Emma, um caso de não tão amor assim

O texto a seguir pode conter spoilers de: Emma. Depois não diga que eu não te avisei…

Comecei a ler Emma com a expectativa lá nas alturas. Quem me conhece sabe que sofro de uma irremediável e açucarada queda por romances de época… Até hoje bato palminhas quando Mr. Darcy ajuda Elizabeth a subir na carruagem e posso assistir Stardust quantas vezes você quiser sem nem piscar. O fato é que eu estava super preparada para suspirar um bocado e deixar o navio do ship vagar completamente solto em mar aberto.

Fonte: janeausten.com

Fonte: janeausten.com

Só que Emma passou bem longe disso. Acabou se mostrando um livro completamente diferente do que eu esperava e me deixou até mesmo incomodada em certos momentos. Conhecer o casal protagonista, Emma e Mr. Knightley, me tirou da minha zona de conforto. Por um motivo bem básico:

Eu simplesmente não comprei esse romance.

Veja bem, eu sei que essas coisas eram corriqueiras e super normais no período em que Jane Austen estava viva. Mas como uma pessoa que ainda está se recuperando do asqueroso caso Valentina do Master Chef, não consigo assimilar um casal onde a mocinha tem 21 anos e o mocinho tem 37.

E nem é por causa da diferença de idade em si. Afinal, essas são as idades de pessoas adultas e portanto, com todo o direito de se relacionar. Porém, o que me incomoda é que o Sr. Knightley convive com Emma desde que esta era apenas um bebê, acompanhando toda a infância e desenvolvimento da jovem. Aí começou a ficar creepy.

Tem até uma parte onde ele afirma:

“Eu não poderia pensar tanto em você sem cair de amores por você, com defeitos e tudo; e à força de supor incontáveis erros me apaixonei por você desde os seus treze anos, no mínimo.”

Creeeeeeeeeeepy! O_O

Além disso, mesmo tendo esperado até a maturidade da jovem para investir com seus sentimentos, as mulheres daquela época (e sobretudo Emma) eram tão reclusas e protegidas em seus lares, tão mimadas e sem experiência de mundo, que não consigo deixar de enxergar Emma como uma “adolescente grande”, sem a mínima condição de jogar de igual pra igual com um homem feito como o Sr. Knightley, por mais que este seja descrito como um doce de pessoa.

Uma coisa teria sido dizer que eles se conheceram já adultos e a personalidade de Emma conseguiu encantar um homem intelectualmente mais maduro. Outra é mostrar como Knightley ajudou a formar o caráter da garota ao longo dos anos, com seus conselhos e reprimendas, e notar que, no final das contas, o cara nada mais fez do que criar exatamente a esposa que já desejava para si…

Então não me importa que na época da autora as coisas fossem assim. Não me importa que o amor dos dois seja verdadeiro. Não me importa que eles viveram felizes para sempre. Eu definitivamente não comprei esse casal.

Para que esse sentimento de repulsa não se alongasse pelo restante do livro, tratei de procurar alguma adaptação cinematográfica que me desse uma imagem mais palatável dos protagonistas. Achei essa versão da BBC e coloquei na cabeça de imaginar os personagens desse jeito, onde eles pelo menos aparentam ter umas idades mais coerentes. Assim pude fantasiar de que os dois cresceram juntos e foram crianças juntos. E pude enfim continuar a ler o livro.

Adaptação da BBC Fonte: dailymail.co.uk - Reprodução

Adaptação da BBC Fonte: dailymail.co.uk – Reprodução

Mas tudo bem, consegui disfarçar minha indignação debaixo de umas boas pás de terra. Podemos aproveitar o romance agora?

Não, não podemos.

O romance entre Emma e George Knightley é morno e distante. Desenvolve-se a fundo em questão de uns três capítulos e, assim que os personagens percebem seus sentimentos, tudo se resolve na maior comodidade e rapidez, sem grandes emoções ou lágrimas. Nada daquele torturante e delicioso esquema de gato e rato que ocupa toda a extensão de Orgulho e Preconceito. Nada dos olhares cheios de significado de Elizabeth Bennet, nada das tentativas de interpretação de Mr. Darcy.

Numa comparação, é como quando Harry e Rony precisam convidar alguém para o baile do Torneio Tribruxo e transformam isso num verdadeiro estresse emocional, enquanto um dos gêmeos simplesmente atira uma bolinha de papel na cabeça de uma colega e pergunta se esta aceita ser seu par. Os leitores esperam Harry e Rony, mas Emma e Knightley estão muito mais para gêmeos Weasley…

Dessa forma, Emma trouxe uma grande decepção para mim. Eu esperava uma confortável história de amor austeniana, com mocinhos apaixonantes separados por alguma questão pessoal/social e um final arrebatador, seguro e quentinho. Que foi tudo o que eu não encontrei.

Então porque todo mundo afirma sem parar que Emma é a obra prima de Jane Austen?

