Labirinto: significados e a magia nos anos 80

O texto a seguir pode conter spoilers de: Labirinto. Depois não diga que eu não te avisei…

“Rei dos Duendes!
Rei dos Duendes!
Quero que seja assim:
Venha e leve esta criança
Para bem longe de mim!”

Fonte: The Odyssey Onlin – Reprodução

Como já bem dizia  C.S. Lewis, uma história infantil que só pode ser apreciada por crianças não é de maneira alguma uma boa história infantil. Labirinto, filme de 1986 concebido e produzido por Jim Henson, está longe de agradar apenas aos telespectadores mirins.

Assim como a maioria dos longas de fantasia produzidos nos anos 80, Labirinto trará uma vasta camada simbólica e de subtexto à trama, aquele tipo de informação que você só vai conseguir absorver totalmente alguns anos mais tarde, quando estiver assistindo o filme pela vigésima vez. Como num estalo, uma nova camada cairá sobre o seu colo e você passará a enxergar o enredo sob uma ótica completamente nova.

Mas porque os filmes de fantasia dos anos 80, como A História Sem Fim, Willow, O Feitiço de Áquila, A Princesa Prometida, A Lenda e tantos outros possuem essa aura mágica, esse estilo próprio que continua nos encantando?

Bem, o primeiro fator que eu destacaria, com certeza, seria a estética. Com poucos recursos digitais, o pessoal dos anos 80 precisava usar a imaginação. Nada de monstros em CGI: cada criatura era cuidadosamente planejada e construída artesanalmente, com motores, engrenagens, muita resina e carinho. Se um efeito digital ultrapassado passa um sentimento de rejeição (“que coisa mal feita”, você diria), o efeito artesanal cria a ideia de nostalgia, de estar observando peças valiosas em um antiquário. É uma arte tão detalhista e trabalhosa que causa admiração. Toda a estética do filme é regida por suas criaturas, bonecos de fantoche e atores com orelhas de silicone. O que, ao menos na minha cabeça, ficou registrado como o verdadeiro estilo de um conto de fadas.

Fonte: Collider – Reprodução

Não estou falando que não gosto de um bom CGI, longe disso. Mas para histórias com cara de livro antigo mágico, daquele tipo que as vovós ciganas leriam para os netos em noites de inverno, acho que o artesanal sempre é uma boa pedida. Ele cria um clima de aconchego e de pertencimento que combina muito com este tipo de história. Um Smaug digital incrivelmente realista? Maravilhoso. Um Falkor nestes mesmos moldes? Não sei…

Hoje em dia, diretores como Guillermo del Toro tentam resgatar esse estilo para o cinema, o que torna produções como O Labirinto do Fauno tão peculiares. Também explica porque o steampunk é um gênero que costuma agradar: a estética é importante.

Além disso, gosto como os filmes de fantasia dos anos 80 não poupavam as crianças de conceitos pesados. Ninguém subestimava a capacidade interpretativa dos pequenos ou tentava protegê-los das dores do mundo. O cavalo de Atreyu afunda no pântano e é isso mesmo, a Princesa Lili é seduzida por um vestido cheio de luxúria e é isso mesmo.

Olha que coisinhas fofas pras crianças! Fonte: Geeks of Doom – Reprodução

Acho importante deixar que os jovens tenham contato com esse tipo de questão, desde que estes sejam apresentados numa abordagem condizente com sua faixa etária. Nada de esconder, mas é preciso ter tato. É nessa hora que as camadas de subtexto cumprem seu papel: quanto mais você cresce, melhor entende as metáforas. Você sempre soube que o Nada era o pior inimigo de Fantasia, mas só depois cai a ficha de que estamos falando sobre a transição para a vida adulta.

No caso de Labirinto, meu primeiro contato com a história ocorreu apenas agora, lendo a novelização do roteiro escrita por A. C.H. Smith e publicada no Brasil pela DarkSide. Então é bem possível que a minha experiência de leitura seja “prejudicada” por esse contato já mais maduro.

De fato, vejo que muitos consideram Sarah uma protagonista irritante, mimada e bem egoísta. E apesar dela ser tudo isso mesmo, consigo enxergar todo o background que a deixou assim. Abandonada pela mãe, uma atriz que ao que tudo indica separou-se do marido para viver junto ao antigo parceiro de teatro, Sarah apenas deseja ter sua vida de volta, onde a mãe fazia parte de seu cotidiano e ela era a única filha a depender do afeto e das atenções dos adultos.

