Harry Potter e a Criança Amaldiçoada: muito barulho por nada

O texto a seguir pode conter spoilers de: Harry Potter e a Criança Amaldiçoada. Depois não diga que eu não te avisei…

Fonte: Imagens da peça – Reprodução

Fui uma criança da geração Harry Potter. Tinha 11 anos quando o livro foi publicado no Brasil, acompanhei toda a saga, a chegada dos filmes, os spin-offs, as fanfictions e a criação do Pottermore. Consumi todo e qualquer produto lançado com o nome da franquia. Recentemente, fiquei com o coração quentinho por assistir Animais Fantásticos no cinema.

Logo, eu devia ter entrado no hype de Harry Potter e a Criança Amaldiçoada.

Mas não foi isso que aconteceu. Quando foi anunciada a criação de uma peça (e toda a polêmica acerca de uma Hermione negra), até olhei o projeto com bons olhos, mas não o suficiente para desejar ganhar um ingresso. Era algo legal, mais um evento baseado no universo JK Rowling…mas era só. Tinha figurinos incríveis, eu sei, e um elenco super simpático. Mas não era uma história canônica que completava a saga.

Acho que por isso torci o nariz para a publicação do roteiro da peça sob a alcunha de “o oitavo livro de Harry Potter”. Ora, Relíquias da Morte já havia fechado todas as pontas soltas. Já havia até mesmo um epílogo com todo mundo adulto, feliz e com filhos! Qual seria a necessidade de ir além? De vez em quando a gente precisa simplesmente deixar que uma história termine.

Bem, fiquei sem entender o porque de todo aquele burburinho, filas intermináveis e livro esgotado ainda na pré-venda. As pessoas me perguntavam se eu já havia comprado o meu, se eu iria ler numa única noite…e eu continuava a sorrir amarelo, carregando em segredo aquele sexto sentido de “isso ainda vai dar merda”.

Não demorou para as críticas aparecerem. O livro foi comparado a uma fanfic de má qualidade, inconsistências surgiram, o fandom se dividiu. Não foi uma época fácil para Rowling, uma vez que a autora já estava envolta em duas grandes outras polêmicas: a apropriação cultural dos nativos americanos em Ilvermorny e a desqualificação de um fabricante de varinhas que se recusou a vender seu produto para os fãs de Harry Potter (escrevi sobre isso na Destinos Traçados).

Há quem diga que Rowling perdeu a mão e está apenas ganhando mais dinheiro, tentando extrair até a última gota de sucesso de seu protagonista de óculos redondos. Não concordo com essa visão. Rowling provou em Animais Fantásticos que ainda é muito capaz de revisitar seu universo com maestria, e seus ótimos livros sob o pseudônimo de Robert Galbraith nos mostram uma escritora com plena capacidade de se reinventar. Acredito que A Criança Amaldiçoada tenha sido um tropeço numa má fase, algo que felizmente poderá ser contornado no futuro.

Digo isso porque, sim, passado o hype, decidi ler o tal oitavo livro. E vi que minhas suspeitas se confirmaram.

Fonte: wizardsandwhatnot.com – Reprodução

Primeiro, é importante lembrar que HP e a Criança Amaldiçoada é uma peça, não um romance. Estamos lendo um roteiro, o que significa uma dinâmica narrativa muito diferente. É uma outra proposta, embora utilize-se do mesmo meio (a palavra escrita) para contar a história. Assim como existem técnicas que funcionam no cinema mas falham miseravelmente no papel, uma peça utilizará recursos bem diferentes. Ou, como pontuou o Coruja em Teto de Zinco Quente:

“O que é teatral é frequentemente exagerado – não há um grande espaço para sutilezas quando é necessário que quinhentas pessoas na platéia consigam enxergar um palco. Não se pode esperar a mesma profundidade de introspecção de um romance ou a possibilidade de closes para capturar as minúcias da linguagem corporal de um ator.”

Depois, precisamos também ter em mente de que, mesmo que Rowling tenha dado o seu joinha para a história, o enredo de A Criança Amaldiçoada não foi escrito por ela, mas sim por Jack Thorne. E, por mais que um escritor tente ser fiel, ele sempre acabará colocando sua própria interpretação dos personagens na história. Por mais que queira, o Harry Potter de Jack Thorne não é o mesmo Harry Potter que vivia no armário sob a escada.

Agora, se mesmo assim colocarmos o plot da peça como uma continuação canônica da saga, A Criança Amaldiçoada é um mar sem fim de problemas.

