Locke Lamora – nosso malvado favorito

O texto a seguir pode conter spoilers de: As Mentiras de Locke Lamora. Depois não diga que eu não te avisei…

Quando eu era criança, não me importava muito com o tipo de lição que um livro poderia me ensinar ou com quais aprendizados poderiam surgir de uma história. Eu apenas desejava que o enredo me cativasse, que me fizesse rir e querer participar da aventura junto aos personagens. Me sentir no meio da ação. Lógico que eu acabaria aprendendo várias coisas úteis no caminho, mesmo que inconscientemente, mas este não era o objetivo principal.

Com o tempo, comecei a focar mais em livros que continham críticas a algum aspecto social ou ideológico, que mostravam novos pontos de vista ou culturas. Abria exceções apenas para os romances de época (um efeito colateral de quem lê Jane Austen) e para os épicos de fantasia/cavalaria (me pergunto até hoje o que diabos vi em Eragon).

Mas aí dei de cara com As Mentiras de Locke Lamora, primeiro volume da série Nobres Vigaristas do Scott Lynch. E pude lembrar como é bom poder se perder de vez em quando nas páginas de uma boa história. De virar criança de novo. E de ter um novo malvado favorito.

Fonte: http://www.shinykittenstickers.com - Reprodução

Fonte: http://www.shinykittenstickers.com – Reprodução

Pra começar, você não vai aprender nada grandioso em As Mentiras de Locke Lamora. Embora tenha sim aspectos bem bacanas, principalmente sobre a desigualdade social, distribuição de renda e independência feminina, o propósito do livro não é esse. Mas sabe aquele sentimento de quando, apesar de apreciar profundamente todos os filmes clássicos e vencedores de prêmios, você quer mesmo é passar uma tarde rindo e comendo pipoca com Piratas do Caribe? Simplesmente pelo prazer de viver uma aventura? Pois é, esse livro é sobre isso.

A história conta a trajetória de Locke Lamora e seus comparsas, os Nobres Vigaristas, um habilidoso grupo de ladrões especializados em roubar dos mais afortunados. Quando um misterioso assassino começa a agir na cidade de Camorr, Locke precisará de toda sua inteligência e dissimulação para sobreviver e proteger seus amigos.

Acho que o sucesso de Scott Lynch em criar uma obra tão divertida e que mantém o leitor entretido do início ao fim pode ser atribuído a dois fatores:

1) Habilidade escrita

Em suas experiências profissionais anteriores, Lynch foi escritor freelancer, trabalhando na criação de RPGs. Toda essa vivência provavelmente o ajudou a criar um estilo narrativo muito bom com os arcos dramáticos.

A própria estrutura do livro ajuda a criar o clima de mistério e tensão, graças aos interlúdios alternados a cada capítulo. Os interlúdios acompanham uma linha temporal anterior ao plot principal, trazendo pequenos recortes do passado que ajudam a entender a motivação dos personagens, construir a identidade cultural da cidade de Camorr e deixar pequenas pistas sobre o mistério que Locke precisa desvendar.

Mapa de Camorr Fonte: www.scottlynch.us - Reprodução

Mapa de Camorr Fonte: www.scottlynch.us – Reprodução

Esse é um recurso valioso para Lynch: o universo criado por ele possui muitos detalhes e o passado é crucial para que a história faça sentido. Apresentar toda essa informação de imediato só serviria para confundir o leitor e deixar alguns mistérios muito óbvios. Os interlúdios se tornam o carro chefe do clima de suspense.

Scott Lynch também criou diversos termos dentro de sua cultura. Os meses do ano, as horas do dia, os diversos bairros, profissões, bebidas, todos com sua própria nomenclatura. Um trabalho linguístico fantástico, já que as expressões possuem uma sonoridade comum, indicativa de uma única cultura. A coisa toda ficou bem real, me lembrando, dadas as devidas proporções, do cuidado que o próprio Tolkien empregava na criação de seus vocábulos. Não são apenas sílabas aleatórias escolhidas ao acaso (uma coisa que me incomoda bastante em Maze Runner, por sinal).

Além de pertencerem a uma raiz comum, as palavras também são apresentadas de forma tão inteligente pelo autor que dispensam explicações. Lynch raramente nos diz a tradução literal de um vocábulo, e ainda assim a leitura não é prejudicada. O contexto faz com que ela seja interpretada. Achei bem impressionante a maneira como as estações e meses são contabilizados, de uma forma totalmente estranha mas perfeitamente intuitiva para mim.

(E quanto à edição brasileira, a equipe de tradução está de parabéns.)

Por último, a grande presença de espírito de Scott em batizar lugares e personagens com um artístico tom de deboche é algo a ser admirado. Um torturador chamado Sábia Gentileza e um deus dos ladrões chamado Guardião Torto são conceitos que me fazem rir até hoje.

2) Distorção do épico tradicional  

Tudo bem, a habilidade de escrita de Lynch é de fato inquestionável. Mas isso não garante uma boa história. O que torna As Mentiras de Locke Lamora tão empolgante?

Talvez seja simplesmente o fato de termos uma história épica que não siga os estereótipos épicos.