A verdade é que o envolvimento esquisito e condenável (porque pra mim o nome disso ainda é pedofilia) entre Emma e Knightley cede lugar a um enredo sobre a sociedade londrina, estereótipos, preconceitos, e principalmente, sobre uma protagonista feminina que nos dá muito o que pensar. Emma é um péssimo romance e uma excelente crítica, uma ótima reflexão. É um livro que de forma alguma gira em torno do casal principal.

O livro gira mesmo é em torno de Emma. A rica, bonita, mimada e cheia de si, Emma Woodhouse.

Mas vamos por partes. Primeiro, Austen é capaz de criar um livro sobre…sobre nada. O tempo em Emma transcorre acompanhando o cotidiano de uma sociedade rural, com nada mais do que o dia-a-dia para entreter o leitor. E sim, acontecem coisas interessantes, como o mistério do piano e o ataque dos ciganos à Harriet, mas são eventos isolados e que não podem ser considerados o leme da narrativa. Emma consegue divertir o leitor nas coisas simples, consegue mover uma obra inteira utilizando apenas o corriqueiro, a vida comum da época.

Fonte: janitesonthejames.blogspot.com - Reprodução

Fonte: janitesonthejames.blogspot.com – Reprodução

E para conseguir isso, é preciso contar com personagens bem construídos, capazes de levar o livro nas costas sem torná-lo enfadonho. Confesso que senti certa morosidade nas primeiras 200 páginas, onde a história parece se arrastar. Mas este foi o tempo necessário para que cada personagem apresentasse sua personalidade, mostrasse seus defeitos e tornasse a coisa toda muito mais divertida.

Emma é repleto de diálogos interessantes, daqueles que a gente pesca informações nas entrelinhas, e eles ajudam a criar um carinho impressionante pelos personagens. O pai de Emma, Sr. Woodhouse, é de longe meu personagem favorito. Hipocondríaco, com medo até da sombra, vendo desgraça em tudo e ainda assim com um coração de manteiga enorme. Gosto como Austen nos dá um nobre podre de rico que ainda assim é dócil e sempre vê o que há de melhor nas pessoas. O Sr. Woodhouse só quer mesmo é ficar em paz na sua lareira.

E vários outros personagens mostraram-se tão cativantes quanto ele. O Sr. e Sra. Weston, Srta. Bates, Isabella e a própria Jane Fairfax conseguiram chamar minha atenção. E me diverti muito acompanhando suas pacatas vidas lá de cima.

Outro ponto importante é que, embora o livro seja bem dividido entre personagens masculinos e femininos, são as mulheres que controlam e movem o enredo. A história é focada nelas e quase que totalmente através da percepção delas. Assim, Austen nos oferece uma visão bem completa do cenário imposto às mulheres de sua época, suas limitações e desafios. Também existe toda uma mensagem cifrada para que a autora possa dar um verdadeiro tapa de luva em ninguém menos do que o príncipe regente (o Coruja em Teto de Zinco Quente tem um post maravilhoso explicando isso, basta clicar aqui).

E aí temos Emma, e não é à toa que o livro leva o nome dela.

Fonte: fanpop.com - Reprodução

Fonte: fanpop.com – Reprodução

Emma serve a dois propósitos: ensinar sobre seus próprios defeitos e ensinar sobre os nossos defeitos, sendo esse segundo objetivo um tantinho mais sutil.

Quanto aos seus próprios defeitos, Emma inicia o livro como uma garota muito presunçosa, que acredita piamente ser capaz de identificar todos os sentimentos e vontades que passam pela cabeça de seus amigos e familiares. Ela se considera uma exímia casamenteira e uma ótima influência para as outras moças, inclusive tomando Harriet, uma ingênua moça bastarda de situação difícil, como sua pupila.

Emma é tão determinada a tornar Harriet uma dama distinta, que é a responsável por criar uma série de mal entendidos. Emma acaba inclusive prejudicando Harriet, pois está tão cega em sua auto confiança que não percebe os reais sentimentos da moça ou de seu pretendente, o Sr. Martin.

Aliás, Emma é incapaz até de enxergar seus próprios sentimentos por George Knightley, pelo menos não até ser aterrorizada pela perspectiva de perdê-lo. Acompanhar a redenção da personagem, seu arrependimento (como não amar a visita de desculpas à Srta. Bates?) e seu posterior amadurecimento, são o ponto alto do livro.

Acho inclusive interessante a escolha de Austen em fazer com que seja o acaso e as decisões dos outros personagens que resolvam os conflitos criados por Emma. Se a heroína tivesse caído na real e consertado tudo, ainda assim pensaria ser capaz de orquestrar a vida das pessoas, quando na verdade ninguém é, senão elas mesmas. A maior lição para Emma é observar como o fluxo da vida retoma seu curso natural, mesmo quando ela tenta intervir.

E sobre os nossos próprios defeitos, Emma é uma protagonista que destoa e muito do arquétipo comum, principalmente para os romances da época.

Emma tem tudo o que alguém poderia querer da vida. Ela, por assim dizer, nasceu de bunda para a lua. Nunca precisou mexer uma palha para conseguir nada, é adorada de graça pelos outros e tem uma auto-estima inabalável. Uma receita que já faz a gente entortar a cara pra ela: vai ser essa a mocinha que eu deveria amar?

