Eu finalmente li Jonathan Strange & Mr. Norrell

Jonathan Strange & Mr. Norrell (Susanna Clarke), um calhamaço de mais de 800 páginas revestido numa linda e intrigante capa azul, estava encostado na minha estante desde a Black Friday de 2015. E mesmo nesta época, já fazia bastante tempo que o Coruja em Teto de Zinco Quente indicava não só o dito cujo como também a minissérie homônima produzida pela BBC.

Mas eis que junho de 2017 chega e traz com ele um (pasme) inverno frio para Recife. Não sei se por magia ou aquecimento global, mas me vi na inédita situação de tomar chá e usar casaco dentro de casa. O dia em que saí de manhã cedo e havia neblina NO MANGUEZAL foi decisivo: estamos londrinos demais para eu não aproveitar e ler Jonathan Strange & Mr. Norrel.

Fonte: BBC – Reprodução

O livro já começa intrigante, com uma introdução feita por Neil Gaiman. Dois pontos interessantes a ressaltar:

Primeiro, Susanna Clarke deve ser o equivalente literário a uma ganhadora da mega-sena. Ainda em início de carreira, participou de uma oficina de escrita comandada por Colin Greenland. Encantado com o estilo e criatividade da aluna, Greenland tomou a liberdade de enviar para o amigo Neil Gaiman um de seus contos pelo correio. Gaiman ficou tão extasiado quanto Greenland, e tomou a segunda liberdade de enviar o conto dela, cheio de recomendações, para um conhecido editor. O editor comprou os direitos de publicação do conto, Susanna Clarke ganhou notoriedade, juntou as escovas de dente com Colin Greenland, virou amigona do Gaiman e o resto é história.

Hoje, amiguinhos, aprendemos a importante lição de que você pode ser até muito talentoso, mas que ainda assim é legal colocar a cara na rua de vez em quando. Nunca se sabe o que pode acontecer numa oficina de escrita.

O segundo ponto a destacar é que foi a primeira introdução que eu vi que prepara o leitor para o fato de que talvez ele não vá gostar do livro. Gaiman não fala isso com todas as letras, mas existe uma forte sugestão no seguinte trecho:

“Eu tinha razão sobre a qualidade do livro e sobre o quanto as pessoas gostariam dele. Estava errado sobre uma coisa, uma coisinha só, que era achar que Jonathan Strange & Mr. Norrell seria um livro para poucos, que só tocaria, ainda que profundamente, meia dúzia de pessoas e que, quando elas se encontrassem, falariam sobre Arabella, Stephen Black, Childermass ou o cavalheiro de cabelos de algodão como falam de velhos conhecidos, formando laços de amizade entre estranhos. Ouso dizer que isso acontece, mas não só com meia dúzia de pessoas, e sim com um exército tão grande quanto o de Wellington, se não maior. O livro virou uma coisa rara, uma obra bela e maravilhosa que encontrou leitores em todo o mundo.”

Dois coadjuvantes que roubam a cena. Fonte: BBC – Reprodução

Ok, eu sei que o parágrafo acima parece refutar meu argumento, mas imagine a pulga atrás da orelha que fiquei ao imaginar o porquê de Neil Gaiman ter achado que o livro conquistaria apenas um punhado de gatos pingados.

Após a leitura, ouso dizer que ele estava certo: Jonathan Strange & Mr. Norrell não é um livro para todo mundo. O erro de Gaiman pode ser atribuído apenas a suas previsões numéricas: o público ideal é muito maior do que se imagina. São centenas e centenas de pessoas de diferentes idades e países. Mas esse público não constitui, de modo algum, a população total de leitores de fantasia.

Para gostar de Jonathan Strange & Mr. Norrel, é preciso simpatizar com um nicho específico.

A narrativa de Susanna Clarke é espevitada, cheia de palavras esquisitas, antiquadas e repletas de ironia (parabéns ao pessoal da tradução!). Todo o seu esforço é voltado para a imersão do leitor na Inglaterra de 1806 – 1817, período que compreende o fim das guerras napoleônicas. Então sim, você vai se sentir dialogando e pensando como as pessoas da época. Tudo será cavalheirismo e boas maneiras. A sociedade londrina fervilhará com jantares de gala, mordomos, perucas, cartões de visita e dedinhos levantados para tomar chá.

