Minha conciliação com Ursula K. Le Guin

Não dá pra falar sobre fantasia sem acabar esbarrando na Ursula K. Le Guin.

Fonte: Huffington Post – Reprodução

Nascida em 1929 nos EUA e tendo como pais um antropólogo e uma escritora, Ursula começou a escrever livros aos 9 anos de idade. Publicou vinte e dois romances, onze antologias de contos, quatro coleções de ensaios, doze livros infantis, seis de poesia, quatro de traduções e  já ganhou todos os prêmio importantes de literatura fantástica que você possa imaginar. Seu trabalho influenciou diretamente caras como Neil Gaiman, George Martin, Patrick Rothfuss, Joe Abercrombie e Brandon Sanderson. Longe de se aposentar, a autora ainda é voz ativa na comunidade de fantasia, contribuindo com seus ensinamentos e opiniões acidamente bondosas.

Em resumo, Ursula Le Guin é mesmo essa coca-cola toda.

Mas olha só que vergonha: apesar de já ter lido fervorosamente um monte de suas entrevistas, resenhas e ensaios, eu nunca havia realmente sentado pra ler um de seus livros. Eu, a fervorosa defensora das mulheres que escrevem fantasia, nunca havia lido Ursula Le Guin. Eu, a fangirl do Neil Gaiman, não tinha lido nada da autora que – palavras dele – incutiu o conceito de magia em sua cabeça. Feio da minha parte, né? Tava mais do que na hora de mudar isso.

O escolhido foi O Feiticeiro de Terramar. Escrito em 1967, o livro que trata da infância e juventude do mago Ged só chegou ao Brasil no ano passado, pelas mãos da Editora Arqueiro. Ele é o volume de abertura do Ciclo Terramar e é também a primeira experiência de Ursula com o público adolescente.

Bem, eu havia planejado para hoje uma despretensiosa resenha do livro, com elogios, análises e possíveis previsões para o futuro da série. Só que…no meio do caminho havia uma pedra.

Nunca me passou pela cabeça que eu pudesse não gostar de algo da Ursula. Ora, seus ensaios sempre me deixaram com o coração quentinho, e se o Neil Gaiman a admira como escritora, quem sou eu na fila do pão para discordar?


(Saca só o nível de fanboy do garoto)

Iniciei a leitura já certa de que encontraria um caso de amor à primeira vista. Eu ia amar o Ged. Eu ia idolatrar o Ciclo Terramar.

Mas, página após página, esse sentimento de conexão nunca chegava. A história era boa, mas não boa o suficiente para me manter presa à ela. Cada capítulo terminava com uma sensação de dever cumprido e nada mais do que isso. Não havia aquela gana de continuar, de saber o que acontece.

O Feiticeiro de Terramar não funcionou pra mim. E, obviamente, fiquei desolada. Será que eu havia lido errado? Eu seria a única maluca a não gostar de uma das autoras mais aclamadas da atualidade?

Comecei a investigar. Para surpresa geral da nação, comecei a notar que eu não era a única classificando a história como morna. Várias pessoas da minha geração também não haviam comprado a premissa do livro.

Minha primeira suposição foi de que o espaço reduzido da obra (apenas 170 páginas) poderia ter sacrificado um pouco da empatia com os personagens. Afinal, não dava para desperdiçar muitas palavras com reflexões e questionamentos pessoais. A sensação que tive é que Le Guin nos conta a história de um ponto de vista muito distante, de cima, como se observássemos a jornada de Ged através dos olhos de um falcão que sobrevoa Terramar (olha só que metáfora). Nunca me senti realmente ao lado dele, nunca o compreendi como se seus problemas fossem também meus. E, quando não rola essa identificação, a gente não consegue se importar muito com o destino dos personagens…

O Gavião. Fonte: Pinterest – Reprodução

Porém, não creio que espaço seja um problema para Ursula. A escolha direta e sucinta de palavras é uma das características de sua escrita: ela naturalmente evita ser prolixa. Além disso, livros como Stardust e Fahrenheit 451 possuem um número parecido de páginas e ainda assim conseguem deixar todo mundo na pontinha da cadeira.

Achei Ursula muito seca, e isso não tem nada a ver com o estilo de escrita em si: Tolkien também condensa cenas de ação em poucas palavras e sob uma perspectiva de afastamento, mas ainda assim ele consegue prender seu leitor pela beleza poética de seu worldbuilding. Tudo em Tolkien ecoa grandiosidade, e mesmo numa cena simples conseguimos nos sentir fazendo parte de algo maior, de uma criação. Em Mestre Gil de Ham, por exemplo, a narrativa de Tolkien não me agrada. Mas ela me encanta, porque me passa a sensação de estar escutando um conto de fadas em sua forma mais pura, como uma história antiga repetida de boca em boca antes de dormir.

