E esse tal de New Weird? Relato de uma leitora de fantasia

Desde que mundo é mundo o ser humano se esforça para colocar as coisas em suas respectivas caixinhas. Classificar está em nosso sangue. Gostamos de ter controle sobre o que algo é e também sobre o que ele não é, a fim de criar um sentimento de segurança e previsibilidade confortável.

Porém, às vezes as coisas não se acomodam tão bem em suas caixinhas. Às vezes você vai ter que sentar em cima dela para conseguir puxar o zíper, ou então deixar uma manga pra fora e seguir a vida fingindo que nada aconteceu.

Fonte: Amazon UK – Reprodução

A arte (e no nosso caso aqui, a Literatura), em seu caráter subjetivo e dependente de contexto, é uma dessas coisas difíceis de classificar.

Sou uma leitora de fantasia desde pequenininha. É só me aparecer com um dragão, um pouquinho de magia e quem sabe uma bruxa para conseguir minha atenção. E embora eu me arrisque aqui e ali com outros gêneros, eu nunca havia tido contato com livros de ficção científica que não fossem O Guia do Mochileiro das Galáxias. Cenários futuristas e cheios de tecnologia nunca foram minha praia. Talvez porque eu passe o dia inteiro cercada de tecnologia e curta uns escapismos, sei lá…

Mas aí peguei pra ler o livro da Becky Chambers, após uma enxurrada de recomendações, e me apaixonei pelo texto. Logo em seguida, um amigo me emprestou Aniquilação, do Jeff VanderMeer, e eu devorei em dois dias.

(Parece que o jogo virou, hein? Definitivamente temos uma leitora de fantasia explorando novas áreas!)

Fonte: Tumblr – Reprodução

O problema é que Becky Chambers e Jeff VanderMeer me pareceram coisas muito diferentes. Compreendo porque as duas obras podem ser classificadas como ficção científica, mas me pareceu injusto colocá-las numa caixa só. Tirando a temática e partindo para o miolo, para o debate proposto pelo texto, eram livros completamente diferentes: tinha cheiro de subgênero. E se Raul Seixas diz que ruim é ter aquela opinião formada sobre tudo, fui dar uma pesquisada pra entender melhor onde essas coisas se encaixavam.

Esbarrei com o termo “new weird”, subgênero do sci-fi.

Ok, vamos para uma pequena representação visual: vamos considerar que o universo literário é um universo composto por círculos sobrepostos onde um gênero ou subgênero é um círculo preenchido por um gradiente de cinza. Lá no meio, no centro, o círculo é completamente negro. E quanto mais você anda em direção às bordas, mais claro ele fica, indo de um cinza chumbo até um cinza tão clarinho e sutil que você chega a ter dificuldade para saber se já atravessou a borda ou não. A sobreposição dos círculos também não te ajuda em nada, porque você nunca sabe direito onde começa um e acaba o outro, ou em cima de quantos círculos simultâneos você está andando.

A Literatura funciona assim. Você tem alguns expoentes – obras e autores que representam o subgênero -, que ficam lá no centro e cuja classificação é inquestionável. Por exemplo, ninguém colocaria o Tolkien numa categoria que não fantasia. E, descendo pelo gradiente de cinza, temos livros que podem ser classificados naquele círculo mas que não estão inseridos ali em sua totalidade. Eles possuem características mistas, contradições, inovações que não se encaixam. Golem e O Gênio, por exemplo, é uma coisa totalmente diferente de O Senhor dos Anéis, ainda que eu continue considerando a Helene Wecker como uma autora de fantasia.

Bem, quando muitos autores das beiradas começam a fazer coisas parecidas, pode-se criar um novo subgênero, outro círculo interior que possui seu próprio centro. E estes autores estarão em ambos os lugares, só que com graus de pertencimento (tons de cinza) diferentes.

Fonte: Facebook – Reprodução (não encontrei a autoria :( )

O que minha experiência literária mostra é que dificilmente vamos conseguir bater o martelo e classificar coisas, mas que é importante conhecer os gêneros e subgêneros para conhecer suas assinaturas. Para identificar “a sensação” que um livro New Weird, por exemplo, nos passa.

