Deus ex machina

A expressão Deus ex machina pode soar desconhecida para muita gente. Mas seu significado, por outro lado, é velho conhecido dos leitores. E é bem possível que você já tenha sentido certo incômodo em encontrá-lo dentro de alguma história.

Deus ex machina é um termo latino de origem grega que significa, literalmente, “Deus surgido na máquina”. Ele designa um recurso utilizado por autores para resolver enredos ficcionais por meio de uma solução improvável, geralmente através do surgimento de um personagem, artefato ou evento bem aos quarenta e cinco do segundo tempo. É aquele desfecho que fica com gostinho de pura sorte.

Pra deixar a coisa toda ainda mais inverossímil, muitos desses personagens/objetos milagrosos são elementos que nunca foram mencionados anteriormente na narrativa. Ou pelo menos, nunca receberam muita luz dos holofotes, ficando escondidos sob o pano de fundo até o clímax da ação.

DGA557603 Athena revealing Ithaca to Ulysses, by Giuseppe Bottani (1717-1784), oil on canvas, 47x72 cm; (add.info.: Athena revealing Ithaca to Ulysses, by Giuseppe Bottani (1717-1784), oil on canvas, 47x72 cm. Artwork-location: Pavia, Musei Civici Del Castello Visconteo, Pinacoteca Malaspina (Art Gallery)); De Agostini Picture Library / A. Dagli Orti; FRENCH PUBLISHING RIGHTS NOT AVAILABLE;  out of copyright

Atena e Ulisses, um ótimo exemplo de Deus ex machina – Fonte: commons.wikimedia.org – Reprodução

O Deus ex machina foi uma ferramenta bem comum nas obras literárias da Grécia, um contexto que ajuda a compreender a escolha do termo. Nas histórias gregas, é comum que deuses apareçam e intervenham divinamente no destino dos personagens, resolvendo num toque de mágica conflitos aparentemente sem solução. Em A Odisséia, a deusa Atena surge nas últimas linhas do poema, evitando o início de uma batalha.

Para quem simpatiza com o gênero fantástico, o primeiro exemplo a vir na cabeça são as águias de Tolkien. Tanto em O Hobbit quanto em O Senhor dos Anéis, o papel das aves é salvar a pele dos protagonistas nos momentos decisivos. E tudo bem, as águias são mencionadas em alguns pequenos pontos dos livros e sabemos que são criaturas amigas de Gandalf. Mas o desfecho parece tão simplista que é impossível não pensar: se basta uma águia para levar Frodo embora voando, porque diabos os hobbits não foram nas costas de uma delas desde o começo?”.

Por essas razões, o Deus ex machina é visto com maus olhos dentro do mundo literário. É considerado uma “gambiarra autoral”, um método fácil de desfazer problemas maiores que a capacidade do escritor em resolvê-los. Quando utilizado em excesso, faz com que o leitor se sinta subestimado e tira a credibilidade do enredo. Ora, você não chegou até ali só para ver tudo se resolver por pura sorte, certo?

Podemos encontrar exemplos de Deus ex machina por toda parte. Em Harry Potter e a Câmara Secreta, temos a chegada de Fawkes  e a posterior aparição da espada de Gryffindor. Em Crepúsculo, o oportuno momento do imprinting e a pseudo-batalha final (já falamos sobre isso aqui). Eragon então, nem se fala.

Interessante notar que o Deus ex machina não serve apenas para resolver situações em prol do herói. Ele também pode servir ao propósito contrário. É o caso da kriptonita em Superman. Ao criar um personagem de força e resistência suprema, fica meio difícil imaginar plots dramáticos onde o leitor tema pela morte do mocinho. Não existe graça alguma em torcer por um herói reconhecidamente invencível (um dos motivos pelos quais nunca me interessei por Clark Kent). A kriptonita é inserida como um recurso fácil e prático de criar tensão. Quando tudo parece bem, a substância surge nas mãos de alguém mal intencionado e… lá vamos nós de novo.

Fonte: LEGO Superman - Kryptonite Dreams (youtube.com) - Reprodução

Fonte: LEGO Superman – Kryptonite Dreams (youtube.com) – Reprodução

Pessoalmente, não gosto da utilização do Deus ex machina. Melhor contornar o plot com soluções mais realistas, mesmo que o final não soe tão fantástico assim. Ou até mesmo simplificar os problemas, gerando um desfecho mais simples.

