar recortes e metáforas para apresentar a caracterização visual (de novo, estamos tentando evitar a “lista de supermercado”). Se você só joga as características do personagem na cara do leitor, está gerando um texto seco, sem movimento. E consequentemente, mais difícil de memorizar. Em vez de dizer que alguém é muito magro, você pode dizer que ele passou a mão sob a camisa e sentiu as próprias costelas. Em vez de dizer que alguém tem cabelos dourados, você pode dizer que seus cabelos eram da mesma cor dos campos de trigo que cultivava na infância. Ok, os exemplos são capengas, mas você me entendeu. Descrições com vivacidade, assim meio indiretas, costumam ser escolhas mais marcantes.

Detalhes, detalhes. Fonte: Tumblr – Reprodução

Ah, uma coisa importante: é sempre bom prestar atenção sobre quem é o narrador. Se você está escrevendo em primeira pessoa, por exemplo, vai precisar tomar um cuidado extra: não basta descrever as pessoas ao redor, é preciso fazer isso sob a ótica do personagem que conta a história. Como o narrador enxerga seu semelhante? Um personagem desbocado poderia achar alguém muito feio e descrever isso sem dó nem piedade, enquanto um personagem doce poderia escolher palavras mais gentis.

Essa é uma boa oportunidade de trabalhar as diferenças de gênero, cultura e vivência, por exemplo. Num post do Momentum Saga sobre protagonistas femininas, um dos erros apontados é justamente quando autores homens derrapam na descrição das personagens: convenhamos, dificilmente uma heroína começaria uma história referindo-se a si mesma em termos de “traços curvilíneos” ou “seios firmes”. Um tropeço desses e adeus imersão: a mágica acaba e o leitor dá de cara com você, escritor, de pijama e  sorriso amarelo.

Bem, até aqui acho que já dá pra formar uma boa base sobre o tema. Você já tem muito no que pensar e pode colocar em prática tudo o que conversamos em todos os seus personagens, certo?

Não. Errado, muito errado (eu já mencionei o quanto escrever é uma arte contraditória?).

Fonte: Tumblr – Reprodução

A verdade é que nem todo personagem vai precisar de uma descrição digna do Oscar. O grau de complexidade da descrição será proporcional ao grau de relevância do personagem para o enredo.

Obviamente, seus protagonistas serão os mais bem desenvolvidos em caracterização. A parte visual deles contará bastante sobre suas personalidades, e a descrição física fará parte dos recursos de aprofundamento que você terá ao seu dispor. Logo depois virão os personagens secundários e os sidekicks. Note que Rony, Hermione e Dumbledore possuem caracterizações bem marcantes, mas não tanto quanto Harry. Harry Potter é quase um ícone, uma construção tão fácil de reconhecer quanto a cabeça do Mickey.

Os personagens de apoio aparecem em seguida, aqueles que até fazem a trama avançar mas que não ocupam tanto tempo em cena. Neville e a Professora Minerva seriam bons exemplos. Os personagens são ótimos, não há dúvidas, mas veja como suas descrições tornam-se mais diretas e menos elaboradas.

E o que dizer dos figurantes, então? Pense em Lino Jordan ou Parvati Patil: o que sabemos realmente sobre suas aparências além de dois ou três atributos completamente vagos? E o guarda que repreende Harry e Rony quando eles tentam embarcar no trem de Hogwarts e dão de cara na parede: você lembra como ele é?

Fonte: Tumblr – Reprodução

Numa boa história, é interessante que você tenha personagens com graus diferentes de importância. Se você fosse descrever cada um deles, deixaria seu leitor exausto e confuso. Então é melhor fazê-lo prestar atenção apenas onde realmente importa. Não é preciso ter medo de descrever em poucas palavras um figurante da trama. Ajuste o foco conforme achar necessário.

E pra não perder o costume, vamos fechar o post com um contra-exemplo? Digamos que o seu protagonista encontrou um idoso no ônibus. O idoso não terá absolutamente nenhuma relevância para a trama, entrando mudo e saindo calado na página seguinte. Mas vai que observá-lo a fundo seria importante para o mocinho, pois proporcionaria uma reflexão legal sobre seus próprios medos de envelhecer? Você pode então explorar a aparência do idoso, porque isso será importante na relação do leitor com o seu protagonista. Esse recurso é usado em quase todos os filmes sobre Moisés: sempre tem uma cena onde ele contempla o sofrimento dos escravos anônimos de pertinho. E aí quanto mais visceral a descrição, maior o impacto.

Estamos entendidos? É…ninguém falou que seria fácil.

Fonte: Tumblr – Reprodução

Ps: Caso esse conteúdo tenha sido útil para você, considere tornar-se um padrinho ou madrinha do TBS! Garanto valores pequenos e gratidão eterna.

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