“A atual tarefa lembrou-lhe os grandes magos medievais, que, sempre que tinham um problema aparentemente difícil para resolver, viajavam a cavalo por um ano e um dia, tendo como guias um ou dois criados mágicos, e ao fim desse período nunca deixavam de encontrar a solução. Mr. Honeyfoot disse a Mr. Segundus que, em sua opinião, o melhor que poderiam fazer era seguir o exemplo desses grandes homens, alguns dos quais tinham ido às regiões mais remotas da Inglaterra [..]. Mr. Honeyfoot não propunha irem tão longe; com efeito, não desejava ir longe de modo algum, porque era inverno e as estradas estavam péssimas. Entretanto, estava persuadido de que deveriam ir a algum lugar e consultar alguém.”

Então, primeiro, é preciso sentir prazer com a contemplação do dia a dia. O livro terá inúmeras partes banais e corriqueiras, e metade da graça é saber rir disso tudo. Se Jane Austen escrevesse sobre magos ingleses, ela escreveria sobre Jonathan Strange e Mr. Norrell. Acho que Susanna tem o mesmo talento de Austen para desnudar seus personagens, para torná-los reais e complexos com apenas três ou quatro palavras. Isso é um baita de um elogio.

Fonte: BBC – Reprodução

Depois, é preciso levar em conta o formato do livro. Teoricamente, Jonathan Strange & Mr. Norrell é um livro didático/biografia, criado por algum personagem posterior aos dois magos, talvez em 1830 ou 1840 (o que explica as constantes quebras de quarta parede). O narrador que nos fala tampouco é Susanna Clarke, mas um erudito fictício, com anos de pesquisa na bagagem. Então teremos muitas notas de rodapé, citações a outros livros, teorias conflitantes e inserções, aqui e ali, de cartas, matérias de jornal e opiniões de personagens secundários. Para quem gosta de uma história direta e cheia de ação, isso tudo pode parecer enfadonho. Já para quem curte um estudo de biblioteca, gosta de referências e se dá bem com a área acadêmica, é um deleite.

Fiquei muito, muito encantada  com a forma como o livro em si faz parte do universo fictício. É uma nova camada de imersão poder ler a obra biográfica dos personagens. De certa forma, tudo fica muito mais real quando amarrado “à luz da ciência”, com datas e fatos tão bem compilados. Me diverti demais com cada nota de rodapé.

Também é preciso gostar de ficção histórica. Boa parte da genialidade da obra está nas referências e personagens históricos, em toda a situação política vivida pela Inglaterra durante a guerra. O duque de Wellington é um dos mais legais que eu já vi, George III é hilário e amo a forma irônica com que ela trata Lord Byron (podemos, inclusive, descobrir como Jonathan Strange serviu de inspiração para o poema Manfred). A reconstrução da batalha de Waterloo é fantástica. Aliás, por mim os magos poderiam passar mais uns 10 capítulos na guerra.

Fonte: Tumblr – Reprodução

Por fim, é preciso atentar para o ritmo. O livro é conduzido como uma sinfonia: começa lento, baixinho, e você chega a se perguntar se vai passar mais 1h ouvindo aquele violino se lamentar quando de repente tudo começa a crescer, explodir no seu ouvido e te levar ao clímax da música. Suzanna mexe as peças devagar no tabuleiro, mas o jogo é rápido. Cada personagem se desenvolve de modo lento, mas à medida em que cada núcleo vai se envolvendo, interagindo e fazendo sentido, sua cabeça vai dando um nó. Nos capítulos finais, eu já me encontrava sentada na beirinha da cadeira. Você começa com uma crítica de costumes e do nada termina com um épico nas mãos.