Sabe aquela velha história do pai que se separa e aparece apenas nos fins de semana com presentes incríveis, aventuras e nenhum limite, tornando-se o herói da criançada mas sem nenhuma participação real na criação dos filhos? Pronto, a premissa de Labirinto é a mesma, só que com os gêneros invertidos. Então dá pra entender porque Sarah age desta maneira, porque tenta a todo custo ser uma cópia em miniatura da mãe. O que a transforma de uma personagem irritante para uma personagem bastante trágica.

Fonte: Tumblr – Reprodução

Da mesma forma, se quando criança eu detestaria a madrasta de Sarah por não deixar o cachorro entrar em casa, hoje, com olhos de adulta, eu tenho um respeito tremendo por essa mulher que pode até não ter lá muito jeito para lidar com adolescentes, mas que faz o possível para segurar as pontas e ser razoável com a enteada.

Aliás, acho engraçado que a inspiração de Jim Henson tenha partido de Alice no País das Maravilhas e O Mágico de Oz ao invés de Peter Pan. Tudo bem que os cenários nonsense e os companheiros que Sarah vai juntando ao longo do livro, cada um com sua motivação, nos fazem lembrar de imediato das histórias de Lewis Carroll e L. Frank Baum.

Mas antes de Alice, acho que Sarah assemelha-se muito mais a Wendy.

Elas possuem objetivos distintos (Sarah detestaria o senso maternal de Wendy), mas ambas são crianças muito cheias de si, acreditando piamente terem a vida resolvida na palma da mão. Elas emulam comportamentos adultos o tempo todo, ainda que conservem a inocência da infância. Ambas são espertas, gostam de ponderar sobre valores éticos e nutrem uma quedinha problemática sobre um garoto perdido.

Sim, porque Jareth é um perfeito Peter Pan.

Fonte: Tumblr – Reprodução

Assim como seu colega da Terra do Nunca, Jareth vive numa infância eterna, um lugar onde não existem limites, responsabilidades ou cobranças, onde sua vontade é lei e não existe moral. O Rei dos Duendes  é a personificação máxima do adolescente mimado, incapaz de lidar com frustrações. Para conseguir o que quer, é capaz de ameaçar, torturar e matar, desde que assim ninguém nunca mais ouse contrariá-lo. E no entanto, assim como Peter Pan, é impossível enxergá-lo como vilão. Ele é um antagonista, alguém que precisava levar umas boas lições da vida, mas não é um ser das trevas.

Rodeados por seus seguidores (que tanto faz se são duendes ou meninos perdidos), Peter e Jareth sofrerão em sua solidão: eles não possuem ninguém para desafiá-los à altura, e chega uma hora em que poder fazer o que quiser acaba tornando qualquer coisa um tédio: a criança a quem tudo é permitido também sofre.

Wendy e Sarah despertam interesse justamente por serem uma força contrária, algo que se envolve mas que não se deixa dominar. Wendy quer crescer, Sarah quer levar seu irmão de volta ao mundo real. Nunca acreditei que Peter fosse apaixonado por Wendy, e também não acredito que Jareth nutra algum sentimento especial por Sarah. O que os meninos sentem é uma inegável atração, um deslumbramento gerado pela empolgante perspectiva de achar alguém capaz de enfrentá-los de igual para igual. Até mesmo na cena do baile, onde o Rei dos Duendes tenta beijar Sarah à força, não creio que Jareth sabia de fato o que estava fazendo. Tanto que a verdadeira malícia fica por conta dos outros convidados. Se Jareth criou aquela visão para Sarah baseado em coisas que ela vivenciou na vida real, isso significaria que a lascívia habitava seus subconscientes, mas que ainda não era verdadeiramente compreendida pelos personagens, certo?

Ele e Peter são figuras bem tristes, porque, no final das contas, não passam de menininhos birrentos, tão inseguros e imaturos quanto Toby (mas olha a idade do Toby, né…).

