The Kiss of Deception: dois homens que são um só

O texto a seguir pode conter spoilers de: The Kiss of Deception. Depois não diga que eu não te avisei…

Ok, ok. Vocês me convenceram a ler The Kiss of Deception. Agora me segurem porque vai ter textão: preciso contar cada detalhe sobre porque gostei muito e odiei muito esse livro. Estão confortáveis? Então vamos começar.

Fonte: cinemadebuteco.com.br - Reprodução

Fonte: cinemadebuteco.com.br – Reprodução

Assim que abri o livro, logo no primeiro capítulo, meu alarme para “clichês young adult” começou a apitar como louco. Todo o pano de fundo estava montado: a mocinha rebelde maravilhosamente única, o triângulo amoroso, a sociedade opressora, todo mundo bonitinho com cara de novela das seis. Esfreguei os olhos e murmurei para a autora “vamos, me surpreenda, diga que eu estou errada”.

E, de certa forma, foi exatamente isso que a Mary Pearson fez. Ela vai lá, pega uma estrutura batida e já surrada de tanto uso, adiciona um único elemento a mais e torna a coisa toda incrivelmente interessante: um mistério pra resolver.

Administrando muito bem seus capítulos em POV, Pearson consegue desenvolver a história de uma princesa fugitiva, um príncipe perdido na vida e um assassino não muito convicto sem precisar nos contar qual dos mocinhos é qual.

Isso mesmo, você passa páginas e páginas tentando cruzar referências e desencavar pistas pra te ajudar, céus, a descobrir se o assassino é o galante Kaden ou o debochado Rafe. E essa salada de dupla identidade tinha todo o potencial de deixar a gente confuso, ou de apresentar furos. Mas Pearson tá de parabéns. Além de manter a consistência, consegue a proeza de deixar claro para o leitor quem está falando naquele momento: se Lia, Kaden, Rafe, o príncipe ou o assassino. É um mistério empolgante feito de um jeito simples.

A pulga atrás da orelha já começa na caracterização dos nossos protagonistas: Kaden é loiro, olhos quentinhos, educado, solícito, bom no arco e flecha e defensor dos indefesos. Rafe é moreno, olhos gélidos, sarcástico, debochado, menor que Kaden e ganha o coração de Lia na base do charme cafajeste do bom canalha (leia aqui para entender do que estou falando).

Se formos seguir os estereótipos, Kaden é a aposta mais segura para príncipe, uma vez que emula o comportamento cavalheiresco dos nobres de contos de fada. Mas será que a autora sabe disso e vai fazer exatamente o contrário? Ou será que ela sabe que eu vou apostar no não-óbvio e vai me surpreender escolhendo o óbvio mesmo? Ou será que…

Eu sou uma pessoa curiosa. Eu AMO essa batalha mental entre leitor/autor. Por isso mesmo, saí devorando capítulo a capítulo num ritmo frenético, alcançando a metade do livro em uma única tarde. O enredo tinha seus defeitos? Tinha um monte, mas eu achava que o mistério compensava. A gente releva o fato de que uma trama de guerra esteja mais pra Malhação na Idade Média, porque descobrir quem é o assassino está muito divertido.

Olha pra essas carinhas de Malhação! Fonte: Tumblr - Reprodução

Olha pra essas carinhas de Malhação! Fonte: Tumblr – Reprodução

Deixei pra lá até mesmo o fato de que o livro tenta nos vender Lia e Pauline como fugitivas cuidadosas, quando na verdade qualquer zé ruela é capaz de encontrá-las, seja príncipe, assassino, irmão maluco ou monge. Só quem não encontra Lia são seus pais, os maiores interessados na história. Aliás, se Lia afirma não ter chegado onde chegou sem Pauline, eu fico abismada de que ela tenha conseguido sequer chegar a algum lugar com Pauline…

Voltando ao mistério: acabei matando a charada na cena de luta entre Kaden e Rafe, durante o festival. Quem já leu Outlander é escolado em saber que marca de chicotada fica pra sempre na pele. Logo, quem fica com camisa é o assassino. Bingo.

Ainda assim, eu precisaria comprovar minha teoria e pagar pra ver. O livro continuava bom, até que Mary Pearson foi lá, me contou quem era quem e tirou toda a graça da minha experiência de leitura.

Isso porque a quebra do mistério, assim tantas e tantas páginas antes do final do livro, faz com que o resto da trama transpareça aos meus olhos: tanto as coisas boas quanto as ruins. E nas coisas ruins, Pearson comete um erro fatal: ela transforma seus protagonistas em uma única pessoa.

Quando Kaden e Rafe retiram o peso de suas farsas e podem agir como realmente desejam, é esperado que suas personalidades distintas se tornem ainda mais discrepantes.

Ora, um é um príncipe acostumado aos protocolos e deveres reais, enquanto o outro é um órfão, abandonado e castigado, vivendo como ferramenta nas mãos de uma causa política muito além de sua compreensão. Como é que esses caras podem não ser diferentes?

Mas é isso que Pearson faz. Sem o mistério como mote principal, ela tenta prender o leitor através da dúvida sobre para qual mocinho torcer. E para conseguir isso, transforma ambos em românticos irreparáveis, cheios de vulnerabilidades.