Apesar de que, existem casos e casos. Em algumas obras, o Deus ex machina resolve problemas pontuais ao invés da trama principal, o que não compromete muito o livro. Creio que o maior dano ocorre quando a ferramenta é usada como solução global.

Voltando ao caso de Harry Potter. Apesar de utilizar o recurso, Harry ainda precisa lidar realisticamente (dentro do contexto da magia, claro) com seus principais problemas. A espada de Gryffindor não sublima completamente os feitos do garoto e seus amigos, nem dá cabo de seu inimigo Voldemort. Neste caso, o Deus ex machina pode tornar-se aceitável.

Também perdôo Tolkien pelo simples fato de estarmos falando de uma narrativa épica imensamente influenciada por poemas nórdicos antigos. Uma característica importante desse gênero é o timing quase miraculoso com que os heróis se livram de problemas, mesmo que de maneira inverossímil. O momento da chegada das águias nos faz vibrar. Podemos quase ouvir as trombetas épicas soando em nossos corações. Para casos assim, o Deus ex machina pode funcionar sem problemas. Novamente, desde que não seja responsável por TUDO.

Onde vocês estavam esse tempo todo?  Fonte: Tumblr - Reprodução

Onde vocês estavam esse tempo todo? Fonte: Tumblr – Reprodução

E cuidado para não confundir Deus ex machina com plot twist. No plot twist, apenas estamos dando uma virada no papel dos personagens. Alguma revelação ou evento faz com que enxerguemos a situação sob um novo ponto de vista, mas todos os elementos já se encontravam presentes em cena. O plot twist é racional e não insere artefatos novos à narrativa.

Tá, mas como é possível evitar o Deus ex machina?

Existem duas técnicas que podem ajudar, apesar dos nomes esquisitos: a Arma de Tchekhov e o Arenque Vermelho.

A Arma de Tchekhov é mais um lema a seguir do que uma técnica propriamente dita. Baseado na obra do dramaturgo russo Anton Tchekhov, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos, a Arma de Tchekhov postula que “se você tem uma arma pendurada na parede no primeiro ato, então no último ato você deve dispará-la”. Ou seja, o elemento que será responsável pelo desfecho deve ser apresentado ao leitor em algum momento anterior da história. Devemos sugerir que o objeto ou personagem poderá vir a ter importância, situá-lo em nosso universo e descrever suas características.

A mágica, a verdadeira genialidade do autor, está em fazer o leitor esquecer a existência da “arma”. Ela precisa estar lá o tempo todo, mas sem ficar óbvia a ponto de estragar o momento final. E é aí que entra a ajuda do Arenque Vermelho (Red Herring).

Fonte: beingunlocked.com - Reprodução

Fonte: beingunlocked.com – Reprodução

Arenques Vermelhos nada mais são do que pistas falsas. A expressão surgiu pelo fato de que o sangue dos arenques, um peixe de cheiro nada agradável, era utilizado para confundir o olfato dos cães de caça e policiais. Um Arenque Vermelho pode ser criado quando inserimos um grande número de elementos com potencial para mudar o rumo da história, mas onde nem todos terão participação efetiva no enredo. Ou então quando utilizamos algum “senso-comum” para deixar o leitor com dúvidas. Por exemplo, o velho clichê de que o mordomo sempre será o culpado por um assassinato. Quando você dá ao público muitas opções, todas plausíveis mas só uma possível, ele acaba esquecendo detalhes que foram ditos assim… sem querer querendo. Como uma arma na parede que dispara no último ato.

Essa é uma ótima maneira de criar surpresa para o leitor sem precisar recorrer ao Deus ex machina. Afinal, apesar do recurso ter lá sua utilidade e servir bem a alguns casos específicos, é sempre bom dar um pouquinho de crédito ao esforço real de seus personagens. Vale a pena saber que problemas terríveis podem ser resolvidos por nós, os meros mortais.

(Para quem quiser ler um pouquinho mais, a Wikipedia tem uma lista com alguns exemplos de Deus ex machina no cinema, literatura e videogame)

Locke Lamora – nosso malvado favorito
O que aconteceu com Maze Runner?

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