#LendoSandman – Entes Queridos

O texto a seguir pode conter spoilers de: Sandman – Entes Queridos. Depois não diga que eu não te avisei…

Fonte: comicartfans.com - Reprodução

Fonte: comicartfans.com – Reprodução

Entes Queridos poderia ser uma grande festa de confraternização, caso não fosse tão triste. Cada um dos arcos, cada um dos personagens e suas problemáticas são trazidos novamente à vida, como numa despedida, como os créditos que sobem na tela ao final de um filme.

E por mais melancólico que seja dizer o derradeiro adeus, o final das coisas tem um quê de belo. Morbidamente belo.

Gaiman prepara bem o leitor para aceitar a morte de seu protagonista. O choque de perder Morpheus já vem sendo absorvido desde a cena do funeral, no arco passado. Meio que sabemos que ele vai morrer, mas “ufa, ainda o temos aqui com a gente por mais algumas páginas”. Dissipado o susto inicial, começamos Entes Queridos com uma conversa franca entre as Fúrias, sobre a natureza das coisas e sobre como a vida continua girando, alheia às nossas vontades e desejos. As coisas são do jeito que são, e não importa se gostamos ou não da nossa sina (você ainda pode interpretar esse diálogo como um desabafo autoral do próprio Gaiman. Imagina como ficou a caixa postal dele após anunciar em alto e bom som que mataria Sonho…).

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

O tema da morte e da transição continua sendo revisitado por diferentes personagens. Os habitantes do sonhar falam sobre suas vidas passadas, e Matthew demonstra temer o que será de seu futuro, temer o desconhecido (até mesmo se for um passado desconhecido). Todd Faber tem a mesma dificuldade do que nosso querido corvo. Todd tem medo do que o desconhecido lhe reserva, uma fobia que o paralisa e atrapalha sua carreira. Todd foge do que “poderia vir a ser”. E é o próprio Morpheus que vem para trazer o jovem de volta à realidade, nua e crua. O desconhecido, representado pela queda de Todd no abismo, pode nos matar. Mas às vezes, você voa. Gaiman nos ensina a aceitar as transições, mesmo que a gente não faça a menor ideia do que vem pela frente. Costumamos colocar um estigma negativo à mudança, mas ela pode sim vir para tornar as coisas melhores.

Também é ótimo rever Hob Gadling e finalmente ter a tão esperada reflexão do personagem sobre a questão da imortalidade. Hob sente-se sozinho, e não parece mais aquele cara sortudo que simplesmente não morre e leva uma vida rica e interessante. A imortalidade é solitária, e a gente começa a aceitar que sim, tudo precisa ter um fim. Até uma HQ tão maravilhosa como essa.

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

Agora que Gaiman já deixou essas ideias bem marteladinhas em nossa mente, podemos nos ater aos fatos:

As Fúrias querem se vingar de Sonho pela quebra de uma das regras que regem todo o universo: o débito de sangue. Lyta Hall desenvolveu um zelo absurdo e selvagem por Daniel, uma superproteção compreensível diante de todas as maluquices que ela vivenciou em sua gravidez.

Loki alia-se à Puck para roubar o herdeiro de Morpheus, e após o sumiço do garoto, Lyta inicia uma perseguição que a levará muito além das fronteiras da sanidade. Acreditando que o rapto de Daniel é obra do próprio Morpheus, Lyta se aliará às Fúrias em busca de vingança.

Acho fantástico como Gaiman conseguiu amarrar todo mundo numa mesma trama (e olha que não foi pouca gente) e dar papéis importantíssimos a personagens que até então haviam sido bem secundários na história. Loki, Puck, Nuala e tantos outros agem juntos num emaranhado de pequenas ações e reações, que reunidas representarão toda a ruína de Morpheus.

E como a queda de um Perpétuo não é algo trivial que aconteça o tempo inteiro, praticamente todos os seres mitológicos/divinos/místicos/sensitivos estão preocupados com as consequências do fim de Sonho. Todo mundo está querendo tirar o seu da reta ou ao menos compreender as implicações (se dá pra ganhar ou perder alguma coisa) com o evento. E deixa eu abrir um parêntese aqui sobre como Lúcifer Estrela da Manhã, nas mãos de Gaiman, é um cara pra lá de carismático e classudo. Olha, dá pra entender facilmente porque tantas instituições religiosas querem banir Sandman para o quinto dos infernos…

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

Tem tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo em Entes Queridos que é até difícil resenhar todo o arco linearmente. Então, vou partir do princípio de que você também leu Sandman até aqui (e se não leu, não sei o que está esperando) e vou apenas listar os pontos que me chamaram atenção.