Tem um artigo muito, muito bom do LitHub, que mostra como a escolha de palavras de Austen é proposital para criar esse efeito desagradável em Emma.

“Emma Woodhouse, handsome, clever, and rich, with a comfortable home and happy disposition, seemed to united some of the best blessings of existence, and had lived nearly twenty-one years in the world with very little to distress or vex her. . . ”

Note que Austen usa “clever” ao invés de “intelligent”, dando um ar mais trapaceiro, mais “espertinho” para Emma. Ficamos com a ideia de que a garota não é culta, mas sim que sabe se safar de qualquer situação. Do mesmo modo, ao usar “rich” ao invés de “wealthy”, Jane Austen refere-se apenas à riqueza material de um jeito cheio de condenações, como se nos dissesse, naquela época, que Emma era uma grande patricinha.

Para ilustrar, descobri esses dias que As Patricinhas de Beverly Hills, aquele filme de 1995 que a gente via na Sessão da Tarde, é inteiramente inspirado na obra de Austen. Então pegue aquela Alicia Silverstone super hiper irritante e coloque um figurino de época: você terá Emma. Austen queria que você a odiasse no começo. Que se irritasse por ela ter tudo e ainda assim aparentasse ser tão pouco.

As Patricinhas de Beverly Hills - Fonte: cineclick.com.br - Reprodução

As Patricinhas de Beverly Hills – Fonte: cineclick.com.br – Reprodução

O que estou querendo dizer é que Emma é uma lição de moral para a construção de heroínas. Parece haver um padrão, que dita que protagonistas devem ser pobres, humildes e de baixa auto-estima para conquistar o coração dos leitores.

Somos acostumados a amar personagens que lutam e a odiar quem já ganhou tudo de mão beijada. Mas no caso de Emma, no caso de As Patricinhas de Beverly Hills e no caso de muitas outras, estamos cometendo um pré julgamento terrível.

Emma, no final das contas, é uma garota de ótimo caráter. Ela quer verdadeiramente ajudar a todos, ela quer se tornar uma pessoa melhor. E ela não tem culpa de ter dado a sorte de nascer numa família rica, ou de ter nascido bonita, ou mesmo da criação mimada que recebeu. Ao longo do livro, começamos a amar Emma, a compreendê-la, a ver como o preconceito pode funcionar para os dois lados.

Ainda sobre o artigo do LitHub:

“How much can we—should we–embrace women, in fiction and in real life, whose lives, if not their very persons, are enviably “better” than ours, more attractive, more comfortable, and seemingly happier? Do we admire them, judge them, or both? Are we secretly pleased when they, too, encounter life’s inevitable obstacles, or do we feel sorry for them? (O quanto podemos – ou devemos – abraçar mulheres, na ficção ou vida real, cujas vidas, se não suas próprias pessoas, são invejavelmente “melhores” que as nossas, mais atraentes, mais confortáveis, e aparentemente mais felizes? Nós as admiramos, julgamos ou ambos? Ficamos secretamente satisfeitas quando elas, também, encontram os inevitáveis obstáculos da vida, ou sentimos pena delas?)”

Emma veio para nos deixar desconcertados. Ela é confiante, ela não precisa viver o conto da Cinderela. Ela nem mesmo enxerga o casamento sob uma perspectiva romântica. Pelo contrário, Emma aconselha Harriet a procurar um casamento socialmente e financeiramente vantajoso ao invés de um grande amor. Para a própria Emma, o casamento não é redentor, ela não precisa de um marido para protegê-la ou sustentá-la. E ao mesmo tempo, Emma é também alguém que erra, uma heroína imperfeita, uma mulher que precisa aprender ainda muita coisa, mas que tem a disposição para se colocar no caminho certo.

Fonte: goodbooksforyoungsouls.blogspot.com - Reprodução

Fonte: goodbooksforyoungsouls.blogspot.com – Reprodução

Emma consegue fazer com que as mulheres, que vivem em um universo que até hoje estimula a competição, admirem e torçam por alguém que a princípio deveria ser odiada/invejada.

“We still have complicated responses to women who have more, look better, and do more, and worst of all, don’t seem all that apologetic about it. We might call it the “Don’t Hate Me Because I’m Beautiful” predicament. (Nós ainda temos respostas complicadas para mulheres que possuem mas, são mais bonitas e fazem mais, e o pior de tudo, não parecem nem um pouco ressentidas por isso. Nós poderíamos chamar de o dilema “Não Me Odeie Porque Sou Bonita”.)”

E embora o relacionamento entre ela e George Knightley tenha sublimado muito do meu amor pelo livro (desculpem, mas é algo com o qual não conseguirei nunca lidar), sigo admirando Emma e o grande talento de Jane Austen em nos presentear com uma heroína inesquecível e um enredo tão bem conduzido em cima de fatos tão banais.

 

Retrospectiva TBS – 2015
Resultado – Sorteio molesquine da traça

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