Guest Post: Dias da Meia-Noite com o Leandro do Drunkwookie

(O texto de hoje é especial. Numa colaboração pra lá de bem vinda, o Leandro topou fazer um guest post para o TBS. Para quem não conhece, ele é o responsável por trazer o Drunkwookie à vida, é quase um padrinho do blog, é fã incondicional do Neil Gaiman e tem uma vasta experiência com quadrinhos. Quem mais eu poderia trazer para falar sobre Dias da Meia-Noite? ¯\_(ツ)_/¯)

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Fonte: Drunkwookie – Reprodução

Me admiro ao ver como as coisas são… Há alguns anos eu criava o Drunkwookie. Um blog criado única e exclusivamente para falar sobre o final de A Dança dos Dragões. Não imaginei que escreveria mais de três ou quatro posts.

Mas a coisa foi ficando seria, eu fui me empolgando e escrevendo sobre assuntos que amo. E olha só, hoje estou escrevendo posts para um outro blog. Um blog que tive o prazer de acompanhar desde sua criação e que é um dos meus favoritos.

Não me recordo se o convite surgiu da Fernanda, ou se eu me convidei para escrever para o Bookworm. De qualquer forma, aqui estou!

Os leitores do Drunkwookie sabem o quanto sou fã de Neil Gaiman e o quanto esse escritor britânico me inspirou, em vários aspectos da minha vida. Se hoje escrevo, Neil Gaiman tem sua parcela de culpa.

Bem, mas porquê estou falando sobre inspiração e Neil Gaiman em um post de convidado, aqui no Bookworm Scientist? De acordo com a Fernanda Castro (escritora do fantástico conto Chaga e da
série ainda não finalizada Dons de Inari) o Drunkwookie foi um dos sites que inspirou-a na criação de seu próprio blog.

Ao mesmo tempo que fico lisonjeado e feliz com tamanha importância, fico desconfiado.

Não é fácil acreditar que um site tão diligente em seus posts, tão engajado na causa literária e tão abrangente em vários assuntos, teria se inspirado no inconstante caos criativo que é o Drunkwookie. De qualquer forma, estou feliz de estar aqui hoje escrevendo para o meu blog favorito.

Explicado o tema inspiração, quero agora explicar o porquê de Neil Gaiman.

O Bookworm Scientist decidiu se enveredar em uma tarefa que eu nunca sonharia (ou conseguiria ter disciplina) para levar até o fim. O site decidiu falar sobre a grandiosa obra de Neil Gaiman, a série Sandman. Quando vi isso, lá em Março de 2016 achei sensacional.

E agora, quando fui convidado para escrever aqui, a ideia surgiu formada na minha cabeça. Vamos falar sobre Neil Gaiman!

Essa é a primeira vez que dedico um post exclusivamente à uma única obra de Neil Gaiman. Há algum tempo, escrevi o post Vale a Pena Ler – Neil Gaiman. Naquele ocasião falei sobre 10 obras escrita por ele, porém de uma maneira bem simplista e com o intuito de apresentar o autor para quem ainda não o conhecia. Hoje, decidi trazer uma visão mais profunda sobre uma de suas obra.

Dias da Meia-Noite é uma HQ não muito conhecida, mas tem uma qualidade excepcional. Sem contar a história que existe por trás dessas histórias. Dias da Meia-Noite é um encadernado que reúne 03 HQs que Neil Gaiman escreveu para a DC Comics, no início de sua carreira.

O encadernado leva esse nome pois essas três histórias foram escritas, basicamente após a meia-noite, momento em que o autor britânico tinha uma folga do trabalho diário e se encontrava sozinho podendo assim, organizar suas ideias.

A qualidade e sensibilidade dessas histórias trazem tudo aquilo que podemos esperar de Neil Gaiman. É aquele tom cativante, aquele sentimento mágico, aquela abordagem humana e ao mesmo tempo fantástica, que poucos autores se propõem e/ou sabem tratar.

 

Jack In The Green

“Alguns dizem que a morte é a noite final, um sono do qual homem nenhum acorda.
Eu não sei…não durmo mais… Não morri…”

Fonte: Detalhe da HQ - Reprodução

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

A primeira história do encadernado é sobre o Monstro do Pântano. Desenhadas pelos lendários Steve Bissette e John Totleben, a história nos traz um Monstro do Pântano nostálgico e reflexivo. Eu sou muito fã de histórias de super heróis e sempre que os vejo em uma situação diferente daquelas comuns, me alegro.

Aqui vemos o Monstro do Pântano vivendo na época da peste negra, uma doença que assolou a Europa inteira. Aqui paramos para pensar se esse é o mesmo Monstro do Pântano que Alan Moore nos apresentou, se ele faz parte do universo da DC, se ele é o mesmo Alec Holland que conhecemos nas Hás clássicas da criatura.

Porém, depois de ler a primeira página, descobrir sua identidade se torna irrelevante. A narrativa, o enredo e o desenho te transporte para aquele momento.

Os momentos finais em que Simon conversa com “Jack”.

O diálogo entre os dois é melancólico, reservado e triste. Porém, ambos estão refletindo sobre a vida, ou quem sabe é apenas o Monstro do Pântano que reflete sobre tudo o que viveu. Gaiman nos apresenta à um Monstro do Pântano que com certeza não é aquele que conhecemos.