Uma das coisas mais importantes é a divisão de Destino em vários aspectos de si mesmo. Se antes o mais antigo Perpétuo havia nos deixado a impressão de que a sina do mundo já está escrita e é irreversível, aqui ele nos mostra a verdade sobre o livre arbítrio, sobre o poder da escolha. Não é que você possa mudar o seu destino, mas existem diversos destinos tolhidos para você, coexistindo em realidades paralelas que dependem unicamente de suas escolhas. Os resultados estão lá, mas é você que decide a trilha do labirinto. E os livros de Destino acompanham essas transições, por isso estão sempre certos.

Achei fofa a forma como Nuala se apaixona por Sonho. Fofa, porém inocente e completamente platônica. Chega a ser triste ver como a elfa se entrega totalmente à primeira pessoa que a tratou com gentileza e honra, que viu beleza em sua verdadeira forma e que mostrou que mestres podem sim ser amigos de seus súditos. O reino de Faerie é bastante criticado por Gaiman, como uma “anarquia tediosa e falsa”, uma diversão de mentira. Mas também, com uma rainha daquelas, quem poderia esperar algo diferente?

(A crítica à Faerie que, por sinal, volta a andar de mãos dadas com o trabalho de Pratchett em Lordes e Damas)

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

De qualquer forma, Morpheus jamais deu qualquer incentivo romântico para Nuala. E no entanto, eu meio que desejei ver alguma coisa acontecendo entre aqueles dois. Não gosto das insinuações de Titania e não vou nem um pouco com a cara de Larissa. Realmente não imaginava ser ela a amante secreta de Sonho, e me decepcionei um pouco com a escolha. Ao menos deu pra entender porque Matthew, Lucien, Merv e os outros ficaram tão chocados com a escolha amorosa de seu senhor.

Falando neles, Entes Queridos também é um arco ótimo para conhecer mais a fundo os habitantes do sonhar.  É bacana demais ver a nova versão do Coríntio, e finalmente poder ver ao vivo e à cores como deveria ter sido o pesadelo idealizado por Sonho. O novo Coríntio se mantém ameaçador, continua comendo olhos e torturando inimigos, mas sua lealdade à Morpheus é digna de admiração. Ele é realmente o guardião ideal para Daniel. Se Sonho precisava de alguém capaz de fazer o impossível para garantir a segurança do menino, não poderia ter escolhido melhor. O Coríntio (e também o pequeno pesadelo emprestado à Delírio) são ótimas aquisições para limpar a imagem dos pesadelos. Eles são ruins, sim, e nos assustam, mas são necessários e benéficos para o sonhar.

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

E quando as coisas vão mal e o reino cai aos pedaços, conhecemos a verdadeira relação entre Oneiros e seus súditos. Adorei o puxão de orelha dado por Lucien, sempre tão contido, e também a revelação de que ele foi o primeiro corvo de Morpheus. Merv também surpreende. Apesar de ser o mais reclamão, é o primeiro a pegar em armas para defender seu senhor, e não desiste do reino por minuto algum. Mesmo em sua morte, o cabeça de abóbora se mantém irreverente e sem nenhum temor, sendo leal até o fim.

Sem título

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

E por falar em morte, mesmo suspeitando que o novo Sonho recriará cada um dos personagens (ao menos, eles estavam lá no funeral), foi extremamente chocante encarar o fim de criaturas tão queridas. A morte do grifo e a dor estampada em seus companheiros de vigília do portão foi uma imagem inesquecível. Fiddler’s Green, Abel, Merv…todos punhaladas em meu coração.

Mas calma que agora eu preciso dedicar um parágrafo inteiro para Matthew. O planeta poderia ser um lugar melhor se todo mundo pudesse contar com a amizade de um corvo como ele. Sim, amizade, como ele faz questão de declarar, todo sem jeito.

