#LendoSandman – Despertar

O texto a seguir pode conter spoilers de: Sandman – Despertar. Depois não diga que eu não te avisei…

Fonte: imgur.com - Reprodução

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Ainda estou um tanto entorpecida para escrever essa resenha. Sandman acabou.

Então, vamos começar pelas coisas simples. Despertar, o último arco da obra, me chamou atenção logo de cara. Eu não lembro de outro arco com um traço tão bonito em seus desenhos. Tudo, dos contornos às cores, me encantou, e trouxe uma expressividade impressionante para os personagens. Mesmo Larissa, a última amante de Morpheus, sempre caracterizada por traços retos e óculos que escondem o olhar, tem sua humanidade realçada de maneira magistral (e foi ótimo finalmente conhecer o outro lado dessa história).

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

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Despertar segue a deixa de Entes Queridos, funcionando como um “amarrador de pontas soltas” e uma grande confraternização entre os personagens. Só que dessa vez, os relatos falam sobre Morpheus. Como numa colcha de retalhos, vamos costurando pouco a pouco a imagem que cada pessoa tem do Lorde Moldador. Temos relatos engraçados, temos histórias de amor (eu AMO Bast, sabia?), temos mágoas, discursos e temos, claro, um monte de bebida alcoólica pra ajudar com a dor da perda.

Me agrada essa visão sobre o que é um velório. Sou a favor da reunião de amigos para celebrar os melhores momentos da vida de alguém, ao invés do silêncio mórbido de um monte de pessoas rodeando um corpo. Da conversa tranquila e das lágrimas compartilhadas. E se a gente voltar para o argumento de Gaiman de que não se morre até que ninguém mais lembre de nós, é um alento perceber que a figura de Morpheus está mais viva que nunca.  O relato de Mad Hettie foi tão simples, tão “a cara de Sonho” e tão gentil que tornou-se o meu favorito. Tenho certeza de que é por esse tipo de gesto que o Senhor do Sonhar gostaria de ser lembrado.

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

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Como sempre, também temos uma boa retomada de narrativas anteriores, mostrando que todos os elementos da história estão lá por um motivo. As catacumbas por baixo da Necrópole Litargo revelam parte de seus segredos numa belíssima jornada do homem de barro dos Perpétuos.

É interessante como, mesmo depois de acompanharmos tão a fundo deuses, anjos, demônios, aspectos e todo tipo de personificação divina, Gaiman parece nos dizer “olha, ainda tem muitos mistérios por aí, nós estamos só no raso”. A voz que fala com o homem de barro é um mistério, e ficamos com a sensação de que, seja lá o que for aquilo, é uma espécie de criador para os Perpétuos. Temos também a cena inicial de Despertar, quando cada irmão de Sonho recebe um mensageiro. É dito que nem mesmo os Perpétuos sabem dizer quem os envia, e que existem coisas que eles preferem não investigar ou questionar a fundo. Ou seja, o Universo continua misterioso, continua uma aventura louca, improvável e magnífica até mesmo quando você é uma criatura milenar cheia de poderes.

E já que tocamos no assunto dos mensageiros, queria abrir um parênteses para comentar o quão acertada é a escolha de cada um deles, o quão simbólicos eles se tornam quando emparelhados com a família Perpétua. Destino recebe uma pomba branca, Morte uma águia, Desespero um morcego e Desejo um casal de canários.

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

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Eu poderia ficar aqui divagando sobre uma série de detalhes maravilhosos de Despertar, como o fato do leitor ser inserido como um personagem da história, o vestido vermelho de Morte, a conversa dela com Hob (que nunca toma jeito nessa vida), os estágios de luto de Matthew, a volta de Merv ou a lágrima de Duma. Mas este último arco me passou uma mensagem tão profunda que eu não tive forças pra fazer outra coisa senão remoê-la. De qualquer forma, o que podemos resumir sobre Despertar é que Gaiman fecha seu trabalho com primor. Não tem como pedir outra coisa.

Mas vamos lá.

Acho que o desfecho de Sandman tem dois momentos cruciais para compreender toda a jornada de Morpheus  até aqui. Dois detalhes que nem ganham tanto destaque, mas que fazem toda a diferença.

O primeiro deles é confidenciado por Abel (em sua eterna mania de compartilhar segredos). Quando os habitantes do sonhar encaminham-se para o velório, Abel explica que a cerimônia não é para enterrar um corpo, uma criatura ou um aspecto. É para sepultar um ponto de vista. Segure essa informação por um momento.

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

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Em outra página, Lucien discute com Matthew sobre os motivos que levaram Morpheus a encontrar seu fim, quase como se ele houvesse desejado partir. Lucien então diz que “Às vezes, talvez, uma pessoa deva mudar ou morrer. E, no fim, houve talvez limites de quanto ele poderia se deixar mudar”.