Embora melhore bastante em sua parte final, O Feiticeiro de Terramar não me passou nem grandiosidade nem poesia. Aliás, se formos analisar a questão de worldbuilding… todas aquelas dezenas de ilhas são incrivelmente confusas e (pelo menos para esse primeiro livro) desnecessárias. Você não vai decorar o nome delas, você não vai se apegar a nenhuma delas e ainda vai ter de consultar o mapinha umas trezentas vezes só pra descobrir de que lado do mundo Ged está. O Arquipélago definitivamente não é um dos universos fictícios que eu gostaria de visitar.

Mapa de Terramar. Fonte: Pinterest – Reprodução

Bem, podemos considerar também a data de lançamento do livro. Em 1967, em plena Guerra do Vietnã, a fantasia enquanto gênero para adultos era muito escassa. Se Tolkien capinou o terreno da ficção fantástica, Le Guin foi uma das primeiras pessoas a jogar asfalto sobre o caminho. E a gente precisa compreender que, naquela época, o jeito de contar histórias ainda era bem diferente, baseado sobretudo nas antigas sagas e obras mitológicas. Ainda trabalhávamos com uma fantasia bastante clássica.

Ursula é bem clássica. Prova disso é sua concepção de magia como uma força suprema e sobrenatural e a natureza cíclica do enredo: a ideia de que devemos terminar uma história exatamente onde tudo começou.

O que nos leva a outro ponto: O Feiticeiro de Terramar é um livro revolucionário?

Ursula K. Le Guin é conhecida por seus posicionamentos, filosofias que ela replica e debate em seus livros. Imagine só que, ao publicar The Left Hand of Darkness, a gente teve uma autora, mulher, falando abertamente sobre pansexualidade, papéis de gênero, religião e feminismo numa obra de ficção científica em plena década de 60. E esse texto intitulado “Por que os americanos têm medo de dragões?” é uma das mais incríveis defesas do gênero fantástico, inclusive sob um viés político.

“Porque a fantasia é verdadeira, claro. Não é factual, mas é verdade. As crianças sabem disso. Os adultos sabem também e é precisamente por isso que muitos deles têm medo de fantasia. Eles sabem que a verdade desafia, até ameaça, tudo o que é falso, tudo o que é dissimulado, desnecessário e trivial na vida que eles são forçados a viver. Eles têm medo de dragões porque têm medo da liberdade.
Então que acredito que devemos confiar em nossos filhos. Crianças normais que não confundem realidade e fantasia – eles confundem com muitos menos frequência que nós, adultos (como um certo grande fantasista apontou em uma história chamada A Roupa Nova do Imperador). Crianças que sabem perfeitamente bem que unicórnios não são reais, mas que também sabem que livros sobre unicórnios, se são bons livros, são livros verdadeiros. Muitas vezes isso é mais do que mamãe e papai entendem, pois, ao negar sua infância, os adultos negam metade do seu conhecimento e são deixados com o triste, estéril fato de que ‘Unicórnios não são reais’.”

Fonte: Quotefancy – Reprodução

Então, à primeira vista, é normal que a gente não considere O Feiticeiro de Terramar um livro revolucionário. Ele é bem tradicional em certos pontos: temos Ged, o típico herói em sua Jornada de Herói fazendo coisas de herói, temos a magia sendo controlada pelos homens (e a magia feminina sendo delegada a uma forma inferior de magia) e temos também os dragões malvados que gostam de dormir em cima de grandes tesouros. À primeira vista, não parece que Ursula está nos contando nada de mais.

Porém, lembro de novo: era 1967. Le Guin ainda não possuía uma carreira consolidada e certamente não tinha toda a maturidade que tem hoje. E ainda assim, ela fez com que Ged e quase todos os personagens importantes de Terramar fossem negros ou pardos. Ela criou uma história onde não existem vilões, onde a maldade existe como parte inerente ao ser. Ela criou uma aventura onde o que importa é conhecer a si mesmo. Onde o grande prêmio é a liberdade. Em O Feiticeiro de Terramar, as mulheres possuem voz e não estão esperando um príncipe salvador. Os grandes magos são jovens e fazem burradas. E tudo bem que é preciso ter boa vontade para perceber esses pequenos indícios de rebeldia na história, Ursula os escondeu bem, mas eles estão lá. Nesse contexto, as aventuras do mago Gavião são sim pra lá de inovadoras.

“Agora a fantasia é um nicho de mercado editorial, com muitos títulos, muitas sequências, grandes expectativas de sucessos monstruosos e filmes baseados nos livros. Em 1967, não havia nada disso. Era coisa de criança. […] Quando O Feiticeiro de Terramar foi publicado, não havia nenhum livro como ele. Era original – uma novidade. Ao mesmo tempo, era convencional o suficiente para não assustar os críticos.”

