Mas e o tal steampunk?

Brian Kesinger - Reprodução

Brian Kesinger – Reprodução

Vejo muita gente interessada no termo steampunk ultimamente. Mas apesar do tema estar ganhando espaço nas livrarias e no gosto popular, poucas pessoas realmente conhecem suas bases históricas.

O steampunk surgiu como um subgênero literário, uma das ramificações da ficção científica. Suas narrativas abordam universos alternativos onde a tecnologia é muito mais avançada do que a disponível para a época. Mais ou menos como vemos nos Flinstones. Porém, o steampunk, como já sugere o nome, foca sua atenção para a era do motor a vapor, o auge do período vitoriano britânico, entre 1837 e 1901.

O Goodreads define o steampunk através do slogan “Como teria sido o passado se o futuro tivesse acontecido mais cedo”. Ou seja, invenções modernas como robôs, computadores, submarinos e radares funcionariam à base de vapor, óleo, engrenagens, alavancas e carvão. Por isso, podemos chamar o estilo de “retro-futurista” (palavrinha contraditória essa, eu sei). No gênero steampunk, o vapor se consolida com tanta força como a principal fonte de energia que não sobra muito espaço para o desenvolvimento da eletricidade. O que não impede que a ciência esteja em pleno auge criativo.

Onde tudo começou

Existe uma unanimidade ao concordar que os primeiros escritores a idealizar o steampunk foram Julio Verne e H.G. Wells. Apesar de os autores não fazerem a mínima ideia de estar contribuindo com o estilo (o termo steampunk ainda não havia sequer sido criado, e tanto Julio Verne quanto H.G. Wells são classificados apenas na área da ficção científica), é possível observar muitas das características do gênero em seus trabalhos. No livro Vinte Mil Léguas Submarinas, de 1870, Verne nos apresenta o Náutilus, um submarino incrível completamente independente, capaz de permanecer na água com sua tripulação por tempo indeterminado. O escritor precisou se virar com a tecnologia que existia à disposição na época para criar uma descrição convincente do Náutilus. E não só ele saiu com esse ar de engenhoca do Professor Pardal como foi capaz de profetizar várias invenções que viriam a surgir nas próximas décadas.

Náutilus - Fonte: http://bit.ly/1aeYW5f

Náutilus – Fonte: http://bit.ly/1aeYW5f – Reprodução

Invenções previstas por Julio Verne - Fonte: http://beautiful-grotesque.blogspot.com.br/2013/02/fabulous-worlds-of-jules-verne.html  - Reprodução

Invenções previstas por Julio Verne – Fonte: http://beautiful-grotesque.blogspot.com.br/2013/02/fabulous-worlds-of-jules-verne.html – Reprodução

Alguns anos depois, outros autores surgiram com histórias similares. Em 1980, K. W. Jeter criou o termo steampunk, quando procurava uma classificação que compreendesse seu trabalho em Morlock Night e o dos colegas Tim Powers e James Blaylock. Assim, em uma carta para a revista Locus, Jeter escreveu:

Personally, I think Victorian fantasies are going to be the next big thing, as long as we can come up with a fitting collective term for Powers, Blaylock and myself. Something based on the appropriate technology of the era; like ‘steam-punks’, perhaps. (Pessoalmente, acho que fantasias vitorianas serão a próxima moda, desde que possamos achar um termo coletivo para Powers, Blaylock e eu. Algo baseado na tecnologia apropriada da época; como ‘punks-do-vapor’, talvez.)

A classificação estava oficialmente criada, mas o gênero ainda precisava evoluir muito, e apesar de ter criado a palavra, Jeter deu pouca atenção ao assunto. Só com o passar do tempo o movimento ganharia força e chamaria a atenção do mercado.

Entendi sobre o vapor, mas e o punk?

