NaNoWriMo: um relato honesto sobre o mês mais louco do ano

Hoje, aos 45 do segundo tempo, no último dia do mês, eu venci o NaNoWriMo.

Não foi fácil, não foi esse mar de rosas todo, mas foi muito enriquecedor. Consegui produzir uma primeira versão de uma história que, se não fosse a competição, eu provavelmente teria deixado parada na gaveta por um bom tempo.

Se valeu a pena? Valeu sim, e como valeu!

Fonte: nanowrimo.org - Reprodução

Fonte: nanowrimo.org – Reprodução

Num post pré maratona, eu havia estabelecido 7 aspectos importantes para se dar bem no NaNo: desplugar, livrar-se das amarras, ter um planejamento prévio da história, suar a camisa, gerar auto-conhecimento, manter uma comunidade de escrita e se divertir com o que está fazendo. E agora que eu vivi isso na pele, deixa eu te contar sem firula e com muita honestidade sobre o que acabou acontecendo.

(Recomendo a leitura do post anterior sobre o NaNo. Basta clicar aqui.)

1- Desplugar, desplugar, desplugar

HA. HA. HA. Essa foi hilária.

Eu até tentei, juro. Nos primeiros dias, fechava o Facebook, abria o Scrivener no modo tela cheia e deixava a magia fluir. Acontece que na primeira semana tudo é bem mais fácil de lidar.

Com o tempo, precisei equilibrar uma série de outras tarefas com o NaNo, que me obrigavam a chavear a tela do Scrivener com a tela do email, do drive e até do Facebook. E acabei descobrindo ter certa dificuldade em não ser multitarefa. Raramente produzi todas as 1600 palavras numa única sentada.

E também porque nosso primeiro instinto perante um bloqueio criativo é fugir. A palavra sumiu da sua cabeça? Você abre o Watsapp. Não sabe como continuar aquele diálogo? Vai ler alguma história no Wattpad que é pra ver se o cérebro destrava.

Só que nessas escapadas inocentes, a gente se torna vulnerável ao terrível monstro do pântano: a procrastinação. De uma simples conferida nas notificações do Facebook, eu acordava horas depois lendo um artigo sobre como fazer bonequinhos de crochet (esse é um exemplo real, creia).

Fonte: Giphy - Reprodução

Fonte: Giphy – Reprodução

Precisei de cada fibra de força de vontade presente em meu ser para focar no que precisava ser feito. Acho que no final das contas procrastinei bem menos do que a minha média, mas ainda assim considero ter falhado nesse quesito. Necessitar de 8h para escrever 1600 palavras num dia sendo que você só passou 40% desse tempo efetivamente escrevendo não pode ser considerado uma vitória, certo? O NaNo acabou ocupando um tempo enorme no meu mês, bem maior do que deveria.

Sigamos.

2 – Livrando-se das amarras

Quando eu disse que essa era a grande sacada do NaNo, eu não estava brincando. Não tem como não se livrar das amarras quando se tem 50 mil palavras para escrever. Você pode até começar pincelando nos primeiros dias, mas lá pro dia 15 você desiste de cortar a carne com uma faca de cozinha e passa logo pras machadadas. Quem quer lá saber dessa história de aparar as arestas, né mesmo?

Você no 15º dia. Fonte: Dribble - Reprodução

Você no 15º dia. Fonte: Dribble – Reprodução

Sinônimo mais bonito? Sarcasmo melhor disfarçado? Você não vai ligar para nada disso, desde que o seu contador de palavras continue subindo. O que, obviamente, contribuirá para que você tenha um trabalho gigantesco de edição nos próximos meses. Porém, é o melhor remédio para desempacar nas cenas difíceis e escrever aquela partezinha chata que você sempre adiava por causa do perfeccionismo e da síndrome do impostor.

Por diversas vezes precisei resolver problemas no enredo e não tinha muito tempo para unir as pontas soltas. No desespero, meu cérebro sugeria as ideias mais malucas. E sabe o mais incrível? Elas eram as ideias mais legais, que geravam os maiores momentos de humor justamente por serem inesperadas e não fazerem assim tanto sentido (uma das vantagens de usar histórias cômicas e não muito complexas em eventos como o NaNo).

Havia momentos em que eu ria comigo mesma, pensando “sério que eu vou colocar isso?”. E minha resposta imediata sempre era “mas porque não?”. Ninguém vai ver o seu rascunho. Ninguém vai julgar a sua ideia antes da revisão. Arrisque e deixe a coisa fluir. Dane-se o seu eu editor.

Porque não? Fonte: Tumblr - Reprodução

Porque não? Fonte: Tumblr – Reprodução

Acho que esse foi o maior tesouro que herdei do NaNoWriMo.

