Eu finalmente li Bernard Cornwell

O texto a seguir pode conter spoilers de: O Último Reino. Depois não diga que eu não te avisei…

Não sei explicar ao certo a razão pela qual nunca havia lido nada do Bernard Cornwell. Por falta de recomendação é que não foi. Tampouco por falta de oportunidade: eu já havia, inclusive, presenteado parentes com livros do autor, e sempre me referia a ele como “olha, eu não li, mas sei que é bom”.

Fonte: abacaxivoador.com.br - Reprodução

Fonte: abacaxivoador.com.br – Reprodução

Qual é, o cara escreve ficção histórica (que tem um lugarzinho de honra no meu coração ao lado da fantasia e do romance vitoriano) sobre invasões dinamarquesas à Inglaterra (já mencionei o quanto amo mitologia nórdica?). Então resolvi que este ano eu precisava consertar as coisas. Peguei O Último Reino, primeiro volume das Crônicas Saxônicas, sentei a bunda na cadeira e li como se não houvesse amanhã.

E não me arrependo.

A quantidade de pesquisa histórica envolvida nesse livro é de arrepiar. São referências a batalhas, locais, fauna, flora, religião, medicina, técnicas de batalha, técnicas de navegação, costumes, culinária… a obra poderia ser facilmente adotada nas escolas como material auxiliar. Cornwell merece seu sucesso apenas pelo fato de ter trazido ao mundo um recorte tão redondo do século IX.

Em O Último Reino, acompanhamos a vida de Uhtred, ealdorman de Bebbanburg, cujo destino (ou wyrd, expressão que aprendemos a amar) cruza-se o tempo todo com os principais acontecimentos históricos de sua época.

A verdadeira fortaleza de Bebbanburg nos dias atuais. Fonte: jamieos.smugmug.com - Reprodução

A verdadeira fortaleza de Bebbanburg nos dias atuais. Não é à toa que Uhtred quer voltar. Fonte: jamieos.smugmug.com – Reprodução

Como se não bastasse perder sua casa e seu pai para os invasores dinamarqueses, Uhtred ainda é criado como filho pelo homem que o tornou órfão, é traído pelo tio, vê a família adotiva morrer e é obrigado a servir a um rei pelo qual não nutre lá muita lealdade. Porém, por outro lado a vida de Uhtred é repleta de golpes de sorte, boas amizades, superações e triunfo. É como se as fiandeiras estivessem apostando para ver quantos acontecimentos cabem nos fios de um único mortal.

“E ao pé de Yggdrasil, a árvore da vida, as três fiandeiras zombavam de nós.”

E eu gosto dessa decisão de Cornwell. Seu protagonista desvia do heroísmo utópico e também da completa tragédia. A vida de Uhtred não passa de uma vida, no final das contas, cheia de altos e baixos. Ele nem sempre é honrado, sua maior motivação é a vingança e ao mesmo tempo consegue ser de uma generosidade ímpar.

Gosto de pensar em que tipo de pessoa Uhtred se transformaria caso passasse toda a infância na Nortúmbria, aos cuidados de Beocca. A educação do garoto coloca na mesa o velho debate sobre a geração do “merthiolate que não arde”. O quanto de liberdade deve ter uma criança? O quanto de limite deve ser imposto? Ser criado como dinamarquês, na época, era quase o equivalente a passar férias na fazenda, longe do videogame.

Fonte: Drunkwookie - Reprodução

Fonte: Drunkwookie – Reprodução

Porque convenhamos, apesar de ser contrária a vários dos “métodos educativos” de Ragnar, o dinamarquês realmente conseguiu tornar o insípido Osbert (antigo nome de Uhtred) num cara corajoso, determinado e autossuficiente. Ragnar confiava em suas crianças, os desafiava constantemente e deixava que arriscassem seus próprios pescoços.  

“Ragnar não me deixaria morrer, porque tinha dois de seus arqueiros a postos com flechas nas cordas, mas não interferiu enquanto o homem corria para mim dando outra estocada.”