“Sob outros aspectos, minha história não seguiu a tradição. Seus elementos subversivos chamaram pouca atenção, sem dúvida, porque eu fui deliberadamente furtiva em relação a eles. Um grande número de leitores brancos, em 1967, não estava pronto para aceitar um herói de pele escura. Mas eles não estavam esperando por isso. Eu não fiz estardalhaço e você tem que estar bem adiantado na leitura do livro para se dar conta de que Ged, como a maior parte dos personagens, não é branco.”

Isso é tão verdade que numa minissérie de 2004 o Ged ainda é branco, loiro e de olhos claros. Fonte: Top250.tv – Reprodução

Ursula também demonstra um domínio muito bom sobre a simbologia de sua história. O poder que emana dos nomes é uma cartada de mestre: ao mesmo tempo que soa inovador para um sistema de magia, também nos parece familiar e absolutamente coerente, afinal, a importância dos nomes aparece em diversas mitologias e histórias infantis (quem não lembra de Rumpelstiltskin e de Voldemort, que por muito tempo foi Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado?) e não é por acaso que Deus também é conhecido como O Verbo. O poder das palavras está arraigado em praticamente todas as culturas (escrevi um pouquinho mais sobre isso numa edição antiga da newsletter).

Voltando, a terceira conclusão a que cheguei é de que li o livro na época errada. Tanto absolutamente (estamos bem longe de 1967) quanto relativamente (não sou mais uma criança). E tenho pra mim que O Feiticeiro de Terramar é um excelente livro para se ler na infância…

O jeito como Le Guin adapta histórias para crianças diz muito sobre ela.

Quando pequena, Ursula sempre fez parte dos debates de sua família. Com um pai antropólogo e uma mãe escritora, ela tinha acesso a uma diversidade imensa de pessoas e assuntos, filosofias e contradições. Embora não refletisse muito sobre o que ouvia enquanto brincava…ela ouvia. E mais tarde, suas influências seriam reveladas na própria escrita. Em uma entrevista, inclusive, Le Guin confidencia que deve ter decidido escrever sobre magos…ora, porque foi criada por um.

Ursula é  de uma filosofia onde não existem coisas próprias e impróprias para crianças. Uma filosofia que acredita no potencial das crianças para compreender temas complexos. O Feiticeiro de Terramar é duro em alguns momentos. É seco. Ninguém nunca aliviou pro lado de Ged, que sabe perfeitamente ser o único culpado pela sombra que libertou. Vamos conversar sobre morte, sobre dor, arrependimento e soberba. Tudo isso num livro para o público jovem.

Fonte: Gizmodo – Reprodução

“Lentamente fui assimilando a ideia. Será que escrever para crianças mais velhas era tão diferente de simplesmente escrever? Por quê? Apesar do que alguns adultos parecem pensar, os adolescentes são completamente humanos. E alguns leem com tanta intensidade e tanta dedicação que parece que suas vidas dependem disso – e, às vezes, dependem mesmo.”

Essa é uma ideia que muito me agrada, sendo inclusive tema da última edição da newsletter. Acredito que é importante não subestimar as crianças, que tudo depende da abordagem escolhida. Deixe que elas tenham contato com as verdades do mundo, até mesmo as mais dolorosas, desde que elas possam digerir tais informações em seu próprio ritmo. A compreensão virá a seu próprio tempo, assim como demoramos a perceber que Vida de Inseto é uma crítica política ou que A História sem Fim é uma metáfora sobre amadurecimento e fantasia.

Deixe a informação ao alcance da criança e ela a achará quando estiver pronta. Talvez o Feiticeiro de Terramar pudesse ter sido uma maravilhosa porta de entrada para alguns temas caso eu o tivesse encontrado mais cedo.

“- E quanto à morte?
A garota ouvia com atenção, a cabeça preta e reluzente curvada para baixo.
– Para uma palavra ser dita – respondeu Ged – deve haver silêncio. Antes e depois.”

Acho que, no final das contas, é importante ler O Feiticeiro de Terramar. Não como entretenimento, pois dificilmente se tornará um livro favorito, mas como aprendizado, como um marco na História. A obra abriu tantas oportunidades para outros escritores, inspirou tanta gente e falou sobre temas tão profundos, que é impossível ignorá-la. Mesmo que você vá precisar ter um pouquinho de paciência com o Ged…

Bem, é isso. Consegui me conciliar com Ursula K. Le Guin. Agora já posso dormir em paz.

Fonte: The Nation – Reprodução

PS: Leiam o posfácio que acompanha a edição da Arqueiro. Ele ajuda muito a compreender a autora e faz com que você olhe a história com mais carinho. Aliás, recomendo ler o posfácio antes de iniciar o livro. Boa parte das citações deste post foi retirada dele.

PS2: Tenho a impressão de que me daria melhor com outros trabalhos dela, principalmente os mais filosóficos, como seus livros de ficção científica.

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