3 – Planejamento da história

Comecei com um planejamento frouxo. Eu sabia onde queria chegar e quais seriam os pontos-chave da história, mas não fazia a mínima ideia de como conectar essas coisas. Mas mesmo esse planejamento capenga já se mostrou imensamente útil.

Não dá tempo pra revisar ou refazer as coisas, então é necessário que você seja preciso nos textos que produz a cada dia. As coisas precisam casar. Acho que muito do meu sucesso na competição veio do fato de que eu já ia dormir sabendo exatamente o que precisaria ser escrito no dia seguinte. Salvo engano, fiquei em dúvida sobre o que fazer a seguir em apenas um dos 30 dias.

Tá, e agora? Fonte: Tumble - Reprodução

Tá, e agora? Fonte: Tumble – Reprodução

Acabei escrevendo a história em ordem cronológica mesmo, sem pular nenhuma cena. Não sei, acho que só funciono assim porque muitas das coisas que faço (especialmente os diálogos) surgem no improviso. Afinal, são os personagens que acabam escrevendo as próprias histórias, certo?

4 – No Pain No Gain

Assim como foi previsto, a empolgação da primeira semana deu lugar rapidinho a uma maratona de trabalho duro e estressante. A obrigação da escrita pesava mais do que halteres de academia e bater a meta diária me fazia suar como uma série de abdominais. Dava preguiça, dava desespero. Mas consegui fazer com que o comprometimento falasse mais alto.

Com algumas exceções:

Nem sempre deu pra alcançar o número de palavras. Às vezes foi porque surgiu um imprevisto, uma viagem ou uma reunião importante que demandou novas prioridades. E às vezes foi só porque eu enchi o saco mesmo.

Por mais bonita que seja essa imagem de pessoas escrevendo sob a luz da manhã numa mesa branquinha rodeada por canecas de café, nem sempre você vai amar o que está escrevendo. Somos seres humanos, tem dias que não dá e não adianta forçar.

Tive dois dias assim, de pura improdutividade. Até tentei escrever alguma coisa, mas estava saindo tão ruim, mas tão ruim que preferi deixar pra lá e me comprometer a compensar nos dias seguintes.

Fonte: autoria própria

Fonte: autoria própria

O mais engraçado era que, quando eu chutava o balde e ficava sem escrever, meu cérebro tinha tempo de se recompor e o dia seguinte era incrivelmente mais produtivo do que a média. Quando eu descansava um pouco, conseguia correr atrás da meta com maior facilidade.

É por isso que precisamos de finais de semana, férias e feriados. Por mais prazer que tiremos de uma atividade, é necessário parar e respirar um pouco. No próximo NaNo (ou numa rotina de escrita qualquer que eu venha a fazer no futuro), pretendo gerenciar melhor as minhas “folgas”. Elas valem a pena.

Mas não confunda folga com preguiça, tá? A folga vale a pena desde que você se comprometa a compensá-la ou antes (mais recomendado) ou depois. Você também vai saber, lá no fundo, quando é estafa mental/emocional e quando é só procrastinação mesmo. E falo isso com o coração aberto de quem passou dois finais de semana fora de casa (viagem em família e aniversário da mãe) e foi presenteada com uma tela azul do Windows bem ali na cena crucial do livro.

Fonte: cursosdeinformaticabasica.com.br - Reprodução

Fonte: cursosdeinformaticabasica.com.br – Reprodução

Para piorar as coisas, a reta final do NaNo foi marcada no Brasil pelo desastre da queda do avião que transportava a Chapecoense para a final da Sul-americana, que com certeza deixou todos os ânimos baqueados. Quem me acompanha na newsletter sabe que eu tenho um pânico profundo de andar de avião, bem como uma dificuldade em lidar com a finitude da vida. E o que pouca gente deve saber é que eu também sou uma expectadora relativamente assídua de futebol. Foram dois dias muito difíceis pra quem precisava escrever uma história de humor. #ForçaChape

5 – A Jornada do Auto-Conhecimento

Eu sempre fui uma pessoa mais produtiva pela manhã. Achava que esse seria o meu momento de escrita favorito até descobrir que eu ficava procrastinando o dia inteiro pra escrever e realmente só pegava no tranco lá pelas 21h, movida pelo fantasma do prazo. Eu passava o dia inteiro dedicada a fazer uma coisa, ficava frustrada por não engrenar e quando finalmente resolvia produzir de verdade, já estava cansada por passar o dia inteiro no computador tentando trabalhar.

Descobri que eu tenho momentos, e que não adianta forçar. Descobri que pra mim vale a pena parar uma horinha e ver um seriado caso as coisas não estejam fluindo. Eu vou perder uma hora do dia mas depois vou compensar fazendo 2500 palavras em duas horas.