Se a parte do steam é fácil de entender, o mesmo não pode ser dito do punk. Muito se especula sobre o uso dessa terminologia. Em primeiro lugar, o gênero tem como um de seus ancestrais o cyberpunk, trazendo a visão de mundos distópicos e pós-apocalípticos. Isso já traria algum sentido para o uso do sufixo.

No entanto, defende-se que o punk está mais associado ao fato de que o estilo desafia as convenções sociais por meio da criatividade. Seus personagens estão sempre afirmando sua individualidade através de seu estilo, invenções e modo racional de pensar ou agir. Na trilogia Fronteiras do Universo, por exemplo, Philip Pullman coloca diversos paradigmas religiosos sob questionamento. O próprio Vaticano criticou duramente sua obra, gerando diversas polêmicas.

Aletiômetro, artefato das histórias de Pullman - Fonte: http://pt-br.fronteirasdouniverso.wikia.com/wiki/Aleti%C3%B4metro

Aletiômetro, artefato das histórias de Pullman – Fonte: http://pt-br.fronteirasdouniverso.wikia.com/wiki/Aletiômetro – Reprodução

Muitos admiradores do gênero criticam o fato de que, após alcançarem um bom volume de vendas, as histórias tenham diminuído consideravelmente sua proposta punk. Os fãs mais conservadores acusam os livros steampunks recentes de serem apenas um apanhado romântico dos costumes vitorianos e de algumas engenhocas interessantes.

O steampunk hoje

O que era apenas um gênero literário underground extrapolou as páginas dos livros e se tornou uma cultura e estilo de vida. O steampunk está presente na moda, no cinema, no teatro, nos videogames, na pintura e em várias outras áreas. Existem até conferências de fãs e artistas especialistas no tema, como o ilustrador Brian Kesinger (autor da primeira imagem deste post). Recentemente, a adaptação cenográfica de Sherlock Holmes, estrelando Robert Downey Jr, carregou nos detalhes steampunks das imagens, tanto no figurino como no excêntrico aparelhamento científico e investigativo presente na casa do detetive. A própria Disney apostou no conceito em seu longa de animação, Atlantis.

Steampunk - Fonte: Pinterest - Reprodução

Steampunk – Fonte: Pinterest – Reprodução

E parece que Jeter estava mesmo certo no fim das contas: o steampunk está virando a moda do momento, com características bem específicas e facilmente reconhecidas. Existem até alguns “lugares-comuns” que você pode utilizar para identificar se uma obra tem ou não referências ao gênero, mesmo que ela não pertença inteiramente ao estilo. Como por exemplo o fascínio que o steampunk parece ter por dirigíveis, balões e outras aeronaves, o arquétipo do inventor (roupas de couro e camadas de tecido, com botões, bolsos e fivelas, geralmente apresentado com óculos, chapéu e bigode), ou a utilização de objetos que remetem à era vitoriana, como leques, bengalas, chaves de ferro, relógios de parede ou xícaras de porcelana.

Um ponto interessante a observar é que o steampunk parece trazer em seu íntimo a tendência do DIY (faça você mesmo), nos convidando a usar a cabeça e arregaçar as mangas para criar as ferramentas de que precisamos. Num mundo onde as pessoas dependem cada vez mais de tecnologias que não compreendem para realizar atividades simples do cotidiano, é um alívio ver alguém construir algo com suas próprias mãos. No steampunk, o indivíduo se torna agente transformador do universo, independente de dinheiro ou de acesso à laboratórios de ponta, precisando apenas contar com seu potencial criativo e com algumas partes avulsas encontradas num ferro-velho.

Se você deseja conhecer o gênero ou se aprofundar no assunto, o Goodreads tem uma lista com os livros mais populares na categoria steampunk, muitos já disponíveis no mercado brasileiro.

E falando em terras tupiniquins, os romances de maior destaque nas livrarias daqui são Leviatã (Scott Westerfeld), A Bússola de Ouro (Philip Pullman) e A Corte do Ar (Stephen Hunt).

Capas - Fonte: Skoob - Reprodução

Capas – Fonte: Skoob – Reprodução

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