Fantasia não é só faz de conta

Ainda no hype da Antologia Valquírias, eu e a Marcia resolvemos disponibilizar uma série de materiais de estudo sobre escrita e também sobre o gênero fantástico, para ajudar as autoras da antologia na produção de seus contos. Afinal, para muitas das meninas este será o primeiro contato com a concepção de textos fantásticos.

Decidi criar este post para compartilhar um pouco da minha própria visão e experiência acerca do tema, tentando criar uma espécie de introdução, uma apresentação ao panorama geral da fantasia. Acabei separando 5 pontos para debate:

(Já disse que esse é meu gênero favorito desde criancinha?)

Fonte: Ilustrações de Emma Lazauski (emla.deviantart.com) - Reprodução

Fonte: Ilustrações de Emma Lazauski (emla.deviantart.com) – Reprodução

1 – Fantasia, muito prazer

Para entender o que é fantasia, considero obrigatória a leitura de uma entrevista concedida em 1995 por Terry Pratchett para o jornal The Onion (que teve um trecho bondosamente traduzido pela Camila Fernandes esses dias):

“Sem sombra de dúvida, a primeira ficção já contada foi uma fantasia. Caras sentados em torno da fogueira contando uns aos outros histórias sobre os deuses que criaram o relâmpago, e coisas assim. Eles não contavam histórias literárias. Não se queixavam das dificuldades da menopausa masculina enquanto trabalhavam como professores assistentes em algum campus do Meio-Oeste. A fantasia é, sem sombra de dúvida, a literatura primordial, a fonte da qual saiu toda a literatura. Até algumas centenas de anos atrás, ninguém teria discordado disso, porque a maioria das histórias era, de certa forma, fantasia. Na Idade Média, ninguém pensaria duas vezes antes de usar a Morte como um personagem com um papel a desempenhar na história. Ecos disso podem ser vistos em O Peregrino (1678), por exemplo, que remete a um tipo muito anterior de narrativa. A Epopeia de Gilgamesh (séc. VII a.C.) é uma das primeiras obras de literatura, e, pela norma que se aplica agora — um cara grande e musculoso com espadas e certas ligações com os deuses —, isso é fantasia. A literatura nacional da Finlândia, a Kalevala (1835). Beowulf (dos séculos VIII a XI), na Inglaterra. Eu não sei pronunciar Bahaghvad-Gita (Bhagavad Gita, séc. IV a.C.), mas a indiana, você sabe o que quero dizer. A literatura de uma nação, que é o alicerce de todo o resto, é, pelos padrões que aplicamos agora, uma obra de fantasia.”

Note que a resposta de Pratchett foi dirigida ao entrevistador após este questionar o porquê de um escritor tão bom perder seu tempo com um “gênero inferior à ficção séria”. Uma coisa que, principalmente naquela época, era uma visão bastante comum.

Terry Pratchett - Fonte: www.babelio.com - Reprodução

Terry Pratchett – Fonte: www.babelio.com – Reprodução

A fantasia sempre sofreu o estigma de ser um gênero literário voltado apenas para o público infantil. Fadas, bruxas e duendes eram seres exclusivos das fábulas que ouvíamos antes de dormir. Havia uma verdadeira pressão para que o bom leitor, ao amadurecer, priorizasse apenas “livros de adulto”, largando de toda essa baboseira mágica.

Uma visão altamente equivocada. Afinal, se a definição de fantasia é justamente qualquer narrativa que utilize fenômenos sobrenaturais ou mágicos como elemento relevante ao enredo, podemos assumir que este é o gênero mais antigo de toda a literatura.

É através da contemplação do absurdo, do inexplicável, que surgem as principais lendas e mitologias de um povo. A fantasia é um gênero que bebe diretamente do legado das civilizações, de seus imaginários coletivos, arquétipos e mitos. Restringir a fantasia ao patamar de literatura infantil é de um reducionismo alarmante. Como destacou Pratchett, o gênero fantástico está presente desde o início da humanidade, nas reuniões das fogueiras, nas pinturas rupestres, nos animais totêmicos dos índios americanos e nos textos épicos da cultura nórdica. A fantasia gira em torno de nossas representações éticas, morais e humanas através do uso de metáforas e alegorias, algo importante para todas as idades.

Felizmente, ao longo dos últimos 15 anos a fantasia conseguiu erguer-se a um patamar de destaque no mercado, graças a um consumo em massa gerado pela chegada de Harry Potter às livrarias e pela adaptação cinematográfica de O Senhor dos Anéis e arcos dos quadrinhos. O “fenômeno geek” tornou moda coisas que eram até então consideradas bobas e infantis, exclusivas do mundo nerd e das mesas de RPG. Até a própria definição do que é ser nerd sofreu alterações, tendo hoje em dia uma conotação positiva, e eventos gigantescos como a Comic-Con estão aí para provar essa mudança. A fantasia, para meu eterno deleite, tornou-se um pilar da cultura pop.