Fonte:Tumblr – Reprodução

A história de Labirinto vai focar justamente no amadurecimento de Sarah, no processo que a leva a “cair em si” sobre as atitudes da mãe, sobre a maneira como trata o pai e a madrasta e sobre seu modo geral de enxergar a vida. O próprio labirinto, enquanto símbolo, significa a jornada do auto-conhecimento, a aproximação do ser humano com a verdade divina e o renascimento. O labirinto transforma.

Muitas culturas reverenciam o labirinto. Há algo de perturbadoramente mágico em suas paredes, nos desafios que precisamos enfrentar sozinhos. Ou, como o próprio Jim Henson escreveu (e a versão da DarkSide traz uns extras maravilhosos sobre a criação do autor):

“A vida é uma espécie de labirinto, com todas as suas voltas e reviravoltas, seus caminhos retos e seus ocasionais becos sem saída.”

Mitologicamente falando, é importante diferenciar ‘labyrinth’ e ‘maze’. Embora as palavras sejam traduzidas da mesma forma para o português, acredito que Henson, estudioso do jeito que era com suas referências, tenha escolhido cuidadosamente o termo ‘labyrinth’.

Este primeiro significado tem a ver com uma jornada espiritual de auto-conhecimento. Um ‘labyrinth’ não possui becos sem saída ou bifurcações: ele é apenas um único caminho, que avança e retrocede sobre si mesmo até alcançar o centro. Este é o símbolo comumente associado à religião, sendo inclusive pintado no chão de muitas igrejas. Labirintos deste tipo eram construídos para que as pessoas pudessem meditar e alcançar a iluminação (o centro). Eles possuem apenas uma entrada, e você deve ingressar em seu interior com uma pergunta em mente. Respondê-la será seu objetivo.

Já o ‘maze’ refere-se ao labirinto da forma como o conhecemos hoje em dia: um desafio de caminhos intrincados, cheio de armadilhas, com entradas e saídas. O ‘maze’ representa o desassossego, e é graças a essa interpretação que nós costumamos ficar tão nervosos dentro de labirintos: temos medo das incertezas e de um confinamento que não podemos combater.

Labyrinth vs Maze. Fonte: Montagem própria

Embora o labirinto de Jim Henson seja uma mistura destes dois termos (até porque hoje em dia os conceitos foram realmente fundidos), creio que a palavra ‘labyrinth’ melhor o descreva. É nele que Sarah responde suas perguntas. E, se pararmos pra pensar, realmente não existem becos sem saída ali. Sempre há uma forma de escapar.

Hoggle, Ludo e todos os outros seres com quem Sarah encontra pelo caminho também são símbolos das lições aprendidas pela menina. Hoggle a ensina a duvidar de suas certezas, a abrir seu coração e a perdoar (Hoggle é praticamente o terceiro protagonista desta história). Gostaria de destacar também uma das cenas mais impactantes do livro: o momento em que Sarah é soterrada pelos próprios pertences, empilhados em suas costas pela velhinha do lixão. Em poucas linhas, temos a metáfora perfeita sobre como Sarah apega-se a seus bens materiais como se pudesse preservar sua antiga vida, sem perceber que dar valor às coisas erradas apenas a torna prisioneira de si mesma.

Fonte: Tumblr – Reprodução

(Ah, e sempre que Sarah comenta sobre o estranho sentimento de amar e odiar seu irmãozinho ao mesmo tempo, tem como não lembrar de Tiffany Dolorida?)

Acho que A. C.H. Smith fez um ótimo trabalho com a adaptação do roteiro. Mesmo em páginas impressas, deu pra sentir a atmosfera de filme dos anos 80, até pela descrição dos personagens e por seus diálogos quase teatrais.

Labirinto é um livro para nos provar que crescer nunca é algo fácil, e que existem consequências para nossos desejos e ações. É uma história bem bonita, com todas as suas inusitadas maravilhas e aquele tipo de fantasia onde tudo é possível, um mundo encantado típico dos anos 80.

Fonte: WallDevil – Reprodução

Pra terminar lanço aqui uma dúvida: em determinada página, Jareth chama Hoggle erroneamente de ‘Hogwart’. Um pouco antes, temos uma citação à ‘Hermione’. Isso aparece no filme ou no roteiro original? É só uma coincidência ou A. C.H. Smith poderia ter incluído propositalmente uma homenagem a outro bruxinho adolescente que também atravessou um labirinto?

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