Essa transição ocorre graças à prodigiosa diferenciação que Susanna cria entre magia propriamente dita e magia inglesa. É difícil explicar essa diferença em poucas palavras, mas digamos que tanto Jonathan Strange quanto Mr. Norrell são representantes da magia inglesa, uma metáfora para a magia controlada e compreendida pela sociedade. Ela é regida por normas, por burocracia, por contratos e por muito estudo acadêmico. Tanto que a magia é controlada pelos eruditos, pelas pessoas de dinheiro. Os feitiços são feitos em privacidade e sem alarde. Por exemplo, ao precisar de “uma coisa morta” para sua magia, Strange escolhe um vaso de flores murchas, porque é óbvio que um cavalheiro jamais imaginaria usar algo morto…de verdade.

“- Pode um mago matar um homem com magia? – perguntou Lorde Wellington a Strange.
Strange franziu o cenho. Pareceu não gostar da pergunta.
– Creio que um mago poderia – admitiu. – Um cavalheiro, jamais.”

A magia inglesa é o reflexo de sua sociedade, a mais moderna e avançada da época (ao menos na opinião deles mesmos). Imagine poder pegar um complexo sistema de magia e apertá-lo dentro de um romance da Jane Austen. Esse é o milagre que Susanna Clarke realiza.

No entanto, existe outro tipo de magia. Mais antiga, mais poderosa, mais verdadeira. Esta é a magia do mundo, das árvores, das pedras e dos rios. Sãos mistérios que a humanidade não está pronta e nem autorizada a conhecer.

O universo fantástico da história também segue a tradição inglesa. Seus habitantes e a forma como as coisas funcionam estão enraizados nas lendas populares, no mundo das fadas de Shakespeare. Inclusive, várias cenas do livro me lembraram bastante o filme/livro Labirinto, e foi quase impossível não imaginar um dos antagonistas da história como uma versão retrô do David Bowie. Aparentemente, a autora usou Stardust – O Mistério da Estrela como uma das fontes de inspiração.

Voltando, essa segunda forma de magia é personificada na figura do Rei Corvo, John Uskglass. John é considerado o predecessor de todos os magos da Inglaterra, uma figura folclórica de poder incalculável e muito antiga, cujos ensinamentos se perderam com o tempo. A verdade é que ninguém compreende os desígnios do Rei Corvo, ninguém entende porque John fazia as coisas que fazia. E, como todo fato histórico, sua trajetória foi recontada e distorcida milhares de vezes. Então ninguém sabe mais separar o que é fábula e o que é verdade. O Rei Corvo paira sobre a história como um mistério, como uma lembrança de que há muito mais além de nossa própria compreensão. John Uskglass faz com que nos sintamos pequenos. Ainda que sejamos os dois maiores magos da atualidade.

É uma cartada genial da parte da autora manter John Uskglass sempre em aberto. Num gesto simbólico, enquanto as partes de Mr. Norrell e Strange apresentam ilustrações do rosto de cada personagem, a ilustração do Rei Corvo mostra apenas uma cadeira vazia. Nós o encontramos aqui e ali na história, mas é impossível extrair mais informações.

“O ponto que Mr. Norrell, da praça Hanover, sustenta é que tudo o que pertence a John Uskglass deve ser removido da magia moderna, assim como removemos traça e pó de um casaco velho. O que imagina ele que restaria? Se nos livrarmos de John Uskglass, restar-nos-á o ar vazio.”

Rei Corvo. Fonte: BohemianWeasel – DeviantArt – Reprodução

E é justamente quando Mr. Norrell (na magia com Mrs. Pole) e Jonathan (na busca por Arabella) cruzam a perigosa fronteira entre magia inglesa e magia natural, que a história cresce e toma rumos totalmente inesperados.

Nenhum personagem está lá como acessório. Todos serão cruciais e somarão à narrativa. A sensação é de que você vai estar procurando pistas o tempo inteiro. E sabe aquele sentimento de pânico quando, num filme de terror, você sabe que o serial killer está atrás da porta mas não tem como avisar ao mocinho? Foi exatamente assim que me senti.

Estou aqui me coçando para não entregar muito da história. Assim como os livros da Jane Austen, esta é uma obra onde é crucial formar sozinho uma opinião sobre o caráter de cada personagem. Então, embora eu queira deixar por escrito aqui que Childermass, Vinculus, Arabella, Segundus e Stephen Black mereciam posts só para eles, vou me ater aos dois protagonistas.