Aqui temos uma criatura elemental, uma força primeva que ainda se lembra de seu passado humano mas que, agora, aceita e vive seu novo presente. O Monstro do Pântano é a personificação da solidão. Neil Gaiman aborda esse seu aspecto de maneira muito bem narrada. Dentro de suas lembranças existem pequenos fatos que tornam a narrativa perfeita.

Acompanhamos o Monstro do Pântano em um monólogo, descrevendo as
maravilhas do Mundo, vista por seus olhos. O ponto de vista da criatura é sensacional e torna tudo muito mais fantástico. Acho que nesse ponto específico temos a essência de Neil Gaiman. Aqui temos aquilo que ele faz com tanto primor.

Enfeitiçar-nos com Fantasia.

Ao final da narração da viagem, temos certeza que ali existe uma criatura sábia, ponderada e que, de demônio, nada tem. Ela é apenas humana. Sim, ainda é humana apesar de sua aparência e seus poderes.

A história fala sobre a morte, sobre a vida, sobre o corpo e sobre a alma. E se Neil Gaiman tratou destes temas de forma indireta no monologo do Monstro do Pântano, creio que no final ele nos presenteou com uma abordagem bem direta.

O Monstro do Pântano é aquele corpo feito de madeira, vegetal e lama? Ou o Monstro do Pântano está onde os elementos primordiais estão? É uma obra primorosa, filosófica e fantástica. Vale pena lê-la.

 

Me Abraça

“Só por um ou dois instantes, parece que a escuridão não é tão ruim, quando a gente se abraça.”

Fonte: Detalhe da HQ - Reprodução

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

Agora vamos para uma história de Constantine.

Aqui Neil Gaiman trabalha com Dave McKean. Uma dupla de amigos que sempre nos presenteiam com ótimas obras.

Me Abraça é uma obra-prima. Desde o desenho de McKean que é bem diferente da arte convencional vista em Quadrinhos, quanto à história profunda de Gaiman. Apenas falar não consegue explicar todo o conteúdo da história. Vocês precisam ver e ler essa HQ.

A história não é muito complexa. Temos um mendigo que morre sozinho, sem ninguém ao seu lado para esquentá-lo em uma noite fria. Afinal, quem aqueceria um mendigo?

O homem morre e agora perambula pela região assombrando (e matando) pessoas. E ninguém menos do que John Constantine está pela região, resolvendo seus problemas pessoais e logo se vê frente ao problema trazido pela alma penada do mendigo.

De todas as formas que imaginei Constantine dando um fim na assombração, nenhuma delas aconteceu. Neil Gaiman acaba com o fantasma da forma mais fantástica possível. Mais uma vez vemos o lado humano, tanto do Constantine quanto das criaturas que ele enfrenta.

Aqui, o escritor britânico trata sobre a morte com a incrível naturalidade que podemos ver em suas outras obras, sejam elas literárias ou também em outros quadrinhos.

Quem aqui não se lembra de “O Som de Suas Asas”? É possível perceber o modo como seus personagens lidam com a morte ao ver a naturalidade de Sonho e Morte ao conversarem sobre a vida, ao mesmo tempo em que lidam com várias mortes no decorrer de quase todas as 24 páginas dessa HQ.

Enfim… Mais uma história de fantasia que traz questões complexas e que fazem você refletir.

 

Sandman – Teatro da Meia-Noite

“Mas, por enquanto, até que acorde, conhece a verdade de tudo. E, com isso, pode se contentar. Até o fim do sonho…”

Fonte: Detalhe da HQ - Reprodução

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

E por último temos uma história de Sandman. Uma história sobre Morfeu? Sobre Sonho dos Perpétuos?

Sim e não. Sim por que Sonho dos Perpétuos está na história, e não porque o maior protagonista da história é outro Sandman. O Sandman criado por Matt Wagner, com seu sobretudo e máscara de gás.

Sandman – Teatro da Meia-Noite é um história que traz um pouco daqueles contos policiais dos anos 30, e isso é bem divertido. Ela se passa na Inglaterra e através dela podemos ver um pouco da sociedade daquela época.

A HQ é pintada por Teddy Kristiansen e o resultado é algo em diferente. Eu gosto do clima que a pintura impingiu à história. Caiu muito bem.

Essa é uma história que todos fãs de Sandman devem ler, pois ela aborda, ainda que timidamente, momentos anteriores àqueles que vemos em Sandman 01 – O Sono dos Justos. Eu sempre adorei prólogos, e considero essa HQ um prólogo de Sandman.

Vou optar por falar pouco sobre essa HQ, pois acredito que vocês precisam lê-la sem qualquer menção de spoiler. Acreditem em mim.

Chegando ao final dessa resenha, percebo que Neil Gaiman é capaz de me fascinar sempre. Seja lendo suas obras, seja escrevendo sobre elas. Que bom que pude exercitar esse meu fascinado em um reduto literário como o Bookworm Scientist.

Fica aqui meu agradecimento à Fernanda e às traças do Bookworm. E para aqueles que se arriscariam, convido a conhecer o Drunkwookie e a conhecer minhas conquistas pelo mundo literário (ainda que modestas). É o conto O Som do Metrô da coletânea Monstros Gigantes, e dois e-books publicados na Amazon. Circunstâncias Exigem Reis e Ampulheta.

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