Matthew rompe a relação servo/senhor. Ele desenvolve respeito e gratidão por Sonho, mas não uma obediência subserviente como a de Lucien, ou o temor de Merv. Matthew obedece Morpheus porque o admira, porque o considera um mestre, um tutor. Sua curiosidade em entender o Perpétuo acaba aproximando os dois personagens. E Matthew tem um jeito tão livre de maldade para perguntar as coisas, que acaba conseguindo penetrar as defesas de Sonho. Apesar da confiança cega em Lucien, acredito que é com Matthew que Morpheus se permite ser mais vulnerável.

E o corvo não decepciona. Se seu maior medo é morrer de novo, é encarar o desconhecido. Matthew enfrenta tudo isso para permanecer ao lado de seu senhor na derradeira hora, uma honra mais que merecida.

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

Morte também faz uma aparição pontual, mas muito forte, conduzindo Morpheus a seus domínios. Muito tocante a recriação da cena que vemos em O Som de Suas Asas, onde os irmãos alimentam os pombos. Morte é uma personagem admirável. Ela consegue cumprir seu dever e compreender as motivações do irmão, ao mesmo tempo em que consegue externar todo o pesar que sente por ter de dar adeus a um parente querido. E, para nossa eterna gratidão, ela decide conduzir Sonho com todo o amor e tranquilidade possível.

Rose Walker também tem um papel importante na história, embora não esteja diretamente envolvida no plot de Morpheus (ok, ela era a babá de Daniel na noite em que ele foi raptado, mas isso não faz a menor diferença para o enredo). Rose serve como peça para unir mais um outro punhado de personagens, para nos fazer refletir sobre algumas questões, para nos dar uma das mais doloridas definições sobre o amor e para, tcham dam dam, anunciar que está grávida.

Vem aí o bisneto (ou bisneta?) de Desejo (que finalmente tomou vergonha na cara e foi lá se apresentar pra Rose), um serzinho que tem bastante relevância agora que estamos entrando no reinado de Daniel.

Senti falta de Destruição neste arco. Todos os irmãos de Sonho aparecem, de forma maior ou menor, e mostram-se abalados com a sina de Morpheus, menos o Pródigo. A não ser que suas sugestões tenham passado desapercebidas por mim…

E por último, vamos falar sobre as Fúrias. Eu nem deveria as estar chamando por esse nome, por sinal. As bondosas, as três que são um, a velha, a mãe e a donzela, as senhoras. Elas são o arquétipo mais recorrente de Sandman, e especialmente presentes neste décimo arco. Nós as vemos o tempo inteiro: na casa de repouso contando histórias, em Rose grávida ao buscar o passado da avó, em Lyta ou nas Górgonas. E olha, essas mulheres são fantásticas.

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

Por mais que soem como antagonistas na história, ainda mais quando desejamos com todo ardor um happy ending para Morpheus, é preciso compreender que as Fúrias estão acobertadas pelas regras do universo. Elas agem de acordo com suas naturezas, e…regras são regras. Sonho estava ciente das punições (alguns podem dizer que estava até ansiando por isso).

As Fúrias são puro girl power, uma irmandade sem nome que cobra o preço do sangue, o amor da maternidade. Elas me marcaram bastante, e foi uma satisfação imensa vê-las em seus uniformes de combate como as Valquírias das lendas.

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

E quando a poeira baixa e nos despedimos de nosso querido protagonista, vemos florescer a semente que Morpheus plantou tantos anos antes. A deixa que todos nós estávamos esperando: Daniel, gestado no sonhar.

Daniel é um aspecto de Sonho, uma faceta da jóia que compõe o Perpétuo Lorde Moldador. Os dois são a mesma coisa, porém diferentes. E seu legado, um Morpheus de branco, pingente verde, mais jovem e com uma enorme similaridade com o “pai”, é um doce acalento para os coraçõezinhos apertados dos leitores. A renovação necessária, a continuação do sonhar.

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

A gente mal te conhece, Daniel, mas já te ama.

A  leitura do décimo primeiro arco (e último!), Despertar, está com deadline marcado para o dia 22 de agosto. Vejo vocês lá!

(Para ver as análises de todos os arcos até o momento, clique aqui ou utillize a tag “Sandman” no menu de tags à direita)

A Rainha Vermelha: o Frankenstein de Victoria Aveyard
Sobre as peculiaridades de Ransom Riggs (e um sorteio)

Comentários:

Loading Facebook Comments ...