Até mesmo o ideal de família Uhtred aprendeu com seus captores. O modo como os irmãos Lothbrokson se relacionam e a lealdade de Ragnar, o Jovem, foram cruciais para formar o Uhtred que conhecemos, alguém que até então só havia experimentado a falsidade do tio. Chega a ser engraçado como as experiências da infância são decisivas para a formação do ser humano. Por mais que conviva com os ingleses, seu próprio povo, Uhtred ainda conserva boa parte da ética e moral que aprendeu sob o teto de Ragnar.

A vida dos dinamarqueses é tão simples, tão preto no branco, que chega a dar inveja. Eles não possuem o conceito de pecado, suas leis são fortemente baseadas na justiça pelas próprias mãos e eles possuem poucas ambições além de comida, terra e prata. É uma cultura interessantíssima de acompanhar, de traçar paralelos. E o livro de Cornwell se beneficia ao ser narrado por um inglês, capaz de compreender as contradições.

Mas Uhtred não é o único estranho nesse ninho de guerreiros.     

Brida é uma personagem que demorei para me apaixonar. Sendo companheira de Uhtred por quase todo o livro, foi somente quando a garota separou-se dele que conquistou minha simpatia. Explico:

O Último Reino é um livro centrado e movido por homens. O mundo de Uhtred, apesar de toda a relativa liberdade aplicada pelos dinamarqueses, é extremamente machista. Não que isso seja um problema narrativo, já que a obra apenas reflete os reais costumes e formas de pensar do período histórico. É importante que o livro seja assim, que nos traga esse viés, ainda mais quando a proposta de Cornwell é abordar a história com o máximo de realismo possível.

Por isso, eu tinha grandes expectativas para as poucas personagens femininas, em especial por Brida, que possui grande destaque na trama. Queria saber como viviam as mulheres dinamarquesas, e como uma garota rebelde como Brida desafiaria um sistema no qual seu gênero é reprimido. A cultura nórdica é bem complicada nesse ponto, pois ao mesmo tempo em que garante liberdades nunca antes imaginadas pelas mulheres inglesas (como relacionar-se livremente com vários homens e andar por aí sozinha), também mantém conceitos como o pagamento de dotes, casamentos arranjados e muita superstição.

“Brida levou a espada para a floresta durante uma noite inteira, e jamais me contou o que fez com ela, e esses eram os feitiços de uma mulher.”

Por mais que eu continuasse lendo, Brida parecia não passar de “uma grande promessa”. A garota era valente, violenta, debochada e subversiva, maaaas…vivia sempre à sombra de Uhtred. Após a morte de Ragnar, ela se contenta em seguir nosso protagonista, sem que sua opinião seja sequer solicitada. Brida trabalha nas cozinhas e suporta uma vida que claramente odeia, apenas para seguir Uhtred. E como não enxergo o relacionamento dos dois como sendo amoroso (encaro mais como grandes companheiros que por acaso unem o útil ao agradável), fiquei com a impressão de que Brida apenas deixava-se levar.

Fonte: bbcamerica.com - Reprodução

Brida, de seguidora coadjuvante a dona de sua própria vida. Fonte: bbcamerica.com – Reprodução

Levei até um susto com sua revelação de abandonar Uhtred para retornar aos dinamarqueses. E fiquei imaginando se essa não era a intenção de Cornwell o tempo todo. Quando Brida resolve tomar as rédeas de seu próprio destino, a personagem cresce e cativa. Suas aparições posteriores, no acampamento de reféns de guerra, mostram alguém bem mais madura. O próprio Uhtred a vê de modo diferente. Acho interessante ver que não há ressentimento ou ciúmes entre os dois.

E depois dessa virada de Brida, creio que tanto ela quanto Mildrith e Thyra ainda terão um papel importante a desempenhar.

Também acho o caráter de Uhtred algo fascinante. Por mais que esteja sempre envolto numa avalanche de referências desencontradas, entre saxões e dinamarqueses o rapaz cresceu para se tornar alguém muito gente boa (assim como Leofric, por incrível que pareça). Pelo menos por enquanto.

