Lauro Kociuba e o épico do detalhe

O texto a seguir pode conter spoilers de: Estações de Caça: Haakon I. Depois não diga que eu não te avisei…

Estou bem feliz em escrever o post de hoje. Primeiro porque vamos falar de um livro que explora a mitologia nórdica, uma velha queridinha da minha estante. Segundo porque o autor é brasileiro e lançou sua primeira obra de maneira independente através de uma belíssima campanha de financiamento coletivo.

A vitória do paranaense Lauro Kociuba é uma vitória para todo o mercado literário brasileiro. Uma prova de que estamos finalmente vencendo as barreiras que limitavam as estantes, principalmente no gênero da fantasia, às produções inglesas e americanas. E a internet conta com um papel essencial neste processo. Plataformas de publicação gratuita, campanhas de crowdfunding e principalmente o boca a boca dos fóruns de discussão estão mostrando que autores de talento podem sim pertencer ao território nacional e, a bem da verdade, a qualquer lugar do mundo. (Ainda na semana passada li um artigo maravilhoso sobre como escritores nórdicos estão vencendo as dificuldades e estreando nas livrarias do Brasil)

Foi mais ou menos o que aconteceu com o Lauro, que em 2014 estava divulgando seu livro, Alvores: A Liga dos Artesãos, uma fantasia moderna ambientada na cidade de Curitiba. As interações através da plataforma Catarse renderam um público fiel e bastante engajado, crucial para a popularização da história. Assim como centenas de anos atrás, quando as histórias ainda eram contadas oralmente, o vínculo de empatia entre escritor/leitor ou orador/ouvinte sempre será uma força poderosa.

Autor e capa de Estações de Caça - Reprodução

Autor e capa de Estações de Caça. – Reprodução

E, como bom escritor de fantasia, Lauro Kociuba decidiu que era hora de explorar melhor os confins do universo que havia criado. Haviam muitas possibilidades em aberto para Alvores. Uma delas, a história de um garoto inicialmente sem nome, surgiu como um diminuto conto e foi se desenvolvendo e ganhando relevância até se tornar livro (I know that feeling bro), o recém saído do forno Estações de Caça: Haakon I. Foi nesse “conto que cresceu um pouquinho mais do que deveria” que tive o prazer de colocar as mãos.

Em Estações de Caça, acompanhamos a infância de Haakon, filho de um jarl nórdico estabelecido em terras inglesas, desde seu nascimento até o início da adolescência. Trata-se de um livro fininho, mas bastante carregado em conteúdo. Não existem cenas supérfluas ou espaço para divagações não objetivas. E justamente por isso, é uma obra para ler num fôlego só, num sentimento só. E esta é minha maior observação (e elogio) à história de Haakon: esta é uma narrativa de sensações.

Sensações porque todos os personagens são extremamente viscerais, instintivos e sólidos. Fazem o que precisam fazer, fiéis à suas crenças e percepções. Lauro conseguiu capturar bem a essência da mitologia nórdica, muito mais do que simplesmente jogar criaturas lendárias em cena. Vikings são, acima de tudo, sobreviventes. E muito, muito conectados com a natureza e o mundo espiritual.

A narrativa de Estações de Caça também chama atenção. Ela flui ao mesmo tempo lenta e cheia de adrenalina. Sabe quando você está assistindo 300 e as cenas de batalha mostram os espartanos em câmera lenta, e por um breve segundo todo aquele caos e ação transparecem um viéis quase belo, como numa pintura? Foi a sensação que tive ao ler esse livro. Inclusive, em uma das cenas entre Haakon e o lobo gigante, lembrei na hora da iniciação do próprio Leônidas à vida adulta.

“Haakon observava o animal. A pelagem negra estava imaculada, os flocos de neve que caíam não ousavam tocá-lo. O lobo era pelo menos uma cabeça mais alta que ele, o dorso subia e descia com a respiração, e o hálito se condensava à sua frente.”

Cena do filme 300 Fonte: desktopexchange.net - Reprodução

Cena do filme 300. Fonte: desktopexchange.net – Reprodução

A composição das cenas denota o amadurecimento do autor. São pequenos detalhes, um floco de neve, um som, uma sensação do vento, que criam essa imersão toda. Com tantos escritores buscando a grandiosidade, foi maravilhoso ver alguém trazer o épico no foco, no detalhe, na poesia das pequenas coisas.