Agora vamos juntar as duas coisas: Morpheus era um ponto de vista, uma expressão do Perpétuo Sonho. E Morpheus passou por uma enorme jornada de autoconhecimento e autocrítica, o que causou mudanças em sua personalidade, ou mais importante, em seu caráter.

Porém, para reparar seus erros, Morpheus precisaria aceitar sua morte. Como uma redenção. Ele não poderia mudar tanto e não sofrer consequências, pois existem limites. Porém, Oneiros achou uma solução. Ele iria morrer, iria deixar que este ponto de vista desgastado e falho fosse embora. Mas deixaria um herdeiro, alguém que poderia perpetuar seu legado. Um novo ponto de vista. Mais forte e melhor.

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

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Eu consigo enxergar esse aprimoramento em Daniel. Gaiman deixa várias pistas para que percebamos isso. A cena em que Daniel acaricia os guardas do portão é uma delas. O unicórnio fica surpreso: seu antigo mestre jamais o tocou antes. Embora Morpheus também se preocupasse com o bem estar de seus súditos, Daniel é mais gentil.

Daniel também sabe perdoar. Ele livra Lyta Hall de qualquer punição, reconhecendo que a mulher já carrega marcas profundas. Ele a perdôa e a manda embora para reconstruir sua vida, enquanto a estrela de Morpheus brilha na janela. A lição que Oneiros levou séculos para aprender (desde o dia da condenação de Nada), Daniel já internaliza naturalmente.

Daniel mudou o Coríntio, respeitou o desejo de Fiddler’s Green e conquistou Matthew apenas com sua sinceridade. E ao retirar a premissa de pertencimento (Matthew não é o corvo de Daniel), ele abre espaço para que prolifere uma enorme amizade entre os dois, baseada apenas em amor, boa vontade e um profundo respeito pelo antigo detentor do título de Sonho dos Perpétuos.

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

Daniel ainda possui defeitos? Sim, sim, com certeza, somos todos imperfeitos. Talvez um dia ele também seja substituído por um ponto de vista mais forte.

Até porque, se pararmos pra pensar, Daniel era apenas uma criança. Não havia nem mesmo tempo para que ele gerasse tamanha honradez. E Daniel parece compartilhar algumas das memórias de Morpheus. Ou seja, ele ainda está lá, renascido e melhorado, personificando o caráter que almejou em sua existência passada. Como uma espécie de fênix.

Todo esse simbolismo que Gaiman aplicou em sua história é algo que me deixa bastante emocionada. E também dialoga com uma citação do Eckhart Tolle que eu considero uma das mais bonitas e verdadeiras que já vi:

Fonte: Pinterest - Reprodução

“Você é o universo, expressando-se como um ser humano por um breve momento.” Fonte: Pinterest – Reprodução

Afinal, não somos todos nós também pontos de vistas? Definidos por nossas vivências e emoções, em busca de uma revelação transcendental que nos torne seres humanos melhores? Eu não sei pra você, mas essa é uma ideia que arrepia os pelinhos da minha nuca.

Mas Sandman acabou.

Acabou e deixou aquele buraco, aquela ressaca de quando viramos a última página de um livro que sabemos ter marcado nossa vida para sempre. Uma das coisas que mais gosto em Gaiman é que, além de boas histórias, ele nos entrega lições, exemplos, reflexões, perguntas. E acho que Sandman condensa bastante este lado de seu criador. Sandman é a pura contemplação do ser humano, de nossas vidas breves, limitadas e ainda assim infinitas. Nossos medos, nossa pequenez em relação ao Universo, a força dos sentimentos e dos sonhos. Tudo está lá. E garanto que você já fez boa parte desses questionamentos. Sandman dialoga de pertinho, lá no nosso íntimo. E é triste e é belo, é poético e mundano.

Foram praticamente cinco meses acompanhando a história, debatendo e buscando novas interpretações para cada uma das palavras impressas ali. Afinal, Gaiman não escolhe palavras ao acaso. Precisamos manter os dois olhos bem abertos com esse daí.

E foi maravilhoso poder fazer isso ao lado de outras pessoas, através da leitura conjunta. Queria agradecer principalmente à Raquel do Pipoca Musical, por ter proposto o desafio, e à Luciana do Coruja em Teto de Zinco Quente pelos maravilhosos insights. Essa leitura não poderia ter vindo em melhor hora, ou em melhor companhia. Conversar sobre Sandman com gente tão apaixonada pelo autor quanto eu foi o mesmo que compartilhar uma boa cerveja na Taverna d’O Fim do Mundo.

Pra encerrar o projeto, vou deixar vocês com essa tranquilidade no olhar de quem sabe que estilhaçou o coração do leitor em um milhão de pedacinhos:

Fonte: kotaku.com.au - Reprodução

Fonte: kotaku.com.au – Reprodução

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