Deuses Americanos: viajando de carro pela mente de Neil Gaiman

O texto a seguir pode conter spoilers de: Deuses Americanos. Depois não diga que eu não te avisei…

Como fã de Neil Gaiman, eu estava devendo a leitura de Deuses Americanos, um livro que eu até então relutava em tirar da estante e protelava para um futuro que sabe-se lá quando ia chegar. Mas, com o anúncio da adaptação para um seriado e a passagem do ano novo (aquela época em que a gente ainda tenta cumprir as metas direitinho), pensei que o universo havia finalmente aberto uma janela de oportunidade para mim: era hora de conhecer Deuses Americanos.

Fonte: coalrye.deviantart.com – Reprodução

A leitura foi densa, pesada, consumiu todas as minhas forças. Levei uns bons dias para concluir e, quando finalmente terminei, ainda passei mais outros tantos dias de ressaca literária, apenas digerindo a história.

Falando assim, parece até que não gostei de Deuses Americanos. O que é uma mentira: eu amei o livro. É só que Deuses Americanos não é nem de longe um livro fácil.

O tempo de leitura de uma história depende muito mais da densidade do texto do que do número de páginas em si. Depende do quanto você precisa prestar atenção a cada palavra, do quanto precisa parar e analisar o impacto de uma frase ou do quanto um determinado parágrafo te deixa tão abismado que você precisa ficar lá apenas olhando pra ele por alguns minutos.

Deuses Americanos vai te exigir tudo isso.

A impressão que tive foi de que o livro é uma espécie de ingresso para o maravilhoso mundo da mente do Neil Gaiman. Como se você pudesse pegar um carro e percorrer todas as estradas que compõem aquela terra fértil e meio sem regras. Se Sandman foi uma ideia colocada no papel, Deuses Americanos é o próprio universo dessas ideias.  E sabe aqueles filmes onde alguém recebe o poder de ouvir os pensamentos de outras pessoas e cai desmaiado no chão porque é informação demais pra processar de uma vez só? Pronto, Deuses Americanos é exatamente sobre isso.

Fonte: doodleosophy – Reprodução

O texto me deixou emocionalmente esgotada, cansada mesmo. Fiquei com a certeza de que Gaiman deve ter muito mais conexões entre neurônios do que a média global e que deve fazer bom uso de cada uma delas. Mas quer saber? Eu adorei. Adorei cada pedaço, porque viagens incríveis também deixam a gente cansado.

Pesquisando para esse post, encontrei uma resenha curiosa feita pelo Ponto de Ignição. Tem um parágrafo lá que capturou tão bem o que eu gostaria de dizer sobre a atmosfera do livro que vou tomar a liberdade de copiá-lo por aqui:

“É interessante atentar-se logo de início ao fato de que Deuses Americanos tem algumas ideias que já foram usadas em Sandman. E é interessante também notar que as duas obras foram escritas pelo mesmo autor. “Nossa senhora, o cara tá safadamente fazendo a mesma coisa que já fez antes” alguns podem pensar, mas calma. Onde inicialmente seria comum achar que isso é falta de criatividade ou que isso é desgaste de conteúdo, na realidade se torna uma feliz constatação da habilidade do escritor ao nos trazer essas ideias repaginadas ou com mínimas mudanças que fazem total diferença nos contextos das histórias em questão. Ao invés da sensação de repetição, temos a sensação de brisa fresca e, ao mesmo tempo, temos a boa e estranha sensação de estar revisitando algo que nós nunca visitamos, em primeiro lugar.”

Então é isso. Tirando a família Perpétua, temos o mesmo cenário encontrado em Sandman: com a ascensão da tecnologia, a globalização e a “epidemia de falta de fé”, os antigos deuses precisam batalhar diariamente para sobreviver, disputando migalhas de adoração que lhe são oferecidas por seus raros seguidores.

E se essa confraternização celestial poderia render um mundo de aventuras alá Percy Jackson, Gaiman pesa a mão em todas as suas nuances de fantasia: Deuses Americanos é uma obra de ficção fantástica, sim, mas é sobretudo uma história nua e crua sobre a humanidade e sobre a construção dos Estados Unidos. É Gaiman até a carne, fazendo todo tipo de magia parecer algo mundano e banal.

Muitas pessoas reclamam dos pequenos recortes que existem no livro, pedaços da história de outros humanos e entidades, que nem sempre possuem relação com o plot principal da obra.

