Literatura Gourmet?

Lembra quando surgiram os primeiros ebooks? Lembra quando o Kindle ficou popular? Ou quando você achou um PDF de graça daquele livro que estava precisando ler para um trabalho?

Todo mundo começou a anunciar que estávamos vivendo o fim dos livros de papel. Que as pessoas só queriam saber das redes sociais agora, e que não tinham mais tempo pra ler e nem espaço pra manter um livrão de 500 páginas em casa. Que livro de papel seria coisa de escola, biblioteca pública ou, no máximo, daqueles colecionadores excêntricos que gostam de sentir o cheiro de papel e tinta. Os livros iam perder a batalha contra os ebooks, e iam entrar em extinção.

Mas não é bem isso que está acontecendo…

"E ainda disseram que eu estava na pior..." Tumblr - Reprodução

“E ainda disseram que eu estava na pior…” Tumblr – Reprodução

A indústria literária percebeu (finalmente!) que não havia sentido alimentar a guerra livros x arquivos digitais. Era mais sensato se unir em duas frentes. Aliás, não há porque enxergar os produtos como inimigos: são apenas mídias diferentes para entregar o mesmo conteúdo. A única coisa que difere os dois é a experiência que o usuário vivencia ao consumir aquele conteúdo. Numa comparação grosseira, é como dizer que o automóvel veio para acabar com a bicicleta.

No ebook, temos um conteúdo compartilhável, portátil, de acessibilidade imediata. Perfeito para os viajantes, os que não possuem muito espaço em casa, os portadores de deficiências (audiobooks e afins). Muito bem adaptado ao estilo de vida corrido e compartilhado do século XXI, o ebook vê seu mercado crescer a cada ano.

No entanto, no livro impresso, temos o aconchego, o calor das páginas e das palavras que independem de bateria. Enquanto o ebook é apenas a reunião do conteúdo, o livro é maior do que as palavras contidas nele. Um livro na estante deixa de ser só a história e passa a ser uma entidade única, pessoal. Possui uma capa de uma edição diferente, o cheirinho do perfume da sua avó ou aquela marquinha do café que você derramou porque teve que ficar acordado a madrugada toda lendo. Aquele livro é único e só seu.

O que a indústria entendeu é que existe uma multidão de leitores que sentem um carinho enorme por seus rebentos em papel. E aí estava um filão muito interessante para a frente impressa, algo que os ebooks não poderiam atingir, ainda: a gourmetização do livro.

O que vou chamar daqui pra frente de “livro gourmet” é aquele livro que se vende através da conexão emocional com o leitor. Por isso, livros técnicos e acadêmicos raramente são encontrados em formato gourmet, sendo grandes amigos dos formatos digitais (quem nunca usou o torrent que atire a primeira pedra). O livro gourmet é voltado para as histórias.

Mas como se cria um livro gourmet e por que ele faz tanto sucesso?

Tudo começa quando uma legião de fãs cria uma cultura em volta da obra. Por exemplo, fãs de Star Wars se reúnem para simular batalhas com sabres de luz e discutir sobre os mistérios da Força. Fãs de Game of Thrones se reúnem para analisar árvores genealógicas gigantescas e definir qual é a melhor casa de Westeros de uma vez por todas. E de repente todo mundo tatuou as Relíquias da Morte. Justamente pela obsessão em absorver e colecionar todos os aspectos da história, os jovens e os geeks são o público mais afetado pelo livro gourmet. Lembrando que muito da repercussão de uma obra, hoje em dia, só acontece graças à internet, nos fóruns, sites especializados em literatura e redes sociais. Mais uma prova que analógico e digital nasceram para andar de mãos dadas.

Público chegando para a New York Comic Con - foto por David McGlynn

Público chegando na New York Comic Con – foto por David McGlynn

Quando se tem uma cultura pronta, basta “agregar valor ao camarote” vendendo um livro que signifique mais pro leitor do que palavras já queridas postas em papel. Ofereça algo que ele jamais poderia conseguir num arquivo digital. Já estamos até ficando acostumados com a expressão “edição de colecionador”.

