Nada se cria, tudo se copia

Quem já teve que assistir alguma aula sobre Literatura, sabe que tudo nessa vida são fases. Barroco, Romantismo, Realismo, Arcadismo… parece que de uma hora pra outra as referências convergem e todo mundo passa a escrever parecido.

E é claro que as fases não se restringiram aos livros de História. Elas existem até hoje, regidas pelos acontecimentos históricos e uma espécie de “consciência coletiva”, que nos influencia subconscientemente.

Porém, toda vez que cumpro o ritual semanal de esgotar os anúncios online das livrarias (à procura do livro ideal na promoção mais ideal ainda), sinto que as coisas estão indo um pouco além. O crescimento do interesse pelos livros, que é um fenômeno maravilhoso, capaz de gerar autores-celebridade-milionários, também está criando uma triste cultura do lucro a qualquer custo.

Parece que, quando algum livro inovador alcança seu lugarzinho ao sol, as editoras começam uma guerra para ver quem será a próxima a se aproveitar do lucrativo novo filão do mercado. As obras estão cada vez menos “inspiradas em” ou “referenciadas por” e se tornando apenas “mais do mesmo”.

Giphy.com - Reprodução

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Veja bem, utilizar outras obras como inspiração para consolidar os pilares de uma história é um artifício bem bacana. Grandes livros surgiram assim. Jane Austen virou uma espécie de Bíblia para a criação de romances. Tolkien se inspirou em diversas lendas e canções da cultura nórdica para criar o Senhor dos Anéis, como a Saga dos Volsungos. E embora o autor tenha negado diversas vezes, é difícil não notar as similaridades entre o Um Anel de Tolkien e o anel da ópera O Anel dos Nibelungos (que influenciou mais uma penca de gente, servindo de referência para a Saga de Asgard em Cavaleiros do Zodíaco #TeamShiryu).  Referências ajudam a criar seu universo, ajudam a trazer a história para um campo mais realista aos olhos do leitor. Quer maior credibilidade do que citar lendas que realmente existem? É a mesma sensação de quando utilizamos acontecimentos históricos para ambientar o enredo. Ele se torna mais plausível, nos parece mais coerente. E de alguma forma, traz uma sensação de familiaridade agradável para quem lê.

Principalmente ao escrever sobre temas recorrentes. Se você está criando uma história sobre piratas, será meio que obrigado a seguir um código de conduta. Isso acontece porque existem anos e anos de obras consolidando o estereótipo “pirata” em nossas mentes. Você pode inovar aqui e ali, mas precisará manter algumas referências, ou o sentido da palavra será perdido. Salvo algumas exceções, deturpar completamente um estereótipo recorrente gera afastamento (vide críticas aos vampiros que brilham ao sol de Crepúsculo).

No entanto, influências não devem passar de influências. Elas são como as referências bibliográficas de um artigo científico: te dão a base, mas não o conteúdo. Um bom autor, em minha opinião, consegue dar uma nova roupagem às suas referências, adicionando um ponto de vista diferente do que conhecemos, nos mostrando um novo viés ou simplesmente expandindo aquele universo. Veja como Rowling consegue manter o estereótipo bruxo em Harry Potter (monta vassouras, usa capa preta, tem varinha…), mas nos apresenta uma história inovadora.

Agora vamos voltar às prateleiras de best-sellers das livrarias.

Crepúsculo foi lançado em 2005 e se tornou uma febre entre o público jovem ao contar a história de uma garota humana e seu amor proibido por um vampiro. Vendeu milhões de cópias, atingindo o auge do sucesso mais ou menos em 2009.

Só que em 2009 surge Fallen, que conta a história de uma garota humana e seu amor proibido por um anjo caído. Ainda em 2009 estreia Sussurro, da série Hush Hush, que conta… olha só, a história de uma garota e seu amor proibido por um anjo caído! E ainda tivemos a série House of Night, que conta a história de uma garota humana que é transformada em vampiro, começa a namorar vampiros e tem um monte de amigos vampiros.

Capas dos livros: Crepúsculo, Fallen, Sussurro e Marcada - Reprodução

Capas dos livros: Crepúsculo, Fallen, Sussurro e Marcada – Reprodução

Todos esses livros venderam bastante.

