Mirta Vento Amarelo: fantasia nacional a todo vapor

Quando vi pela primeira vez o André Regal divulgando seu livro no Facebook, sabia que vinha coisa boa. André é uma pessoa que eu acompanho faz tempo, desde os primórdios do TBS. Aliás, se você já se aventurou pelas comunidades de autores iniciantes no Wattpad, é provável que esse nome não lhe seja estranho. Entre debates, algumas participações especiais em podcasts e todos os prêmios Wattys que nunca ganhamos, vira e mexe acabamos por nos esbarrar pelo mundão da internet.

Fonte: Acervo do autor – Reprodução

Lembro de ter lido os três primeiros capítulos de uma de suas obras disponibilizadas online, “A Lágrima de Giius”, e ter me surpreendido com a narrativa madura e envolvente que encontrei. André escrevia pra gente adulta, escrevia sem pudor.  

A grande ironia? Mirta Vento Amarelo, seu romance de estreia no mercado tradicional, é voltado ao público juvenil.

Quando André me convidou para opinar sobre Mirta, aceitei com bastante curiosidade: como ele iria se sair? Como aquele cara, que se bem me recordo falava sobre tripas e malfeitores, se viraria diante de um público mais jovem? Afinal, se o romance havia sido finalista do prêmio Cesgranrio, era sinal de que ele havia achado um jeito.

A resposta veio logo nos primeiros capítulos, me arrancando um sorriso: ele seguiria os passos do mestre, ué. Se tinha alguém que sabia como lidar com cada faixa etária era o Tolkien.

Porém, longe de simplesmente imitar um de seus autores favoritos, André criou um estilo de escrita próprio e facilmente identificável: uma excêntrica mistura entre o lirismo tolkianesco com a irreverência do brasileiro, que acorda cedo pra pegar o busão lotado e ainda arruma motivo pra fazer piada. Em Mirta, é possível encontrar tanto cenas grandiosas, duelos épicos e magia… quanto uma personagem chamada Senhora Fufu.

(Aliás, se você quiser ter uma noção de como funciona o sarcasmo auto-depreciativo do André, sugiro que leia essa entrevista.)

Fonte: Acervo do autor – Reprodução

Minha experiência de leitura com Mirta Vento Amarelo foi uma coisa engraçada. No início do livro, conhecendo a protagonista que dá título à obra, me senti bastante aconchegada, lendo uma história infantil.

Acho bacana quem consegue criar histórias para crianças sem subestimar suas inteligências, sem tornar o texto simples e raso demais a ponto de um adulto não conseguir se encantar. Quando um livro infantil me prende, experimento a deliciosa nostalgia de ouvir uma boa história.

É na narrativa de Mirta que encontramos as maiores ligações com Tolkien – não o Tolkien do Senhor dos Anéis, mas o de Roverandom e Mestre Gil de Ham: as descrições detalhadas, as cenas cotidianas, a sensação de um diálogo encenado e propositalmente exagerado, o mistério simples porém ainda assim interessante.

“- Levei quase toda uma tarde para criar coragem de pedi-la. Sabe o que ele faria se eu a perdesse?
– Pois agora você me fez olhar fundo em meu coração, Winston. E sabe o que eu encontrei lá? Nada. Agora dê o fora.”

(Abrindo uma observação em relação às descrições detalhadas: suspeito que, por culpa do background em teatro e escrita de roteiros, o André peque na descrição das ações dos personagens, escrevendo todo e qualquer movimento, deixando pouco espaço para que o leitor preencha as lacunas. Engraçado que a mesma coisa não acontece em relação às descrições físicas, o que só reforça minhas suspeitas.)

Fonte: Acervo do autor – Reprodução

Mirta é uma personagem irreverente e espevitada, que me lembrou um pouco a jovem Tiffany Dolorida, de Terry Pratchett. Ambas possuem aquele ar banal para resolver as piores ameaças da humanidade com pragmatismo, sem que com isso percam a sensibilidade no processo. É bem divertido acompanhar a protagonista, inclusive, em suas constantes tentativas de mascarar o coração de manteiga.

