E essa nossa mania de shippar

Vamos lá, admita: quem aqui nunca torceu loucamente para um casal de personagens finalmente se acertar? Eu sei, eu sei, parece meio bobo. Mas cá entre nós, a verdade é que praticamente todo mundo já foi torturado por algum autor, esse ser incapaz de juntar aquele par romântico que faz o maior sentido dentro da sua cabeça. No final das contas, somos todos shippers.

Fonte: Tumblr - Reprodução

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A “arte do ship” surgiu como uma variação da palavra inglesa relationship (relacionamento), denominando o ato de torcer por um casal. Acredita-se que o termo tenha sido utilizado pela primeira vez entre os fãs da série Arquivo X. Registros de 1996 apontam que a palavra já era utilizada para caracterizar os telespectadores que enxergavam envolvimento romântico entre os agentes Fox Mulder e Dana Scully. Os dois personagens formariam, então, um ship.

O termo ganhou popularidade rapidamente (afinal, todo mundo já fazia isso mesmo…só não existia a palavra apropriado para a coisa), e toda uma cultura de vocábulos derivados foi sendo desenvolvida. Como ship também significa navio em inglês, o meio de transporte foi escolhido como símbolo oficial pelos torcedores apaixonados. Portanto, se você torce por um casal, você está shippando aquele par. E isso torna você um shipper. Mas vamos para mais um pouquinho de contextualização:

Criou-se também o costume de caracterizar os ships pela junção (bizarra) dos nomes dos pombinhos envolvidos. Assim surgiram “Romione” (Ronny + Hermione) e “Percabeth” (Percy + Annabeth), por exemplo.

(Ah, surgiu também o “Peeniss”, da Katniss e do Peeta. Mas não me façam repetir isso, por favor…)

Se o casal por quem você estava torcendo deu certo, o ship passa a ser chamado de canon, ou sailed ship. É aquele momento em que podemos respirar fundo e voltar a viver nossas vidas sem preocupações. O mundo voltou a fazer sentido.

Fonte: conversacult.com.br - Reprodução

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Quando o autor dá a entender que dois personagens formarão um casal no futuro (tipo nos romances da Julia Quinn), o ship é chamado de OTP, One True Pairing. É aquele casal que a gente sabe que vai acontecer, basta esperar e sofrer um pouquinho antes.

Um cult ship é aquele em que o par tem pouquíssimas chances de virar realidade, mas você torce mesmo assim. O mais esquisito que já vi provavelmente foi “Dramione” (Draco + Hermione). Slash e femslash ships designam os romances homossexuais, surgindo a partir de fanfics  de Star Trek estrelando o amor de Spock e Capitão Kirk. E finalmente, um crack ship é um casal absurdo, geralmente pertencentes a histórias/universos distintos. Sabe quando Frozen estreou no cinema e todo mundo começou a dizer que a Elsa era a alma gêmea do Jack Frost? Pois é…

Certo, mas porque memorizar essa penca de palavras esquisitas é importante?

O fato é que, quando um fandom (grupo de fãs de determinada coisa) coloca algo na cabeça, fica difícil de tirar. E o mercado está começando a perceber o retorno positivo que pode ser obtido ao agradar um fandom.

Nós sempre shippamos, mesmo quando a palavra não existia. Jane Austen que o diga. Alguns mais, outros menos, mas sempre existiram casais fictícios que despertavam respostas empáticas por parte dos expectadores. No entanto, o mercado anda shippando… como nunca.

Fonte: conversacult.com.br - Reprodução

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Os adolescentes são o principal alvo. Fandoms adolescentes são fiéis, engajados e movimentam toneladas de informações no meio virtual, num constante debate sobre seus pombinhos favoritos. São capazes de popularizar uma história como ninguém, beirando a exaustão. Não a toa, muita gente revira os olhos quando escuta falar em fandoms. Mas para o mercado, quanto mais, melhor.

A própria Rede Globo adotou os ships e passou a utilizá-los em suas redes sociais como ferramenta de divulgação, principalmente para as atrações voltadas ao público adolescente. Postagens que provocam os fandoms sobre seus ships atingem alcance orgânico muito maior do que aquelas voltadas para os demais personagens. Os atores também alimentam seus respectivos ships em suas contas pessoais, e a emissora tem aberto espaço para que os fãs enviem vídeos e fotos falando sobre o casal. Acredite ou não, já existe até um aplicativo específico para criar nomes de ship, bastando apenas inserir os nomes dos interessados.