Em 2008, Jogos Vorazes acabara de chegar no mercado trazendo uma palavra até então desconhecida pelo público jovem: distopia. Apesar de já existir faz tempo no mundo literário com obras bem famosas (1984, do Orwell, Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley e Laranja Mecânica, de Anthony Burgess), o gênero ainda não era lá dos muito populares entre os leitores iniciantes. Mas com uma nova roupagem, vendeu como picolé no deserto.

Em 2009 surge a série distópica Maze Runner, e em 2011 a série Divergente. Em 2012, A Seleção mistura o conto de fadas e o conceito de príncipe encantado num universo distópico.

Capas dos livros: Jogos Vorazes, Mazze Runner - Correr ou Morrer, Divergente e A Seleção - Reprodução

Capas dos livros: Jogos Vorazes, Mazze Runner – Correr ou Morrer, Divergente e A Seleção – Reprodução

Todos esses livros também venderam bastante. E não é surpresa alguma que tantos estejam sendo adaptados pro cinema, com bilheterias bem gordas. Lembra de O Doador de Memórias? A obra foi escrita em 1993, mas o filme surgiu apenas em 2014, alavancado pelo filão do momento. Novas edições do livro foram criadas, claro, e agora lotam todas as prateleiras.

Continuando, 50 Tons de Cinza foi lançado em 2011, criando uma demanda por um novo tipo de livro erótico. Em 2012, a série Crossfire é publicada. A capa do primeiro livro, Toda Sua, poderia muito bem se encaixar num box da coleção 50 Tons de Cinza, porque são praticamente iguais. Em 2013, chega O Que Você Quiser – Envolvida por um Bilionário, também com sua capa sugestivamente acinzentada.

E o que falar de 80 Dias – A Cor da Luxúria, de 2013, que mal conhecemos mas já consideramos pakas? Afinal, 80 deve ser melhor que 50 e a cor da luxúria provavelmente é melhor que tons de cinza…

Capas dos livros: 50 Tons de Cinza, Toda Sua, O que Você Quiser - Envolvida por um Bilionário, 80 Dias - A Cor da Luxúria, Reprodução

Capas dos livros: 50 Tons de Cinza, Toda Sua, O que Você Quiser – Envolvida por um Bilionário, 80 Dias – A Cor da Luxúria – Reprodução

Se eu fosse citar todos os exemplos, o post não teria fim. Mas como menção honrosa, preciso lembrar daquela fase em que os zumbis eram o assunto do momento. Poxa, pra que criar uma história totalmente nova se você pode criar:

Capa do Livro "Orgulho e Preconceito e Zumbis"

Capa do Livro “Orgulho e Preconceito e Zumbis” – Reprodução

Parei. Parei por aqui.

Interessante que a sensação de que as editoras estão mais preocupadas em lançar o que está vendendo do que apresentar boas histórias não está passando despercebida. O usuário do Reddit “obviousplant” cria novas seções nas livrarias que visita. Será que dá pra notar um pouquinho de similaridade nessa foto que ele tirou?

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“Caras que perderam suas camisas” Fonte: http://imgur.com/a/Em92z

Mas porque estamos lançando tantos livros similares? E, principalmente, porque eles continuam subindo nas listas dos mais vendidos?

Ora, estamos completamente apaixonados por um livro e não queremos que ele acabe nunca. Queremos sempre ler mais cenas e viver novamente aquela experiência. É como uma ressaca literária. Consumimos qualquer coisa que nos traga de volta àquele universo, mesmo que não vá ser assim tão bom quanto o original. É mais ou menos o princípio das fanfictions. Não estamos prontos para abrir mão da história, precisamos ver muito mais, mesmo que isso não saia das mãos do mesmo autor.

É realmente muito agridoce quando um livro bom acaba e a gente é obrigado a seguir em frente. Mas vamos lá, escritores, a gente aguenta. Acabem as histórias com um ponto final e depois nos tragam novos amores.

Tumblr - Reprodução

A gente aguenta! – Tumblr – Reprodução

PS: Só por curiosidade, a tinta preta anda mais barata que as outras cores, é? Por que tanta capa de livro escura, meu deus do céu…

Pequenas covardias literárias
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