#LendoSandman – Fim dos Mundos

O texto a seguir pode conter spoilers de: Sandman – Fim dos Mundos. Depois não diga que eu não te avisei…

Fonte: @flukiechic - DeviantArt - reprodução

Fonte: @flukiechic – DeviantArt – reprodução

Gaiman é um daqueles autores muito, muito malvados, que não só estraçalham nosso coração em pedacinhos mas ainda nos fazem amá-los por isso. E levei um arco inteiro para perceber o que estava acontecendo.

Após uma leitura tão intensa e emocionante em Vidas Breves, confesso que comecei Fim dos Mundos com o pé atrás. “Droga, outra quebra no andamento do plot principal”, pensei. Estava aflita para saber o que aconteceria com Morpheus, quem era sua amante, ver os desdobramentos da morte de Orpheus e como a família Perpétua iria se reestruturar.

Por isso, Fim dos Mundos começou morno. Não comprei a história de Charlene e Brant ou sua jornada até a taverna. Eu realmente fiquei tentada a dar uma passada de olhos descompromissada no arco e depois focar nas edições seguintes. Mas leitura conjunta é leitura conjunta, eu tinha um post pra escrever e uma pontada de esperança de que Gaiman jamais me entregaria uma narrativa realmente morna.

Bingo!

Quanto mais avançava nos fascículos, mais percebia que uma intrincada rede de significados e camadas narrativas ia se formando. Eu precisava daquele começo lento para engatar em algo maior, páginas e páginas à frente.

Eu brinco (e às vezes eu realmente acredito) que recebemos histórias exatamente no momento em que estamos precisando lê-las. E, embora Sandman como um todo tenha vindo até mim numa sincronia incrível, é engraçado ver como escrevi este artigo sobre narrativas em abismo na mesma semana em que li Fim dos Mundos, sem suspeitar de nada.

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

Porque, como em praticamente todos os arcos até então, Gaiman retomará sua devoção pelas histórias e pela arte de contar histórias. E desta vez, usará como artefato diversas camadas narrativas sobrepostas. Quase um Inception das HQs.

Em uma taverna apinhada de seres das mais variadas dimensões, viajantes contam histórias que ouviram de outros contadores de histórias. Numa delas, um dos viajantes conta uma história que ouviu de uma mulher que lembra de ter ouvido a história numa taverna onde as pessoas costumavam se juntar para ouvir histórias.

Ufa! Ainda está acompanhando? Então eis que nas últimas páginas do arco, descobrimos que tudo isso que vimos está sendo narrado por Brant, na calada da noite, para a dona de um bar. Histórias dentro de histórias dentro de histórias, conectadas em suas camadas e totalmente cíclicas.

Mas porque isso é tão importante? Porque essa mensagem é tão poderosa?

Bem, Gaiman mesmo nos responde através da personagem da taverneira: “Quando um mundo termina, sempre resta algo. Uma história, uma visão ou uma esperança.”

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

São as histórias que carregamos conosco que dão significado e modelam nossa vida. A existência, em todo o seu mistério, é uma sucessão de vivências, de trocas, de narrativas. Talvez por isso tantas culturas valorizem as tradições orais. Talvez por isso os olhos das crianças brilhem quando estão em volta de uma fogueira. A própria empatia é a capacidade de vivenciar a história do outro.

Sempre penso em Gaiman como o garotinho de O Oceano no Fim do Caminho, maravilhado com as histórias em que pode submergir. Elas o marcam para sempre, são importantes para transformá-lo na pessoa que é hoje. E portanto é muito tocante ver a forma como o autor homenageia com tanto carinho histórias que fizeram parte de sua vida. Em Fim dos Mundos temos Prez Rickard, protagonista de uma série da DC dos anos 70, monstros marinhos e navios (narrativas tão comuns em nossa infância mágica), contos das Mil e Uma Noites, Cidades Invisíveis de Italo Calvino e uma profusão de artistas convidados, emprestando ao arco diferentes estilos e abordagens, numa grande confraternização de contadores de histórias. É a obra celebrando a obra.