É difícil não se apegar a ambos. Imagino que seja mais fácil amar Strange do que Norrell, mas confesso ter simpatizado logo de cara com o último.

Norrell é o tipo de pessoa que fala as maiores grosserias sem notar o que está fazendo, com zero maldade no coração. Ele pode dizer algo como “sou melhor do que você” não por uma questão de ego, mas por simplesmente sentir-se constatando uma verdade tão óbvia quanto dizer que o céu é azul. Ele também é a personificação do estudioso teórico, de alguém que preza pelos pormenores e pelas consequências. E, acima de tudo, Norrell morre de medo do assunto que estuda.

“Quanto à questão de Mr. Norrell ser ou não velho, ele era o tipo de homem que já é velho aos dezessete anos.”

Fonte; BBC – Reprodução

Enquanto isso, Strange é o estudioso prático, a pessoa que prefere errar e remediar do que ficar teorizando para sempre. Tanto que, muitas vezes, Strange é a cobaia dos próprios experimentos. Jonathan é ousado, curioso e com uma boa dose de desrespeito pelas regras. Se isso o torna extremamente inventivo, também às vezes o torna irresponsável.

Dá pra notar que Norrell e Strange são duas metades da laranja. Juntos, eles funcionam com perfeição, um compensando as falhas do outro. Jonathan só faz e Norrell só pensa: unindo os dois, é possível fazer com consciência.

“O primeiro enterrará o próprio coração numa escura floresta sob a neve e, ainda assim, sentirá a própria dor; O segundo verá o seu mais caro bem nas mãos do inimigo. 
– Certo – interrompeu Strange – E qual deles sou eu? O primeiro ou o segundo? Não, não me diga. Não importa. Os dois soam medonhos. Para alguém que está ansioso para que eu me torne um mago, devo dizer que o senhor não me apresenta essa vida de modo muito atraente.”

Acho engraçado como Susanna consegue nos conduzir ao longo de 800 páginas sem apontar certos e errados. Ambos os magos erram, ambos passam por momentos de ego inflado. Ouso dizer que o leitor tenderá a concordar com a opinião de Strange (isso aconteceu comigo). Mas boa parte disso deve-se ao fato de que Jonathan é um melhor orador, é mais simpático, lida melhor com pessoas. Se Norrell soubesse falar tão bem quanto o pupilo, seus argumentos seriam tão bons quanto. É notável que a autora tenha criado duas correntes filosóficas que fazem sentido dentro do sistema de magia. Continuo concordando com Strange por minha própria inclinação à mitologia, mas é preciso admitir que Norrell também tem razão.

Fonte: Tumblr – Reprodução

Bem, depois desse texto, acho que deu pra notar que Jonathan Strange & Mr. Norrell foi um livro que entrou com louvor para o rol dos meus favoritos. Adoro fantasia, me divirto com a crítica de costumes, consumo muita ficção histórica centrada na Inglaterra e quanto à parte acadêmica… esse blog se chama “A Traça Cientista” por algum motivo.

Fechei o livro e precisei concordar com o Gaiman. Precisei agradecer mentalmente a Colin Greenland por ter enviado aquele conto pelo correio. Jonathan Strange & Mr. Norrell é um livro que realmente merecia ter mais espaço aqui no Brasil. Seu mundo é vasto o suficiente para inspirar várias outras obras. E eu adoraria conhecer mais sobre John Uskglass, sobre as estradas do Rei e sobre Esperança Perdida.

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Como eu realmente pretendo esfregar esse livro nas fuças de todos os meus amigos, nada melhor do que começar com um sorteio aqui no blog. Se você acha que Susanna Clarke é a sua praia, eis a oportunidade de levar pra casa um exemplar novinho (melhor correr, antes que Mr. Norrel desapareça com o livro):

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O vencedor será anunciado na fanpage dia 31 de julho. Entrarei em contato com o vencedor para combinar o envio do livro. Caso não consiga entrar em contato, outro participante será sorteado. Ah, obviamente, é preciso ter endereço no Brasil. Cês não querem me levar à falência com os correios, certo?

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