Uhtred é orgulhoso de sua condição, como ealdorman, mas não utiliza isso para sentir-se melhor ou pior do que outras pessoas. Podemos vê-lo em diálogos sinceros com companheiros de barco, familiares, reis ou prostitutas. Uhtred enxerga as pessoas como…pessoas. Realmente não se importa com suas crenças, amores ou rivalidades. É possível perceber até o carinho com que trata os padres Beocca e Willibald, mesmo que ridicularize seu credo o tempo inteiro.

“- Ela é uma garota, Uhtred!

– Eu sei.

– Nua.

– Deus é bom – disse eu.

Ele se adiantou para me dar um tapa, mas me afastei da borda da piscina e ele quase cai lá dentro.”

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Beocca, cuja careca deve ser culpa de Uhtred. Fonte: bbcamerica.com – Reprodução

O embate entre paganismo e cristianismo permeia todo o livro e é responsável pelos insights mais interessantes da trama. A Igreja da época era extremamente conservadora e intolerante. Também prezava pela humildade e renúncia aos prazeres mundanos, e por isso representa o completo oposto dos dinamarqueses e seu politeísmo, calcado na liberdade e satisfação pessoal.

E se no começo da história criamos um franco favoritismo pelos dinamarqueses (ainda na mais na visão de um Uhtred criança, travesso e completamente apaixonado pela falta de limites de sua família adotiva), Cornwell equilibra a disputa ao nos apresentar Alfredo. O rei de Wessex, como podemos notar através da “Nota Histórica” ao fim do livro, é o verdadeiro protagonista das Crônicas Saxônicas. Ele estará por trás dos panos, escondido sob a narrativa de Uhtred, mas será o grande responsável por mexer as peças no tabuleiro.

“Com o tempo eu descobriria que ele era um homem inteligente, muito inteligente, e pensava duas vezes mais rápido do que a maioria dos outros. E também era sério, tão sério que entendia tudo, menos as piadas.”

O comportamento de Ealdwulf também já dá indícios, politicamente falando, de como as coisas realmente funcionam. O ferreiro segue Uhtred em sua vida com os dinamarqueses, trabalha para eles e se diverte com eles. Porém, deixa bem claro que seu coração continua inglês: ainda sonha em ver seu ealdorman estraçalhando os invasores. Foi para isso que lhe deu a espada.

Ou seja, em O Último Reino, a vingança é tramada em função da oportunidade. Não existe aquela dicotomia honrada dos típicos cavaleiros. Assim como Ealdwulf vive com os dinamarqueses, o amigo de hoje pode ser o inimigo de amanhã e é possível unir-se a seus adversários caso isso lhe proporcione uma vantagem momentânea. E portanto, espero ver Uhtred mudar de lado inúmeras outras vezes antes de finalmente recuperar Bebbanburg.

Fonte: Drunkwookie - Reprodução

Fonte: Drunkwookie – Reprodução

Bernard Cornwell também é mais sutil no uso dos estratagemas políticos. Depois do fenômeno Game of Thrones, tivemos um grande boom de romances voltados às intrigas e artimanhas do poder. O Último Reino, porém, nos dá a visão de um guerreiro. Uhtred é intuição e força, habilidade e resistência. Embora seja definitivamente esperto, Uhtred não pode ser considerado um grande jogador político. Essa abordagem é bem legal porque podemos acompanhar diversos fatos históricos através dos olhos de quem realmente esteve lá.

E foi através da descrição de batalhas que Cornwell fez seu nome.

Enquanto Uhtred amadurecia e participava de um ou outro quebra-canela, estava achando as cenas de ação muito boas, porém nada de excepcional.

Mas isso foi antes de acontecer a verdadeira parede de escudos.    

Fonte: en.series-tv-shows.com - Reprodução

Fonte: en.series-tv-shows.com – Reprodução

Cornwell tem um estilo seco de escrita, que torna a narrativa quase crua, combinando com a rudeza de seus personagens. É ideal para cenas onde a humanidade fica de lado e dá lugar à besta interior, ou como diz Uhtred, à canção da espada. E se juntarmos tudo isso a uma espetacular capacidade de construção de cenários, teremos uma cena daquelas para nunca esquecer.  