Costume designs from "Game of Thrones" at the Academy of Television Arts & Sciences 65th Primetime Emmy Awards Costume Design & Supervision Nominee Reception & 7th Annual FIDM Museum & Galleries "The Outstanding Art of Television Costume Design" Exhibition Preview at the Fashion Institute of Design & Merchandising on Saturday, July 27, 2013 in Los Angeles, Calif. (Photo by Frank Miicelotta/Invision for Academy of Television Arts & Sciences/AP Images)

Exposição sobre Game of Thrones – Fonte: http://www.btlnews.com/community/television-academy-honors-emmy-nominated-costume-designers – Reprodução

2 – Fantasia não é faz de conta

Me deparo de vez em quando com pessoas que afirmam ser muito mais fácil escrever uma obra de fantasia do que de outro gênero, pois não existe nenhum compromisso com a realidade e por isso o escritor é livre para inventar o que quiser.

Sempre que escuto alguém falando isso, sinto meu sangue ferver. Sempre que alguém fala isso, Voldemort cria mais uma horcrux. Sempre que alguém fala isso, um hobbit morre engasgado durante o segundo café da manhã.

Sério. Parem.

Fonte: cdn3.teen.com - Reprodução

Fonte: cdn3.teen.com – Reprodução

Essa é uma visão muito equivocada. Até porque, é justamente essa transgressão da realidade que torna uma obra de fantasia tão difícil de ser construída. Explico:

Qual é o maior objetivo de um escritor, aquilo que determina se ele terá sucesso ou fracasso com um livro?

Empatia.

Queremos desesperadamente que o leitor torça por nossos personagens, que se apaixone por eles, que chore com eles ou que até mesmo os odeie. Mas precisamos conseguir despertar sentimentos humanos no público. Se a história não gera empatia, ela não cumpre seu papel, ela não se torna inesquecível, ela não acrescenta. É preciso emoção, seja ela qual for.

Quando você escreve fantasia, muitas vezes seu mundo e personagens estão mais distantes do cotidiano do leitor. São superpoderes, magias, raças diferentes. Então, para gerar empatia, é preciso que você aproxime o leitor, que faça com que ele acredite que tudo aquilo poderia ser real, que aqueles personagens agem de acordo com o universo apresentado. Por isso, é preciso muita coerência na narrativa fantástica, para mantê-la crível. Se você apenas joga um monte de invenções, a história perde o foco (mesmo no mundo da fantasia).

Sempre costumo dizer que é preciso que as coisas façam sentido APESAR de ser fantasia. É preciso estrutura, explicações, coisas que combinem. Mesmo um mundo imaginário tem suas regras. Imagine se, quando Frodo hesita aos pés da Montanha da Perdição, o anel fosse destruído simplesmente porque um coelho branco de cartola passou apressado por ele e derrubou a jóia na lava. É possível dentro do mundo da imaginação? Sim. Faz sentido? Nenhum.

Além disso, usar a imaginação e o “descompromisso com a realidade” como rota de fuga para qualquer decisão no enredo pode te fazer cair em clichês literários terríveis, como o Deus ex machina.

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

Um outro exemplo que me vem à mente é a diferença entre o Batman e o Superman. Note que ao dar poderes além do mero mortal para o Superman, os criadores do herói também o afastam do leitor. Ora, porque torceríamos por alguém que é praticamente indestrutível? Nós não conhecemos a realidade dele, não conseguimos nos colocar em seu lugar. Por isso a kriptonita torna-se peça chave. A substância verde, a fraqueza, é o símbolo de humanização do Superman, algo que nos aproxima dele. Note que o Batman não precisa deste recurso, uma vez que ele também apanha, sangra e sofre como nós, meros mortais. O Batman gera empatia com menos elementos, porque a fantasia que o envolve está num nível mais próximo da realidade humana do que a do Superman.

(E sim, eu prefiro o Batman. Mas aí já é outra discussão…)

Em resumo, afastar o leitor do que ele conhece e fazer com que mesmo assim ele reaja com humanidade e paixão dá muito, muito trabalho mesmo. Quando você pode contar com um mundo de possibilidades tão grande quanto o gênero fantástico, as chances de derrapar são bem proporcionais.

3 – Não é tudo igual

Quando falamos em fantasia de modo geral, a maioria de nós visualiza aquela clássica imagem do cavaleiro medieval de capa e espada que enfrenta o dragão num mundo repleto de bruxas, unicórnios e fadas.

E embora esta seja de fato uma parcela do gênero, a fantasia é uma coisa muito mais ampla e variada. Existem diversos estilos e abordagens. Temos a fantasia urbana de Gaiman contra os épicos de Tolkien, temos a visão anglicana e cheia de moral de Lewis contra a subversão de Pullman, temos a crítica mordaz e a sátira de Pratchett contra a narrativa completamente sisuda de Helene Wecker. A fantasia não tem uma fórmula padrão, ela pode englobar todos os elementos do enredo ou apenas um pequeno detalhe. Por exemplo, uma história onde um garoto completamente comum encontra uma galinha que coloca ovos de ouro já é fantasia, mesmo que nada mais destoe da realidade. Além disso, os limites de onde começa um gênero e termina outro são bem obscuros, e muitas vezes a fantasia poderá vir aliada à ficção científica ou ao steampunk. Fica bem difícil ter uma classificação exata.

