Experiência NaNoWriMo: junte-se aos bons!

Escrever um livro é um negócio complicado. Agora imagina fazer isso em 30 dias.

Pois é, bem-vindo ao NaNoWriMo!

Fonte: Grammarly- Reprodução

Fonte: Grammarly- Reprodução

O National Novel Writing Month começou como um projeto sem grandes ambições. Em 1999, o escritor freelancer Chris Baty juntou 21 conhecidos na Califórnia para uma maratona de escrita, uma espécie de desafio conjunto. No outro ano, foram 140 participantes, naquele velho esquema de trazer “o amigo do amigo” para experimentar a novidade.

Porém, no terceiro ano a coisa fugiu de controle: impulsionado pela divulgação em blogs literários e portais de notícias, o NaNoWriMo começou a ganhar uma enorme audiência, com participantes de vários países. Baty quase perdeu os cabelos tentando dar conta de tanta gente, e foi aí que o projeto começou a ficar realmente organizado, contando com voluntários, material exclusivo e arrecadação de patrocínio. Atualmente, a iniciativa é uma das mais aguardadas entre os escritores (só em 2013 foram mais de 400 mil usuários ativos).

A regra é simples: escrever pelo menos 50.000 palavras entre 1º de novembro e as 23:59h do dia 30 de novembro, o que significa uma meta diária de 1.667 palavras. Pode não parecer grande coisa, mas quem escreve sabe o quão difícil pode ser manter-se consistente durante um mês inteiro, ainda mais quando bate um daqueles belíssimos bloqueios criativos.

Enfim, eu já havia ouvido falar bastante sobre o NaNo (forma abreviada porque a gente já é íntimo), mas nunca havia participado. Ou eu perdia o prazo, ou estava muito sobrecarregada com outros projetos ou simplesmente não estava na vibe de me comprometer a fundo com uma história.

Bem, antes tarde do que nunca, certo?

Não faço a mínima ideia do que vai acontecer nessa jornada. Não sei se vou conseguir bater a meta, não sei se vou atirar o computador pela janela ou se vou produzir uma obra-prima (sendo essa última parte altamente questionável). Mas acho que faltava ao TBS viver na pele essa experiência.

Muitas pessoas questionam qual é a real utilidade de um NaNoWriMo, uma vez que:
a) você não vai ganhar nenhum prêmio por bater a meta;
b) a qualidade do texto produzido não é levada em consideração;
c) não acontece nenhuma divulgação do seu livro.

Fonte: willwriteforchocolate.com - Reprodução

Fonte: willwriteforchocolate.com – Reprodução

Sei que ainda não tenho muito conhecimento de causa para responder a esses argumentos, mas para a mim o NaNo vale a pena sim, desde que você encare como um desafio pessoal. É o escritor que há dentro de você tentando criar uma versão melhor de si mesmo.

Passei os últimos dias pesquisando sobre o NaNo, refletindo sobre as metas e juntando material que pudesse me ajudar a avançar nestes 30 dias. A seguir, faço um apanhado de tudo o que descobri até então:

1- Desplugar, desplugar, desplugar

Pessoalmente, esse é meu maior desafio (e o maior benefício que pretendo tirar do NaNo). Para atingir a meta, é preciso dedicar tempo ao projeto, e deixar o cérebro focar na tarefa de escrever. Isso significa, entre outras coisas, fechar aquela aba marota do Facebook e dar um perdido nas notificações do Whatsapp.

Parece simples, mas não é. Principalmente quando se tem um blog pra manter. Tenho dificuldades imensas em desplugar, o que por várias vezes me leva a uma viagem sem volta ao maravilhoso mundo da procrastinação. Sempre tem aquele vídeo de gatinho que você ainda não assistiu.

Fonte: Slothilda - Reprodução

Fonte: Slothilda – Reprodução

Para o NaNo, estou apostando no uso do Scrivener, um editor de texto especializado para autores. Ao contrário daquela folha em branco estéril do Word, o Scrivener cria um ambiente completo para o seu livro. Ao criar um projeto, você pode manter diferentes versões de capítulos, fichas de personagens, sincronizar com o celular e ainda manter todas as suas referências à mão: vídeos, imagens, textos, links…tudo é suportado pelo Scrivener. O que significa basicamente ter todas as funcionalidades do mundo online, só que sem as tentações do seu navegador.