Porém, é bom lembrar que muito antes de Shadow, Odin, Laura ou truques com moeda,  Deuses Americanos fala sobre um país, sobre uma terra que é tão protagonista quanto os outros personagens. Cada pedacinho de história, cada relato e cada sensação servem para construir essa imagem, para nos transportar para um lugar místico e ancestral, onde os deuses não tem vez.

“I am the land.” Fonte: Inverse – Reproduçãp

Afinal, as Américas como um todo são uma grande mistura, forçada na base do fogo, domada na base do ferro.  Somos uma história de muitas faces, de muitas versões. Somos um povo diferente dos europeus, por exemplo, cujas linhagens mitológicas são mais bem delineadas, onde as raízes são mais fundas. Nossa cultura ancestral foi arrancada de nós pela colonização, e aquele conhecimento da terra permanece apenas no subconsciente (uma ideia bem trabalhada por Gaiman na criação de seu homem búfalo). Porém, ao mesmo tempo que rejeita, a América também se apropria das espiritualidades estrangeiras. Assim, a “terra das oportunidades” começa a receber novos deuses.

Só que esta não é uma boa terra para deuses.

A ideia de que deuses precisam das pessoas para existir, de que há algo extremamente vulnerável por baixo de todas aquelas saias e armaduras divinas, é um conceito já bastante debatido não só por Gaiman mas também por outros autores. Mas é só Gaiman que consegue captar essa dor, esse comichão de ser humano, com todas as suas questões, finitudes e capacidades. É como se cada palavra pudesse também ser enxergada de um ponto de vista metafórico, e a gente pudesse aplicar os conceitos de Deuses Americanos na nossa realidade. Aqui, os deuses são pessoas.

Esse jeitinho Gaiman de escrever, meio cru, meio sujo e ao mesmo tempo meio poético, é uma coisa linda. Lembro de ter dito, num post sobre Stardust, que a cena de concepção de Tristran Thorne é uma das cenas de sexo mais sensíveis que eu já havia lido. Um amigo apareceu nos comentários pra dizer que, se eu achava isso, deveria ler Deuses Americanos.

Pois é.

Você nunca mais vai pensar em Bast da mesma forma. Fonte: trippingoverbooks.com- Reprodução

E no meio disso tudo, nesse vendaval de emoções, está o nosso maravilhoso protagonista: Shadow.

Costumo imaginar Shadow como o meio termo entre o detetive Cormoran Strike, de O Chamado do Cuco,  e o gladiador Maximus, interpretado pelo Russell Crowe, quando ele está naquela fase entre ter descoberto a morte da família e ter sido capturado pra lutar nas arenas e não saber bem o que fazer da vida.

Assim como Cormoran e Maximus, Shadow é um cara grandão, de poucas palavras e de boa índole, cuja vida foi virada de ponta cabeça e não sobrou mais ninguém querido para contar a história.

O interessante sobre pessoas assim é que, ao contrário do que se espera, elas internalizam a tristeza. Elas entram em um estado de apatia, de indiferença. Se não há mais com quem se importar…porque se importar?

Acho incrível como Gaiman consegue infiltrar o torpor de Shadow nas entrelinhas, algo que só vai ser verbalizado muitas páginas na frente, quando o protagonista é chamado de apático pela esposa que por acaso é um cadáver (aliás, existe algo de morbidamente hilário em Laura).

No caso dos três personagens, é o trabalho que os traz de volta à realidade (não o trabalho em si, mas as experiências proporcionadas pela obrigação de levantar todo dia e fazer alguma coisa). Cormoran tem seu caso para desvendar, Maximus tem sua vingança. E Shadow tem Wednesday.

Esta relação entre deus e mortal e toda a jornada de carro pelo país funcionam com auto-conhecimento para Shadow. Ele cresce, respira e, finalmente, acorda numa versão bem mais plena de si mesmo.

Shadow é muito mais poderoso do que qualquer deus, porque ele tem algo muito mais valioso do que poderes mágicos: ele é dono do próprio destino. Shadow se basta. Não há cidadezinha, esposa morta, prisão ou corrente religiosa que o prenda a coisa alguma, somente sua consciência. Ele é livre, e agora começou a viver de verdade.

