Sobre Lobo de Rua e meu encantamento com o tal do lobisomem

Quando Lobo de Rua foi publicado de forma independente, em 2015, eu já ouvia falar da Janayna P. Bianchi nos grupos de literatura que acompanhava pelo Facebook. Cheguei até mesmo a baixar o ebook numa promoção da Amazon. Só que ele acabou pegando poeira, perdido no limbo eterno das leituras pendentes. Era algo que sempre ficava para depois.

De lá pra cá, Lobo de Rua mudou de mãos, sendo relançado pela Dame Blanche (que anda fazendo um trabalho lindíssimo, diga-se de passagem). Também tive a oportunidade de conhecer a Jana – olha só a intimidade – e de trocar várias figurinhas sobre escrita com ela. E quanto mais a gente conversava, mais eu percebia que já passava da hora de reparar meu deslize: a Jana claramente era alguém que saberia fazer jus aos lobisomens.

Fonte: Dame Blanche – Reprodução

Sempre tive uma predileção por essas figuras folclóricas. Talvez por influências da infância, quando eu torcia pro Van Helsing ou pelos lycans de Anjos da Noite na velha dicotomia entre vampiros e lobisomens. Afinal, se é pra romantizar um monstro, que seja alguém que saiba apreciar o valor de um bom cafuné atrás da orelha.

Essa dualidade, morcegos contra lobos, é bastante justificada. Não poderia haver um extremo maior entre as duas criaturas. Enquanto o vampiro se encontra num estado de semi-existência, sobrevoando as emoções sem realmente senti-las, para os lobisomens é como existir dobrado. As duas coisas assustam. O vampiro simboliza a nossa desconexão física, a dormência do estado humano e a frieza, enquanto o lobisomem é o símbolo da conexão homem-natureza, dos instintos primitivos e dos rompantes calorosos de fúria. Vampiros estão distantes e licantropos estão…bem, perto demais. E meu coração sempre pendeu para esse lado da força.

Pensando bem, isso talvez explique porque meu herói favorito é o Wolverine…

Fonte: Tumblr – Reprodução

Porém, por mais que lobisomens tenham recebido espaço na literatura recente, é difícil encontrar quem saiba abordá-los em sua forma visceral, que enxergue a licantropia pelo que ela realmente é: uma maldição. Promovidos ao inesperado patamar de símbolos sexuais, os lobisomens deixaram seus instintos de lado e viraram galãs de novela das seis que por acaso também andam de quatro.

Não que exista algum problema com o lado erótico da coisa (taí a Gail Carriger que não me deixa mentir, né mesmo?), mas é preciso garantir que lobisomens mantenham sua essência. Então sempre busco por personagens com comportamentos bestiais e realistas, que façam sentido no mundo animal. Em resumo, para escrever sobre lobisomens, é preciso entender bastante sobre bicho, dominância e linguagem corporal.

Fonte: Tumblr – Reprodução

A Jana entende.

Fiquei feliz demais em encontrar pequenos detalhes aqui e ali ao longo do texto, coisas que fazem a diferença para quem procura aquele comportamento típico das alcateias (pessoas que acompanham a newsletter sabem que sou a louca dos documentários do Discovery Channel). Um abaixar de cauda, um ganido na hora certa, uma cabeça que se levanta rápido demais, tudo muito bem encaixado. Com a companhia dos lobisomens que eu tanto queria ver, a leitura de Lobo de Rua fluiu que foi uma beleza.

Pra começar, vamos falar sobre a escrita da Jana. Dá pra notar logo de cara que ela se preocupa bastante com a forma do texto, com a metalinguagem. Não é à toa que nosso protagonista se chama Raul: além de ser ‘luar’ ao contrário, o que já seria uma profecia nefasta para um futuro lupino, o nome também carrega a sonoridade próxima de um uivo, ou mais precisamente de seu equivalente em inglês, ‘howl’. A narrativa também se preocupa com os maneirismos e gírias dos personagens, visando, juntamente com uma ótima pesquisa, tornar a cidade de São Paulo parte indispensável da história. Lobo de Rua é um ótimo exemplo de como casar mitologia e cenário: a lenda continua a mesma, mas se adapta para comportar a cidade e continuar fazendo sentido (já havíamos discutido isso aqui). A Jana também utiliza a escrita para passar o tom da história: as palavras são cruas, explícitas e sem nuances, indo sempre direto ao ponto.

(Queria dar um destaquezinho para a cena da menina do ônibus. O namorado abusivo dela é classificado como ‘um cachorro’. Não acredito que a palavra esteja lá apenas por coincidência…)

Cachorro,eu? Fonte: Tumblr – Reprodução

A única escorregadela é o uso constante do diminutivo, que às vezes tira a carga dramática do momento.