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

Dois personagens complexos, com problemáticas próprias e um mundo de possibilidades são limitados somente ao amor que sentem por uma garota que acabaram de conhecer. A única motivação de um cara que sofreu desde criança e que já degolou não sei quantas vítimas é salvar a pele de uma princesa?

Sério, eu nem vou falar nada sobre Rafe. Vamos focar em Kaden que é ainda mais injustiçado por essa simplificação de caráter.

Você acha mesmo que um assassino que vive entre bárbaros, ainda que muito apaixonado, abordaria Lia com tanta cortesia e pompa? Acha que nesses anos todos de estrada, Kaden nunca desenvolveu uma auto-confiança em relação às mulheres? Porque eu parto do pressuposto de que, para encontrar e dizimar suas vítimas, ele já teve que seduzir/conseguir informações de muita menina por aí. Então cadê Kaden mostrando ao mundo porque mereceu estar vivo até hoje?

Aliás, essa é uma crítica geral que faço a Pearson: faltou pesar a mão.

Não, não estou pedindo cenas grotescas como as que a gente encontra em Game of Thrones. Eu sei que este não é o foco de The Kiss of Deception. Mas poxa, se você vai me vender o enredo de uma conspiração mortal para derrubar um reino, onde um assassino é chamado pra cortar a garganta de uma adolescente…me dê ao menos gente perigosa de verdade. Porque eu não acredito que aquele Kaden seja capaz de matar nem uma barata.

Numa cena de tentativa de abuso, Malich encurrala Lia sozinha durante seu banho. Aí o cara, um bárbaro sem escrúpulo nenhum, rouba um beijinho. Um beijinho. Kaden enche a cara, invade o quarto de Lia e… faz uma declaração de amor.

Não é que deixou de ser abuso, claro que não. Malich ainda é um criminoso e Kaden ainda passou muito do limite. Mas eu fico achando que o clima de periculosidade do enredo é bem abaixo do que a autora gostaria de criar.

Até porque, dá pra ver que Pearson está tentando brincar de morde-assopra com o leitor. Muitas das situações passadas por Lia estão no livro apenas para criar tensão sexual. Eu nunca vi tanto banho numa história só. A gente já conhece Lia nua, lá no primeiro capítulo. Então se é pra fazer, vamos tentar fazer com propriedade, não?

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

O restante do livro é um andar sem fim pelo deserto, saindo do nada pra lugar nenhum, sem nenhuma relevância para a trama a não ser tentar traduzir aquela profecia que é sem pé nem cabeça. Pearson quis criar algo genérico que permitisse mais de uma interpretação, mas acabou só criando poesia aleatória. Fico feliz de que ao menos a autora não tenha causado em Lia uma síndrome de Estocolmo romantizada.

Aliás, Lia é um ponto positivo na história. Gosto do fato de ela ter memória longa e nunca esquecer que foi sim enganada por todo mundo e que Kaden queria matá-la. E também fico feliz por ela ser do tipo que poupa 50 páginas de introspecção amorosa e simplesmente vai lá e faz. E muitas vezes, faz para proteger outras pessoas.

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

As mulheres da história são bem legais, no geral. A estalagem tem um clima de sororidade lindo, principalmente frente à gravidez de Pauline. Só não perdôo Lia por ter inventado a morte de Mikael. Não creio que ela tinha o direito de interferir com a verdade, ainda mais quando há uma criança em jogo. Canalha ou não, acho que tanto mãe quanto filho mereciam saber a verdade. Não cabe a Lia decidir.

Dizer que The Kiss of Deception é uma obra de fantasia também é um pouquinho forçado. Apesar de existir o tal “poder” (e de eu gostar da forma realista como ele é explicado), o mundo real já bastaria para o enredo. A fantasia ficou de acessório. O que amei mesmo, de verdade, foi a descrição maravilhosa do kavah de casamento. Sou fascinada pela pintura mehndi da Índia, e o kavah me foi uma feliz surpresa.

Mehndi indiano. Fonte: Pinterest - Reprodução

Mehndi indiano. Fonte: Pinterest – Reprodução

Mas enfim, valeu a pena ler o livro? Olha, eu me diverti muito até a metade, e depois me arrastei e perdi o foco. Eu recomendaria a leitura para quem estiver realmente a fim de ler um romancinho puritano idealizado, pelo simples prazer de shippar seu casal favorito. Se você estiver em busca de fantasia, guerra e intriga política, definitivamente não é uma boa pedida.

O segundo livro da trilogia está para sair em breve pela Darkside. É possível que eu continue lendo, porque curiosidade mórbida é meu sobrenome. E se eu pudesse fazer um apelo à Pearson, sobre o que eu gostaria de encontrar no próximo volume, eu pediria coragem.

Coragem porque, quando a gente tem opções iguais pra formar um par romântico, fica difícil justificar uma escolha pro leitor. Se Rafe e Kaden são iguais, porque Lia estaria com um ou com outro? Então é preciso ter coragem para não pegar o caminho mais fácil: matar alguém ou fazer com que uma das opções faça uma cagada tão grande que se torne imperdoável. Bora lá, Mary Pearson, você já me surpreendeu uma vez. Me dê um bom motivo para a decisão final de Lia.

Fonte: thecrazyworldofabooklover - Reprodução

Fonte: thecrazyworldofabooklover – Reprodução

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