A sensação que tive no começo foi de que Mirta não deveria ser um livro classificado como juvenil, mas sim como infantil. Não sei, mas o cenário rural, o dragão falante, as desventuras de Cal e Illyina… tudo evocou em mim sensações infantis. Seria o tipo de livro com o qual eu andaria agarrada lá por volta dos meus onze anos, lendo e relendo à exaustão. Cheguei até a pensar que Mirta funcionaria como uma boa porta de entrada para a fantasia juvenil de Tolkien.

Mas isso foi no começo.

O enredo de Mirta Vento Amarelo não é formado por um desenrolar linear de acontecimentos que acompanham a mesma pessoa. Embora as aventuras de Mirta sigam a assinatura da Jornada do Herói, resultando em amadurecimento e auto-descoberta, ela não é o único fio condutor dessa história. Sempre aprecio quando uma problemática é montada a partir das ambições e objetivos pessoais de pessoas diferentes, que não necessariamente se conhecem mas que acabam tecendo juntas a trama. Causas e consequências. Fica ainda mais legal quando as coisas não são apresentadas na exata cronologia, como é o caso por aqui.

Porém, todas as subtramas que acompanham o livro são infinitamente mais adultas e mais obscuras do que a narrativa da protagonista.

Eu estava lá toda aconchegada quando levei o baque. Em determinada cena, envolvendo o Rei Silkai, tive de arregalar os olhos e murmurar: ok, talvez esse não seja um livro infantil afinal de contas…

Fonte: Pinterest – Reprodução

Veja bem, não estou dizendo que livros infantis não possam tratar de temas como violência ou corrupção (escrevi mais sobre isso numa das edições da newsletter). A história de Mirta também tem seus momentos: a cena com sua avó é bastante gráfica, e fica bem claro a exploração do Sr. Joarque em relação aos funcionários da fazenda.

Mas existe um limiar tênue em relação à ótica da cena: podemos descrever uma mesma violência de várias formas. E são as subtramas de Mirta Vento Amarelo que possuem os momentos mais perturbadores.

Isso é um problema? De forma alguma, taí a Gillian Flynn que não me deixa mentir. Foram as subtramas, inclusive, que mais me mantiveram imersa na narrativa, ansiosa por virar a página e saber o que aconteceria. Fui pega de surpresa várias vezes (ai, Nil…), temi pelos personagens e só realmente me dei conta da resolução do mistério aos 45 do segundo tempo. Acho que o núcleo de Nil, sobretudo em suas interações com Hillel e Labal, conseguiu se manter de pé sem dever em nada ao núcleo principal.

“Nil respirou fundo e arriscou:
– Adequado para acampamento.
Hillel manteve-se inexpressivo.
– O que mais?
Ande, Nil, idiota. Diga logo que não vê qualquer indício de atividade animal. O que tem a perder? Se acertar, pode começar a ganhar certo respeito do comandante.”

Porém, minha crítica fica em relação à disparidade de atmosferas: o livro segue como uma montanha-russa, hora me carregando quentinha para ouvir uma história infantil, hora me atirando no meio da batalha com uma espada de madeira na mão. A narrativa da protagonista funciona bem, a narrativa dos soldados em missão funciona bem, a narrativa de Gherda e o Rei funciona bem… mas elas não combinam perfeitamente enquanto unidade.

A sensação é a de que as subtramas vieram como composições posteriores ao enredo principal, como um encaixe entre trechos de estilos diferentes. Acabaram destoando. Não tanto para me incomodar enquanto leitora, mas o suficiente para que eu não saiba classificar o livro em matéria de faixa etária.

Fonte: Vitamina L – Reprodução

Talvez uma criança, que pudesse se encantar genuinamente por Mirta e sua carroça metálica, não estivesse pronta para absorver a complexidade da história. E talvez um adolescente, naquela fase onde se tem sede de batalhas sangrentas e momentos emocionantes, não estivesse suficientemente atento para contemplar a poesia, o lúdico. No final das contas talvez o André tenha escrito um livro para adultos nostálgicos, então eu não sei de mais nada… 

(Estou feliz por ter lido enquanto adulta e ter aproveitado o melhor dos dois mundos.)