Quando eu engreno, quando o olho começa a brilhar com uma cena, os dedos viram metralhadoras no teclado. Não tem notificação do Whatsapp que me faça desviar os olhos se eu estiver empolgada com um diálogo ou com uma descrição.

Fonte: Tumblr - Reprodução

Quando a cena vai bem. Fonte: Tumblr – Reprodução

6 – Não desgrude dos parças

Esse foi outro conselho de ouro! Sério, nada te dá mais gás do que olhar a contagem de palavras dos seus Writing Buddies.

Se eles estão na sua frente, você sente aquela pontinha de medo de ficar de fora, assume um lema de “se eles conseguiram arrumar forças, porque não eu” e toca o terror na escrita. Se estão atrás, você se sente parte de uma comunidade onde todo mundo tá na mesma merda e vai precisar ralar pra compensar o tempo perdido. Você nunca se sente só.

Parece uma coisa meio “comportamento de cardume” de se dizer, mas é a verdade. Em bandos, parece que a gente tem mais poder para avançar, como se as outras pessoas pudessem ir te empurrando junto durante suas próprias caminhadas.

Queria agradecer a todos que interagiram comigo durante a competição. Sem vocês incentivando e suando comigo, não sei se teria conseguido chegar tão longe.

Fonte: Tumblr - Reprodução

Fonte: Tumblr – Reprodução

(A maioria dos meus parças também faz parte do grupo NaNo Brasil, um dos espaços mais legais para escritores no Facebook. A gente procrastina um bocado, mas é só amor.)

7 – DIVIRTA-SE!

Teve uns dias, na terceira semana de competição, em que eu estava tão nervosa pra alcançar a meta que esqueci de que escrever era legal.

A cada 100 palavras eu ia lá e atualizava a contagem do site, como se um degrau extremamente dolorido tivesse sido escalado. Aí ia tomar uma água, ler um capítulo de algum livro e fazer qualquer coisa para me recompensar por tamanho esforço. Tipo aqueles ratinhos de laboratório que precisam resolver problemas para alcançar o queijo.

Até que eu caí na real e vi que aquilo estava sendo muito, muito errado. Primeiro que, na boa, qual seria a qualidade de uma história produzida assim nas coxas?

Eu amava a minha história, não amava?

Então resolvi dar uma banana pro NaNo. Eu ainda pensava nas palavras, ainda olhava os gráficos da meta, mas estava mais preocupada em contar alguma coisa interessante. Em colocar no papel algo que me divertia.

E não vou dizer a você que deixou de ser estressante, mas foi um alívio poder colocar na cabeça que eu realmente amava o que estava fazendo, que era um esforço não por obrigação, mas por vontade. Eu não estava ali pra provar nada a ninguém.

Essa é inclusive, a alma do NaNoWriMo. Tá tudo bem conseguir, tá tudo bem não conseguir também. O evento é uma jornada muito pessoal pra ser encarada como uma simples gincana. Você pode ter escrito 1000 palavras e ainda assim sair com sensação de vitória: o NaNo é todo seu. É você contra você mesmo.

Esse foi o relato de como Mamãe Vai Comer Meu Fígado saiu do mundo das ideias e foi parar no papel! Eu sou como esse canguru aqui embaixo, morto de cansaço, quase dormindo em pé, mas muito feliz e disposto a distribuir abraços.

Fonte: Giphy - Reprodução

Fonte: Giphy – Reprodução

O sentimento de missão cumprida e superação que precede um NaNo é uma coisa muito louca. Ah, e devo começar a postar a história em breve no Wattpad, basta você me seguir por lá! O intuito é que as leituras na plataforma me ajudem a fazer uma revisão decente para o livro.

Pra terminar: principais lições aprendidas?

Eu posso e devo manter uma rotina de escrita, encarando como um desafio pessoal e também como trabalho. Escrita tem que ficar no meio termo entre lazer e obrigação, embora nem sempre seja fácil encontrar esse equilíbrio. É preciso amar a história, mesmo que você não queira nem olhar na cara dos seus personagens hoje. Se o enredo não te prende emocionalmente, você vai dar um jeito de pular fora desse barco, então escreva sobre algo que te encanta. Tenha amigos pra chorar as pitangas, saiba reconhecer os dias ruins e saiba reconhecer quando é preciso trabalhar mesmo que seja um dia muito ruim. Planeje, planeje, planeje. E sempre, sempre valorize os finais de semana e os feriados. São eles que vão manter os seus neurônios funcionando.

Parece muita coisa contraditória, né? Pois é, mas é assim mesmo.

Fonte: nanowrimo.org - Reprodução

Beijos de Winner! Fonte: nanowrimo.org – Reprodução

Gina Weasley não está impressionada – TRADUÇÃO
Precisamos conversar uma última vez sobre Mistborn

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