Foi como estar lá. Pude sentir os cheiros, os sons, o medo misturado com a euforia. Acho que Crônicas Saxônicas é daquelas séries onde é impossível não se apaixonar pelo protagonista, porque nós realmente acabamos nos sentindo parte de Uhtred (algo reforçado pela escolha de narrativa em primeira pessoa).

“Riso na batalha. Era o que Ragnar havia me ensinado, sentir júbilo na luta.”

Da adaptação para o seriado, não gostei: assisti apenas o primeiro episódio e deixei pra lá. Não entendo o porque da decisão de tratar toda a infância de Uhtred (sua criação, o embate de religiões e a forma como se apega pouco a pouco à família de Ragnar) de maneira tão corrida e descuidada. As duas primeiras partes do livro são fundamentais para que possamos criar empatia por ambos os lados envolvidos na guerra, para que criemos em nossa mente os mesmos dilemas vividos por Uhtred: de que lado estamos? Encurtar essa representação significa tirar a importância de personagens como Ravn e Ealdwulf. Também transforma Uhtred num assassino de sangue frio, já que não acompanhamos seu aprendizado, desde a matança do javali até a primeira luta de homem pra homem. Por ponto positivo, destaco o cuidado com a caracterização e ambientação dos personagens (que por sinal ilustram esse post).

Por outro lado, é interessantíssimo acompanhar a obra em paralelo à serie Vikings, do History Channel. Embora a produção televisiva distorça boa parte dos fatos históricos, podemos encontrar vários pontos de convergência entre as duas tramas, e é divertido comparar como cada personagem foi adaptado. Os eventos de O Último Reino iniciam alguns anos depois do plot principal de Vikings.  

Gostaria também de destacar duas cenas que ficaram bem marcadas para mim:

A primeira, quando Uhtred está divagando sobre os poetas em sua narrativa, me fez rir sozinha. É como se Cornwell estivesse fazendo graça às suas próprias custas, ao mesmo tempo em que, em metalinguagem, chama atenção do leitor para a importância da palavra escrita:

“Hoje em dia emprego poetas para me cantar elogios, mas só porque é isso que um senhor deve fazer. Mas frequentemente me pergunto por que alguém deveria ser pago em troca de meras palavras. Esses tecelõs de palavras não fazem nada, não plantam nada, não matam inimigos, não pegam peixe e não criam gado. Apenas recebem prata em troca de palavras, que, de qualquer modo, são gratuitas.”

E a segunda, quando o ealdorman Odda conversa com Uhtred na calada da noite, livre de máscaras. É uma cena que me lembra bastante o filme Tróia, quando Aquiles e o Rei Príamo dialogam de modo tocante após a morte de Heitor. Colocar forças tão distintas (velhice e juventude, guerreiro e comandante, perda e vitória, potência e cansaço) para conversar com serenidade, de igual para igual, é sempre uma construção poderosa. É uma parte pequena e sem muito destaque da narrativa de Cornwell, mas que achei bastante épica. Foi a preparação ideal para a parede de escudos que veríamos a seguir.    

Príamo e Aquiles. Fonte: ociointeligenteparavivirmejor.blogspot.com - Reprodução

Príamo e Aquiles. Fonte: ociointeligenteparavivirmejor.blogspot.com – Reprodução

“O ealdorman Odda, com idade para ser meu pai, queria meu apoio. Queria que eu lhe dissesse o que fazer, eu, que nunca estivera numa grande parede de escudos, mas eu era jovem e arrogante, e os augúrios tinham dito o que deveria fazer. Por isso contei a Odda.”

Dito isso, só posso chegar a uma conclusão:

É, ferrou. Parece que agora sou mais uma maluca no mundo, gritando “Shield Waaaaaaaall” sempre que estiver no meio de uma discussão.

Wyrd Bið Ful Aræd

(Para saber mais sobre As Crônicas Saxônicas, você pode clicar aqui e aqui)

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