Em seu livro, Lynch faz uma quase releitura de Robin Hood: um ladrão que rouba dos ricos para distribuir entre os pobres. Se este arquétipo já traz em si uma contradição moral (roubar não é uma atitude correta, apesar das boas intenções), os Nobres Vigaristas vão um passo além. Locke e seu bando roubam pelo simples prazer de roubar e trazer um pouco de desordem ao mundo dos aristocratas de Camorr. Cada centavo roubado é estocado em cofres e serve para sustentar a confortável vida dos ladrões e financiar seus futuros golpes cada vez mais ousados.

Mas a crença em estar fazendo a coisa certa é tão forte e seu código moral tão bem definido (de um jeito torto, é verdade, mas perfeitamente racional), que não conseguimos enxergar os Nobres Vigaristas como outra coisa além de heróis. Ou pelo menos, homens de bom coração. É impossível olhar para Locke, Jean, Calo, Galdo ou Pulga e não reconhecer a lealdade, justiça e amizade com que convivem. Ou, como li outro dia numa resenha sobre esse livro: “Mentir nunca foi tão épico”.

Os Nobres Vigaristas Fonte: Tumblr - Reprodução

Os Nobres Vigaristas Fonte: Tumblr – Reprodução

É mais ou menos o que sentimos em Piratas do Caribe. É meio impossível não torcer pelos piratas, mesmo que eles estejam ali só para saquear tesouros e infringir leis. Sabemos que é errado, mas entendemos que o contexto social onde os personagens foram criados exige uma forma de conduta diferente do usual, por uma questão de sobrevivência. E Locke e seus amigos conseguiram se tornar pessoas incrivelmente decentes dentro desse cenário. O que traz uma certa dose de charme ao grupo. Quando o ladrão é mais honrado que o “cidadão de bem”, criamos opções interessantes para o enredo.

Gostei também da caracterização de personagens e cenários. Lynch desvia dos estereótipos do herói e do anti-herói. Locke consegue ser as duas coisas, ter defeitos e qualidades incríveis. Não possui os atributos do grande guerreiro épico (muito pelo contrário), mas também não consigo enxergá-lo como o problemático personagem em busca de redenção. Locke é apenas…real. Uma mente astuta tentando sobreviver, cumprir missões e proporcionar uma vida confortável para si e para os companheiros, os quais devotamente encara como família. Quanto ao cenário, não poderia ser mais propício para a quebra do épico. Ao invés da típica ambientação medieval, temos uma cidade apertada, marginalizada e repleta de canais e esgotos que reforça o ar gatuno, aquela atmosfera de Casanova pelos telhados de Veneza. Não espere ver cenas grandiosas de batalha ou cavalgada. É mais fácil ver Pulga se jogando de um prédio e caindo de cara num amontoado de lixo…

Outro trunfo de Scott Lynch é saber lidar com o conflito de interesses. Enquanto boa parte dos épicos junta todos os personagens em volta de um objetivo comum (que geralmente é ajudar o herói em sua missão benevolente), cada habitante de Camorr possui suas próprias ambições e demônios interiores. Até mesmo o Rei Cinza, no papel de antagonista, possui motivos tão claros que é difícil não lhe creditar um pouco de razão. Não se trata de uma luta do bem contra o mal, apenas conflito entre necessidades, onde alguém precisa prevalecer. Correntes, Barsavi, Nazca e Dona Vorchenza são mais exemplos da intrincada teia de motivações criada pelo autor.

(Minha única crítica ao enredo foi a explicação do plot do Rei Cinza. Achei que o hype criado em torno dele foi muito maior do que um motivo tão óbvio como a vingança direta pelo assassinato da família. Era uma coisa que eu já imaginava e esperava sinceramente que o livro me surpreendesse com algo imprevisto.)

As Mentiras de Locke Lamora também inova com a ideia de que pessoas habitam cidades construídas séculos atrás por uma raça desconhecida. Achei o paradigma inusitado, pois estamos acostumados a imaginar apenas quais civilizações poderiam viver alojadas em nossa própria ruína. O conceito da raça humana ter sido “a que chegou no fim da festa” e a que não sabe absolutamente nada sobre o planeta é bem interessante.

Por último, gosto como Lynch cria momentos bonitos que evocam o espírito épico, mas trata de enterrar logo a coisa antes que nos suba à cabeça. Como quando Conté e Lorenzo finalmente acreditam em Lamora e se oferecem para ajudar num momento de perigo, uma atitude honrada e que quase nos lembra dos Três Mosqueteiros…só para serem cortados e trazidos de volta à realidade por Locke:

“ – Se for perigoso, eu vou também – emendou Lorenzo.

– Eu também – falou Conté.

– Ótimo! Podemos ir todos! Vai ser uma diversão! – Locke acenou em direção à porta com as mãos amarradas. – Mas, porra, pelo amor dos deuses, vamos logo com isso.”

Enfim, Scott Lynch definitivamente foi uma agradável surpresa na minha estante. Não é a toa que o próprio Patrick Rothfuss (A Crônica do Matador do Rei) é fã do colega. E para quem também gostou da obra, o segundo e terceiro volumes da série (Mares de Sangue e República de Ladrões) já estão à venda.

(A Warner também adquiriu os direitos para produzir um longa baseado nos livros. Vamos ver no que vai dar…)

Fonte: kejablank.deviantart.com - Reprodução

Fonte: kejablank.deviantart.com – Reprodução

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