O Scrivener é um software pago, mas como o próprio programa surgiu dentro do NaNoWriMo, ele está com uma versão trial especial para o evento: fica disponível gratuitamente até o dia 7 de dezembro, tempo suficiente para você bater sua meta de 50.000 palavras e exportar seu trabalho. Além disso, caso você consiga vencer o NaNo, o Scrivener te dá um desconto de 50% na aquisição da licença permanente (que vale para mais de um computador, então dá pra dividir o prejuízo com os amigos).

E para garantir que você não vai burlar seu próprio sistema, existem softwares como o Freedom, que bloqueia completamente a sua internet por um período de tempo predeterminado. Não há nada que você possa fazer para recuperá-la, então é melhor continuar escrevendo até o cronômetro zerar…

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

2 – Livrando-se das amarras

“This is how you do it: you sit down at the keyboard and you put one word after another until its done. It’s that easy, and that hard.

É assim que se faz: você senta na frente do teclado e coloca uma palavra depois da outra até estar pronto. É fácil assim, e difícil assim.” – Neil Gaiman

A grande sacada do NaNo é utilizar a pressão do desafio para livrar você de suas amarras. Já falei aqui no TBS sobre o quanto autores sofrem com a procrastinação e a síndrome do impostor. Quantas vezes você já empacou numa história porque ficou editando e reescrevendo frases antigas que nunca pareciam perfeitas aos seus olhos?

Durante o NaNo, você é forçado a escrever: não há tempo para revisar, não há tempo para ficar pincelando em busca de perfeição. Você só escreve. A fase de revisão virá, mas somente após a competição, nos meses de dezembro à fevereiro.

E quando você consegue vencer essa barreira do seu próprio crivo de qualidade, coisas interessantes acontecem. Primeiro, você vai parar de julgar suas ideias e começar a colocar para fora o rumo que realmente deseja para seus personagens. Você também passa a conhecê-los melhor, porque é obrigado a conviver diariamente com a história, o que ajuda a manter as coisas coerentes. Sem a obrigação de revisar a cada parágrafo, a escrita flui. A imersão é maior.

Se isso vai dar um trabalhão pra editar depois? Provavelmente. É possível que você acabe jogando algumas sentenças fora ou pare para pensar “o que diabos eu tinha na cabeça”. Mas tenha certeza de que você se torna um escritor mais criativo.

Existe até uma ferramenta, o Write or Die (Escreva ou Morra), desenvolvida para os escritores que querem ir ainda mais fundo nessa libertação: nele, é possível programar metas de tempo e número de palavras. Ele percebe quando você saiu voando na maionese e parou de escrever, e age de acordo com o modo de jogo escolhido: reforço positivo, reforço negativo ou modo kamikaze, o que funcionar melhor para você. No modo kamikaze, o Write or Die vai começar a apagar todas as vogais do seu texto a menos que você continue a digitar. Dá pra imaginar a pressão?

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

3 – Planejamento da história

A meta diária de 1.667 palavras deve ser levada a sério, mas isso não significa que vale qualquer coisa para alcançá-la. Seu objetivo, muito além de competir, é ter uma boa história ao fim dos 30 dias.

Quem já participou das edições anteriores recomenda que você entre no desafio com uma boa noção de para onde deseja levar a sua história, ou ao menos com os pontos críticos do roteiro bem definidos em sua cabeça. Você vai estar digitando sem muito controle durante o NaNo, atento à contagem de palavras, e por isso fica fácil de se perder pelo meio do caminho. Como não há espaço para a revisão, ter um bom planejamento pode fazer a diferença.

4 – No Pain No Gain

O NaNo começa muito divertido. Você vai estar empolgado e com a expectativa lá em cima, já imaginando os repórteres perguntando como foi escrever um bestseller em 30 dias.

Mas isso, colega, é só a primeira semana. Depois o ar de novidade acaba, e só sobra o trabalho duro. Vai dar vontade de desistir. Vai dar desespero. Até porque, por melhor que você planeje seu mês, os imprevistos sempre acontecem, pode confiar em mim. Novembro vai dar um jeito de te atrapalhar, seja com aniversário da tia, barulho de obra ou um deadline apertado no trabalho.

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

Para sobreviver ao NaNo, é preciso disciplina e paixão. A disciplina para conseguir acordar todo dia e cumprir suas metas e a paixão para fazer isso até mesmo nos piores momentos. Se você ama o que faz, apenas comece o desafio e…comprometa-se a continuar no dia seguinte. Repita até o dia 30.

Para manter-se no clima, vale de tudo: pedir a compreensão da família e dos amigos (afinal, você vai começar a passar mais tempo enfurnado no computador), fazer aulas de meditação, correr na praia ou trabalhar com pequenas recompensas, como poder comer um quadradinho de chocolate a cada 500 palavras.