E então temos Raul, esse menino de rua que não faz ideia do que está acontecendo com seu corpo a cada lua cheia. Em vários trechos, senti que o personagem tinha muito do Will, de Fronteiras do Universo (o que é um puta elogio, acreditem), embora eu não saiba ao certo explicar porque. O fato é que tomei um susto quando o texto mencionou as empreitadas amorosas do rapaz: como que um garoto tão novinho tem uma vida sexual ativa desse jeito, meu Deus?

Mas aí eu fiz a conexão: Raul é homem. É homem porque nas ruas a infância é curta. Raul é homem por fora e menino por dentro, e achei de uma sensibilidade incrível o modo como o livro nos mostra isso pouco a pouco. Gosto de histórias que fazem esse tipo de denúncia, que trazem reflexão sem ficar com cara de documentário. A informação está lá, e você digere um pouquinho a cada página. Me veio logo à mente o poema do Manuel Bandeira.

Fonte: casadobruxo.com.br – Reprodução

Até porque, embora a temática seja lobisomem, Lobo de Rua não é sobre lobos, mas sim sobre pessoas. Sobre essa metáfora de maldição e todo o sofrimento associado. Todos os personagens carregam um pouquinho desse viés trágico, principalmente Raul, Tito e a cigana.

A ideia de tornar a licantropia uma doença sexualmente transmissível é uma ótima cartada. Novamente, ajudará a casar lenda e realidade com o contexto brasileiro, além de fazer um paralelo interessante com o arquétipo do “lobo mau”. E olha, se você acha que Lobo de Rua é uma história triste, vai se surpreender com a quantidade de risadas que vão surgir na cena em que Tito explica a Raul como funciona o contágio.

(A Jana se baseou bastante na obra “O Último Lobisomem“, de Glen Duncan, para compôr seu universo. Fica aí a dica de leitura.)

Licantropia como doença/maldição. Fonte: DeviantArt @remarin-dafqn8o – Reprodução

Por falar nisso, as notas que abrem os capítulos funcionam muito bem. Sendo curtas e desvinculadas do enredo, elas dão informação suficiente para que o leitor compreenda a história sem que este seja soterrado por uma avalanche de worldbuilding. É muita mitologia pra construir em tão pouco espaço. Os trechos do Novus Codex Versiopelius conseguiram resolver o problema.

E se o protagonismo do livro parece ser apenas de Raul, a cada página torna-se evidente o crescimento de Tito. O alfa conquista com honrarias seu espaço no enredo, sua complexidade tão bem explorada quanto a do jovem aprendiz.

Lobo de Rua é competente em te fazer sentir as sensações dos personagens. O que deixa sempre um gosto agridoce na boca, ainda mais considerando o clima escatológico do texto. Eu juro que não sei o que é mais dolorido de assistir: o desespero do mais novo ou a aceitação passiva da dor por parte do mais velho. Mas creio ficar com a segunda opção. Tito é especialmente beneficiado pelas cenas de transformação. Ver aquele ser de duzentos anos se encolher e aceitar um sofrimento tão grande é de partir o coração. Aliás, essa é outra coisa que gosto muito nos lobisomens: apesar de serem praticamente indestrutíveis, a licantropia também significa ter uma vulnerabilidade emocional gigantesca.

Fonte: Vanity Fair – Reprodução

Enfim, acho que minha maior ressalva em relação à história é o fato de ela ter acabado tão cedo. Uma centena de páginas é muito, muito pouco, e Lobo de Rua termina sem deixar uma sensação de conclusão. O que é ótimo para um livro cujo papel é ser porta de entrada para o universo da Galeria Creta (núcleo central dos trabalhos da Jana), mas bastante ruim para uma leitora encantada por lobisomens. Faltou água nesse feijão.

E como sou a maluca da “experiência de leitura como algo mais que só ler palavras”, queria parabenizar a Dame Blanche pela qualidade da edição. Não sei se foi algo planejado, suspeito que não, mas a silhueta de lobo a cada capítulo me deixou fascinada: ao passar a página no Kindle, a tela sempre dá uma tremidinha e exibe um “fantasma” em contraste invertido da última página lida. A coisa dura uma fração de segundos, mas achei muito legal ver aquele lobo piscando fantasmagoricamente pra mim. Combinou muito bem com o clima do livro. Aliás, que ilustração linda! Sempre acho que a silhueta do lobo também parece uma lua cheia por trás das árvores, mas pode ser que eu esteja apenas hiper-poetizando a coisa toda, haha.

No mais, fica aí a indicação de uma excelente fantasia urbana ambientada em território nacional. Para quem gosta de São Paulo, narrativas cruas e lobisomens extremamente bem caracterizados, a obra da Jana é um prato cheio (de carne).

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