E se existem técnicas e ferramentas que auxiliam no desenvolvimento de uma boa história de fantasia (como a Jornada do Herói e o Arenque Vermelho), cabe ao autor delimitar as leis que regem a obra.

Fonte: gointothestory.blcklst.com - Reprodução

Fonte: gointothestory.blcklst.com – Reprodução

Um exemplo: em Harry Potter, apesar de todo o teor fantástico, é claramente um ideal da autora passar a ideia de que tudo aquilo poderia estar acontecendo bem embaixo do nosso nariz. Ela então nos fornece várias explicações sobre como os bruxos coexistem em segredo, sobre como o mundo é estruturado.

Já em Pequenos Deuses, o objetivo de Pratchett é a sátira, é fazer um paralelo extrapolado onde possa apontar e rir das incoerências da sociedade. Por isso, o mundo de Discworld não precisa fazer tanto sentido a não ser segundo suas próprias regras. Em Discworld, deuses podem cair dos céus em formato de tartaruga caolha e ninguém pode reclamar sobre isso. Essa mesma abordagem pode ser encontrada no Guia do Mochileiro das Galáxias, e funciona muito bem para este tipo de livro. Fazer o mesmo numa narrativa como Harry Potter provavelmente arruinaria a obra.       

4 – Criando palavras

Muitas vezes, na fantasia, lidamos com a criação de novas culturas. Seja uma raça de outra dimensão, seja uma civilização perdida no tempo ou mesmo palavras mágicas, a maioria dos autores vai precisar inventar vocábulos que não existem no dicionário. E essa é uma coisa que me incomoda em muitos livros que vejo por aí.

Desde que Tolkien criou suas próprias línguas para a Terra Média, criar palavras virou uma febre. O problema é que a coisa é bem mais complexa do que juntar sílabas aleatórias.

Fonte: imgur - Reprodução

Fonte: imgur – Reprodução

Se você estiver falando de algo no naipe de Star Wars, onde seres de múltiplas galáxias convivem entre si, então tudo bem, as palavras podem ser bem variadas, afinal, elas possuem raízes distintas. Porém, se você estiver falando sobre um berço de civilização específico, a coisa muda de figura. Mesmo inconscientemente, o leitor notará quando uma identidade cultural não for bem construída.

Assim como você instintivamente sabe que “abajour” é uma palavra de origem francesa e que “banzo” tem origem africana, os vocábulos da ficção também precisam apresentar essa raiz linguística. Vou dar o exemplo de algumas palavras encontradas em As Mentiras de Locke Lamora, de Scott Lynch: Garrista, camorri e pezon. Não parecem mesmo palavras pertencentes a um só lugar?

Essa foi uma das coisas que me incomodaram lendo Maze Runner e Os Senhores dos Dinossauros. Senti que os autores não obtiveram domínio da identidade cultural dos mundos que criaram.

5 – Como usar a fantasia e onde buscar inspiração

A maior graça da fantasia é poder romper os limites da realidade para demonstrar um ponto de vista, uma emoção ou uma crítica. Como lida com arquétipos e o inconsciente coletivo (note como quase todas as culturas criaram ícones comuns, como bestas mitológicas, heróis e a simbologia dia/noite ou claro/escuro), a fantasia pode utilizar metáforas e alegorias com muito mais força, como fez Lewis Carrol em Alice no País das Maravilhas. Até a velha jornada para matar um dragão pode trazer uma dezena de reflexões diferentes, podendo inspirar o leitor a combater seus próprios problemas, por pior que estes possam parecer.

É por isso, inclusive, que a maior parte das histórias infantis voltadas à educação moral das crianças utiliza a fantasia como gênero. E como num ciclo, estas mesmas histórias servirão para fixar conceitos e símbolos em nossa mente, que serão mais tarde revisitados pelas histórias fantásticas voltadas para adultos.

Os arquétipos se mantendo...Fonte: horrornews.net - Reprodução

Os arquétipos se mantendo…Fonte: horrornews.net – Reprodução

Então, muito além de um entretenimento, o autor pode utilizar uma história de fantasia para falar diretamente ao leitor, para debater e refletir de uma forma mais cômoda, distante de sua realidade. Acredite, algumas coisas se tornam mais fáceis de digerir quando colocadas sob outro prisma.

E por fim, o melhor lugar para buscar inspiração é mesmo a História. É dela que a fantasia surge e retorna. É importante pesquisar muito sobre mitologia, lendas e tradições de todas as épocas e recantos do planeta. A pesquisa é inerente à fantasia, o que difere é a roupagem que é dada ao tema. O Senhor dos Anéis bebe dos antigos poemas nórdicos. O próprio George Martin utilizou a Guerra das Rosas como base para Game of Thrones, onde a família Stark e a família Lannister são uma clara releitura das famílias York e Lancaster.

AVISO: Antologia Valquírias
Precisamos conversar sobre Mistborn

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