Dito isso, o New Weird é um subgênero de fronteira que explodiu lá pelos anos 2000 . Sua proposta é unir fantasia, ficção científica e horror, subvertendo estereótipos e construções comuns para causar estranhamento. O New Weird é, sobretudo, um gênero de experimentação dentro da alçada da ficção especulativa.

(A ficção especulativa é uma “definição guarda-chuva” para narrativas que lidam com o sobrenatural, mágico ou futurista.)

O termo foi oficializado em 2003 através dos debates propostos por M John Harrison, mas foi somente em 2007 que Jeff e Ann VanderMeer lançaram a primeira antologia New Weird, porta de entrada para que o público realmente compreendesse o que aqueles autores estavam propondo. O nome mais proeminente quando pesquisamos o gênero, além do próprio VanderMeer, é o do inglês China Miéville. Que por sinal ainda preciso ler.

China Miéville. Fonte: Social Text – Reprodução

Mas o que exatamente esses caras estão propondo?

Bem, sabemos que a literatura de gênero – e em especial a fantasia, sci-fi e horror – é um ambiente bastante experimental. Ao manipular a realidade e abusar de arquétipos e do imaginário coletivo, é possível criar histórias que dialogam com o cotidiano das pessoas, que traçam paralelos reflexivos com o mundo real.  As possibilidades são enormes.

Mas, enquanto a fantasia por muitas vezes volta-se ao humano, às questões morais e espirituais, o pessoal do New Weird queria falar sobre o urbano, sobre o coletivo. Seus temas são bastante sociais e modernos, tratando sobretudo de política, ética e tolerância. Era preciso projetar o futuro, mas não um futuro muito distante ao ponto de soar como um universo alternativo e irreconhecível, mas também era preciso lidar com o fantástico para poder traçar paralelos mais profundos. E, por fim, era preciso criar essa sensação… de estranhamento, de “mal estar”. Era preciso cutucar a ferida e mostrar que havia algo de podre. Assim, o horror faz sua parte, trazendo elementos do surreal e do grotesco.

Em Aniquilação, por exemplo, temos uma expedição formada apenas por mulheres que é enviada para a Área X, um local inóspito e selvagem onde pessoas somem e reaparecem sem nenhuma explicação. Enquanto a história avança, narrada em primeira pessoa pela bióloga do grupo, vamos descobrindo fragmentos do lugar, captando informações nas entrelinhas e sentindo toda a angústia da personagem. Aniquilação causa incômodo. Seja pela descrição da Área X e seus elementos que desafiam a lógica, seja pelos relatos melancólicos da vida pregressa da protagonista.

Fonte: HardMOB – Reprodução

Por falar nela, uma coisa curiosa é o fato de que “a bióloga” não tem nome. Nenhuma das personagens é apresentada ao leitor. Elas são identificadas apenas por seus papéis na expedição, um recurso importantíssimo para causar mal estar no público: por mais que conheçamos detalhes de suas vidas, elas estão sempre distantes. É uma intimidade fria, quase como se não devêssemos estar lendo aquele relato. É humano mas também afastado.

O horror de VanderMeer, por sua vez, é criado nas pequenas coisas, daquele jeito que tanto admiro em autores como o Gaiman. Em Aniquilação, temos sugestões de aversão o tempo inteiro: musgo, juncos, água estagnada, umidade, fungos. E principalmente, sabe aquela sensação de solidão e vulnerabilidade que experimentamos quando estamos sozinhos em mata fechada? Se você nunca experimentou isso, te garanto: é ao mesmo tempo mágico e uma aflição só.

A própria escolha da primeira pessoa mostra-se uma opção acertada. Além do óbvio (manter as outras personagens numa constante aura de dúvida – afinal, não sabemos o que elas estão pensando ou fazendo, precisando confiar apenas no que diz e no que não diz a bióloga), a primeira pessoa funciona bem quando o autor precisa descrever o indescritível. Explico: a Área X abriga conceitos que escapam à percepção humana.  Ela desafia a lógica, desafia o que chamamos de realidade. Então, se uma criatura impossível precisa aparecer… como descrevê-la?

