Dualidades além do bem e do mal

Já conversamos por aqui sobre a linha tênue que separa o bem e o mal, e sobre como a adição de tons de cinza aos personagens é um recurso que traz reflexões interessantes para um enredo. Eliminar a dicotomia entre mocinhos e bandidos ou entre o certo e o errado traz profundidade para a história, e também ajuda a prender a atenção dos leitores. Afinal, estamos oferecendo personagens mais realistas, com os quais é possível se identificar, com defeitos e virtudes, dúvidas e crenças pessoais.

Porém, um autor não precisa se prender à dualidade do bem e do mal para criar um embate filosófico que cative seu público. Existem diversas outras possibilidades a explorar, fugindo do lugar comum e, mais importante, trabalhando com um tema sobre o qual não existe consenso.

Fonte: http://sf.co.ua/ - Reprodução

Fonte: http://sf.co.ua/ – Reprodução

Embora isso também possa acontecer no caso do bem e do mal, normalmente existe um conjunto de conceitos morais mais bem delimitado para eles (assassinar um inocente, por exemplo, sempre é considerado uma atitude ruim), que tende a dividir os personagens entre mocinhos e antagonistas. A graça de brincar com uma dualidade diferente está justamente no fato de que não sabemos dizer com certeza qual dos lados tem razão. Podemos até mesmo jogar com discordâncias entre aliados, sem necessariamente precisar separá-los de time.

A bem da verdade, o “lado certo” depende da abordagem utilizada pelo autor, do contexto da história e do grau de polarização dos personagens. Geralmente, coisas ruins acontecem quando chegamos próximos aos extremos de cada lado do embate (dificilmente a verdade estará pautada em preto e branco), e nossos personagens mais queridos são aqueles que sabem equilibrar com inteligência o melhor dos dois mundos.

Mas, novamente, isso tudo é muito relativo.   

Baseada em um artigo bastante interessante que li essa semana, separei algumas dualidades que vão além do bem e do mal e que podem ser exploradas na Literatura. É bom lembrar que muitas delas não precisam necessariamente ser o cerne de uma história, mas podem ser usadas para adicionar dramaticidade, fomentar discussões ou criar aquela clima de tensão que faz a gente ler um livro numa única sentada.

Segurança vs Liberdade

Esse é um embate bacana porque ele pode funcionar em diversos níveis:

Um dos mais óbvio é o da segurança pública, no caso das leis e proibições. É preciso restringir algumas liberdades individuais para garantir uma convivência pacífica em comunidade? Temos vários exemplos de medidas assim, como as restrições de idade para a condução de veículos e a proibição de porte de arma. Se estivermos lidando com distopias, governos totalitários ou situações políticas extremas (como uma guerra), as coisas começam a ficar ainda mais complicadas, com toques de recolher ou confisco de bens. Se existisse um sistema capaz de prever crimes, deveríamos prender inocentes antes que estes realizassem os atos ilícitos previstos, como no filme Minority Report? Até que ponto garantir a segurança é o melhor caminho quando o preço é o sacrifício da liberdade?

Lembrando que não precisamos pensar apenas num âmbito geral, de comunidade. Este mesmo embate se aplicaria no caso de pais superprotetores e seus filhos ávidos por conhecer novas aventuras.

Os Clareanos hesitam em sair da falsa segurança Fonte: static.srcdn.com - Reprodução

Os Clareanos hesitam em sair da falsa segurança Fonte: static.srcdn.com – Reprodução

Outro aspecto da dualidade pode ser encontrado dentro dos próprios personagens. Muitas vezes a segurança pode ser confortável ao ponto de servir como uma prisão. O medo de perder a segurança faz com que as pessoas abram mão de sua liberdade. Mesmo que seja uma falsa segurança: em Maze Runner, alguns Clareanos são contrários à ideia de sair do Labirinto por medo dos perigos que os aguardam, mesmo que isso signifique permanecer num cativeiro inexplicável.

Privacidade vs Transparência

Talvez o exemplo mais icônico deste embate seja o caso de Edward Snowden, agente do governo americano que vazou informações confidenciais sobre a NSA sem autorização.

Snowden, embora tenha denunciado práticas preocupantes, de interesse público e que questionam a liberdade individual, é considerado um criminoso perante a justiça. E é justamente essa a sinuca entre privacidade e transparência.

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

Embora a transparência seja necessária, principalmente na esfera administrativa, o excesso de transparência pode trazer consequências desastrosas. Basta ver os escândalos envolvendo o vazamento de fotos íntimas e as campanhas de marketing embasadas na análise de dados pessoais produzidos por usuários em redes sociais. A privacidade é também um direito, e não há nenhuma garantia de que uma sociedade completamente aberta para qualquer indivíduo torne-se melhor por isso.  

O anonimato facilita a realização de crimes, porém também permite que vítimas ou pessoas ameaçadas possam se manifestar e lutar contra seus agressores de forma mais segura.

Progresso vs Tradição

“Mas sempre foi feito assim.”

Tanto o progresso quanto a tradição possuem seus benefícios. Enquanto um moderniza e traz soluções mais práticas e eficientes, o outro representa a cultura, o respeito e a harmonia. Mas até que ponto a máxima do “não se mexe em time que está ganhando” é válida? E até que ponto vale a pena abrir mão de algumas tradições, visto que a adoção do novo sempre trará consequências?

Em Vida de Inseto, longa de animação da Pixar, podemos enxergar um bom embate entre progresso e tradição, construído de uma forma que não aponta culpados. Entendemos os dois pontos de vista e assistimos a como essa dualidade se ajusta de acordo com a história.

