#LendoSandman: Prelúdios e Noturnos

O texto a seguir pode conter spoilers de: Sandman – Prelúdios e Noturnos. Depois não diga que eu não te avisei…

Uma das minhas resoluções para o blog esse ano era abordar o mundo das histórias em quadrinhos dentro dos posts. Veja bem, eu não entendo nada de quadrinhos. Eu fui aquela criança que parou no gibi da Turma da Mônica e dali partiu direto para os livros sem nunca olhar pra trás.

Porém, ignorar o mundo dos quadrinhos, ainda mais nos dias de hoje, é ficar de fora de uma parte importante da literatura fantástica e das tendências da cultura pop. As HQs conquistaram um espaço sólido, sendo responsáveis por adaptações cinematográficas, séries e muitos outros produtos. Muitos nomes de peso estão por lá, gente que sabe contar histórias como ninguém. Vira e mexe recebo recomendações de algum leitor. Então, resolvi que era hora de descobrir o que eu estava perdendo.

Pensei bastante sobre por onde começar, sobre qual título escolher para minha grande iniciação, mas foi o acaso que acabou colocando um ponto final nas minhas dúvidas.

Fonte: dcentertainment.com - Reprodução

Fonte: dcentertainment.com – Reprodução

Fui apresentada ao Projeto de Leitura Sandman, organizado pelo Pipoca Musical. Nele, as 75 edições de Sandman serão lidas e analisadas no período de 21 de março até 22 de agosto, respeitando a divisão dos arcos.

Fiquei pensando com meus botões: Ler Sandman, a HQ histórica de Neil Gaiman? Um dos meus autores favoritos de todos os tempos? O cara mais citado aqui no TBS? Junto a outras pessoas? E com um prazo confortável? Pode apostar que sim.

Hoje falaremos sobre o primeiro arco, Prelúdios e Noturnos, que abrange as edições de 01 a 08 (o deadline para esta etapa é 21 de março, então ainda dá tempo de vocês participarem, hein?). Basicamente, vou compartilhar apenas impressões pessoais, porque como já falei ali em cima, gente, eu não sei nada sobre HQs…

Para quem não sabe (eu não sabia), o conceito do personagem Sandman não foi uma criação exclusiva de Neil Gaiman. Entre 1974 e 1976, a DC publicava a série The Sandman, apresentando o personagem que mais tarde apareceria sob diversas personificações em outros arcos da editora.

Porém, se o Sandman original da DC não teve assim tanto destaque quanto seus outros colegas super-heróis, para o jovem Neil Gaiman nada poderia ser tão impressionante:

“…essa foi a primeira vez que vi o Sandman da Era de Ouro: o cara com a máscara de gás. Primeiro, ele colocou algemas de vidro nos pés do Homem de Anti-Matéria e, depois, enterrou-o num monte de areia. Não foi um grande papel, mas havia algo de estranhamente atraente, algo bizarro e diferente no personagem. Provavelmente a roupa, o chapéu, a máscara de gás e a capa púrpura. Deve ter sido isso. Isso e a  habilidade de criar algemas de vidro e montes de areia do nada.”

Cativado por essa visão, Gaiman havia plantado a primeira semente para o que mais tarde se tornaria um de seus projetos mais impressionantes, uma releitura (ou melhor, reinvenção) de Sandman, uma HQ de dark fantasy, cheia de referências mitológicas e ambientada em cenário moderno.

O Sandman, ou Sonho, como é mais conhecido, é um protagonista intrigante. Franzino, pálido, cabelos bagunçados e olhar vidrado. Ao mesmo tempo que destoa dos estereótipos heróicos, Sonho possui uma beleza melancólica, um mistério que nos conquista, que nos mantém hipnotizados. Uma coisa bem Gaiman mesmo.

Fonte: comicsalliance.com - Reprodução

Fonte: comicsalliance.com – Reprodução

Em Prelúdios e Noturnos, acompanhamos o aprisionamento de Sonho, um dos Perpétuos e Rei dos Sonhos, através de um ritual realizado por Roderick Burgess, um ocultista em busca da imortalidade. Sonho permanece cativo por setenta anos, até ver-se diante da oportunidade de uma fuga. A retomada da liberdade ativa em Sonho duas resoluções, responsáveis por criar o plot deste primeiro arco: o desejo de vingança contra seus captores e a necessidade de recuperar suas ferramentas, a algibeira, o elmo e o rubi.

Sandman brinca o tempo todo com conceitos interessantes.

Um deles, e meu favorito, é a manipulação de arquétipos e referências mitológicas. A começar pelo próprio Sonho, que personifica uma série de lendas sobre o Sandman e possui inúmeros nomes. Gosto da multiplicidade de nomes porque me faz lembrar que um mito não pertence a um só lugar. Os arquétipos permanecem e são traduzidos e recontados por cada cultura, sendo diferentes porém equivalentes. Quando Gaiman junta tudo isso, me faz crer que os personagens são reais, que aquela representação é verdadeira.

A multiplicidade de nomes pode ser vista também na participação das nornes, numa de minhas passagens favoritas até agora. A donzela, a mãe e a velha são símbolos muito usados não apenas na cultura nórdica mas em várias outras partes do mundo. Achei bacana a forma como cada representação se alterna na página, como cada uma se sucede e tem sua vez de falar.