A narrativa em terceira pessoa seria um problema, porque o narrador precisaria ao menos aproximar a descrição da criatura, o que já criaria um viés. Ela estaria, no final das contas, sendo resumida a outras formas conhecidas. Já na primeira pessoa acontece o inverso. Sabemos que a descrição baseia-se no que um personagem vê, e que isso depende de sua personalidade e experiência. Então meio que o suspense se quadruplica. Ficamos louco para saber como realmente é aquele monstrengo. O surreal muitas vezes está no que sugerimos mas não somos capazes de enxergar.

Jeff VanderMerr Fonte: The Verge – Reprodução

Quanto à magia, Aniquilação segue a linha de que muitas coisas naturais podem ser consideradas mágicas se o contexto dos personagens não permitir identificá-las. Por exemplo, elefantes poderiam ser considerados seres mitológicos para os povos nativos da América do Sul.

Não posso afirmar com certeza se esta é a abordagem padrão dentro do New Weird, mas tenho esse sentimento de que a magia é tratada não como uma força mágica, como vemos nos livros propriamente ditos de fantasia, mas sim como a única explicação encontrada para o inexplicável. Quando nos falta lógica para descrever algo, precisamos apelar para o imaginário.

De modo geral, Aniquilação foi uma ótima leitura. O livro tem esse poder de te causar repulsa ao mesmo tempo em que te prende do início ao fim. Não importa que você vá ficar horrorizado, desde que você descubra o que acontece na última página. Realmente só não dei nota máxima para o livro porque achei que o VanderMeer deixou muitas respostas para os próximos volumes da trilogia, e particularmente prefiro obras mais redondinhas, mesmo em séries.

Fonte: Dirge Magazine – Reprodução

Outra coisa interessante sobre o movimento New Weird é que, como seu nome sugere, ele não é exatamente inédito. Muitos autores já faziam uma misturinha parecida entre gêneros. Porém, a geração New Weird foi a primeira a crescer totalmente imersa numa cultura de ficção científica. Foi uma geração que acompanhou a internet, a computação ubíqua, os hackers e a utilização de células tronco. Foi o pessoal que realmente notou que “opa, precisamos debater essas questões agora porque elas não são mais coisa do futuro”. O New Weird é uma geração onde o futuro é delineado agora, não numa distopia séculos à frente ou num universo alternativo.

(Pensando agora, talvez Caçador em Fuga também seja uma obra com algumas características New Weird. Mas me corrijam se eu estiver errada. Provavelmente estou.)

Estes autores, que acabaram se esbarrando e se juntando na Inglaterra graças à atuação de editores e revistas independentes, terminaram convergindo. Ainda não temos muito disso no Brasil, mas lá fora muita coisa importante acontece dentro do cenário undergroud. Não sei se por influência mútua ou por ação do ambiente em comum, mas quando a convergência aconteceu, o New Weird surgiu com ela.

Jeff VanderMeer diz, no prefácio de sua antologia, que esse subgênero, na verdade, já está morto. Que devemos aguardar o “Next Weird”.

Fonte: Amazon – Reprodução

Isso é porque a convergência, a explosão para o público, só aconteceu no final do movimento. Esses autores cresceram num contexto comum, cresceram juntos, perseguiram a carreira juntos e ficaram famosos juntos. O New Weird já surgiu no ápice de seus expoentes.

E se o gênero se propõe a experimentar e refletir as questões urbanas, novos autores precisarão evoluir o subgênero para… outra coisa. As próximas histórias serão sobre outras épocas, com outros componentes.  O que VanderMeer quer dizer é que a energia criativa que construiu histórias como Estação Perdido e Aniquilação não existe mais. Ela se renova.

O que fico debatendo aqui com meus botões é se vale a pena dar um nome para cada nova corrente ou se deveríamos simplesmente aceitar que os gêneros evoluem com o tempo. Às vezes de forma cíclica, tudo bem, mas ainda assim mutáveis. Não sei… Como disse lá em cima, nunca é fácil achar as caixinhas certas. O que diferencia uma evolução de uma ruptura?

Acho que pra mim o que ficou foi mesmo a sensação. New Weird é uma coisa que encontro em alguns lugares. Suas fronteiras são difíceis de explicar.

(Quer umas indicações do que ler dentro do gênero? Clique aqui. Quer ver gente bem mais competente do que eu falando sobre isso? Clique aqui, aqui e aqui.)

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