(Temos também uma nova homenagem, escondidinha, sobre o Imperador dos Estados Unidos, que eu adorei.)

Fim dos Mundos também vai dialogar com um discurso maravilhoso do Gaiman, que veio impresso ao fim do meu exemplar de The Graveyard Book, onde ele fala que sabe que autores de ficção contam mentiras. Mas que elas são mentiras boas, e que os autores tem obrigação de contá-las bem, de dar significado a elas. Porque alguém, em algum lugar, pode estar precisando ouvir aquela história. Esse raciocínio vai ser ecoado pelo elfo Cluracan, quando este admite que talvez possa ter enfeitado um pouco de sua narrativa, para torná-la mais interessante para o espectador.

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

E nas histórias, as coisas vivem. Elas sobrevivem ao fim dos mundos. Porque neste arco também falaremos sobre destruição, e sobre finais.

Na narrativa de Petrefax, aprendiz da Necrópole, descobrimos que os ritos funerários são para os vivos. Aos mortos, pouco importa o que é feito com seus corpos, com suas lembranças. O funeral é para os que ficam. É o momento da lembrança, das despedidas, onde as histórias que compartilhamos são relembradas e gravadas para sempre na memória (e por isso nos velórios, é comum contarmos momentos da vida do falecido). Também internalizamos o perdão e os assuntos não resolvidos.

A história de Petrefax foi minha favorita de Fim dos Mundos. Ela é bela de um jeito simples, repleta de significado, de uma aceitação plena da morte (e agora sei porque o amigo Leandro, do Drunkwookie, me recomendou Sandman após a leitura de um conto que escrevi chamado Chaga). Além disso, é fundamental para criar o clima de desfecho do arco, aquele onde Gaiman vai apunhalar nossos corações sem nem piscar.

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

Os Perpétuos estão presentes nos bastidores de todos os seis fascículos. Sonho, Morte e Destruição aparecem pontualmente, mas podemos enxergar as garras dos outros irmãos agindo. As vivências de cada personagem são influenciadas pelos aspectos imortais.

E quando finalmente os vemos, é de partir o coração. A revelação vem do nada, inesperada. O velório de alguém que sabemos quem é, mas não queremos acreditar. Claro, a gente já imaginava como tudo isso ia terminar após a morte de Orpheus. Mas ainda assim, dói.

Dói mais ainda de escutar sob as palavras de Brant, uma narrativa tão comum que cria uma conexão imediata com sentimentos doídos dentro do leitor. Dói por ver, um a um, expostos num quadro gigante da HQ, os personagens que acompanham o caixão de Sonho. As histórias que vivemos ao lado deles vão voltando à mente. Temos Matthew, Bast, Fiddler’s Green, Mervyn e tantos outros que cruzaram suas existências com o reino do sonhar.

Mas calma, depois de levar a punhalada, ainda é preciso girar a lâmina: precisamos ver um outro quadro gigante, agora com Delírio e Morte, esta última visivelmente marcada pelo luto.

O luto de Morte me passou duas mensagens: a primeira, sobre como, quando não a tememos, quando a olhamos como expectador, somos capazes de reconhecê-la como uma amiga, como algo belo. Brant a admira.

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

A segunda mensagem é mais impactante. Morte, veja bem A MORTE, está triste com a perda do irmão. Por mais que se tenha sabedoria e vivência, por mais que conheçamos a necessidade e beleza da transformação, a perda de um ente querido ainda machuca. A despedida é marcante.

Não me surpreende que o próximo arco leve exatamente esse nome: Entes Queridos.

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

PS: E o que dizer da cartilha educativa da Morte sobre AIDS que vem em anexo? Gente, queremos mais campanhas assim!

A  leitura do décimo arco, Entes Queridos, está com deadline marcado para o dia 8 de agosto. Vejo vocês lá!

(Para ver as análises de todos os arcos até o momento, clique aqui ou utillize a tag “Sandman” no menu de tags à direita)

Narrativa em abismo: as histórias feitas de histórias
Problematizando Peter Pan

Comentários:

Loading Facebook Comments ...