Na literatura, a coisa não está muito diferente. Desde Crepúsculo até Cinquenta Tons de Cinza, as editoras perceberam que os ships são um ótimo termômetro para a recepção comercial de títulos. O romance idealizado virou uma ótima ferramenta de vendas.

Nas plataformas de divulgação gratuita de livros, como o Wattpad, onde os capítulos podem ser postados separadamente, tenho observado casos de autores que chegam a alterar seus finais e reorganizar todo o enredo para alinhar seus livros com os desejos românticos dos fãs.

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O engraçado é que isso nem sempre quer dizer um final feliz. Na maior parte das vezes, casais que já iniciam juntos e permanecem sempre alegres e em harmonia não conquistam o coração dos leitores. É a angústia, o medo da separação e o velho clichê do eles-ainda-não-perceberam-como-se-amam que cria a conexão emocional duradoura, o vínculo de empatia. Claro que o felizes para sempre é a cereja do bolo. Mas não é, absolutamente, o ingrediente principal.

Em um artigo do This Incandescent Life, Emily Tjaden apresenta dicas para fazer com que leitores shippem sua história. Ela realça dois fatores interessantes. O primeiro fala sobre como evitar apontar claramente quem formará o par romântico pode ser uma ótima maneira de acender a luzinha dos ships, deixando que os leitores percebam as sutis indicações do começo de um romance por conta própria. Mas é o segundo fator que realmente define a dinâmica entre autor, romantismo e leitor.

“Using a combination of all of the things I’ve mentioned will be like dangling a treat in front of a dog and jerking it away. Eventually you’ll give it to them, but you’ve got to play the game first. You’ve got to have them begging for it. You need them to ship your characters. This is why “cute encounters”—when not forced—are great! You’re letting them get close enough to sniff the treat before you pull it back. The better you play, the more they’ll ship. But you’ve got to remember to play fair and let them have the treat after a bit. Don’t hold it out for too long or they’ll feel cheated. (Usar uma combinação de todas as coisas que mencionei será como balançar uma guloseima na frente de um cachorro e sacudir para longe. Eventualmente, você terá de entregá-la, mas você precisa jogar o jogo primeiro. Você precisa fazê-los implorar por ela. Você precisa que eles shippem seus personagens. Por isso é que “momentos fofos” – quando não forçados – são ótimos! Você estará deixando que eles se aproximem o suficiente para cheirar a guloseima antes que você a puxe de volta. Quanto melhor você joga, mais eles shipparão. Mas você precisa lembrar de jogar limpo e deixar que eles tenham a guloseima depois de uma mordida. Não segure por tempo demais ou eles se sentirão traídos.)”

No final das contas, os leitores querem sentir a insegurança e a montanha russa de emoções de um romance da vida real. Aquele onde não existem garantias de que tudo pode dar certo, e onde acontecem problemas.

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Portanto, antes de recriminar os corações de manteiga por aí, é preciso entender que shippar é um fenômeno normal e característico do ser humano. Ou, como diria Eric Schulmiller num excelente texto sobre o assunto:

“…When we ship we are ultimately rooting for love itself, and for the triumph of these two rare elements, will and grace. Whether real or fictional, our ships represent our faith in our fellow humans to take the leap of imagination necessary to connect with another human being. To take off our masks; to succeed in the heroic act of accepting love, and to have the courage to risk offering it. (Quando nós shippamos, estamos em última análise torcendo pelo próprio amor, e pelo triunfo desses dois raros elementos, desejo e graça. Seja real ou fictício, nossos ships representam nossa fé em nossos colegas humanos de dar o pulo da imaginação necessário para nos conectar com outro ser humano. De tirar nossas máscaras; de triunfar no heróico ato de aceitar o amor, e de ter a coragem para arriscar oferecê-lo.)”

Pessoalmente, acredito que o ship só se torna condenável quando ameaça a integridade da obra: o livro passa a obedecer seu público, ao invés de sua motivação. Quando os fãs resolvem abandonar uma história simplesmente porque seu navio acabou afundando ou quando o romance ultrapassa a mensagem que o autor pretendia passar. Fora isso, é algo natural e até um bom indicador para os escritores, demonstrando sua capacidade de conexão emocional com o leitor.  

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Porque algumas histórias, bem, foram feitas para nos mostrar que nem tudo é perfeito, que nem sempre as coisas são como desejamos. E o leitor cresce e aprende a apreciá-las, a apreciar a coragem do autor. Elas se tornam melhores histórias assim…partindo nossos corações.

(Ah, Pullman, você ainda me paga…)

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