O quão entediante é um universo bruxo onde nossos três personagens principais são o centro do mundo? Hermione Ministra da Magia, Harry figurão do Ministério, Gina e Rony com livre acesso a qualquer reunião/evento/operação oficial apenas por serem quem são. Senti falta de novas figuras de autoridade, da sensação de que nossos protagonistas cresceram e estão realmente trabalhando, em suas obrigações e limitações. A Criança Amaldiçoada apenas mostra um mundo em que Harry Potter e seus amigos fazem o que querem e quando querem, incluindo interferir nos assuntos de Hogwarts, uma prática que a gente já aprendeu a odiar desde que Cornelio Fudge mandou executar Bicuço. Esses não são o Harry, o Rony e a Hermione que conheço.

Fonte: Imagens da peça – Reprodução

Que Harry sempre foi dramático e um pouco egocêntrico (embora com boas justificativas para tal), todo mundo sabe. Mas Harry, acima de tudo, é uma pessoa de caráter e bom coração. Eu não esperava que ele fosse o melhor pai do mundo (e quem é que consegue?), mas também não estava pronta para vê-lo ser o pior. Esse Harry paspalho, perdido e autoritário não faz sentido vindo de alguém que vivenciou a Batalha de Hogwarts. Sei que Harry não teve exemplos paternos, mas conviveu com homens maravilhosos. E muitas de suas atitudes vão de encontro a valores pessoais do próprio personagem, algo além de seu papel como pai.

Eu entendo que a peça deseja nos mostrar o quão difícil é o fardo de ser filho do Garoto que Sobreviveu e o quanto de expectativa é jogada nos ombros destas crianças, ainda mais no caso de um filho cuja personalidade difere do pai. Mas não colou.

Ah, e as personalidades diferem em teoria, claro, porque acabei achando Alvo bastante parecido com Harry. Corajoso para salvar os amigos, desprezando regras, tímido com pessoas desconhecidas, inseguro com o Chapéu Seletor, um tanto voltado demais para si. Vale lembrar que Harry também seria colocado originalmente na Sonserina, tendo implorado para mudar de casa apenas por causa do que Rony dissera, apenas para poder ficar perto de seu único contato amigável. E eu consigo ver Alvo tranquilamente fazendo o mesmo para continuar junto a Escórpio. Não sei de onde tiraram que Alvo é diferente do pai, quando na verdade são seus outros filhos que parecem mais Weasleys do que Potters.

Fonte: Imagens da peça – Reprodução

E falando em Weasleys, Gina é uma personagem bem inconstante ao longo do livro. Se em alguns momentos ficava feliz em vê-la botando ordem nas coisas e fazendo-se ser ouvida, em outras ficava espantada com o grau de submissão da personagem. Deixar Harry colocar em prática todas aquelas decisões amalucadas sem dar um pio? É de seu próprio filho que estamos falando, embora praticamente não tenhamos diálogos entre ela e Alvo. Gina diz a Harry que este deve apoiar o menino, mas gostaria sinceramente de ter visto um pouco mais de apoio materno. Jack Thorne parece não ter decidido se sua versão da Gina é a espevitada e decidida garota dos livros ou a tímida e indulgente menina dos cinemas.

Draco consegue, sozinho, ser um pai melhor do que Harry e Gina juntos, o que diz muito sobre os três personagens. Fiquei feliz com a decisão de mostrar um Draco mais maduro, que lida com as consequências de seus erros juvenis sem perder sua essência. Ele ainda é arrogante, ainda dá respostas atravessadas, mas sua evolução enquanto pessoa fica bastante clara.

Quanto a Rony e Hermione…nossa, que desperdício. Utilizados apenas como alívio cômico e sem nenhuma relevância para o enredo, a dupla também teve sua personalidade bastante alterada. Com Hermione num papel seco e Rony servindo como o tiozão chato e sem noção, o casal se limita a trocar farpas e gracinhas que não convencem ninguém. A versão guerrilheira de Hermione, onde ela e Rony não são um casal, me pareceu mais a versão bruxa do quarto filme do Shrek, aquele em que a Fiona lidera um bando de ogros. E o tom melancólico da obra inteira me deixou com aquela sensação de que ninguém foi realmente feliz em sua vida adulta.

A filha deles, Rosa, também me decepcionou. Não consigo acreditar que Hermione, defensora dos direitos dos elfos domésticos, criaria alguém que acredita em selecionar os próprios amigos.