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

Já no Senhor dos Anéis, encontramos uma vilanização do progresso. Tolkien personifica o progresso na forma de Saruman, com suas máquinas e experiências científicas. Enquanto tudo o que é belo na Terra Média, desde as jóias élficas até as espadas forjadas pelos anões, é artesanal, de uma perfeição cuidadosa e invariavelmente antigo, o progresso de Saruman é retratado como algo tosco, mal acabado e sem personalidade. Como uma linha de produção. Ocorre ainda uma exaltação do modo de vida quase imutável do Condado, seu estilo de vida bucólico e tradicional.

Interessante que esta é uma visão que se mantém dentro do gênero fantástico, principalmente nos romances de cavalaria. Artefatos mágicos, poderosos, costumam vir de fontes antigas e tradicionais, das mãos de artistas que quase sempre utilizam “técnicas milenares”. O progresso, por outro lado, encontra seus adeptos dentro do gênero steampunk (na base do vapor, tudo bem, mas ainda assim progresso).

Individualidade vs Comunidade

Se dar bem na vida e garantir o seu ou ajudar a tornar a sociedade melhor para todos? Abrir mão completamente da individualidade em benefício do próximo pode ser um erro?

Quando a comunidade está sempre em primeiro lugar, criamos uma utopia. Afinal, teoricamente não existiriam crimes, desigualdades sociais ou fome. Todos dividiriam a responsabilidade de nutrir e proteger seu conjunto social. Porém, a falta de individualidade impede a competição, que por sua vez fomenta e impulsiona a inovação. O ideal de crescimento próprio nos ajuda a conquistar coisas e realizar grandes feitos. No entanto, o individualismo também possui seu efeito colateral: algumas pessoas serão esmagadas no caminho. Para subir sozinho, é preciso deixar outros para trás.

O primeiro livro da trilogia Mistborn aborda um pouco essa temática. No início de sua jornada, a protagonista Vin questiona porque pessoas poderosas voltariam para ajudar o império se estas podem simplesmente ir embora e levar uma vida sossegada de acordo com as próprias leis. Seu mentor Kelsier é responsável por abrir-lhe os olhos para a questão da confiança e da responsabilidade em relação à seus amigos.

Um exemplo muito bom é citado também no artigo do MythCreants:

Por gerações uma comunidade é mantida dentro de uma nave, onde cada habitante possui um implante cerebral que permite sentir os sofrimentos uns dos outros e os compele a assumir suas responsabilidades na nave. Quando alguns indivíduos conseguem se livrar do implante, começam a expressar sua individualidade, sentindo-se completos pela primeira vez. Esse comportamento começa a ameaçar a harmonia pacífica da comunidade, e uma solução precisa ser encontrada: destruir a rede de implantes ou reinserir os indivíduos problemáticos no sistema?

Mais ou menos o que acontece com John e Mary em Wall-E... Fonte: filmspotting.net - Reprodução

Mais ou menos o que acontece com John e Mary em Wall-E… Fonte: filmspotting.net – Reprodução

Racionalidade vs Sensibilidade

Não é a toa que um dos livros da Jane Austen se chama Razão e Sentimento. Este é um dos confrontos mais utilizados na Literatura, acontecendo sobretudo na mente de um mesmo personagem.

Seguir com a lógica ou acreditar na intuição? Tomar a decisão matematicamente correta ou a moralmente correta? Novamente tomando o gênero distópico como exemplo, temos o famoso embate ético da doença contagiosa que ameaça a humanidade: logicamente, salvaremos mais vidas se isolarmos e sacrificarmos os infectados, mas esta não é uma decisão trivial. Ela vai de encontro à nossa ética e à empatia, vai contra princípios que nos tornam humanos.

Sob outro prisma, em As Mentiras de Locke Lamora podemos encontrar vários trechos onde nosso vigarista favorito, Locke, ensina seu pupilo Pulga a controlar sentimentos, a não fazer nada no calor da emoção. Porém, justamente a reação impetuosa do garoto acaba provando-se útil para resolver situações da trama.

Juventude vs Velhice

Essa dualidade não representa necessariamente um embate, serve mais como uma comparação de momentos e pontos de vista. Afinal, não é uma questão sobre quem está certo ou errado, apenas duas fases distintas pelas quais, com sorte, todos nós passaremos.

Fonte: Pixar - Reprodução

Fonte: Pixar – Reprodução

Existem algumas características típicas entre a juventude e a velhice, que podem ser encaradas também como o embate da imaturidade versus experiência. Por um lado temos o frescor da juventude, a inconsequência, o questionamento, o deslumbramento com a vida. É uma fase de emoções à flor da pele e de luta. Por outro lado, a velhice traz sabedoria e resignação, uma alma já calejada e bem vivida. Temos as tradições, a sabedoria, a serenidade e quem sabe, até um pouco de rabugisse. A gente lembra logo do filme Up, também da Pixar, que explora as interações entre o escoteiro Russell e o aposentado Carl Fredricksen. Note que eles não formam exatamente um confronto, mas precisam se ajustar à visão de mundo um do outro.

Ah, e não preciso nem dizer que é necessário tomar cuidado com visões estereotipadas, né? Embora tratar da juventude e da velhice seja interessante e gere muitos insights, é bom adicionar umas generosas camadas de profundidade aos personagens. Nem todos os jovens são irresponsáveis e alegres, assim como muitos idosos gostam de tecnologia,  e possuem vidas mais ativas do que muitos garotões por aí…

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