Outro ponto que me colocou a pensar foram os desafios enfrentados por Mirta em sua jornada. Eu gosto de quase todos eles porque o André soube amarrá-los de forma a tornar a coisa cíclica: tudo termina onde começa e todo mundo aparece uma segunda vez, reforçando aquela ideia de causalidade. É elegante. Mas tem um desafio específico, sobre dois meninos gêmeos, que destoa da fórmula. Não sei se foi desatenção minha, mas não lembro de vê-los contribuindo para o andamento do livro. Toda a cena – que conta com a inserção de três novos personagens – poderia ser retirada da obra com pouco impacto. O argumento desenvolvido ali poderia ter sido criado de outras formas, reaproveitando personagens, por exemplo.

De resto, a obra conseguiu me conquistar. Já mencionei mais acima sobre o humor, mas acho que vale a pena destacar um parágrafo só para comentá-lo.

Fazer fantasia medieval no formato classicão e dar um jeito de enfiar humor moderno não é uma tarefa tão simples. Quando se consegue, porém, as possibilidades são inúmeras (Discworld, estou olhando pra você). Mirta Vento Amarelo consegue trabalhar bem esse aspecto, uma vez que traz momentos divertidos sem atrapalhar a credibilidade de seu universo. Ainda que uma personagem comente sobre delineadores e se comporte como uma atendente de telemarketing entediada, o fato passa para o leitor em formato de humor, e não de anacronismo. Não nos passa pela cabeça o famoso “aaaah, mas naquela ééépoca…”, porque sabemos se tratar de irreverência, de paródia. O estilo do livro abre margem para isso (ao menos nas partes da Mirta).

“- Deline… – ela ficou mais ereta – está falando de maquiagem feminina?
– Sabe como é… – Iac coçava a nuca, dando de ombros. Um sorriso largo exibindo todos os dentes enquanto falava – Quero mexer com o psicológico do meu adversário.”

Acho até que o humor aqui funciona como uma ferramenta: são 564 páginas e é preciso manter o leitor engajado. Como não dá pra ter cenas de ação em 100% do tempo, os momentos espirituosos ficam responsáveis pelos ganchos.

Fonte: Acervo do autor – Reprodução

Outro ponto interessante, dessa vez para os que escrevem, é notar como o André utiliza seu narrador como personagem ativo do livro. Ele não só presenciou as cenas (e, portanto, as conta de seu ponto de vista, emitindo opiniões) como também escolhe o que mostrar e em que momento mostrar. Essa sensação de estar sendo conduzida, e possivelmente enganada, é fascinante. Até porque, o livro também brinca em esconder a identidade do narrador, colocando uns “easter eggs” aqui e ali para aumentar a curiosidade, como é o caso de uma pena azul mencionada logo nos primeiros parágrafos do texto.

“Ainda há muito a ser dito sobre o caso de Vento Amarelo na Vila dos Porcos, mas, por ora, desviemos um pouco do assunto.”

Para finalizar, diria que Mirta Vento Amarelo equiparou-se com louvor às minhas expectativas, me divertindo com seu clima de fábula para adultos. E lá pelas entrelinhas, me arrisco a fazer uma aposta: André ainda não atingiu o ápice de seu potencial, ainda está experimentando. Quem ganha com isso, claro, somos nós: imagina esse cara com os motores a 100%? Acho que Mirta ainda tem bastante combustível para nos levar a outras aventuras.  


Gostou do que viu? Para acompanhar o trabalho do André de pertinho, basta conferir os links:

E caso você queira adquirir o seu exemplar, dá pra comprar clicando aqui (versão física) ou aqui (físico e ebook). A fantasia nacional agradece.

*****

Este post é uma colaboração entre o TBS e André Regal. Quer ver o seu livro por aqui também? Envie sua sinopse para análise e solicite um orçamento: a Traça está de prontidão.
contato@bookwormscientist.com

Quis desistir no prefácio, mas Malazan é mesmo tudo isso que prometem
TBS entrevista: Gail Carriger

Comentários:

Loading Facebook Comments ...