A cena final, em que Shadow encontra com outra personificação de Odin (e nossa, como deu saudades de Sandman!), é extremamente poética em equiparar homem e deus sob o mesmo patamar. Se no começo do livro podemos ver o grandalhão receoso e numa posição de inferioridade quanto a Wednesday, no epílogo temos um Shadow muito calmo e seguro, mas nem de longe prepotente.

Fonte: animagess.deviantart.com – Reprodução

(Acho que estou enrolando um pouco aqui, então vou resumir tudo dizendo simplesmente que Shadow é um personagem muito foda. Quero colocá-lo num aquário e guardá-lo para mim.)

Mas nem só de metáforas e filosofia vive Deuses Americanos!

O livro tem umas tiradas de humor que são pra lá de divertidas. Wednesday fica com boa parte do alívio cômico da trama, mas praticamente todos os personagens possuem seus pontos altos, ainda que indiretamente.

Pra quem procura referências mitológicas, a obra também é um prato cheio. Principalmente porque Gaiman aborda muitas divindades pouco conhecidas na ficção fantástica, e não entrega o pote de ouro de mão beijada para o leitor. Muitas vezes tive que parar e pesquisar para descobrir de que divindade ele estava falando, o que tornou a leitura ainda mais rica. Aprendi um monte e me diverti horrores em perceber como Gaiman pegava os detalhes de lendas e mitologias e transformava tudo isso em traços de personalidade ou vestimenta. Afinal, faz o maior sentido que Anúbis seja agente funerário e a Rainha de Sabá ganhe a vida se prostituindo. As ações das divindades também são bem emblemáticas, como o fato de ser Easter a despertar Shadow após a provação na árvore. As três irmãs Zorya e Czernobog são outras construções fascinantes.

Fonte: simonwilchesc.deviantart.com – Reprodução

Aliás, parece que toda história de Neil Gaiman precisa conter alguma menção às três que são uma, certo? De um jeito ou de outro, na linha de frente ou nos bastidores da história, elas sempre acabam fazendo uma pontinha. Ah, e é bem divertido procurar em Deuses Americanos as divindades que conheci através de Sandman. Bast, por exemplo.

(Por falar nisso, uma dúvida: tanto o ifrit/djin de Deuses Americanos quanto o de Golem & O Gênio possuem essa característica sensual, algo que transita entre o cafajeste e o sedutoramente perigoso. Esse é um traço original da própria criatura ou é só uma transmissão de pensamento que a gente costuma associar aos espíritos feitos de fogo?)

Outra coisa legal é a forma como Gaiman respeita as crenças alheias . Gosto particularmente da cena em que Shadow observa Anúbis devorar o coração de uma pessoa morta. Ele faz questão de transmutar a cena (que para nós poderia parecer mórbida) e torná-la algo respeitoso e até mesmo reverenciável. Comer o órgão de um morto, para aquela cultura, não possui uma conotação ruim. E a gente precisa aprender a respeitar isso.

Pelo que pude entender, Gaiman realmente fez uma viagem de carro enquanto se inspirava para escrever essa história, e muitos dos lugares encontrados em Deuses Americanos são reais. E é fascinante essa capacidade que ele tem de nos transportar com as palavras, porque é como se a gente realmente estivesse ali, vendo um retrato panorâmico dos Estados Unidos. Não aquele Estados Unidos das famílias de pijama combinante assistindo o desfile de 4 de julho, mas sim aquele ainda meio selvagem, esquecido na beira da estrada.

Até porque, esta é outra tecla batida por Gaiman. Em sua metáfora sobre os novos deuses, tecnológicos e digitais, ele meio que sutilmente grita para nós: saiam de casa, olhem o mundo com seus próprios olhos, vivam! Esse contraste entre o mundo moderno da televisão e o dia-a-dia de Shadow, sempre em carros empoeirados e cidades de atrações excêntricas, vai dialogar justamente com isso. Gaiman quer que os americanos conheçam seu país no íntimo (e talvez devêssemos fazer o mesmo com o Brasil).

Fonte: animagess.deviantart.com – Reprodução

Foi muito bacana fazer essa viagem com Shadow. Várias das coisas que li vão me acompanhar para sempre: acho que nunca me recuperarei da história de Wututu e Agasu e muito menos vou deixar de tremer nas bases quando pensar num kobold. Truques de moeda jamais serão os mesmos e com certeza vou pensar duas vezes sempre que encontrar um velhinho suspeito viajando de terno na primeira classe.

Deuses Americanos exigiu tudo de mim, mas me deu vários tesouros em troca.

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