Que tal esses boxes do Harry Potter?

Submarino.com - Reprodução

Submarino.com – Reprodução

Ou esses boxes de Game of Thrones? O segundo na foto custa a bagatela de R$600 reais, em média. Mais ou menos o preço dos seus olhos banhados em ouro…

Submarino.com - Reprodução

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Ou a coleção Word Cloud Classics da Canterbury Classics, de grandes clássicos em capas emborrachadas com frases em alto relevo, que faz os olhinhos de qualquer um (incluindo os meus, principalmente os meus) brilharem de emoção?

http://blog.thunderbaybooks.com/ - Reprodução

http://blog.thunderbaybooks.com/ – Reprodução

E se antes existia uma via de mão única que adaptava livros para cinema e televisão, agora temos uma prazerosa corrente de “expansão dos universos” também para o mundo literário. Afinal, quem lê o livro quer ver o filme, mas quem vê o filme também pode se interessar pelo livro. Onde existe uma cultura de fãs, existe um livro gourmet para não deixar a gente na saudade.

Nos seriados…

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Nos jogos…

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Nos filmes…

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Outra coisa bacana é o surgimento de livros para complementar os conhecimentos dos fãs sobre determinado assunto. Basta ver a quantidade de livros “por dentro de…”, “entenda os segredos de…” ou “os bastidores de…”. A Leya fez um trabalho ma-ra-vi-lho-so em O Mundo de Gelo e Fogo, onde os autores Elio M. García, Jr. e Linda Antonsson, com a ajuda do próprio Martin, registram toda a história de Westeros antes da queda dos Targaryen. O livro é conduzido do ponto de vista de vários meistres, como uma compilação histórica, com ilustrações de cair o queixo e um acabamento perfeito. Não tem fã que resista.

Submarino.com - Reprodução

Submarino.com – Reprodução

Por último, sempre que um livro é adaptado para o cinema, podemos esperar sem medo de errar, a chegada de uma edição com a capa do filme. Essas capas criam uma nova identidade para o livro e ainda atraem mais leitores, pessoas que assistiram ao filme e reconhecem seus atores favoritos. Outro efeito fantástico: o crescimento da expressividade do HQ nas vendas de artigos impressos, impulsionado pelos lançamentos cinematográficos da Marvel e DC. Definitivamente, os quadrinhos saíram daquele cantinho escondido no fundo das livrarias e conquistaram as vitrines.

Submarino.com - Reprodução

Submarino.com – Reprodução

O fenômeno da gourmetização pode parecer, à primeira vista, uma coisa ruim. Publicações feitas apenas visando o lucro e sem nenhum teor inovador. Mas, na verdade, trazem aprofundamento ao universo da história, garantindo que os fãs não percam o interesse. Além disso, ajudam a criar novos leitores. Se você lê os livros sobre sua série favorita e se apaixona por eles, existe uma probabilidade bem grande de pular pra outra história, similar ou não.

O livro gourmet está dando uma força importante para que o livro impresso continue vivo no mercado e para que nunca seja considerado uma mídia ultrapassada. E quem sai ganhando somos nós, leitores, que esperamos pela Black Friday com a mesma animação de uma criança esperando o Natal.

PS: Esse fenômeno gourmetizador também está atingindo outros produtos afetados pela popularização da internet. O mercado de Blu-Ray, amedrontado pelos torrents da vida, anda especializado em lançar coleções gourmet. Basta ver esse box de colecionador dos filmes do Harry Potter, de fazer qualquer criancinha chorar (inclusive as maiores de 18 anos):

Amazon - Reprodução

Amazon – Reprodução

Nada se cria, tudo se copia
Previsões 2015 de Mark Coker sobre a Indústria Literária

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