Fonte: Detalhe da HQ - Reprodução

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

O próprio Inferno é bem representado em Sandman. Gosto da escolha gráfica de cada personagem, principalmente de Lucifer e Beelzebub. E falando nisso, que coisa poética a batalha entre Sonho e o demônio portador do elmo! A HQ é uma salada de referências tão bacana que parece mesmo que estamos sonhando, que aquilo tudo saiu do nosso subconsciente lotado de simbologia.

Mas não só de referências mitológicas vive Sandman. O número de participações de carinhas conhecidas da DC é impressionante. John Constantine, a Liga da Justiça, Espantalho e até os irmãos Cain e Abel (eu amo como esses dois são construídos), todos tem seus papéis e contribuem com a trama. Gosto da forma como Gaiman consegue encaixar personagens tão diferentes sem estragar o clima soturno e onírico da história.

Fonte: depositonerd.com.br - Reprodução

Fonte: depositonerd.com.br – Reprodução

Acabei até conhecendo gente nova, como Scott Free (Senhor Milagre), de quem eu nunca tinha nem ouvido falar. Me interessei pelo conceito da Vovó Bondade, o que acabou rendendo umas boas pesquisas sobre o personagem.

E o que dizer de John Dee, esse vilão que mal conheço e já me perturba pakas?

A aparência descarnada de John e seu semblante desesperado refletem bem a loucura e modo de pensar do personagem. John é perturbador em seus conceitos, em seu relacionamento com a mãe, mas principalmente em suas ações. Existe uma calma, um desapego quase educado com que Dee lida com suas vítimas, que é, para mim, sua característica mais alarmante.

Isso pode ser visto particularmente na cena em que John consegue uma carona até o depósito com a moça loira. É a primeira vez que Gaiman nos escancara até que ponto pode ir este vilão. A moça em questão, Rosemary, mesmo abordada por um homem encaveirado portando uma arma, demonstra compaixão e simpatia, cheganto até mesmo a ceder o casaco do marido para Dee.

Fonte: Detalhe da HQ - Reprodução

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

Durante a cena, cheguei a pensar que John amoleceria parcialmente. Não que ficaria bonzinho, claro, mas que incluiria Rosemary em seus delírios sobre o mundo, colocando-a numa posição de destaque por ter lhe estendido a mão num momento de necessidade. Achava que mesmo que fosse matá-la ou fazê-la sofrer horrores, Rosemary teria um significado diferente para John. Mesmo que vítima, ela teria um contexto mais apelativo para Dee.

Ledo engano. Ao atirar em Rosemary tão desapaixonadamente, Dee tornou-se um vilão extremamente cruel. Não alguém perturbado digno de pena, mas cruel. Aquele grau de frieza dos mais famosos psicopatas. Naquele momento, Gaiman prepara terreno para o que acontecerá a seguir.

A cena do café, contada hora a hora, pode ser até mais grotesca, mas não chega a ser surpreendente. A cena tem impacto e perturba bastante, mas é algo que já estávamos esperando de John.

O embate entre Sonho e John Dee também traz umas reflexões importantes sobre o poder do sonhar. Sobre o quanto um sonho, metaforicamente, pode ser destrutivo quando conduzido da forma errada, quando motivado pelas questões erradas. A própria prisão de Sonho simboliza o desespero de uma humanidade caso esta fosse impedida de sonhar.

Na última edição de Prelúdios e Noturnos, somos ainda apresentados à Morte, irmã de Sonho. E acho que deve ser um dom de família, porque me senti imediatamente cativada pela personagem. Morte é um pouco mais descontraída e menos formal que seu sisudo irmão, porém mantém os traços e a dignidade esperada de um Perpétuo.

Fonte: Detalhe da HQ - Reprodução

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

Achei interessantíssima a forma como Sonho debate o medo que os humanos sentem por sua simpática irmã, e sobre o quanto a morte pode ser encarada como uma dádiva (me arrepio só de lembrar do castigo de eterno despertar concedido a Alex Burgess). Numa abordagem similar àquela mostrada em The Graveyard Book, Gaiman consegue nos deixar à vontade mesmo lidando com uma temática mórbida.

Apesar de estar presente praticamente em todo o fascículo 08, Morte nos deixa um gostinho de quero mais. Espero mesmo ver mais interações entre os irmãos Perpétuos nos próximos arcos da história.    

E, sim, só por esse comecinho já dá pra dizer que Sandman é uma obra e tanto. Divertida e perturbadora, reflexiva e muito humana. Senti certa dificuldade com o início da leitura, por não estar acostumada ao formato HQ. Achei que as coisas passavam muito depressa, que não havia tempo para desenvolver. Com o tempo, fui aprendendo a dialogar melhor com as imagens e tudo fluiu naturalmente. Ainda tenho a convicção, no meu coração tiete, de que a história ficaria maravilhosa num livro, e gostaria de poder ler as descrições das cenas através das palavras de Gaiman. Porém, não dá pra negar que Keith, Dringenberg e Jones, ilustradores deste primeiro arco, sabem como dar conta do recado.

Fonte: Detalhe da HQ - Reprodução

Fonte: Detalhe da HQ – Reprodução

A próxima etapa da leitura conjunta de Sandman será o arco A Casa das Bonecas (09-16), com deadline marcado para o dia 4 de abril. Vejo vocês lá!

Darcy que me perdoe, mas por Thornton até Elizabeth levaria uma pedrada
Dualidades além do bem e do mal

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