Que desperdício… Fonte: Imagens da peça – Reprodução

A salvação do livro fica por conta de Escórpio, que ironicamente é o único personagem principal a ser 100% desenvolvido por Jack Thorne. Já havíamos ouvido falar dele no epílogo de As Relíquias da Morte, claro, mas ao contrário de Alvo, o sétimo livro não nos mostra nenhuma pista de sua personalidade.

Talvez, assim mais livre, Thorne possa ter criado um personagem mais sincero. Embora ache que Escórpio tem um comportamento mais coerente com a Corvinal, foi bacana poder encontrar um sonserino que não é “grande e burro” ou “egoísta e malvado”. É sempre importante quebrar esses estereótipos.

E por falar em quebrar os estereótipos… Por mais que sejam apenas sugestões nas entrelinhas, acho difícil que alguém não consiga enxergar as inclinações românticas entre Alvo e Escórpio. O “queerbaiting”, como é chamado o método de “jogar iscas” para atrair o público LGBT está definitivamente lá, o que gerou ainda mais problemas para HP e a Criança Amaldiçoada: porque sugerir personagens LGBTs mas nunca assumí-los? Até compreendo que Rowling tenha ficado em cima do muro lá pela publicação dos primeiros livros, quando ainda era 1997 e Harry Potter ainda era uma história infantil. A sexualidade de Dumbledore só veio à tona muitos e muitos anos depois. Mas Alvo e Escórpio? A mesma coisa nessa altura do campeonato?

Fonte: Divulgação da peça – Reprodução

Mas vamos parar de falar um pouco dos personagens e partir para o enredo: porque A Criança Amaldiçoada não me convenceu?

Olha, eu tenho sérias ressalvas quanto a colocar viagens no tempo dentro de um enredo. Mexer com o tempo é algo que sempre abre brechas enormes na credibilidade do roteiro, a não ser que todo o universo da trama seja construído especificamente para este fim. Seu mundo precisa comportar viagens no tempo, ou então qualquer ação poderá ser questionada pelos leitores.

Harry Potter não é um mundo que comporta viagens no tempo. Embora a gente tenha ficado aliviado pra caramba por Sirius e Bicuço terem seus pescoços poupados no terceiro livro, o uso do vira-tempo só trouxe questões incômodas: porque ninguém voltou e matou Tom Riddle? Porque ninguém avisou aos Potter sobre a traição de Rabicho?

Rowling tentou amarrar tudo ao colocar a ideia de que não se pode voltar muito no tempo com os artefatos, além de que é imprescindível não se deixar ser visto por seu próprio eu do passado. Porém, A Criança Amaldiçoada jogou uma pá de cal em cima desse raciocínio.

Se existiam vira-tempos mais sofisticados, capazes de voltar muitos anos e por um tempo maior, porque o próprio Voldemort e seus asseclas não teriam um estoque destes instrumentos mágicos? Porque a comunidade bruxa não utilizaria o recurso em momentos de desespero? Pura resolução moral de que mexer com o tempo é algo errado? Teriam os Comensais da Morte pensado nisso caso pudessem salvar o reinado de seu mestre?

Harry e Gina pensando nos furos do roteiro. Fonte: Imagens da peça – Reprodução

A própria Delphi foi uma previsível virada no enredo, e seu uso do vira-tempo foi bem esquisito. Se ela poderia voltar até o dia em que Harry Potter recebe sua cicatriz, porque tentar primeiro uma intervenção tão indireta quanto o Torneio Tribruxo? Entendo que ela precisava da cooperação de Alvo e Escórpio, mas, uma vez que os garotos descobriram todo o plano, porque se incomodar com a terceira tarefa da competição?

Tratar a peça como oitavo livro da série, com esse enredo, é tratar seus leitores com ingenuidade. É preciso muita suspensão da descrença para aceitar que tudo isso pode acontecer na mesma linha narrativa. E, por isso mesmo, Harry Potter e A Criança Amaldiçoada precisa ser encarado como um divertimento, uma leitura para passar o tempo, sem compromisso. Assim como temos fanfics maravilhosas que amamos ler (mas que jamais serão canon), a peça de Jack Thorne vem como mais um produto derivado de HP, mas nunca como HP em si. Precisamos parar de fazer tanto barulho por nada.

Mas é inegável como tudo ficou visualmente lindo. Fonte: Imagens da peça – Reprodução

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