Lembre-se de também cuidar do seu ambiente de escrita. Evite as distrações e faça uso de tudo o que te faz ficar mais produtivo ou criativo. Para mim, uma coisa que funciona é escutar música, desde que seja apenas instrumental (se tiver letra, eu fico prestando atenção em quem está cantando e adeus história). Como eu escrevo fantasia, recomendo o canal desse cara aqui, que dá pra deixar rolando um vídeo após o outro sem precisar se preocupar. Eu também rendo mais na parte da manhã, e pretendo usar justamente esse horário para focar no NaNo.

Aqui tem um calendário bacana feito pela Patricia Rio baseado no tema do NaNoWriMo 2016 (ficção científica/espacial), que você pode imprimir e utilizar para acompanhar seu progresso. Ele é cheio de motivacionais para te ajudar a passar pelos dias ruins.

5 – A Jornada do Auto-Conhecimento

Existem mil e uma fórmulas, técnicas e macumbas para se dar bem no NaNoWriMo. Mas adivinha só: nem todas essas coisas vão funcionar pra você.

O bom de trabalhar sob pressão é que você acaba descobrindo muito sobre seu estilo criativo. E por mais que você deva se comprometer a vencer o desafio, o NaNo deve ser feito do seu jeito.

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

Pode ser que você não consiga alcançar as 1667 palavras diárias, mas consiga compensar escrevendo o dobro nos fins de semana. Pode ser que você vá se esconder numa cabana nas montanhas sem sinal de WiFi e faça as 50.000 palavras em uma virada de noite.

Além disso, o NaNoWriMo só dura um mês, e eu imagino que você vai querer continuar escrevendo eventualmente em algum dos outros onze meses do ano. Nesse sentido, o evento pode te ajudar a criar parâmetros de comparação, um limiar para que você analise como está seu ritmo e sua produtividade. Você agora já sabe como seu cérebro funciona em relação à metas.

Analisar os dados do seu comportamento como escritor ao longo do mês é uma das experiências mais ricas que o NaNo pode te oferecer. Afinal, você não está realmente numa competição: não há prêmios, punições ou publicidade. Você entrou nessa apenas para desafiar a si mesmo.

6 – Não desgrude dos parças

Lembra quando falei lá em cima que a fase do desespero fatalmente vai chegar?

É muito, muito importante manter uma comunidade de escrita ao seu redor. Escrever é por vezes uma atividade muito solitária, e a gente tem poucos lugares para procurar motivação quando as coisas saem dos trilhos. Um desses lugares é justamente o ombro amigo da única pessoa capaz de compreender totalmente seus dilemas: outro escritor.

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

Não é a toa que o NaNoWriMo possui um espaço para adicionar amigos, os seus “writing buddies”. Comunidades de escrita ajudam a manter a motivação, além de serem fontes de feedback, bons conselhos e troca de experiências. A gente pode aprender bastante apenas escutando o que os outros tem a contar.

Na hora em que as coisas estiverem prestes a desmoronar, não desgrude dos seus parceiros.

7 – DIVIRTA-SE!

Escrever precisa ser divertido. Ok, sabemos que, como todo trabalho, a escrita também pode se tornar estressante, enfadonha e estéril. Mas ame a escrita em si, mesmo que você não ame o que está sendo obrigado a escrever. O NaNoWriMo deve ser uma experiência boa.

Com todas as aporrinhações, você ainda deve ser capaz de sentir que tudo está valendo a pena. Ainda deve ser capaz de dar umas risadas da sua própria cara de desespero.

Não tá rolando essa indentificação? Tudo bem parar, tudo bem desistir. Apenas se pergunte porque não deu certo e tente aprender com seus erros. Nós não somos máquinas, livros não são produtos mensuráveis. Talvez esse estilo de escrita não case com sua personalidade, ou aquela história não te prenda com força suficiente. Tá tudo bem.

E para quem quiser me acompanhar nessa experiência maluca, basta me adicionar clicando aqui. Não faço ideia do que vai acontecer, mas seria muito legal poder descobrir ao lado dos leitores do TBS que também escrevem. Por fim, peço desculpas antecipadas por possíveis sumiços: só nesse post já foram mais de 2.000 palavras. Então…talvez vocês me encontrem menos por aqui durante novembro.

É por uma boa causa. Me perdoa?

Fonte: - Reprodução

Fonte: Maori Sakai – Reprodução

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