Acho que o livro me fisgou de fato a partir da cena do parto de Haakon, tanto por sua pesquisa histórica certeira quanto pela sensibilidade apresentada. Como fã de carteirinha da mitologia nórdica, tive gratas surpresas ao ver a menção às portas destrancadas e nós desfeitos, à canção de todas as mães e aos desenhos guias feitos na barriga das grávidas. Tudo muito “pagão” e bem embasado.

Ellia, mãe de Haakon, é tratada de maneira magistral. Lauro a faz forte, mas não completamente destemida. Ela luta pelo filho, com unhas e dentes, com a determinação de uma mulher viking. E faz isso com muito sofrimento, muita dor e muita emoção. Ellia é uma personagem capaz de se conectar com qualquer leitora, forjada na dualidade entre a força e a sensibilidade, em perfeita harmonia. Em minha opinião, é a melhor construção deste livro.

“Ela não achou que gritaria, acreditava que era uma fraqueza e que teria seu parto em silêncio e rápido. Mas gritava enquanto empurrava, sentia medo pelo pequeno, e fazia força pelos dois.”

O que não significa que os outros personagens de Estações de Caça não estejam à altura. O pai de Haakon, Ogar (a quem eu insisto em visualizar com a mesma aparência de Fergus, pai de Merida em Valente), possui uma alma tão doce e resiliente que sentimos uma conexão imediata. E Eol’badel consegue aliviar a tensão da narrativa nos momentos certos, fazendo o adorado arquétipo do sábio cômico. Admiro em especial o cuidado nos diálogos de Eol’badel. O personagem costuma repetir palavras e falar de maneira excêntrica, o que casa bem com seu perfil mas poderia ser desastroso para a fluidez da leitura. Lauro consegue equilibrá-lo e o leitor acompanha a cena com naturalidade, sem cansar das repetições. Como disse, o humor sutil de Eol’badel surge apenas nos momentos certos.

“– Muito bem, muito bem, muito bem! Eu sabia que seria assim. Digo, saber, saber, saber, não sabia. Mas no fundo eu sabia. Sim, sim, sim.”

Como visualizo Ogar e Ellia Fonte: PhotoBucket - Reprodução

Como visualizo Ogar e Ellia. Fonte: PhotoBucket – Reprodução

A única personagem com a qual não consegui criar uma identificação foi a elfa Aye’lena. Sua participação é boa, mas sempre a sinto distante demais, desconectada demais da problemática de Haakon, como se seu plano emocional ficasse bem acima dos outros. Mas talvez isso faça parte de minha própria resistência quanto às raças mais etéreas. Sempre prefiro os seres terrenos, de carne e osso, virtudes e pecados, ainda em aprendizado. Tirando o Legolas, porque né…   

E, finalmente, vamos falar do nosso protagonista. Gostei de como o autor conseguiu mantê-lo profundo mas ao mesmo tempo coerente com sua pouca idade. Ponto para o autor sobretudo na cena de luta com o lobo. É difícil escrever sobre essa fase da vida, onde nem a criança nem o adulto dominam o ser. Ainda mais diante de um perigo mortal, achei que suas reações foram bem realistas. Haakon já demonstra potencial para se tornar um grande homem. Ver o mundo pelos olhos do garoto e acompanhar suas percepções faz com que, de alguma forma, possamos nos sentir um pouco protagonistas de Estações de Caça também.

Uma lição boa que vou levar do trabalho do Lauro é que não é preciso descaracterizar uma lenda para contar uma história inovadora. Estações de Caça preserva as características da mitologia nórdica, se atendo ao script dos deuses, wargs, valquírias, Valhalla, Huginn e Muninn. As criaturas não são adaptadas para o universo Alvores, e ainda assim, existe inovação e uma dinâmica própria que caracteriza o livro. Com certeza vai agradar aos fãs de Asgard.

“E, ao centro da mesa, bebendo um cálice grande de vinho, estava ele, o Pai de Todos, o Grande Caçador.”

Valhalla Fonte: Wikipedia - Reprodução

Valhalla. Fonte: Wikipedia – Reprodução

Enfim, meu primeiro contato com Alvores não poderia ser mais favorável. Embora ainda existam alguns problemas editoriais, Lauro Kociuba mostra um desenvolvimento técnico muito bom como escritor e uma sensibilidade para poucos. Um gigante gentil.

Por enquanto, Estações de Caça: Haakon I está disponível apenas no formato digital, e pode ser lido independentemente de A Liga dos Artesãos. Você pode adquirir o livro clicando aqui.

(E para saber mais sobre o trabalho do Lauro Kociuba, basta acompanhá-lo por aqui)

Um steampunk pra ninguém botar defeito
E essa nossa mania de shippar

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